   A ALMA  IMORTAL.


Gabriel Dellane



   DEMONSTRAO EXPERIMENTAL DA IMORTALIDADE.

   INTRODUO.

   O Espiritismo projeta luz nova sobre o problema da
natureza da alma. Fazendo que a experimentao interviesse
na filosofia, isto , numa cincia que, como instrumento de
pesquisa, apenas empregava o senso ntimo, ele facultou que
o Esprito seja visto de maneira efetiva e que todos se
certifiquem de que at ento o mesmo Esprito estivera
muito mal conhecido.
   O estudo do "eu", isto , do funcionamento da
sensibilidade, da inteligncia e da vontade, faz se perceba
a atividade da alma, no momento em que essa atividade se
exerce, porm nada nos diz sobre o lugar onde se passam
tais fenmenos, que no parecem guardar entre si outra
relao, afora a da continuidade. Entretanto, os recentes
progressos da psicologia fisiolgica firmaram que ntima
dependncia existe entre a vida psquica e as condies
orgnicas de suas manifestaes. A todo estado da alma
corresponde uma modificao molecular da substncia
cerebral e reciprocamente. Mas, param a as observaes e
a cincia se revela incapaz de explicar porque a matria
que substitui a que  destruda pela usura vital conserva
as impresses anteriores do esprito.
   A cincia esprita se apresenta, justo, para preencher
essa lacuna, provando que a alma no  uma entidade ideal,
uma substncia imaterial sem extenso e sim que  provida
de um corpo sutil, onde se registram os fenmenos da vida
mental e a que foi dado o nome de perisprito. Assim como,
no homem vivo, importa distinguir do esprito e a matria
que o incorpora, tambm no se deve confundir o perisprito
com a alma. O "eu" pensante  inteiramente distinto do seu
envoltrio e no se poderia identificar com este, do mesmo
modo que a veste no se identifica com o corpo fsico.
Todavia, entre o esprito e o perisprito existem as mais
estreitas conexes, porquanto so inseparveis um do outro,
como mais tarde o veremos.
   Querer isto dizer que encontramos a verdadeira natureza
da alma? No, visto que esta se mantm inacessvel, tanto
quanto, alis, a essncia da matria. Hemos, no entanto,
descoberto uma condio, uma maneira de ser do esprito,
que explica grande cpia de fenmenos, at ento insolveis.
   Evolveram, com o correr das idades, as concepes sobre
a natureza da alma, desde a mais grosseira materialidade,
at a espiritualidade absoluta. Os trabalhos dos filsofos,
tanto quanto os ensinos religiosos, nos habituaram a
considerar a alma como pura essncia, como uma chama
imaterial. To diferentes formas de ver prendem-se 
maneira por que se encara a alma. Se estudada objetivamente,
fora do organismo humano, durante as aparies, ela s
vezes se afigura to imaterial, quanto o corpo fsico. Se
observada em si mesma, parece que o pensamento  a sua
caracterstica nica. Todas as observaes da primeira
categoria foram atiradas ao rol das supersties populares
e prevaleceu a idia de uma alma sem corpo. Nessas
condies, impossvel se tornava compreender por que
processo podia essa entidade atuar sobre a matria do corpo
ou dele receber as impresses. Como se havia de imaginar
que uma substncia sem extenso e, conseguintemente, fora
da extenso, pudesse atuar sobre a extenso, isto , sobre
corpos materiais?
   Ao mesmo tempo que nos ensinam a espiritualidade da alma,
ensinam-nos a sua imortalidade. Como explicar, porm, que
essa alma conserve suas lembranas? Neste mundo, temos um
corpo definido pela sua forma de envoltrio fsico, um
crebro que se afigura o arquivo da nossa vida mental; mas,
quando esse corpo morre, quando esse substrato fsico 
destrudo, que sucede de lembranas da nossa existncia
atual? Onde se localizaro as aquisies da nossa atividade
fsica, sem as quais no h possibilidade de vida
intelectual? Estar a alma destinada a fundir-se na
erraticidade, a se apagar no Grande Todo, perdendo a sua
personalidade?
   So rigorosas estas conseqncias, porquanto a alma no
poderia subsistir sem uma forma que a individualizasse. No
oceano, uma gota d'gua no se pode distinguir das que a
cercam, no se diferencia das outras partes do lquido, a
no ser que se ache contida nalguma coisa que a delimite,
ou que, isolada, tome a forma esfrica, sem o que ela se
perde na massa e j no tem existncia distinta.
   O Espiritismo nos leva a comprovar que a alma  sempre
inseparvel de uma certa substancialidade material, porm
com uma modalidade especial, infinitamente rarificada, cujo
estado fsico procuraremos definir. Essa matria possui
formas variveis, segundo o grau de evoluo do esprito e
conforme ele esteja na Terra ou no espao. O caso mais
geral  o da alma conservar temporariamente, aps a morte,
o tipo que tinha o corpo fsico em circunstncias
determinadas, assumir um carter de objetividade, bastante
para afetar os sentidos e impressionar a chapa fotogrfica,
deixando assim traos durveis da sua ao, o que pe fora
de causa toda tentativa de explicao desse fenmeno,
mediante a iluso ou a alucinao.
   O nosso objetivo, neste volume,  apresentar algumas das
provas que j se possuem da existncia de tal envoltrio, a
que foi dado o nome de Perisprito (de _peri, em torno, e
_spiritus, esprito).
   Para essa demonstrao, recorremos no s aos espritas
propriamente ditos, mas tambm aos magnetizadores
espiritualistas e aos sbios independentes que ho comeado
a explorar este domnio novo. Ao mesmo tempo, facultado nos
ser comprovar que a corporeidade da alma no  uma idia
nova, que teve numerosos partidrios, desde que a
humanidade entrou a preocupar-se com a natureza do
princpio pensante.
   Veremos, primeiro, que a antigidade, quase toda ela,
mais ou menos admitiu essa doutrina; eram, porm, vagos e
incompletos os conhecimentos de ento sobre o corpo etreo.
Depois,  medida que se foi cavando o fosso entre a alma e
o corpo, que as duas substncias mais e mais se
diferenavam, uma imensidade de teorias procuraram explicar
a ao recproca que elas entre si exercem. Surgiram as
"almas mortais" de Plato, as "almas animais e vegetativas"
de Aristteles, o "ochema" e o "eidolon" dos gregos, o
"nephesh" dos hebreus, o "bai" dos egpcios, o "corpo
espiritual" de So Paulo, os "espritos animais" de
Descartes, o "mediador plstico" de Cudworth, o "organismo
sutil" de Leibnitz, ou a sua "harmonia preestabelecida"; o
"influxo fsico" de Euler, o "arqueu" de Van Helmont, o
"corpo aromal" de Fourier, as "idias-fora" de Fouile,
etc. Todas essas hipteses, que por alguns de seus lados
roam a realidade, carecem do cunho de certeza que o
Espiritismo apresenta, porque no imagina; demonstra.
   O esprito humano, pelo s esforo de suas especulaes,
jamais pode estar certo de haver chegado at a. -lhe
necessrio o auxlio da cincia, isto , da observao e da
experincia, para estabelecer as bases da sua certeza. No
, pois, guiados por idias preconcebidas que os espritas
proclamam a existncia do perisprito; , pura e
simplesmente, porque essa existncia resulta, para eles,
da observao.
   Os magnetizadores j haviam chegado, por outros mtodos,
ao mesmo resultado. Pela correspondncia que permutaram
Billot e Deleuze, bem como pelas pesquisas de Cahagnet,
veremos que a alma, aps a morte, conserva uma forma
corporal que a identifica. Os mdiuns, isto , as pessoas
que gozam -- no estado normal -- da faculdade de ver os
Espritos, confirmam, em absoluto, o testemunho dos
sonmbulos.
   Essas narrativas, entretanto, constituem uma srie de
documentos de grande valor, mas ainda no nos do uma prova
material. Mostraremos, por isso, que os espritas fizeram
todos os esforos por oferecer a prova inatacvel e que o
conseguiram. As fotografias de Espritos desencarnados, as
impresses por estes deixadas em substncias moles ou
friveis, as moldagens de formas perispirituais so outra
tantas provas autnticas, absolutas, irrecusveis da
existncia da alma unida ao perisprito e to grande  hoje
o nmero dessas provas, que impossvel se tornou a dvida.
   Mas, se verdadeiramente a alma possui um envoltrio, h
de ser possvel comprovar-se-lhe a realidade durante a vida
terrena. , com efeito, o que se d. Abriram-nos o caminho
os fenmenos de desdobramento do ser humano, denominados
por vezes de bicorporeidade. Sabe-se em que eles consistem.
Estando, por exemplo, em Paris um indivduo, pode a sua
imagem, o seu duplo mostrar-se noutra cidade, de maneira a
ser ele reconhecido. H, no atual momento, mais de dois mil
fatos, bem verificados, de aparies de vivos. Veremos, no
correr do nosso estudo, que no so alucinatrias essas
vises e por que caracteres especiais podemos certificar-nos
da objetividade de algumas de to curiosas manifestaes
psquicas.
   Os pesquisadores no se limitaram, porm,  observao
pura e simples de tais fenmenos, seno que tambm chegaram
a reproduz-los experimentalmente. Verificaremos, com o Sr.
De Rochas, que a exteriorizao da motricidade constitui,
de certa forma, o esboo do que se produz completamente
durante o desdobramento do ser humano. Chegaremos, afinal 
demonstrao fsica da distino existente entre a alma e o
corpo, fotografando a alma de um vivo, fora dos limites do
seu organismo material.
   Para todo pesquisador imparcial, esse formidvel conjunto
de documentos estabelece solidamente a existncia do
perisprito. A isso contudo, no deve limitar-se a nossa
aspirao. Temos que perquirir de que matria  formado
esse corpo. Quanto a isso, todavia, estamos reduzidos a
hipteses; veremos, porm, estudando as circunstncias que
acompanham as aparies dos vivos e dos mortos, ser possvel
encontrarem-se, nas ltimas descobertas cientficas sobre a
matria radiante e os raios X, preciosas analogias que nos
permitiro compreender o estado dessa substncia
impondervel e invisvel. Esperamos mostrar que nada se
ope, cientficamente,  concepo de semelhante invlucro
da alma. Desde ento, esse estudo entra no quadro das
cincias ordinrias e no pode merecer a censura de se
achar eivado de sobrenatural ou de maravilhoso.
   Apoiar-nos-emos longamente na identidade dos fenmenos
produzidos pela alma de um vivo, sada momentaneamente do
seu corpo, e os que se observam operados pelos Espritos.
Veremos que eles se assemelham de tal sorte, que impossvel
se torna diferen-los, a no ser por seus caracteres
psquicos. Logo, e  esse um dos pontos mais importantes,
h continuidade real, absoluta, nas manifestaes do
Esprito, encarnado ou no, em um corpo terrestre. Intil,
portanto, atribuir os fatos espritas a seres fictcios, a
demnios, a elementais, cascas astrais, egrgoros, etc.
Foroso ser reconhecer que os produzem as almas que
viveram na Terra.
   Estudando os altos fenmenos do Espiritismo, fcil se nos
tornar demonstrar que o organismo fludico contm todas as
leis organognicas segundo as quais o corpo se forma. Aqui,
o Espiritismo faz surgir uma idia nova, explicando como a
forma tpica do indivduo pode manter-se durante a vida
toda, sem embargo da renovao incessante de todas as partes
do corpo. Simultaneamente, do ponto de vista psquico, fcil
se torna compreender onde e como se conservam as nossas
aquisies intelectuais. Firmamos alhures (1) como
concebemos o papel que o perisprito desempenha durante a
encarnao; bastar-nos- dizer agora que, graas 
descoberta desse corpo fludico, podemos explicar,
cientficamente, de que maneira a alma conserva a sua
identidade na imortalidade.
  ::::::::::
  (1) Gabriel Delanne
  ::::::::::
   Possam estes primeiros esboos de uma fisiologia
psicolgica transcendental incitar os sbios a perscrutar
to maravilhoso domnio! Se os nossos trabalhos derem em
resultado trazer para as nossas fileiras alguns espritos
independentes, no teremos perdido o nosso tempo; mas,
qualquer que seja o resultado dos nossos esforos, estamos
seguro de que vem prxima a poca em que a cincia oficial,
levada aos seus ltimos redutos, se ver obrigada a
ocupar-se com o assunto que faz objeto das nossas pesquisas.
Nesse dia, o Espiritismo aparecer qual realmente : a
Cincia do Futuro.

Gabriel Delanne

   PRIMEIRA PARTE - A OBSERVAO

   CAPTULO I

   GOLPE DE VISTA HISTRICO

   Sumrio:

   Necessidade de um envoltrio da alma -- As crenas
antigas -- A ndia -- O Egito -- A China -- A Prsia -- A
Grcia -- Os primeiros cristos -- A escola neoplatnica --
Os poetas -- Carlos Bonnet.

   As crenas antigas

   -nos desconhecida a natureza ntima da alma. Dizendo-se
que ela  "imaterial", esta palavra deve ser entendida em
sentido relativo e no absoluto, porquanto, a imaterialidade
completa seria o nada. Ora, a alma ou o esprito (2) 
alguma coisa que pensa, sente e quer; tem-se, pois, que
entender, quando a qualificamos de "imaterial", que a sua
essncia difere tanto do que conhecemos fsicamente, que
nenhuma analogia guarda com a matria.
  ::::::::::
  (2) Prevenimos o leitor de que consideramos expresses
equivalentes as palavras "alma" e "esprito".
  ::::::::::
   No se pode conceber a alma, seno acompanhada de uma
matria qualquer que a individualize, visto que, sem isso,
impossvel lhe fora pr-se em relao com o mundo exterior.
Na Terra, o corpo humano  o mdium que nos pe em contacto
com a Natureza; mas, aps a morte, destrudo que se acha o
organismo vivo, mister se faz que a alma tenha outro
envoltrio para entrar em relaes com o novo meio onde vai
habitar. Desde todos os tempos, essa induo lgica foi
fortemente sentida e tanto mais quanto as aparies de
pessoas mortas, que se mostravam com a forma que tiveram na
Terra, fundamentavam semelhante crena.
   Quase sempre, o corpo espiritual reproduz o tipo que o
Esprito tinha na sua ltima encarnao e, provavelmente, a
essa semelhana da alma se devem as primeiras noes acerca
da imortalidade.
   Se tambm ponderarmos que, em sonho, muitas pessoas vem
parentes ou amigos que j morreram h longo tempo, que esses
parentes e amigos conversam com elas, parecendo vivos como
outrora, no nos ser talvez difcil encontrar em tais fatos
as causas da crena, generalizada entre os nossos ancestrais,
numa outra vida.
   Verifica-se com efeito, que os homens da poca
pr-histrica, a que se deu o nome de megaltica, sepultavam
os mortos, colocando-lhes nos tmulos armas e adornos. ,
pois, de supor-se que essas populaes primitivas tinham a
intuio de uma existncia segunda, sucessiva  existncia
terrena. Ora, se h uma concepo oposta ao testemunho dos
sentidos,  precisamente a de uma vida futura. Quando se v
o corpo fsico tornado insensvel, inerte, malgrado a todos
os estmulos que se empreguem; quando se observa que ele
esfria, depois se decompe, torna-se difcil imaginar que
alguma coisa sobreviva a essa desagregao total. Se, apesar,
porm, dessa destruio, se observa o reaparecimento
completo do mesmo ser, se ele demonstra por atos e palavras,
que continua a viver, ento, mesmo aos seres mais frustros
se impe, com grande autoridade, a concluso de que o homem
no morreu de todo. S, provavelmente, aps mltiplas
observaes desse gnero, foi que se estabeleceram o culto
prestado aos despojos mortais e a crena numa outra vida em
continuao da vida terrestre.

   A NDIA

   Ainda nos dias atuais, as tribos mais selvagens crem
numa certa imortalidade do ser pensante (3) e as narrativas
dos viajantes so concordes nos atestar que, em todas as
partes do globo, a sobrevivncia  unanimidade afirmada.
Remontando aos mais antigos testemunhos que possumos, isto
, aos hinos do "Rigveda", vemos que os homens que viviam
nas faldas do Himalaia, no Sapta Sindhu (pas dos sete rios),
tinham intuies claras sobre o alm da morte.
  ::::::::::
  (3) Ferdinando Denis -- "Universo Pitoresco". -- Consultar,
para o estudo dessas crenas, os trabalhos publicados sobre
as tribos da Oceania, da Amrica, da frica, t. I, 64-65.
Consultar tambm Taylor -- "Civilizaes primitivas", t. I,
pg. 485; -- Taplin -- "Folklore Manners of Australian
aborigenes".
  ::::::::::
   Baseando-se provavelmente nas aparies naturais e nas
vises em sonho, foi que os sacerdotes, ao cabo de muitos
sculos, lograram codificar a vida futura. Como ser essa
vida? Um poeta ria esboa assim, vigorosamente, o cu
vdico:
   "Morada definitiva dos deuses imortais, sede da luz
eterna, origem e base de tudo o que , manso de constante
alegria, de prazeres infindos, onde os desejos se realizam
mal surjam, onde o ria fiel viver de eterna vida".
   Desde que o cu vdico foi concebido qual morada divina
habitvel pelo ser humano, posta se achou a questo de
saber-se como poderia o homem "elevar-se to alto" e como,
dotado de faculdades restritas, seria "capaz de viver uma
vida celeste sem fim". Fora possvel que o corpo humano, to
fortemente ligado  terra, levantando vo, tornado leve como
uma nuvem, atravessasse o espao, para ir ter, por si mesmo
 maravilhosa cidade dos deuses? Necessrio seria que um
milagre se produzisse. Ora, esse milagre jamais visivelmente
se produziu. Dar-se-ia ento, que a morada divina ainda
estivesse sem habitantes? A no ser mediante um prodgio,
que corpo fsico pode perder o seu prprio peso? Desse
mistrio, desse pensamento vago, nasceu de certo modo, a
preocupao positiva dos destinos da matria aps a morte,
da sobrevivncia de uma parte do ser. Essa a mais antiga
explicao que se conhece daquele misterioso alm.
   Abatido pela morte, o corpo humano se desfaz por inteiro
nos elementos que participaram da sua formao. Os raios do
olhar, matria luminosa, o Sol os reabsorve; a respirao,
tomada aos ares, a estes volve; o sangue, seiva universal,
vai vivificar as plantas; os msculos e os ossos, reduzidos
a p, tornam-se hmus. "O olho volta para o Sol; o respiro
volta para Vay; o cu e a terra recebem o que lhes  devido;
as guas e as plantas retomam as partes do corpo humano que
lhes pertencem". O cadver do homem se dispersa. As matrias
que compunham o corpo vivo, privadas do calor vital,
restitudas ao Grande Todo, serviro  formao de outros
corpos. Nada se perdeu, nada o cu tomou para si.
   Entretanto, o ria que morreu santamente receber sua
recompensa: elevar-se- s alturas inacessveis; gozar da
sua glorificao. Como ser isso? Assim: a pele nada mais 
do que o invlucro do corpo e, quando Agni, o deus quente
(4), abandona o moribundo, respeita o invlucro corpreo,
pele e msculos. As carnes, debaixo da pele, so apenas
matrias espessas, grosseiras, que constituem segundo
envoltrio destinado ao trabalho, sujeito a funes
determinadas. Sob esse duplo envoltrio, da pele e do corpo,
h o homem verdadeiro, o homem puro, o homem propriamente
dito, emanao divina, suscetvel de voltar para os deuses,
como o raio de luz volta para o Sol, a respirao para o
ar, a carne para a terra. Depois da morte, essa alma,
revestida de um novo corpo, luminosa nvoa resplandecente,
de forma brilhante, "cujo prprio brilho a furta  fraca
viso dos vivos",  transportada  morada divina (5)
  ::::::::::
  (4) Fogo areo. O fogo era representado sob trs modalidades:
Agni, fogo terrestre; Surya ou Indra, o sol;Vay, fogo areo
("Rigveda", 513, numero 4, traduo de A Langlois).
  (5) Marius Fontanes -- "ndia Vdica", pgs. 327 e seguintes.
  ::::::::::
   Se o deus ficou satisfeito com as oferendas do ria morto,
vem, ele prprio, dar-lhe o "invlucro luminoso" com que a
alma ser transportada. Um hino exprime sumariamente a mesma
idia, sob a forma de uma prece:
   "Desdobra,  Deus, os teus esplendores e d assim ao
morto o novo corpo em que a alma ser transportada, segundo
a tua vontade". (6)
  ::::::::::
  (6) "Os cnticos vdicos exprimem, na sua origem, uma
confiana ingnua, um otimismo natural, um sentimento de
verdade que pouco a pouco se alteram, sob a influncia
sacerdotal". (A. Langlois -- "Rigveda", t. I, pg. 24).
  ::::::::::
   Se refletirmos que esses hinos estavam escritos, h cerca
de 3.500 anos, na lngua mais rica e mais harmoniosa que j
existiu, ficamos sem poder calcular a que pocas recuadas
remontam essas noes, to precisas e quase justas, sobre a
alma e o seu envoltrio. S mesmo toda a ignorncia da nossa
poca grosseiramente materialista seria capaz de contestar
uma verdade velha como o pensamento humano e que se nos
depara em todos os povos. As nossas modernas experincias
sobre os Espritos, que se deixam fotografar ou se
materializam  momentneamente, como veremos mais adiante,
mostram que o perisprito  uma realidade fsica, to
inegvel como o prprio corpo material. J era essa crena
dos antigos habitantes da margem do Nilo e constitui fato
digno de nota que, no alvorecer de todas as civilizaes,
topamos com crenas fundamentalmente semelhantes, quando
quase nenhum meio de comunicao havia entre povos to
distanciados uns dos outros.

   O Egito

   To longe quanto possamos chegar interrogando os egpcios,
ouvi-los-emos afirmar a sua f numa segunda vida do homem,
num lugar donde ningum pode volver, onde habitam os
antepassados. Imutvel, essa idia atravessa intacta todas
as civilizaes egpcias; nada consegue destru-la. Ao
contrrio, apenas o que no resiste s influncias diversas,
vindas de todas as partes,  o "como" dessa imortalidade.
Qual, no homem, a parte durvel, que resiste  morte, ou que,
revivificada, continua outra existncia?
   A mais antiga crena, a dos comeos (5.000 anos a.C.),
considerava a morte uma simples suspenso da vida. Depois de
estar imvel durante certo tempo, o corpo retomava o "sopro"
e ia habitar muito longe, a oeste deste mundo. Em seguida,
mas sempre muito remotamente, antes mesmo, talvez, das
primeiras dinastias histricas, surgiu a idia de que
somente "uma parte do homem" ia viver segunda vida. No era
uma alma, era um corpo, diferente do primeiro, porm,
proveniente deste, mais leve, menos material. Esse corpo,
quase invisvel, sado do primeiro corpo mumificado, estava
sujeito a todos os reclamos da existncia: era preciso
aloj-lo, nutr-lo, vest-lo. Sua forma, no outro mundo,
reproduzia, pela semelhana o primeiro corpo.  o ka, o
duplo, ao qual, no antigo Imprio, se prestava o culto dos
mortos. (5004 -- 3064 AC)
   Uma primeira modificao fez do "duplo" -- do ka -- um
corpo menos grosseiro do que o era na concepo primitiva.
No passava o segundo corpo de uma "substncia" -- bi -- de
uma "essncia" -- ba -- e, afinal, de um claror, de "uma
parcela de chama", de luz. Essa frmula se generalizou nos
templos e nas escolas. O povo, esse, se atinha  crena
simples, original, do homem composto de duas partes: o corpo
e a inteligncia -- khou -- separveis. Houve, pois, um
instante, sobretudo nas proximidades da dcima oitava
dinastia, em que coexistiam crenas diversas. Cria-se, ao
mesmo tempo: no corpo duplo, ou ka; na substncia luminosa,
ou ba, ba; na inteligncia, ou khou. Eram trs almas.
   Assim foi, sem nenhum mal, at ao momento em que, formado
o corpo sacerdotal, este, sentindo a necessidade de uma
doutrina, impondo-se-lhe uma escolha, teve que tomar uma
deciso. Ento, pelos fins da dcima oitava dinastia
(3064 -- 1703 AC), os sacerdotes muito habilmente, para no
ferir nenhuma crena, para chamar a si todas as opinies,
conceberam um sistema em que coubessem todas as hipteses.
   A pessoa humana foi tida como composta de quatro partes:
o corpo, o duplo (ka), a substncia inteligente (khou) e a
essncia luminosa (ba ou ba). Mas, essas quatro partes se
reduziam realmente a duas, no sentido de que o duplo, ou ka,
era parte integrante do corpo durante a vida, como a
essncia luminosa, ou ba, se achava contida na substncia
inteligente, ou khou. Foi assim que, nos ltimos tempos da
dcima oitava dinastia, pela primeira vez, o Egito, embora
sem lhe compreender a verdadeira teoria, teve, na realidade,
a noo do ser humano composto de uma nica alma e de um s
corpo. A nova teoria se simplificou ainda mais, com o
passarem o corpo e o seu duplo a ser tidos como permanecendo
para sempre no tmulo, enquanto que a alma-inteligncia,
"servindo de corpo  essncia luminosa", ia viver com os
deuses a segunda vida. A imortalidade da alma substituia
desse modo a imortalidade do corpo, que fora a primeira
concepo egpcia. (7)
  ::::::::::
  (7) Maspro -- "Arqueologia Egpcia", pg. 108, e "Histria
antiga dos povos do Oriente", pg. 40.
  ::::::::::

   A CHINA

   Porventura, em nenhum povo o sentimento da sobrevivncia
foi to vivo quanto entre os chineses. O culto dos Espritos
se lhes imps desde a mais remota antigidade. Cria-se no
Thian ou Chang-si, nomes dados indiferentemente ao cu; mas,
sobretudo, prestavam-se honras aos Espritos e s almas dos
antepassados. Confcio respeitou essas crenas antigas e
certo dia, entre os que o cercavam, admirou umas mximas
escritas, havia mais de mil e quinhentos anos, sobre uma
esttua de ouro, no Templo da Luz, sendo uma delas a
seguinte:
   "Falando ou agindo, no penses, embora te aches s, que
no s visto, nem ouvido: os Espritos so testemunhas de
tudo". (8)
  ::::::::::
  (8) G.Pauthier -- "A China", VI, pg. 13.
  ::::::::::
   V-se que, no Celeste Imprio, os cus so povoados, como
a Terra, no somente pelos gnios, mas tambm pelas almas
dos homens que neste mundo viveram. A par do culto dos
Espritos, estava o dos antepassados.
   "Tinha por objeto, alm de conservar a preciosa lembrana
dos avs e de os honrar, atrair a ateno deles para os seus
descendentes, que lhes pediam conselhos em todas as
circunstncias importantes da vida e sobre os quais
supunha-se que eles exerciam influncia decisiva,
aprovando-lhes ou lhes censurando o proceder". (9)
  ::::::::::
  (9) Lon Carre -- "O antigo Oriente", pg. 386.
  ::::::::::
   Nessas condies,  evidente que a natureza da alma tinha
que ser bem conhecida dos chineses. Confcio no concebia a
existncia de puros Espritos; atribua-lhes um envoltrio
semi-material, um corpo aeriforme, como o prova esta citao
do grande filsofo:
   "Como so vastas e profundas as faculdades dos
Kouci-Chin (Espritos diversos)!. A gente procura perceb-los
e no os v; procura ouv-los e no os ouve. Identificados
com a substncia dos seres, no podem ser dela separados.
Esto por toda parte, acima de ns,  nossa esquerda,  nossa
direita; cercam-nos de todos os lados. Entretanto, por mais
sutis e imperceptveis que sejam, eles se manifestam pelas
formas corpreas dos seres; sendo real, verdadeira, a
essncia deles no pode deixar de manifestar-se sob uma forma
qualquer". (l0)
  ::::::::::
  (10) G. Pauthier -- Ob. Cit., VII, pg. 369
  ::::::::::
   O budismo penetrou na China e lhe assimilou as antigas
crenas. Continuou as relaes estabelecidas com os mortos.
   Aqui est um exemplo dessas evocaes e da aparncia que
toma a alma para se tornar visvel a olhos mortais.
   O Sr. Estanislau Julien, que traduziu do chins a histria
de Hiuen-Thsang, que viveu pelo ano 650 da nossa era, narra
assim a apario do Buda, devida a uma prece daquela santa
personagem:
   "Tendo penetrado na caverna onde, animado de f profunda
vivera o grande iniciador, Hiuen-Thsang se acusou de seus
pecados, com o corao transbordante de sinceridade. Recitou
devotamente suas preces, prosternando-se a cada estrofe.
Depois de fazer uma centena dessas reverncias, viu surgir
uma claridade na parede oriental da caverna.
   Tomado de alegria e de dor, recomeou ele as suas
saudaes reverentes e viu brilhar e apagar-se qual relmpago
uma luz do tamanho de uma salva. Ento, num transporte de
jbilo e amor, jurou que no deixaria aquele stio sem ter
visto a sombra augusta do Buda. Continuou a prestar-lhe suas
homenagens e, ao cabo de duzentas saudaes, teve de sbito
inundada de luz toda a gruta e o Buda, em deslumbrante
brancura, apareceu, desenhando-se-lhes majestosamente a
figura sobre a muralha. Ofuscante fulgor iluminava os
contornos da sua face divina. Hiuen-Thsang contemplou em
xtase, durante largo tempo, o objeto sublime e incomparvel
de sua admirao. Prosternou-se respeitosamente, celebrou os
louvores do Buda e espalhou flores e perfumes, depois do que
a luz se extinguiu. O brmane que o acompanhara ficou to
encantado quanto maravilhado daquele espetculo.
--Mestre -- disse ele -- sem a sinceridade da tua f e o
fervor dos teus votos, no terias presenciado tal prodgio".
   Essa apario lembra a transfigurao de Jesus, quando se
mostraram Moiss e Elias. Os Espritos superiores tm um
corpo de esplendor incomparvel, por isso que a sua
substncia fludica  mais luminosa do que as mais rpidas
vibraes do ter, como poderemos verificar pelo que se segue.

   A Prsia

   No antigo Ir, depara-se com uma concepo toda especial
acerca da alma. Zoroastro pode reivindicar a paternidade da
inveno do que hoje  chamado o "eu" superior, a conscincia
subliminal e, doutro ponto de vista, a paternidade da teoria
dos anjos guardies.
    conhecida a doutrina do grande legislador: abaixo do Ser
Incriado, eterno, existem duas emanaes opostas, tendo cada
uma sua misso determinada: Ormuzd tem o encargo de criar e
conservar o mundo; Arim o de combater Ormuzd e destruir o
mundo, se puder. H, igualmente, dois gnios celestes,
emanados do Eterno, para ajudar a Ormuzd no trabalho da
criao; mas h tambm uma srie de Espritos, de "gnios",
de _ferers, pelos quais pode o homem crer que tem em si algo
de divino. O ferer, inevitvel para cada ser, dotado de
inteligncia, era, ao mesmo tempo, um inspirador e um vigia:
inspirador, por insuflar o pensamento de Ormuzd no crebro do
homem; vigia, por ser guardio da criatura amada do deus.
Parece que os ferers imateriais existiam, por vontade divina,
antes da criao do homem e que cada um deles sabia, de
antemo, qual o corpo humano que lhe era destinado. (11)
  ::::::::::
  (11) G. de Lafond -- "O mazdeismo e o Avest", pgs 137 e 159.
  ::::::::::
   A misso desse ferer consistia em combater os maus gnios
produzidos por Arim, em conservar a humanidade.
   Aps a morte, o ferer se conserva unido " alma e 
inteligncia", para sofrer um julgamento, receber a sua
recompensa ou o seu castigo. Todo homem, todo Ized (gnio
celeste) e o prprio Ormuzd tinham o seu ferer, o seu
_frawaski, que por eles velava, que se devotava  sua
conservao. (12)
  ::::::::::
  (12) Marius Fontanes -- "Os Iranianos", pgs. 163 e 164.
  ::::::::::
   De certas passagens do _Avest se h podido deduzir que
depois da morte do homem, o ferer voltava ao cu, para
desfrutar a de um poder independente, mais ou menos extenso,
conforme fora mais ou menos pura e virtuosa a criatura que
lhe estivera confiada. De todo independente do corpo humano
e da alma humana, o ferer  um gnio imaterial, responsvel
e imortal. Todo ser teve ou ter o seu ferer. Em tudo o que
existe, h um ferer certo, isto , alguma coisa de divino.
O _Avest invoca o ferer dos santos, do fogo, da assemblia
dos sacerdotes, de Ormuzd, dos amschaspands (anjos celestes),
dos izeds, da "palavra excelente", dos "seres puros", da gua,
da terra, das rvores, dos rebanhos, do tourogrmen, de
Zoroastro, "em quem, primeiro, Ormuzd pensou, a quem instruiu
pelo ouvido e ao qual formou com grandeza, em meio das
provncias do Ir". (13)
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  (13) Eugne Burnouf -- "A cincia das religies" , pg. 270.
Ver tambm, para esclarecimentos, Antequil-Duperron --
"Zend-Avest", t. II, pg. 83.
  ::::::::::
   Na Judia, os hebreus, ao tempo de Moiss, desconheciam
inteiramente qualquer idia de alma (14). Foi preciso o
cativeiro de Babilnia, para que esse povo bebesse, entre os
seus vencedores, a idia da imortalidade, ao mesmo tempo que
a da verdadeira composio do homem. Os cabalistas,
intrpretes do esoterismo judeu, chamam Nephesh ao corpo
fludico do Princpio pensante.
  ::::::::::
  (14) A. Maury -- "A Terra e o Homem", pg. 595: "Os hebreus no
criam nem na alma pessoal, nem na sua imortalidade"; Levtico,
XVII; E. Reuss -- "A Histria", pg. 263.
  ::::::::::

   A Grcia

   Os gregos, desde a mais alta antiguidade, estiveram na
posse da verdade sobre o mundo espiritual. Em Homero, 
freqente os moribundos profetizarem e a alma de Ptroclo vem
visitar Aquiles na sua tenda.
   "Segundo a doutrina da maioria dos filsofos gregos, cada
homem tem por guia um demnio particular (eles davam o nome de
_daimon aos Espritos), que lhe personifica a individualidade
moral". (15)
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  (15) Maury -- "A Magia e a Astrologia", pg. 263.
  ::::::::::
   A generalidade dos humanos era guiada por Espritos
vulgares; os doutos mereciam visitados por Espritos
superiores (Id.). Thales, que viveu seis sculos e meio antes
da nossa era, ensinava, tal qual na China, que o Universo era
povoado de demnios e de gnios, testemunhas secretas das
nossas aes, mesmo dos nossos pensamentos, sendo tambm
nossos guias espirituais (16). At, desse artigo, fazia um dos
pontos capitais da sua moral, confessando que nada havia mais
prprio a inspirar a cada homem a necessidade de exercer sobre
si mesmo essa espcie de vigilncia a que Pitgoras mais tarde
chamou o "sal da vida". (17)
  ::::::::::
  (16) Diog. Laertius -- Libro I nmero 27.
  (17) "Dicionrio universal, histrico, crtico e biogrfico".
Ver: "Thales".
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   Epimnides, contemporneo de Slon, era guiado pelos
Espritos e freqentemente recebia inspiraes divinas.
Sustentava fortemente o dogma da metempsicose e, para
convencer o povo, dizia que ressuscitara muitas vezes e que,
particularmente, fora aco. (18)
  ::::::::::
  (18) Fnelon -- "Vida dos filsofos da antigidade".
  ::::::::::
   Scrates (19) e, sobretudo, Plato, como achassem
excessivamente grande a distncia entre Deus e o homem,
enchiam-na de Espritos, considerando-os gnios tutelares dos
povos e dos indivduos e os inspiradores dos orculos. A alma
preexistia ao corpo e chegava ao mundo dotada do conhecimento
das idias eternas. Semelhante  criana, que no dia seguinte
h esquecido as coisas da vspera, esse conhecimento ficava
nela amodorrado, pela sua unio com o corpo, para despertar
pouco a pouco, com o tempo, o trabalho, o uso da razo e dos
sentidos. Aprender era lembrar-se; morrer era voltar ao ponto
de partida e tornar ao primitivo estado: de felicidade, para
os bons; de sofrimento, para os maus.
  ::::::::::
  (19) Fdon, Timeu, Fedro.
  ::::::::::
   Cada alma possui um demnio, um Esprito familiar, que a
inspira, com ela se comunica, lhe fala  conscincia e a
adverte do que tem que fazer ou que evitar. Firmemente
convencido de que, por intermdio desses Espritos, uma
comunicao podia estabelecer-se entre o mundo dos vivos e os
a quem chamamos mortos, Scrates tinha um "demnio", um Esprito
familiar, que constantemente lhe falava e o guiava em todas as
circunstncias.(20)
  ::::::::::
  (20) E. Bonnemre -- "A alma e suas manifestaes atravs da
histria", pgs. 109 e seguintes. Ver tambm: Rossi e
Gustianini -- "O demnio de Scrates".
  ::::::::::
   "Sim, diz Lamartine, ele  inspirado, segundo o afirma e
repete. Porque nos negaramos a crer na palavra do homem que
dava a vida por amor da verdade? Haver muitos testemunhos que
tenham o valor da palavra de Scrates prestes a morrer? Sim,
ele era inspirado''' A verdade e a sabedoria no emanam de
ns; descem do cu aos coraes escolhidos, que Deus suscita,
de acordo com as necessidades do tempo". (21)
  ::::::::::
  (21) Lamartine -- "A morte de Scrates", poema. Advertncia.
  ::::::::::
   O claro gnio dos gregos percebeu a necessidade de um
intermedirio entre a alma e o corpo. Para explicar a unio da
alma imaterial com o corpo terrestre, os filsofos da Hlade
reconheceram a existncia de uma substncia mista, designada
pelo nome de Ochema, que lhe servia de envoltrio e que os
orculos denominavam o veculo leve, o corpo luminoso, o carro
sutil. Falando daquilo que move a matria, diz Hipcrates que
o movimento  devido a uma fora imortal, ignis, a que d o
nome de enormon, ou corpo fludico.

   Os Primeiros Cristos

   Foi  obrigao lgica de explicar a ao da alma sobre o
invlucro fsico que cederam os primeiros cristos,
acreditando na existncia de uma substncia mediadora. Alis,
no se compreende que o esprito seja puramente imaterial,
porquanto, ento, nenhum ponto de contacto teria ele com a
matria fsica e no poderia existir, desde que deixasse de
estar individualizado num corpo terrestre.
   No conjunto das coisas, o indivduo  sempre determinado
pelas suas relaes com outros seres; no espao, pela forma
corprea; no tempo, pela memria.
   O grande apstolo S. Paulo fala vrias vezes de um "corpo
espiritual" (22), impondervel, incorruptvel, e Orgenes, em
seus "Comentrios sobre o Novo Testamento", afirma que esse
corpo, dotado de uma virtude plstica, acompanha a alma em
todas as suas existncias e em todas as suas peregrinaes,
para penetrar e enformar os corpos mais ou menos grosseiros e
materiais que ela reveste e que lhe so necessrios no
exerccio de suas diversas vidas.
  ::::::::::
  (22) "Primeira Epstola aos Corntios", cap. XV,
versculo 44.
  ::::::::::
   Eis aqui, segundo Pezzani, as opinies de alguns Pais da
Igreja sobre esta questo. (23)
  :::::::::::
  (23) Pezzani -- "A verdade" (jornal, de 5 de abril de 1863).
  ::::::::::
   Orgenes e os Pais alexandrinos, que sustentavam um a
certeza, os outros a possibilidade de novas provas aps a
provao terrena, propunham a si mesmos a questo de saber
qual o corpo que ressuscitaria no juzo final. Resolveram-na,
atribuindo a ressurreio apenas ao corpo espiritual, como o
fizeram So Paulo e, mais tarde, o prprio Santo Agostinho,
figurando como incorruptveis, finos, tnues e soberanamente
geis os corpos dos eleitos. (24)
  ::::::::::
  (24) Santo Agostinho -- "Manual", cap. XXVI.
  ::::::::::
   Ento, uma vez que esse corpo espiritual, companheiro
inseparvel da alma, representava, pela sua substncia
quintessenciada, todos os outros envoltrios grosseiros, que a
alma pudera ter revestido temporariamente e que entregara ao
apodrecimento e aos vermes nos mundos por onde passara uma
vez que esse corpo havia impregnado de sua energia todas as
matrias enformadas para um uso limitado e transitrio, o
dogma da ressurreio da carne substancial recebia, dessa
concepo sublime, brilhante confirmao. Concebido desse
modo, o corpo espiritual representava todos os outros que
somente mereciam o nome de corpo pela sua adjuno ao
princpio vivificante da carne real, isto , ao que os
espritas denominaram perisprito. (25)
  ::::::::::
  (25) Bordeau -- "O problema da morte", pgs. 36 e seguintes e
62 e seguintes.
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   Diz Tertuliano (26) que os anjos tm um corpo que lhes 
prprio e que, como lhes  possvel transfigur-lo em carne
humana, eles podem por um certo tempo, fazer-se visveis aos
homens e comunicar-se com estes visivelmente. Da mesma maneira,
fala S.Baslio. Se bem haja ele dito algures que os anjos
carecem de corpo, no tratado que escreveu sobre o Esprito
Santo, avana que os anjos se tornam visveis pela espcie de
corpo que possuem, aparecendo aos que de tal coisa so dignos.
  ::::::::::
  (26) Tertuliano -- "De Carne Cristi", cap. VI
  ::::::::::
   Nada h na criao, ensina Santo Hilrio, que no seja
corporal, quer se trate de coisas visveis, quer de coisas
invisveis. As prprias almas, estejam ou no ligadas a um
corpo, tm uma substncia corprea inerente  natureza delas,
pela razo de que  necessrio que toda coisa esteja nalguma
coisa. S Deus sendo incorpreo, segundo S.Cirilo de
Alexandria, s ele no pode estar circunscrito, enquanto que
todas as criaturas o podem, ainda que seus corpos no se
assemelhem aos nossos. Mesmo que os demnios sejam chamados
animais areos, como lhes chama Apuleio, s-lo-o no sentido
em que falava o grande bispo de Hipona, porque eles tm
natureza corprea, sendo uns e outros da mesma essncia. (27)
  ::::::::::
  (27) Santo Agostinho -- "Scsp. Cen. Ad litt", t. III,
cap. X
  ::::::::::
   S. Gregrio, por seu lado, chama ao anjo um animal racional
(28) e S. Bernardo nos dirige estas palavras: "Unicamente a
Deus atribuamos a imortalidade, bem como a imaterialidade,
porquanto s a sua natureza no precisa, nem para si mesma,
nem para outrem, do auxlio de um instrumento corpreo" (29).
Essa era tambm, de certo modo, a opinio do grande Ambrsio
de Milo, que a expunha nestes termos:
   "No imaginemos haja algum ser isento de matria na sua
composio, exceto, nica e exclusivamente, a substncia da
adorvel Trindade". (30)
  ::::::::::
  (28) Homilia X -- "In Evang"
  (29) Sup. Quantie -- Homilia X
  (30) Abraham -- t. II, cap. XIII nmero 58.
  ::::::::::
   O mestre das sentenas, Pedro Lombardo, deixava em aberto
a questo: esposava, contudo, esta opinio de Santo Agostinho:
   "Os anjos devem ter um corpo, ao qual, entretanto, no se
acham sujeitos, corpo que eles, ao contrrio, governam, por
lhes estar submetido, transformando-o e imprimindo-lhe as
formas que lhe queiram dar, para torn-lo apropriado aos atos
deles".

   A escola neoplatnica

   A escola neoplatnica de Alexandria foi notvel de mais de
um ponto de vista. Tentou a fuso dos filsofos do Oriente com
a dos gregos e, dos trabalhos de Proclo, Plotino, Porfrio,
Jmblico, idias novas surgiram sobre grande nmero de
questes. Sem dvida, a esses pesquisadores se pode reprochar
uma tendncia por demais excessiva para a misticidade;
entretanto, mais do que quaisquer outros eles se aproximaram
da verdade que hoje experimentalmente conhecemos.
   As vidas sucessivas e o perisprito faziam parte do ensino
deles. Em Plotino, como em Plato,  separao da alma e do
corpo se achava ligada a idia da "metempsicose", ou
metensomatose (pluralidade das vidas corpreas).
   "Perguntamos: qual , nos animais, o princpio que os
anima? Se  verdade, como dizem, que os corpos dos animais
encerram almas humanas que pecaram, a parte dessas almas
suscetvel de separar-se no pertence intrinsecamente a tais
corpos; assistindo-as, essa parte, a bem dizer, no lhes est
presente. Neles, a sensao  comum  imagem da alma e ao
corpo, mas, ao corpo, enquanto organizado e _modelado _pela
_imagem _da _alma. Quanto aos animais em cujos corpos no se haja
introduzido uma alma humana, esses so engendrados por uma
iluminao da alma universal". (31)
  ::::::::::
  (31) Plotino -- "Enade primeira". Livro I; Ver: "Enades", 3
volumes,  in-oitavo, 1857-1860.
  ::::::::::
   A passagem da alma humana pelos corpos dos seres inferiores
 aqui apresentada sob forma dubitativa. Sabemos agora que
nenhum recuo  possvel na senda eterna do tornar-se,
porquanto nenhum progresso seria real, se pudssemos perder o
que tenhamos adquirido pelo nosso esforo pessoal. A alma que
chegou a vencer um vcio, dele se libertou para sempre;  isso
o que assegura a perfectibilidade do esprito e garante a
felicidade futura para o ser que soube libertar-se das ms
paixes inerentes ao seu estado inferior. Plotino afirma
claramente a reencarnao, isto , a passagem da alma de um
corpo humano para outros corpos.
   " crena universalmente admitida que a alma cometa faltas,
que as expia, que sofre punio nos infernos e passa em
seguida por novos corpos.
   Quando nos achamos na multiplicidade que o Universo encerra,
somos punidos pelo nosso prprio desvio e pela sequncia de
uma sorte menos feliz.
   Os deuses do a cada um a sorte que lhe convm, de harmonia
com seus antecedentes, em suas sucessivas existncias".(32)
  ::::::::::
  (32) Plotino -- "Enade segunda"
  ::::::::::
   Profundamente justo e verdadeiro  isto, porquanto, em
nossas mltiplas vidas, defrontamos com dificuldades que temos
de transpor, para chegarmos ao nosso melhoramento moral ou
intelectual. Falso, porm, seria esse princpio, se o
aplicssemos s condies sociais, porque, ento, o rico teria
merecido s-lo e o pobre se acharia aqui em punio, o que 
contrrio ao que se observa cotidianamente, pois podemos
comprovar que a virtude no constitui apangio especial de
nenhuma classe da sociedade.
   "H, para a alma, duas maneiras de ser em um corpo:
verifica-se uma delas quando a alma, j se encontrando num
corpo celeste, sofre uma metamorfose, isto , _quando _passa _de
_um _corpo _areo ou _gneo a um corpo terrestre, migrao a que
de ordinrio se chama metensomatose, porque no se v donde
vem a alma; a outra maneira se verifica quando a alma passa do
estado incorpreo a um corpo, seja qual for, e entra assim,
pela primeira vez, em comunho com o corpo. As almas descem do
mundo inteligvel ao primeiro cu; a, tomam um corpo
(espiritual) e, em virtude mesmo desse corpo, passam para
corpos terrestres, segundo se distanciam mais ou menos do
mundo inteligvel".
   Esta doutrina Porfrio a desenvolveu longamente em sua
"Teoria dos Inteligveis", onde assim se exprime:
   "Quando a alma sai do corpo slido, no se separa do
esprito que recebeu das esferas celestes".
   A mesma idia se nos depara nos escritos de Proclo, que
chama a esse esprito o "veculo da alma".
   De um estudo atento dessas doutrinas resulta que os
neoplatnicos sentiram a necessidade de um invlucro sutil
para a alma, em  o qual se registram, se incorporam os estados
do esprito. , com efeito, indispensvel que o esprito,
atravs de suas vidas sucessivas, conserve os progressos que
realizou, sem o que, a cada encarnao, ele se acharia como na
primeira e recomearia perpetuamente a mesma vida.

   Os poetas

   A Idade Mdia herdou essas concepes, como se pode
verificar pela seguinte passagem de A Divina Comdia:
   "Logo que um stio h sido assinado  alma (aps a morte),
sua faculdade positiva se lhe irradia em torno, do mesmo modo
e tanto quanto o fazia, estando ela em seus membros vivos.
Assim como a atmosfera, quando se acha bastante carregada de
chuva e os raios vm nela refletir-se, ornada se mostra de
cores diversas, assim tambm o ar que a cerca toma a forma que
a alma lhe imprime virtualmente, desde que nele se detm.
Semelhante  chama que por toda parte acompanha a alma a todos
os lugares. Porque da tira ela a sua aparncia, chamam-lhe
sombra e ela, em seguida, organiza todos os sentidos, at o da
vista". (33)
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  (33) "A Divina Comdia", "Purgatrio", XXV. (Traduo de
Florentino).
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   Unir o esprito  matria constitui tanto uma obrigao para
a inteligncia, que os maiores poetas jamais a isso se
furtaram; sempre revestiram de formas corpreas os seres
celestiais, cuja pura essncia os rgos dos sentidos no
podem perceber. Milton, na "Guerra dos Anjos", no hesitou em
atribuir um corpo, ainda que sutil e areo, segundo entendeu
de descrev-lo, a esses seres extrahumanos que ele concebia
como puramente espirituais por sua prpria natureza. Eis como
se exprime, em seu poema "Paraso Perdido", acerca dos anjos:
   "Eles vivem inteiramente pelo corao, pela cabea, pelo
olho, pelo ouvido, pela inteligncia, pelos sentidos: do a si
mesmos e a seu bel-prazer membros, e tomam a cor, a forma e a
espessura densa ou delgada, que prefiram".
   Tambm Ossian revestiu de formas sensveis os espritos
areos, que ele cria ver nos vapores da noite e nos bramidos
da tempestade.
   Klopstock, em sua _Messada, representou o corpo do serafim
Eloh como formado por um raio da manh e o do anjo da morte
como por uma vaga de chama numa nuvem tenebrosa. Precisou mais
essa idia na dissertao com que encabeou o sexto livro da
sua epopia. Sustenta: "ser muito verossmil que os Espritos
finitos, cuja ocupao habitual consiste em meditar sobre os
corpos de que se compe o mundo fsico, so, tambm eles,
revestidos de corpo" e que, em particular, se deve crer que os
anjos, "de que Deus to amide se serve para conduzir 
felicidade os mortais, tero recebido qualquer espcie de
corpo que corresponda aos dos eleitos, que o mesmo Deus chama
a essa suprema felicidade".
   O penetrante gnio de Leibnitz no se enganou a esse
respeito:
   "Creio, diz ele, com a maioria dos antigos, que todos os
gnios, todas as almas, todas as substncias simples criadas
esto sempre juntas a um corpo e que no h almas destitudas
jamais de um corpo''' Acrescento que nenhum desarranjo dos
rgos visveis ser capaz de levar as coisas a uma inteira
confuso no animal, ou a destruir todos os rgos e privar a
alma de todo o seu corpo orgnico e dos restos inapagveis de
todos os traos precedentes. Mas, a facilidade que houve em
deixarem-se os corpos sutis com os anjos (que confundiam com
a corporalidade dos prprios anjos) e a introduo de
pseudo-inteligncias separadas nas criaturas (para o que muito
contriburam as que fazem rolar os cus de Aristteles) e,
finalmente, a opinio mal-entendida, segundo a qual no se
podia conservar as almas dos animais sem cair na metempsicose,
fizeram, a meu ver, que se desprezasse o modo natural de
explicar a conservao da alma." (34)
  ::::::::::
  (34) Leibnitz -- "Novos ensaios ", Prefcio.
  ::::::::::
   Mister se faz chegar at Carlos Bonnet (35) para se ter uma
teoria que, conquanto no assente nos fatos, se aproxima
singularmente da que o Espiritismo nos permitiu construir,
baseada na experincia. Vamos citar livremente as passagens
mais importantes de suas obras, relativas ao assunto.  de
admirar-se a lgica potente desse pensador profundo que, h
mais de cento e cinquenta anos, encontrou as verdadeiras
condies da imortalidade.
  ::::::::::
  (35) Charles Bonnet -- "Ensaio analtico", pgs. 528 e
seguintes. Ver tambm: "Palingenesia" t.II.
  ::::::::::
   "Estudando com algum cuidado, diz ele, as faculdades do
homem, observando-lhes as mtuas dependncias ou a
subordinao que as submete umas s outras e a seus objetos,
logramos facilmente descobrir por que meios naturais elas se
desenvolvem e aperfeioam neste mundo. Podemos, pois, conceber
meios anlogos mais eficazes, que levem essas faculdades a
mais alto grau de perfeio.
   O grau de perfeio que o homem neste mundo pode atingir
est em relao com os meios que lhe so facultados para
conhecer e agir. Tambm esses meios esto em relao direta
com o mundo que ele atualmente habita.
   Assim, uma vez que o homem era chamado a habitar
sucessivamente dois mundos diferentes, sua constituio
originria tinha que conter coisas relativas a esses dois
mundos. O corpo animal tinha que estar em relao com o
primeiro mundo, o corpo espiritual com o segundo.
   Por dois meios principais podero aperfeioar-se no mundo
vindouro todas as faculdades do homem: mediante sentidos mais
apurados e sentidos novos. Os sentidos so a fonte primria de
todos os conhecimentos. As nossas idias mais refletivas, mais
abstratas derivam sempre das nossas idias sensveis.
   O esprito nada cria, mas opera incessantemente sobre a
multido quase infinita de percepes diversas que ele adquire
pelo ministrio dos sentidos.
   Dessas operaes do esprito, que so sempre comparaes,
combinaes, abstraes, nascem, por gerao natural, todas as
cincias e todas as artes.
   Destinados a transmitir ao esprito as impresses dos
objetos, os sentidos se acham em relao com estes. O olho
est em relao com a luz, o ouvido com o som, etc."  (36)
  ::::::::::
  (36) A teoria da evoluo faz-se compreenda muito bem como a
funo criou o rgo. Veja-se: G. Delanne, "A Evoluo
Anmica ", cap. III:"Como o perisprito pde adquirir
propriedades funcionais", ed. FEB.
  ::::::::::
   Quanto mais perfeitas, numerosas, diversas so as relaes
que os sentidos mantm com os objetos, tanto mais qualidades
destes elas manifestam ao esprito e, ainda, tanto mais claras,
vivas e completas so as percepes dessas qualidades.
   Quanto mais viva e completa  a idia sensvel que o
esprito adquire de um objeto, tanto mais distinta  a idia
refletida que deste ele forma.
   Concebemos, sem dificuldade, que os nossos sentidos atuais
so suscetveis de alcanar um grau de perfeio muito
superior ao que lhes reconhecemos neste mundo e que nos
espanta em certos indivduos. Podemos mesmo formar idia
ntida desse acrscimo de perfeio, pelos prodigiosos efeitos
dos instrumentos de ptica e de acstica.
   Imagine-se Aristteles a observar uma carraa ao
microscpio, ou a contemplar Jpiter e suas luas com um
telescpio. Quais no teriam sido a sua surpresa e o seu
enlevo! Quais no sero tambm os nossos, quando, revestidos
do nosso corpo espiritual, houverem ganho os nossos sentidos
toda a perfeio que podem receber do benfazejo autor do nosso
ser!
   Poderemos, se quisermos, imaginar que ento os nossos olhos
reuniro as vantagens do microscpio s do telescpio e que
se proporcionaro exatamente a todas as distncias. Quo
superiores sero as lentes dessas novas lunetas s de que a
arte se gloria! Aos outros sentidos aplica-se o que acaba de
ser dito do da vista. Quais no seriam os rpidos progressos
das nossas cincias fsico-matemticas, se dado nos fosse
descobrir os princpios primrios dos corpos, quer fluidos,
quer slidos! Veramos, ento, por intuio, o que tentamos
adivinhar com o auxilio de raciocnios e clculos, tanto mais
incertos, quanto mais imperfeito  o nosso conhecimento direto.
Que infinidade de relaes nos escapam, precisamente porque
no podemos perceber a figura, as propores, a disposio
desses corpsculos infinitamente pequenos sobre os quais,
entretanto, repousa o grande edifcio da natureza!
   Muito difcil igualmente nos  conceber que o grmen do
corpo espiritual pode conter, desde j, os elementos orgnicos
de novos sentidos, que somente na ressurreio se ho de
desenvolver. (37)
  ::::::::::
  (37) O perisprito j contm em si todos os sentidos. O corpo
apenas possui os instrumentos que servem ao exerccio das
faculdades. Quem v no  o olho,  a alma; o ouvido no
escuta,  mero instrumento da audio, porquanto, se se
interromper a comunicao entre o crebro e o olho ou o
ouvido, embora permanea intacto o aparelho, a percepo no
se d. Alis, a viso e a audio podem verificar-se, sem
participao do olho ou do ouvido, como nos casos de lucidez
sonamblica.
  ::::::::::
   Esses novos sentidos nos manifestaro nos corpos
propriedades que neste mundo nos sero sempre desconhecidas.
Que de qualidades sensveis ainda ignoramos e que no
descobriremos sem espanto! No chegamos a conhecer as
diferentes foras, de que no suspeitamos sequer a existncia,
porque nenhuma relao existe entre as idias que adquirimos
com os nossos cinco sentidos e as que somente com outros
sentidos poderemos adquirir! (38)
  ::::::::::
  (38) A matria radiante, os raios X e o espectroscpio
justificam plenamente estas intuies de gnio.
  ::::::::::
   Ergamos o olhar para a abbada estrelada; contemplemos essa
coleo imensa de sis e de mundos pulverizados no espaos e
admiremos que este vermezinho a que se d o nome de homem
tenha uma razo capaz de penetrar na existncia desses mundos
e de lanar-se assim at aos extremos da criao.
   Insistindo logicamente no que para ele era uma hiptese,
mas que para ns  uma certeza experimental, acrescenta aquele
autor:
   "Se o nosso conhecimento refletido deriva essencialmente do
nosso conhecimento intuitivo; se as nossas riquezas
intelectuais aumentam pelas comparaes que estabelecemos
entre as nossas idias sensveis de todo gnero; se quanto
mais comparamos, tanto mais conhecemos; se, finalmente, a
nossa inteligncia se desenvolve e aperfeioa  medida que as
nossas comparaes se estendem, diversificam, multiplicam,
quais no sero o acrscimo e o apuro dos nossos conhecimentos
naturais, quando j no estivermos limitados a comparar
indivduos com indivduos, espcies com espcies, reinos com
reinos e nos for dado comparar os mundos com os mundos!
   Se a inteligncia suprema variou neste mundo todas as suas
obras; se no criou coisas idnticas; se harmnica progresso
reina entre todos os seres terrenos; se uma mesma cadeia os
prende a todos, como no h de ser provvel que essa mesma
cadeia maravilhosa se prolongue por todos os mundos
planetrios, que os una todos e que eles no sejam mais do que
partes consecutivas e infinitesimais da mesma srie". (39)
  ::::::::::
  (39) Os estudos e as fotografias dos "Canais de Marte" j
permitem se creia que esse mundo  habitado. Isso confirma
plenamente as judiciosas indues de Charles Bonnet e nos
incita a acreditar que todos os mundos so ou sero povoados
por seres inteligentes".
  ::::::::::
   "De que sentimento no se ver inundada nossa alma, quando
aps haver estudado a fundo a economia de um mundo, voarmos
para outro e compararmos entre si essas duas economias! Qual
no ser ento a perfeio da nossa cosmologia! Quais no
sero a generalizao e a fecundidade dos nossos princpios,
o encadeamento, a multido e a justeza das nossas
consequncias. Que luz no se irradiar de tantos objetos
diversos sobre os outros ramos dos nossos conhecimento, sobre
a nossa astronomia, sobre as nossas cincias racionais e,
principalmente sobre essa cincia divina, que se ocupa com o
Ser dos seres."
   Estas indues, to bem estabelecidas pelo raciocnio, se
acham plenamente justificadas em nossa poca. J no organismo
humano existe o corpo destinado a uma vida superior;
desempenha a um papel de primeira ordem e  graas a ele que
podemos conservar o tesouro das nossas aquisies intelectuais.
Mais adiante comprovaremos que o perisprito  uma realidade
fsica to certa quanto a do organismo material: ele  visto,
tocado, fotografado. Numa palavra: o que no passava de teoria
filosfica, grandiosa e consoladora, mas sempre negvel, 
exato, tornou-se um fato cientfico, que oferece queles
remgios do esprito a consagrao inatacvel da experincia.

   Captulo II

   ESTUDO DA ALMA PELO MAGNETISMO

   Sumrio:
   A vidente de Prvorst -- A correspondncia entre
Billot e Deleuze -- Os Espritos tm um corpo: afirmaes dos
sonmbulos -- Trazimentos -- As narraes de Chardel -- Outros
testemunhos -- As experincias de Cahagnet -- Uma evocao --
Primeiras demonstraes positivas.

   Acabamos de ver, no captulo precedente, que a idia de uma
certa corporeidade, inseparvel da alma, constituiu crena
quase geral da antiguidade e a de uma multido de pensadores
at  nossa poca (40).  evidente que essa concepo resulta
da dificuldade que experimentamos em imaginar uma entidade
puramente espiritual. Os nossos sentidos s nos do a conhecer
a matria e mister se torna nos utilizemos da vista interior,
para sentirmos que h em ns algo mais do que esse princpio.
O pensamento, por si s, nos faz admitir, dada a sua carncia
de caracteres fsicos, a existncia de alguma coisa que difere
do que cai sob a apreciao dos sentidos.
  ::::::::::
  (40) Pezzani -- "A pluralidade das existncias da alma".
Consultem-se os numerosos escritores modernos que afirmam sua
crena no perisprito: Dupont de Nemours, Pierre Leroux,
Ballanche, Fourier, Jean Reynaud, Esquiros, Flammarion, etc.
  ::::::::::
   Mas, a idia de um corpo fludico tambm resulta das
aparies.  manifesto que, quando se v a alma de uma pessoa
morta, foroso  se lhe reconhea uma certa objetividade, sem
o que ela se conservaria invisvel. Ora, esse fenmeno se h
produzido em todos os tempos e nas histrias religiosas e
profanas formigam exemplos dessas manifestaes do alm.
   No ignoramos que a crtica contempornea fez tbua rasa
desses fatos, atribuindo-os em bloco a iluses, a alucinaes,
ou  credulidade supersticiosa dos nossos avs. Strauss, Taine,
Littr, Renan, etc., sistematicamente passam em silncio todos
os casos que poderamos reivindicar. Semelhante processo no
se justifica, porquanto, nos dias atuais, dado nos  comprovar
as mesmas aparies e por mtodos que permitem submet-las a
uma fiscalizao severa. Assim sendo, assiste-nos o direito de
concordar em que esses sbios se enganaram e que merecem
ateno as narrativas de antanho.
   Alis,  fato positivo que no so novos os fenmenos do
Espiritismo. Produziram-se em todos os tempos. Sempre houve
casas mal-assombradas e aparies (41). Concebe-se, pois, que
a idia de que a alma no  puramente imaterial, haja podido
manter-se, a despeito do ensino em contrrio das filosofias e
das religies (42).
  ::::::::::
  (41) Toda gente conhece as aparies pblicas de Castor e
Plux, o fantasma de Brutus, a viglia de Farslia, a casa
mal-assombrada de Alexandre, de que fala Plinio, etc.
  (42) Steki -- "O Espiritismo na Bblia".
  ::::::::::
   Era, porm, muito vaga, muito indeterminada a noo de um
envoltrio da alma. Esse corpo fludico formar-se-ia
subitamente, no instante da morte terrena? Seria para sempre,
ou por tempo determinado, que a alma se revestia dessa
substncia sutil? Ou, ento, essa aparncia vaporosa seria
devida apenas a uma ao momentnea, transitria, da alma
sobre a atmosfera, ao destinada a cessar com a causa que a
produzir? Eram questes essas que permaneceriam insolveis,
enquanto no se pudessem observar  vontade as aparies.

   A vidente de Prvorst.

   O magnetismo foi o primeiro a fornecer meio de penetrar-se
no domnio inacessvel do amanh da morte. O sonambulismo,
descoberto por de Puysgur, constituiu o instrumento de
investigao do mundo novo que se apresentava. Submetidos a
esse estado nervoso, puderam os sonmbulos pr-se em
comunicao com as almas desencarnadas e descrev-las
minuciosamente, de modo a deixar os convencidos, os assistentes,
de que, na realidade, conversavam com os Espritos.
   Dr. Kerner, to reputado pelo seu saber, quanto pela sua
perfeita honestidade, escreveu a biografia da Senhora Hauffe,
mais conhecida sob a designao de: A vidente de Prvorst (43).
No precisava ela adormecer, para ver os Espritos. Sua
natureza delicada e refinada pela enfermidade lhe facultava
perceber formas que se conservavam invisveis s outras pessoas
presentes. Teve a sua primeira viso na cozinha do castelo de
Lowenstein. Era um fantasma de mulher, que ela tornou a ver
alguns anos depois.
  ::::::::::
  (43) Veja-se a traduo francesa, feita pelo Dr. Dusart, da
obra do Dr. Kerner.
  ::::::::::
   Dizia, porm s quando a interrogavam com insistncia, nunca
espontaneamente, ter sempre junto de si, como o tiveram
Scrates, Plato e outros, um anjo ou daimon, que a advertia
dos perigos a serem evitados no s por ela, como tambm por
outras pessoas. Era o Esprito de sua av, a Sra. Schmidt Gall.
Apresentava-se revestida, como, alis, todos os Espritos
femininos que lhe apareciam, de uma tnica branca com cinto e
um grande vu igualmente branco.
   Declarava que, aps a morte, a alma conserva _um _esprito
_nrvico, que  a sua forma. Era esse envoltrio que ela possuia
a faculdade de ver, sem estar adormecida e muito melhor 
claridade do Sol ou da Lua, do que na obscuridade.
   "As almas, dizia, no produzem sombra. Tm forma acizentada.
Suas vestes so as que usavam na Terra, mas tambm acizentadas,
quais elas prprias. As melhores trazem apenas grandes tnicas
brancas e parecem voejar, enquanto que as ms caminham
penosamente. So brilhantes os seus olhos. Elas podem, alm de
falar, produzir sons, tais como suspiros, ruge-ruge de seda ou
papel, pancadas nas paredes e nos mveis, rudos de areia, de
seixos, ou de sapatos a roar o solo. So tambm capazes de
mover os mais pesados objetos e de abrir e fechar as portas".
   Eram objetivas essas vises? Quer dizer: verificavam-se
algures, que no no crebro da Sra. Hauffe? O Dr. Kerner
procedeu a muitas investigaes para se certificar da realidade
desses Espritos, que s a vidente percebia.
   "Em Oberstenfald, uma dessas almas, a do conde Weiler, que
assassinara seu irmo, apresentou-se a Sra. Hauffe, at sete
vezes. Somente ela a viu; mas, vrios parentes seus ouviram uma
exploso, viram ladrilhos, mveis e candelabros se deslocarem,
sem que pessoa alguma os tocasse, sempre que o fantasma vinha.
   Outra alma de assassino, vestindo um hbito de frade,
perseguiu a vidente, durante todo um ano, a lhe pedir, tal qual
o fizera o conde Weiler, preces e lies de catecismo. Essa
alma abria e fechava violentamente as portas, removia de um
lugar para outro a loua, derribava pilhas de lenha, dava
fortes pancadas nas paredes e parecia brincar de mudar, a todo
momento, de lugar. Vinte pessoas respeitveis a ouviram, ora
dentro de casa, ora na rua, e atestariam o fato, se fosse
preciso.
   Um fantasma de mulher, trazendo nos braos uma criana, se
mostrou muitas vezes  Sra. Hauffe. Como isso se desse com mais
frequncia na cozinha, fez que levantassem uma laje e  grande
profundidade foi achado o cadver de uma criana.
   Em Weinsperg, a alma de um guarda-livros, que cometera
algumas infidelidades durante a vida, lhe apareceu, de
sobrecasaca preta surrada, pedindo dissesse  sua viva que no
ocultasse mais os livros em que se encontravam suas
escrituraes falsas e indicou os lugares onde eles estavam,
para que os entregasse  justia. Ela atendeu ao pedido e com o
auxlio daqueles livros foram reparadas algumas fraudes do
morto.
   Em Lenach, foi a alma de um burgomestre chamado Bellon,
morto em 1740 com a idade de 79 anos, quem se lhe apresentou a
pedir conselhos para escapar  perseguio de dois rfos. Ela
lhe deu os conselhos solicitados e, ao cabo de seis meses, a
alma no mais voltou.
   Essa morte est mencionada nos registros da parquia de
Lenach, com uma nota assinalando que o burgomestre causara dano
a muitas ciranas das quais era tutor".
   Acrescenta o Dr. Kerner que poderia citar uma vintena de
aparies, cuja autenticidade foi depois verificada. Estando
perfeitamente reconhecida a honradez desse doutor e achando-se
quase sempre de cama a Sra. Hauffe, sem poder locomover-se e
cercada de membros de sua familia, nenhum embuste fora possvel.
So, pois, reais os fatos e, se bem hajam ocorrido muito tempo
antes que se falasse de Espiritismo, guardam as maiores
analogias com os que presentemente se observam.

   A correspondncia entre Billot e Deleuze

   Ouamos agora uma segunda testemunha abonada, mdico e homem
honestssimo, o venervel Billot, afirmando, na correspondncia
que manteve com Deleuze (44), sua crena nos Espritos.
  ::::::::::
  (44) "Correspondncia sobre o magnetismo vital "etc., por G.
Billot, doutor em medicina, Paris 1839.
  ::::::::::
   "Um fenmeno que provasse positivamente a existncia dos
Espritos, desses seres imateriais que, segundo os espritos
fortes, no podem de maneira alguma cair ao alcance dos
sentidos do homem, seria sem dvida prprio para excitar a
curiosidade pblica e, sobretudo, prender a ateno dos sbios
de todos os pases, quaisquer que fossem as suas opinies a
respeito'''. Pois bem, tal fenmeno existe. Esta assero que,
 primeira vista, tem visos de paradoxo, para no dizer de
extravagncia, nem por isso deixa de encerrar uma grande
verdade." (45)
  ::::::::::
  (45) Billot -- "Correspondncia", t. I, pg.37.
  ::::::::::
   Refere o nosso autor que fez parte, durante longo tempo, de
uma associao de magnetizadores e pacientes, onde observou
fenmenos de comunicao com os Espritos, o que determinou a
sua crena num mundo invisvel, povoado pelas almas das pessoas
mortas.
   "As sesses comeavam pela parte mstica, isto , pela
_atanatofania, ou apario  dos Espritos, e terminavam pela
parte mdica, isto , pelo _rafaelismo, ou medicina _anglica.
Quando digo apario, no quero significar que os Espritos se
tornassem visveis aos associados, pois que s o eram para os
sonmbulos. Entretanto, a presena deles era indicada por algum
sinal positivo, fato que posso atestar, pela circunstncia de
ser eu o encarregado de escrever tudo o que se passava naquelas
sesses".
   As mais das vezes as inteligncias que dirigem os sonmbulos
tomam formas de anjos. Vestem tnicas brancas, cintos de prata
e frequentemente asas. Acontece tambm reconhecerem, os lcidos,
pessoas do lugar, mortas h mais ou menos tempo. Mesmo no
estado normal, os pacientes percebem no raro a voz dos guias
invisveis.
   "Sinto, a princpio, diz um deles, ligeiro sopro, como o da
passagem de um zfiro suave, que logo me refresca e esfria o
ouvido. A partir da, perco a audio e entro a perceber um
zumbido fraco no ouvido, como o de um mosquito. Prestando ento
a mais acurada ateno, ouo uma vozinha que me diz o que em
seguida repito".
   Alucinao auditiva, dir o doutor moderno que ler esta
narrativa, alucinao provocada, provavelmente, por
auto-sugesto, ou por uma sugesto inconsciente do Dr. Billot.
Mas, semelhante explicao se tornar inadmissvel, desde que
se prove que o ser invisvel exerce uma ao fsica sobre o
sonmbulo, sem que este haja pensado no que vai acontecer e que
o fato, da primeira vez, ocorra na ausncia do doutor.
   Com efeito, esses guias espirituais podem atuar sobre o
corpo dos pacientes, pois o doutor foi testemunha de uma
sangria que por si mesma cessara, logo que o sangue sara em
quantidade suficiente, sem que, em seguida, houvesse
necessidade de fazer-se qualquer ligadura. (46)
  ::::::::::
  (46) "Correspondncia", t. I. pg. 93
  ::::::::::
   Nota-se a cada instante, nas cartas desse sbio, que ele,
durante muitos anos, assistiu a vises de Espritos,
cuidadosamente descritos pelos sonmbulos. Com um senso crtico
notvel, Billot submeteu seus pacientes a numerosas
experincias e s se pronunciou categoricamente, depois de
haver estudado por longo tempo. No se trata de um crente que
aceita s cegas todas as doutrinas. Ele raciocina friamente e
s  evidncia se rende. No lhe falta bom senso para no
atribuir as causas sobrenaturais a ao do Esprito sobre a
matria, no que apenas v o efeito de leis ainda ignoradas, mas
que um dia sero descobertas:
   "Quanto s aparies dos Espritos sobre o corpo, se algumas
h que se podem qualificar de prodigiosas, nem por isso so
contrrias  Natureza. Ora, havendo ainda muitas coisas ocultas
na Natureza, no  de espantar sejam tidos por sobrenaturais
certos fenmenos que, todavia, se incluem na ordem das coisas
criadas. E, se algumas leis da Natureza ainda se nos conservam
ocultas,  porque o homem ainda no foi estudado como o deve
ser, isto , em todas as suas relaes com a Criao". (47)
  ::::::::::
  (47) "Correspondncia", t. I, nota 2, pg. 305.
  ::::::::::
   Nessa correspondncia,  digno de observar-se o carter
particular de cada um dos contendores: Deleuze, frio e
desconfiado, com dificuldade se rende s prementes objurgaes
"do solitrio", conforme Billot se intitula. Entretanto, ele
concorda, afinal, em que pde observar pacientes que se achavam
em comunicao com as almas dos mortos.
   "O magnetismo, diz, demonstra a espiritualidade da alma e a
sua imortalidade: ele prova a possibilidade da comunicao das
Inteligncias separadas da matria com as que lhe esto ainda
ligadas; nunca, porm, me apresentou fenmenos que me
convencessem de que essa possibilidade se efetiva com
frequncia". (48)
  ::::::::::
  (48) "Correspondncia", t. II, pg. 18 e pg. 137.
  ::::::::::
   Um pouco adiante, torna-se mais afirmativo e escreve ao Dr.
Billot:
   "O nico fenmeno que parece estabelecer a comunicao com
as Inteligncias imateriais so as aparies, das quais h
muitos exemplos. Como estou convencido da imortalidade da alma,
no vejo razo para negar a possibilidade da apario das
pessoas que, tendo deixado esta vida, se preocupem com os que
lhe foram caros e venham apresentar-lhes para lhes darem
salutares conselhos. Acabo de colher um exemplo. Ei-lo:
   Uma moa sonmbula, que perdera o pai, por duas vezes o viu
muito distintamente. Viera dar-lhe conselhos importantes.
Depois de lhe elogiar o proceder, anunciou-lhe que um partido
se lhe ia apresentar; que esse partido pareceria convir e que o
rapaz no lhe desagradaria; mas, que ela no seria feliz
desposando-o, que, portanto, o recusasse. Acrescentou que, se
ela no aceitasse esse partido, outro logo depois apareceria,
devendo achar-se tudo concludo antes do fim do ano. Estava-se
no ms de outubro.
   O primeiro rapaz foi proposto  me da moa; esta, porm,
impressionada com o que o pai lhe dissera, o recusou.
   Um segundo jovem, que acabava de chegar da provncia, foi
apresentado por amigos; pediu a donzela em casamento,
realizando-se este a 30 de dezembro.
   No pretendo dar este fato como prova sem rplica da
realidade das aparies; mas, quando nada, ele a torna tanto
mais verossmil, quanto se sabe que h outros fatos do mesmo
gnero".
   A fim de levar seu amigo a uma crena completa, decide-se
Billot a lhe narrar os fenmenos de trazimentos de que fora
testemunha. Aqui, no se pode duvidar de que uma inteligncia
estranha aos assistentes esteja em comunicao com a sonmbula,
pois que fica sempre uma prova tangvel dessa ao
supraterrestre.
   Eis como nosso doutor relata o fenmeno:
   "Tomo a Deus por testemunha da verdade contida nas
observaes que se seguem''' a causa ressaltar to-s das
demonstraes materiais e cair sob a percepo dos sentidos,
por virtude da observaes da experincia".

   Primeira observao

   "Uma senhora, atacada, havia algum tempo, de cegueira
incompleta, solicitava dos nossos sonmbulos um auxlio que
detivesse os progressos da amaurose que, em breve, no lhe
permitiria distinguir das trevas a claridade. Certo dia (a l7
de outubro de 1820), dia de sesso, disse a sonmbula
consultada: Uma donzela me apresenta uma planta''' toda
coberta de flores''' no a conheo absolutamente''' no me
dizem o nome''' entretanto, ela  necessria  Sra. J'''"
P. -- Onde encontr-la? Perguntei, uma vez que nos campos
nenhuma planta temos em florao, achando-nos, como nos
achamos, na estao fria (49). Ser preciso procur-la longe
daqui?
   R. -- No se preocupe, responde a sonmbula, ela nos ser
trazida, se for preciso.
  ::::::::::
  (49) O Dr. Billot residia em Mont-Luberon, perto de Apt.
  ::::::::::
  Como insistssemos para saber em que lugar a donzela nos
quereria indicar a referida planta, a senhora cega, que se
achava presente, defronte da sonmbula, exclamou: "Meu deus!
palpo uma toda florida no meu avental; acabam de dep-la a'''
Veja, Virgnia (era o nome da sonmbula)''' veja: ser a que
lhe ela apresentava h pouco? -- Sim, senhora,  essa mesma,
respondeu Virgnia. Louvemos a Deus, agradecendo-lhe esse
favor".
   "Examinei ento a planta. Era um arbsculo, quase com um
tomilho de tamanho mdio. As flores, labiadas e em espigas,
_exalavam _delicioso _perfume. Pareceu-me o tomilho de Creta.
Donde vinha ela? Do seu pas natal, ou de alguma estufa? No o
soube. O que sei muito bem  que possuo dessa planta uma haste
que a donzela me concedeu, depois de muitas instncias."
   A quem, lendo-lhe o livro, se haja convencido da boa-f e da
lealdade do Dr. Billot, no ser possvel pr em dvida a
sinceridade dessa narrativa. Diremos, pois, com ele: "No prova,
esta primeira observao, de maneira irrecusvel, o
espiritualismo? Haver mister comentrios? No pe ela por
terra qualquer teoria diferente da que expomos (interveno dos
Espritos)? Incorremos em erro dizendo que s esta teoria pode
explicar to extraordinrio fenmeno?".
   Faremos notar que no havia ali possibilidade de fraude,
pois que a planta era desconhecida naquela regio e, ao demais,
com flores, quando a estao absolutamente no se prestava a
isso. No esqueamos tampouco o delicioso perfume que se
espalhou de sbito pelo aposento, quando a planta apareceu.
Este pormenor, por si s, bastaria para demonstrar a
autenticidade do fenmeno. Citamos este fato, no somente para
afirmar a realidade da viso, mas, tambm, para mostrar o poder
que possuem os Espritos de atuar sobre a matria, por
processos que ainda completamente desconhecemos.
   Deleuze no pe em dvida o fenmeno, porque outros
semelhantes lhe foram com frequncia descritos.
   "Tive esta manh, escreveu ele ao Dr. Billot, a visita de um
mdico muito distinto, homem de esprito, que j apresentou
vrias memrias  Academia das Cincias. Vinha para me falar do
magnetismo. Narrei-lhe alguns fatos de que voc me deu
conhecimento, sem, entretanto, declinar o seu nome. Respondeu-me
que disso no se admirava e me citou grande nmero de fatos
anlogos, que muitos sonmbulos lhe apresentaram. Voc bem
poder imaginar que fiquei muito surpreendido e que a nossa
conversao se revestiu do maior interesse. Entre outros
fenmenos, referiu-me ele o de objetos materiais que o
sonmbulo fazia vir  sua presena, fenmeno esse da mesma
ordem que o do aparecimento do ramo de tomilho de Creta'''"
   Por esse testemunho se v que os fenmenos de trazimento j
no eram ignorados nos comeos do sculo dezenove, o que mais
uma vez demonstra a continuidade das manifestaes espritas
que constantemente se ho dado, mas que o pblico rejeitava
como diablicas, ou considerava apcrifas, se no produzidas
por charlates.
   Se nos no faltasse espao, divulgaramos como Billot
entrava em comunicao com os Espritos, por intermdio do dedo
de seu paciente, ento perfeitamente vgil, mediante uma
espcie de tiptologia especial. Limitar-nos-emos a recomendar
ao leitor essa interessante correspondncia, a fim de podermos
dar a palavra a outras testemunhas.

   As narraes de Chardel

   Vamos agora apresentar alguns extratos das narrativas de
Chardel, os quais instruem ao mesmo tempo sobre as relaes dos
sonmbulos com o mundo dos desencarnados e sobre o estado do
sonmbulo durante o sonambulismo. (50)
  ::::::::::
  (50) Chardel -- "Fisiologia do Magnetismo", pgs. 85, 87 e 328.
  ::::::::::
   Certa vez, estando a ditar algumas prescries teraputicas
ao seu magnetizador, disse-lhe em tom singular a sonmbula
Lefrey:
 -- "Veja bem que ele mo ordena.
 -- Quem , pergunta o doutor, que lhe ordena isso?
 -- Ora! Ele; o senhor no ouve?
 -- No, a ningum ouo, nem vejo.
 -- Ah! Tem razo, replica ela, o senhor dorme, ao passo que eu
estou desperta'''
 -- Como voc, minha cara, est a sonhar, pretende que eu durmo,
se bem me ache com os olhos perfeitamente abertos e a tenha sob
a minha influncia magntica, dependendo to-s da minha
vontade faz-la voltar ao estado em que se encontrava ainda h
pouco. Voc se julga desperta porque me fala e dispe, at
certo ponto, do seu livre-arbtrio, embora no possa levantar
as plpebras.
 -- O senhor est adormecido, repito-o. Eu, ao contrrio, estou
quase to completamente acordada, quanto o estaremos um dia.
Explico-me: tudo o que o senhor pode ver, atualmente, 
grosseiro, material; de tudo o senhor distingue a forma
aparente; as belezas, reais, porm, lhe escapam, enquanto que
eu, que estou com as minhas sensaes corporais temporariamente
suspensas, que tenho a alma quase inteiramente liberta de seus
entraves habituais, vejo o que lhe  invisvel, ouo o que seus
ouvidos no podem escutar, compreendo o que lhe 
incompreensvel.
   Por exemplo, o senhor no v o que sai do seu corpo e vem
para mim, quando me magnetiza; eu, entretanto, vejo isso muito
bem. A cada passe que o senhor me d, vejo sair-lhe das
extremidades dos dedos como que pequenas colunas de uma poeira
gnea, que se vem incorporar em mim e, quando o senhor me isola,
fico por assim dizer envolta numa atmosfera ardente, formada
dessa mesma poeira gnea (51). Ouo, quando o quero, o rudo
que se faz ao longe, os sons que partem e se espalham a cem
lguas daqui. Numa palavra: no preciso que as coisas venham a
mim: posso ir ter com elas, onde quer que estejam, e
apreci-las com muito maior exatido, do que o poderia qualquer
outra pessoa que no se encontre em estado anlogo ao meu".
  ::::::::::
  (51) No se diga, a este propsito, que a sonmbula estava
sugestionada pelo seu magnetizador, pois este ignorava a
existncia dos eflvios. Consulte-se de Rochas, "Exteriorizao
da sensibilidade". Vejam-se as experincias em que ele
determinou a objetividade desse fenmeno, com um paciente cuja
viso era controlada pelo estudo espectroscpico da refrao
e da polarizao dos eflvios que se desprendiam dos dedos do
magnetizador. Os comprimentos de onda indicados pelo vidente
eram os que correspondiam ao vermelho e ao violeta, cores
vistas realmente como a emanarem do magnetizador.
  ::::::::::
   Refere tambm o autor da "Fisiologia do Magnetismo" que uma
sonmbula costumava ter,  noite, uma espcie de xtase, que
explicava assim:
   "Entro, ento, num estado semelhante ao em que o
magnetizador me pe e, dilatando-se o meu corpo pouco a pouco,
vejo-o muito distintamente longe de mim, imvel e frio, como se
estivesse morto. Quanto a mim, assemelho-me a um vapor luminoso
e sinto-me a pensar separada do meu corpo. Nesse estado,
compreendo e vejo muito mais coisas do que no sonambulismo,
quando a faculdade de pensar se exerce sem que eu esteja
separada dos meus rgos. Mas, escoados alguns minutos, um
quarto de hora, no mximo, o vapor luminoso de minha alma se
aproxima cada vez do meu corpo, perco os sentidos, cessa o
xtase".
   Acrescenta o autor que, chegando a esse grau de expanso do
sistema nervoso, o homem espiritualizado, ou, se o preferirem,
fluidificado em todo o seu ser, goza de todas as faculdades dos
a quem se chama Espritos e que somente nesse estado  que se
acha, por assim dizer, quebrada e completamente difundida a
centralizao da sensibilidade nervosa.
   Havemos de ver que a narrativa dessa sonmbula, referente ao
estado de vapor luminoso que ela assume desde que sai do seu
corpo, tem a confirm-la experimentalmente os trabalhos de de
Rochas sobre a exteriorizao da sensibilidade.
   Prossigamos.
   Outra sonmbula que, como essa, tinha, durante a noite,
vises que em nada se assemelhavam aos sonhos ordinrios e que
a deixavam em extrema fadiga, disse um dia ao mesmo doutor:
"Parecia que me achava suspensa nos ares, sem forma material,
tornada por inteiro vapor e luz, e que lhe mostrava, deitado na
cama, qual verdadeiro cadver, o meu corpo. Veja, dizia-lhe eu,
est morto e assim estar dentro de trinta dias. Depois,
insensivelmente, aquela luz, que eu sentia ser eu mesma, se
aproximou do cadver, meteu-se nele e recuperei os sentidos,
exausta como aps longo e penoso sono magntico".

   Outros testemunhos

   Para os que crem na imortalidade da alma, indubitvel se
torna que, sendo possvel a comunicao com os Espritos, quem
haja de realiz-la tem que se colocar numa posio to prxima
quanto possvel da em que se achar depois da morte.
   Ora, com certos pacientes, o sonambulismo parece
eminentemente apropriado a dar esse resultado. Momentaneamente
desprendido, ao menos em parte, do lao fisiolgico, o Esprito
se encontra num estado quase idntico ao em que um dia se
achar permanentemente. Ao demais, se admitirmos que as almas
desencarnadas se comunicam entre si, o que parece evidente,
claro se faz que elas podero manifestar-se aos sonmbulos,
quando estes se acharem mergulhados no sono magntico.
   Isso os magnetizadores, em sua maioria, se viram obrigados a
reconhecer. Malgrado ao seu cepticismo, diz o Dr. Bertrand (52),
falando de um sonmbulo muito lcido:
  ::::::::::
  (52) Dr. Bertrand -- "Tratado de Sonambulismo", caps. III e V.
  ::::::::::
   "Essa mulher se exprimia sempre como se um ser distinto,
separado dela e cuja voz se fazia ouvir na regio do estmago,
lhe houvesse transmitido todas as noes extraordinrias que
ela manifestava em sonambulismo. Verifiquei o mesmo fenmeno na
maior parte dos sonmbulos que tenho observado. O caso mais
vulgar  o em que ao sonmbulo parece que os acontecimentos
que ele anuncia lhe so revelados por uma voz".
   O baro du Potet, por longo tempo incrdulo, foi, a seu
turno, constrangido a confessar a verdade. Informa ele como
encontrou de novo, no magnetismo, a espiritologia antiga e
quais os exemplos que o levaram a crer no mundo dos Espritos,
mundo que diz (53), "o sbio rejeita como um dos maiores erros
dos tempos idos, mas em o qual o homem profundo  induzido a
acreditar por efeito de exame srio dos fatos".
  ::::::::::
  (53) Du Potet -- "Jornal do Magnetismo" 1862, primeira semana.
  ::::::::::
   Noutro lugar (54), afirma que se pode entrar em relaes com
os Espritos desprendidos da matria, ao ponto de obter-se
deles aquilo de que se tenha necessidade.
  ::::::::::
  (54) Du Potet -- "A Magia desvendada"
  ::::::::::
   Poderamos multiplicar as citaes tomadas  rica biblioteca
do magnetismo espiritualista e mostrar que Charpignon, Ricard,
o padre Loubet, Teste, Aubin, Gauthier, Delaage, etc., creram
nas comunicaes entre vivos e desencarnados. No devemos,
porm, esquecer que o nosso objetivo especial  o estudo do
perisprito e, por isso, passamos imediatamente a um
pesquisador consciencioso, homem de boa-f, Cahagnet, que foi
quem melhor estudou esses fenmenos.

   As experincias de Cahagnet

   At aqui ouvimos muitos magnetizadores afirmando a realidade
das relaes do nosso com um mundo supranormal. As mais das
vezes, os pacientes vem "seus guias" ou "anjos guardies", que
eles quase sempre descrevem como sendo um belo jovem, vestido
de branco. As vises, muito frequentemente, so msticas:  a
Virgem que aparece; recitam preces para afastar os maus
Espritos. Raramente a personagem descrita  um defunto.
   Ser que sempre os pacientes vem personagens reais? No o
cremos; a maior parte do tempo, so sugestionados pelo
experimentador e tambm pela prpria imaginao. Devemos, pois,
preservar-nos cuidadosamente de dar qualquer crdito s suas
afirmaes, desde que estas no assentem em provas absolutas,
do gnero das que reproduzimos, apresentadas pelo Dr. Billot.
   Carece de valor positivo a viso de um Esprito, se no h
certeza absoluta de que no se trata de uma auto-sugesto do
sonmbulo, ou de uma transmisso de pensamento do operador.
   O seguinte fato, que o Dr. Bertrand citou numa de suas
conferncias e que o general Noizet reproduziu,  prova
convincente do que dizemos. (55)
  ::::::::::
  (55) General Noizet -- "Memrias", pg. 128. Citado por
Ochorowicz, pg. 279.
  ::::::::::
   Um magnetizador muito imbudo de idias msticas tinha um
sonmbulo que durante o sono s via anjos e Espritos de toda
espcie, vises essas que serviam para confirmar cada vez mais
a crena religiosa do primeiro. Como ele costumasse mencionar,
em apoio do seu sistema, os sonhos desse sonmbulo, outro
magnetizador tomou a si desilud-lo, mostrando-lhe que o
referido sonmbulo s tinha as vises que ele relatava, porque
no seu prprio crebro existia o tipo de tais vises. Para
provar o que avanava, props-se a fazer que o mesmo sonmbulo
visse todos os anjos do paraso reunidos em torno de uma mesa
a comer um peru. Adormeceu ento o sonmbulo e, ao cabo de
algum tempo, lhe perguntou se no via algo de extraordinrio.
Respondeu o interrogado que estava vendo uma grande reunio de
anjos.
-- Que fazem eles? Inquire o magnetizador. -- Esto ao redor de
uma mesa e comem. No pde, entretanto, precisar qual o
alimento de que se serviam.
   Cumpre, portanto, se observe extrema circunspeo em aceitar
narrativas de sonmbulos, pois toda gente sabe que eles s
vezes so muito sugestionveis, mesmo mentalmente. Desconfiemos
de descries do paraso e do inferno, quais as tm feito
pacientes e msticos de todos os pases e de todas as pocas.
   Com Cahagnet (56) tudo  completamente diverso. J no so
seres anglicos que se mostram, mas Espritos que viveram entre
ns e que se tornam reconhecveis por se apresentarem com o
mesmo aspecto que tiveram neste mundo, com vesturios
semelhantes aos que aqui usavam. So ntidas e precisas as suas
recordaes e do provas de discernimento e de vontade, como se
ainda estivessem na Terra. No so simples reproduo de
imagens dos seres desaparecidos: so individualidades que
conversam, se movem, vivem e afirmam categoricamente que a
morte no as atingiu. J h nisso alguma coisa de verdadeiro
Espiritismo; da, aquele "tolle" geral, quando apareceram "Os
Arcanos da vida futura desvendados". Tudo o que a ignorncia, o
fanatismo, a tolice reeditaram posteriormente contra a nossa
doutrina foi ento despejado sobre o pobre magnetizador.
Ouamos o seu doloroso lamento.
  ::::::::::
  (56) Cahagnet -- "Os Arcanos da vida futura desvendados",
t.III, pgs. 80-81.
  ::::::::::
   Nosso adversrio, o baro du Potet (57), nos dissera as
seguintes palavras, para ns profticas, quando publicamos o
primeiro volume desta obra: "O senhor trata destas questes com
a excessiva antecipao de vinte anos; o homem ainda no est
preparado para as compreender".
   Ah! Respondemos, porque ento banha ele de suas lgrimas as
cinzas dos que julga haver perdido para sempre? Em que momento
da existncia humana poderemos chegar mais a propsito, para
dizer a esse homem: Consola-te, aquele que supes separado de
ti para sempre se acha a teu lado, a te afirmar, por meu
intermdio, que est vivo, que se sente mais ditoso do que na
Terra e que te aguarda em esferas prximas para continuar em
intimidade contigo. Se no queres acreditar no que te digo,
atenta na linda cabea desta criana, que chora porque te v
chorar, porque lhe dizes que ela no tornar a ver sua querida
mame. Pe-lhe a mo na fronte e, ao cabo de poucos minutos, tu
a vers sorrir para aquela que julgas morta e a ouvirs
contar-te o que  feito de sua me, onde est e o que faz. No
poders duvidar um instante de que esse mrmore que te apavora
 a porta do templo da imortalidade, onde viveremos todos
eternamente, para eternamente nos amarmos.
   Digo isto a esse irmo infortunado e ele, em vez de me
apertar a mo em sinal de reconhecimento, me lana um olhar de
desprezo, exclamando: "Este homem est louco"!
  ::::::::::
  (57) Antes da sua converso
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   Mas, era um lutador soberbo esse trabalhador, que teve a
glria de fazer-se o que foi: um dos pioneiros da verdade.
Combateu vigorosamente seus contraditores, reduzindo-os ao
silncio. Os dois primeiros volumes dos Arcanos contm as
descries de experincias realizadas com oito extticos que
possuam a faculdade de ver os Espritos desencarnados. O ponto
culminante foi atingido com um deles, Adlia Maginot, com quem
ele obteve longa srie de evocaes. H na obra mais de 150
atas firmadas por testemunhas que declaram haver reconhecido os
Espritos que a sonmbula descreveu.  esse um fato
importantssimo, para o qual nunca ser demais chamar a ateno.
No se pode razoavelmente supor que homens pertencentes a todas
as esferas sociais, de indiscutvel honradez, se hajam
conluiado para atestar mentiras. H, pois, nessas experincias
uma nova estrada, uma mina frtil a ser explorada pelos
pesquisadores vidos de conhecimentos sobre o alm. Eis aqui um
exemplo que mostra como habitualmente as coisas se passavam (58).
  ::::::::::
  (58) Cahagnet -- "Arcanos", t. II, pgs. 94 e seguintes.
  ::::::::::

   Uma evocao

   "O Sr. B''', magnetizador e subscritor dos Arcanos, deseja
uma sesso de apario. Logo que Adlia cai em estado
sonamblico, chamamos o Sr. B''' Ernesto, Paulo, morto, irmo
do Sr. B'''. A essa sesso assiste a me deste senhor.
   Diz Adlia: Ei-lo! D-nos alguma indicao? Vejo-lhe os
cabelos castanho-claros, fronte bela e ampla, olhos tendendo
para o pardo, sombrancelhas bem arqueadas, nariz um tanto
pontiagudo, boca mdia; tez clara, plida e delicada, queixo
redondo, corpulncia fraca, se bem deva ter sido forte; a
molstia o enfraqueceu muito; traz um costume de cor escura
(azeitona, creio); tem ar dolente, calmo e sofredor;
provavelmente sofreu do corao e do peito, experimentou
fraquezas nas pernas. No andava isento de pesares, muito se
afligia intimamente, sem deixar que o percebessem; ficava s
vezes pensativo, absorvido por idias sombrias; amava a uma
pessoa, donde boa parte das suas penas; era muito sensvel.
 -- Que idade ele te parece ter? -- Cerca de vinte e cinco anos;
seu estmago se fatigou muito com excessos da mocidade.
 -- Quem o recebeu no cu? -- Seu av. -- Teve, de fato, seu pai
uma viso em que o viu no cu ao lado de sua av? --  verdica
essa viso, mas quem primeiro o recebeu foi seu av paterno,
que ele conheceu na Terra; esse av lhe estendia os braos nos
quais ele se precipitou; sua av estava entre os outros, no
faltava gente a esper-lo'''. No acreditava no magnetismo, mas
pede que eu diga a seu irmo que agora acredita.
 -- Quem velava o seu cadver? -- Sua famlia. -- Onde foi
enterrado? -- No Pre-Lachaise.-- Seus restos ficaram sempre no
mesmo tmulo? -- No; foram reunidos aos de seu av, desse que
primeiro o recebeu no cu. -- Quais as pessoas que iam logo
aps o seu esquife? -- Dentre todos, ele distinguiu melhor seu
irmo. -- Adlia est fatigada; terminamos.
   O Sr. B''' ficou encantado com essa experincia; a senhora
sua me se mostra imersa na mais profunda dor; seu filho lhe
manda dizer por Adlia que no chore, que ele  mais feliz do
que ela; desejara que ela conclusse o tempo de suas provas;
fora visit-la muitas vezes durante o sono para a consolar, no
tendo feito que se lembrasse de suas visitas para lhe no
aumentar a amargura dos pesares. Apareceu do mesmo modo ao
senhor seu irmo e ainda lhe aparecer. Agradece-lhe o t-lo
sepultado.
   O Sr. B''' no descobre uma slaba a suprimir desse acervo
de detalhes; a senhora sua me apenas alimenta certas dvidas
quanto  cor dos olhos; no pode lembrar-se qual exatamente era.
Permitiu Deus que a nossa f mais se fortalecesse. O Sr. B'''
desejando, por questes de famlia, ocultar o seu nome, assinou
uma segunda via da ata desta sesso, para me garantir, no
futuro, contra as reticncias que alguns homens desmemoriados e
chicanistas possam opor  realidade do que ouviram e
reconheceram verdadeiro. Daqui por diante procederei assim.
   No dia seguinte ao dessa sesso, o Sr. B''' veio a nossa
casa para dizer que, em consequncia daquela apario, ele
convocara uma reunio de famlia, a fim de se certificar da cor
exata dos olhos de seu irmo; a generalidade das recordaes foi
favorvel  cor que Adlia descrevera. Grande satisfao me deu
essa particularidade, porque, havendo aquele senhor dito a
Adlia: --  A senhora se engana; minha me acha que os olhos
eram azuis; persiste a senhora em v-los castanhos? --  ela
respondeu: -- Ser-me-ia muito fcil concordar com a senhora sua
me, uma vez que ela os julga tais e que isso confirmaria a
verdade de tudo o que por mim foi dito; mas, eu mentiria e no
diria o que vejo. Para mim, so castanhos. -- Foi em face dessa
afirmativa que aquele senhor convocou para uma reunio os
membros de sua famlia e se considerou no dever de me dar
cincia do resultado de tal reunio".
   A cada passo, encontram-se nesses volumes provas semelhantes.
Fora, porm, conhecer mal a nossa poca imaginar-se que essas
narrativas tiveram o dom de determinar convices. Ningum
jamais contestou a boa-f de Cahagnet; seus contemporneos o
reconheceram homem honesto, incapaz de alterar a verdade, mas,
pretenderam que aqueles fenmenos podiam explicar-se todos por
uma transmisso de pensamento, a se operar entre o consultante
e o paciente.
   Podemos certificar-nos do nenhum valor dessa objeo, neste
caso, desde que atentemos nas circunstncias que acompanharam a
apario. Ela conversa, manda dizer  sua me, por Adlia, que
no se atormente. E porque aquela imagem estaria associada  do
av paterno, quando, no pensamento da me e do irmo, o av do
morto era quem o devera ter recebido no Alm? (59)
  ::::::::::
  (59) A sonmbula emprega a palavra cu para designar a
erraticidade, isto , o espao que cerca a Terra.
  ::::::::::
   Alis, para responder a semelhante objeo, que foi a arma
sempre  mo dos incrdulos, o autor relata certo nmero de
aparies s quais ainda menos aplicvel  a mencionada
explicao. (60)
  ::::::::::
  (60) Cahagnet --  "Arcanos", V, pgs. 98-99
  ::::::::::
   Aqui est uma, entre muitas outras.
   "O padre Almignana, j citado, parecendo no mais convencido
pelos detalhes que, sobre a apario de seu irmo, Adlia lhe
fornecera e que ele solicitara na segunda sesso , veio
comunicar-me suas dvidas a respeito. No momento Adlia estava
adormecida. Ele me pediu evocasse a irm de sua criada, que se
chamara Antonieta Carr e morrera havia alguns anos (61).
Evoquei-a.
  ::::::::::
  (61) Mais tarde, este senhor me disse que reconhecera
inteiramente exatos todos os detalhes da apario de seu irmo;
outros, porm, lhe tinham lanado dvidas no esprito, dizendo
que essas aparies eram simples transmisso de pensamento.
Para se convencer do contrrio  que pedira fosse chamada uma
pessoa que lhe era desconhecida. (Nota de Cahagnet).
  ::::::::::
   Disse Adlia: -- Vejo uma mulher de altura mediana, cabelos
castanho-claros, de cerca de 45 anos, no bonita, de pequenos
olhos cinzentos, nariz grande um tanto grosso na extremidade,
tez amarelada, boca chata; tem o que chamamos papeira;
faltam-lhe dentes da frente, sendo os poucos que lhe restam
escuros como tocos; suas vestes so as que no campo se
denominam trajes caseiros: corpete escuro, saia listrada um
tanto curta; avental de chita em torno do corpo; no pescoo um
leno de quadrados; suas mos denotam trabalhos pesados;
trabalhava no campo; tinha um irmo que morreu depois dela; no
est, porm, no mesmo plano que ela, porque, sem ser um mau
sujeito, no era muito regrado. Essa mulher me d a impresso
de ter sido muito boa.
   O Sr. Almignana levou escritos esses pormenores e me
endereou uma carta donde extraio as passagens seguintes:
   Depois de ter lido quatro vezes, para Maria Francisca
Roslia Carr, os sinais acima, ela me declarou que eram to
exatos, que no podia deixar de reconhecer sua prpria irm,
Antonieta Carr, na mulher que aparecera  sonmbula. Quanto a
seu irmo, confirma que morreu depois da irm, como dissera
Adlia. Acrescenta uma circunstncia que no deixa de ser digna
de nota: diz ter sonhado, na noite de 30 para 31 de janeiro
(vspera da sesso), que se achava junto do tmulo da irm e do
irmo, mas que sua ateno era mais solicitada pela primeira.
(Ela jamais sonhara com a irm desde que esta morrera).
   Assinado: Almignana".
   "Farei notar, a meu turno, que o padre Almignana, como a sua
criada, no sabiam no dia dessa sesso, que chamaramos aquela
mulher. Foi de improviso que lhe dirigi a seguinte pergunta:
Conhece algum morto cuja apario pudesse convenc-lo? Ele me
respondeu: Chame a irm de minha criada; assim, nenhuma
influncia haver, nem comunicao de pensamento, pois a minha
criada no est aqui e nada sabe do que se vai passar. Como se
acaba de ver, o xito foi completo. Aquela mulher, para melhor
provar a seu patro que o que ele ouvira era verdade, disse ter
sido ela quem dera  irm o leno descrito. A apario de
Antonieta Carr  de molde a destruir a objeo malvola da
transmisso de pensamento, ou, ento, somos todos loucos,
pretendendo provar a asnos a existncia da alma".

   Mais um pormenor referente a essa apario:

   "O Sr. Almignana, alguns dias aps aquela sesso, veio a
nossa casa e me contou que a sua criada se encontrara na
vspera com um homem da sua terra, para o qual lera, pois que
os tinha consigo, os sinais da irm, perguntando-lhe se
conhecia a pessoa a quem os mesmos se referiam. O homem lhe
respondeu: Mas,  de sua irm morta o retrato que a senhora me
faz;  da gente no se enganar. A criada do Sr. Almignana
ponderou ao homem que entre os sinais se mencionava um pequeno
boto na face e que ela, entretanto, jamais notara na irm
nenhum sinal desse gnero. Ao que o homem replicou: Est
enganada; tinha ela um aqui (e mostrou o lugar). Maria Francisca
se recordou e ainda mais convencida ficou, assim como o Sr.
Almignana, desejoso dessa exatido perfeita, que nenhum
cabimento deixa  dvida.
   Foi necessria uma terceira pessoa para estabelecer a
realidade daquele pormenor que, portanto, no podia ter sido
visto no pensamento de pessoa alguma. (Eu esquecera de mencionar
esse pequeno sinal nas indicaes que acima se lem)".
   So dessa natureza os fatos que firmam convico. Reportando-se
aos Arcanos, a encontrar o leitor grande nmero deles. As
narrativas que contm constituem documentos preciosos,
porquanto se acham autenticados; mostram que o Esprito
conserva ou pode retomar no espao a forma que tinha na Terra.
Reprodu-la com extraordinria fidelidade, de maneira a ser
reconhecido, mesmo por pessoas estranhas. Esses seres, que se
apresentam ao vidente, afirmam suas personalidades por meio de
uma linguagem idntica  de que usavam neste mundo e pela
revelao de particularidades de suas vidas passadas, que
somente eles podiam conhecer.
   Um ponto ainda nos deve prender a ateno. Compreende-se que
a alma humana seja imortal, pois difere do corpo; que constitua
uma unidade indecomponvel; menos compreensvel , no entanto,
que ela possa apresentar-se revestida de roupas. Onde toma tais
roupas, que, evidentemente, no so imortais? Estudaremos mais
longe esta questo e esperamos deix-la inteiramente elucidada.
Vejamos como Cahagnet a explica (62):
  ::::::::::
  (62) Cahagnet -- "Arcanos", t. III, pgs. 75 e seguintes.
  ::::::::::
   "O Sr. Du Potet, apreciando o primeiro volume desta obra,
ridiculizou o que dizemos acerca das vestes com que se
apresentam os Espritos que chamamos s nossas sesses de
aparies, exclamando: V o senhor tal Esprito uniformizado
de guarda nacional? Outro crtico, insistindo na mesma
apreciao, chegou a nos negar a possibilidade de conservar com
esses Espritos no pato que falamos. Em consequncia,
negou-se a admitir que eles usem vestes terrenas.
   O nmero 162 do Jornal do Magnetismo traz uma narrativa
muito curiosa sobre as manifestaes espirituais que
presentemente se do na Amrica e pelas quais os Espritos
estabelecem relaes com os homens da Terra, conversam com eles
e lhes tornam sensveis as suas presenas, por meio de
contactos, transportes de mveis e rudos que todos os
espectadores escutam.
   O autor desse artigo, caindo nos mesmos erros do Sr. Du
Potet, parece no admitir que os Espritos se mostrem
envergando roupas que os assistentes afirmam ver.
   Perguntaremos a esses escritores se prefeririam que os
Espritos nos aparecessem em trajes de Ado?
   Perguntar-lhes-emos, ao demais, quem lhes provaria que eles
so seres pensantes, se no falassem? Quem lhes provaria que no
so simples imagens de trespassados, daguerreotipadas na
memria do interrogante, se no respondessem s perguntas deste,
no pato que falamos, est claro, para que os compreendamos?
   Se no tivessem uma linguagem to representativa como a
terrestre, dir-se-ia que ningum os pode interrogar.
   Se nos respondessem numa linguagem musical, aromtica ou
sensitiva, dir-se-ia que so linguistas orgulhosos, que no
querem conspurcar a lngua que falam com as frases e os sons de
que se serviam na Terra.
   Se vm vestidos neste mundo, so tidos como extremamente
vulgares e fora do progresso das modas terrestres.
   Se se trajam mais elegantemente, acham que esto muito
agarrados ao ideal das Mil e Uma Noites.
   Se se mostram nus, so considerados impudicos e toda gente
quer saber como  que trajavam na Terra.
   Com que tecido querem ento que eles se cubram? Qualquer
tecido, por mais espiritualizado que seja, ser sempre um
tecido que exigiu um tecelo".
   A verdade  que o Esprito cria, voluntariamente ou no, a
sua vestidura fludica, conforme mais tarde o veremos.
   Em suma, a idia de um corpo espiritual da alma se libertou
duma parte de sua obscuridade. Graas ao sonambulismo, j nos
achamos de posse de um meio de ver os Espritos e de nos
certificarmos de que eles se apresentam com uma forma corprea
que reproduz fielmente o corpo fsico que tinham na Terra. Isto
j no  uma hiptese;  um fato resultante da observao
experimental. Mister se torna ler os numerosos atestados que se
encontram no fim do seu segundo volume, para ficar bem
persuadido de que os trabalhos de Cahagnet no so isolados.
Foram retomados e verificados por grande nmero de
magnetizadores, que afirmaram ter obtido os mesmos resultados.
Para ns, portanto,  fora de questo e fcil se nos torna
renovarmos esses fenmenos, pois basta nos coloquemos nas
condies indicadas pelo autor.
   Vamos ver agora, atravs de experincias feitas em companhia
de mdiuns, bem como por meio das aparies espontneas, que 
uma lei geral essa em virtude da qual a alma se mostra aps a
morte, com aparncia idntica  que tinha quando vivia no corpo.

   CAPTULO III

   TESTEMUNHOS DOS MDIUNS E DOS ESPRITOS A FAVOR DA
   EXISTNCIA DO PERISPRITO

   SUMRIO:
   Desprendimento da alma - Vista espiritual - O Espiritismo
d certeza absoluta da existncia dos Espritos, pela viso e pela
tiptologia simultneas - Experincias do Senhor Rossi Pagnoni e do
Dr. Moroni - Uma viso confirmada pelo deslocamento de um objeto
material - O retrato de Verglio - O avarento - A criana que v
sua me - Tiptologia e vidncia - Consideraes sobre as formas dos
Espritos.

   Verificamos que alguns sonmbulos, mergulhados em sono magntico,
podem ver os Espritos e descrev-los fielmente. Mas, essa
faculdade possuem-na tambm pessoas no adormecidas, s quais foi
dado o nome de mdiuns videntes.
   Para bem compreendermos o que ento se passa, precisamos no
esquecer que, na vida ordinria, quem v no  o olho, como quem
escuta no  o ouvido. O olho no passa de instrumento destinado
a receber as imagens trazidas pela luz; a isso se limita o seu
papel. Por si mesmo, ele  incapaz de fazer que distingamos os
objetos. Fcil prov-lo. Se o nervo ptico for cortado ou
paralisado, o mundo exterior no deixa, por isso, de se desenhar na
retina; o indivduo, porm, no o v; tornou-se cego, se bem se lhe
conserve intacto o rgo visual. A vista , pois, uma faculdade do
esprito; pode exercer-se sem o concurso do corpo, tanto que os
sonmbulos naturais ou artificiais vem a distncia, com os olhos
fechados (63). Quando esses fenmenos se produzem,  que se tem
ensejo de comprovar a existncia de um sentido novo, que se pode
designar pelo nome de sentido espiritual.
  ::::::::::
  (63) Consultem-se, a este respeito: o relatrio do Dr. Husson, de
28 de junho de 1831,  Academia das Cincias. -- Deleuze, "Memria
sobre a clarividncia dos sonmbulos". -- Rostan, artigo
"Magnetismo, no Dicionrio das cincias mdicas". -- Lafontaine,
"A arte de magnetizar". -- Charpignon, "Fisiologia, Medicina e
Metafsica do Magnetismo". -- Os casos citados nos "Proceedings" da
"Sociedade Inglesa de Pesquisas Psquicas". -- Gabriel Delanne, "O
Espiritismo perante a cincia", cap. III -- Vejam-se igualmente:
"As aparies materializadas dos vivos e dos mortos", t.I e II.
  ::::::::::
   O sonambulismo e a mediunidade so graus diversos da atividade
desse sentido. Um e outro apresentam, como se sabe, inmeros
matizes e constituem aptides especiais. Allan Kardec ps muito em
evidncia este fato (64). Ele faz notar que, afora essas duas
faculdades, as mais assinaladas por serem mais aparentes, fora
erro supor-se que o sentido espiritual s no estado excepcional
exista. Como os outros, esse sentido  mais ou menos desenvolvido,
mais ou menos sutil, conforme os indivduos. Toda gente, porm, o
possui e no  o que menos servios presta, pela natureza muito
especial das percepes a que d lugar. Longe de constituir a regra,
sua atrofia constitui a exceo e pode ser tida como uma
enfermidade, do mesmo modo que a carncia da vista ou da audio.
  ::::::::::
  (64) Allan Kardec -- "Revue Spirite", outubro de 1864, outubro de
1865, junho de 1867. Veja tambm, em "A Gnese", o cap. "Dos
fluidos"
  ::::::::::
   Por meio desse sentido  que percebemos os eflvios fludicos
(65) dos Espritos;  que nos inspiramos, sem o sabermos de seus
pensamentos; que nos so dadas as advertncias ntimas da
conscincia; que temos o pressentimento ou a intuio das coisas
futuras ou ausentes; que se exercem a fascinao, a ao magntica
inconsciente e involuntria, a penetrao do pensamento, etc. Tais
percepes so to peculiares ao homem como as da vista, do tato,
da audio, do paladar ou do olfato, para sua conservao. Trata-se
de fenmenos muito vulgares, que o homem mal nota, pelo hbito em
que est de os experimentar, e dos quais no se apercebeu at ao
presente, em consequncia de ignorar as leis do princpio
espiritual, de negar mesmo, como se d com muitos sbios, a
existncia desse princpio. Mas, quem quer que dispense ateno aos
efeitos que vimos de indicar e a muitos outros da mesma natureza,
reconhecer quanto so eles freqentes e, ainda mais, que
independem completamente das sensaes que se percebem pelos rgos
do corpo.
  ::::::::::
  (65) O termo "fluido" no designa uma matria particular. Significa
um movimento ondulatrio do ter, anlogo aos que do origem 
eletricidade,  luz, ao calor, aos raios X, etc.
  ::::::::::

   A vista espiritual ou dupla vista

   A vista espiritual vulgarmente chamada dupla vista ou segunda
vista, lucidez, clarividncia, ou, enfim, telestesia e, agora,
criptestesia,  um fenmeno menos raro do que geralmente se imagina.
Muitas pessoas so dotadas dessa faculdade, sem o suspeitarem;
apenas o que h  que ela se acha mais ou menos desenvolvida.
Facilmente se pode verificar que  estranha aos rgos da viso,
pois que se exerce, sem o concurso dos olhos, durante o
sonambulismo natural ou provocado. Existe nalgumas pessoas no mais
perfeito estado normal, sem o menor vestgio aparente do sono ou de
estado exttico. Eis o que a respeito diz Allan Kardec (66):
   "Conhecemos em Paris uma senhora em que a vista espiritual 
permanente e to natural quanto a vista ordinria. Ela v sem
esforo e sem concentrao o carter, os hbitos, os antecedentes
de qualquer pessoa que se lhe aproxime; descreve as enfermidades e
prescreve tratamentos eficazes, com mais facilidade do que muitos
sonmbulos ordinrios. Basta-lhe pensar numa pessoa ausente, para
que a veja e designe. Estvamos um dia em sua casa e vimos passar
pela rua algum das nossas relaes e que ela jamais vira. Sem ser
provocada por qualquer pergunta, fez dessa pessoa o mais fiel
retrato moral e nos deu a seu respeito opinies muito ponderadas.
   Contudo, essa senhora no  sonmbula; fala do que v, como
falaria de qualquer outra coisa, sem se distrair das suas ocupaes.
 mdium? No o sabe, pois, at h bem pouco tempo, nem de nome
conhecia o Espiritismo".
  ::::::::::
  (66) Allan Kardec -- "Revue Spirite", junho de 1867, pgs. 173 e
174.
  ::::::::::
   Podemos aditar ao do Mestre o nosso testemunho. H uma vintena
de anos, demo-nos com uma Senhora Bardeau, que gozava dessa
faculdade. Descrevia personagens que viviam na provncia, muito
longe, ao Sul, personagens que ela nunca vira e de cujos caracteres,
no entanto, apresentava circunstanciados pormenores. Conservava-se,
todavia, no estado ordinrio, com os olhos bem abertos, conversando
sobre outros assuntos, interrompendo-se de quando em quando para
acrescentar alguns traos que completavam a fisionomia ou o carter
das pessoas ausentes.
   Hoje, ainda conhecemos uma parteira, Senhora Renardat, que pode
ver a distncia, sem estar adormecida. Tivemos disso prova inegvel,
porquanto descreveu com fidelidade um dos nossos tios, residente em
Gray, indicou uma enfermidade que ele tinha e que os mdicos
ignoravam e lhe predisse a morte, sem jamais o haver conhecido.
Essa senhora v os Espritos, como v os vivos. Muitas ocasies
tivemos de convencer-nos, pelas afirmaes dos nossos amigos, de
que ela entretinha relaes com almas que haviam deixado a Terra,
pois fazia delas retratos muito semelhantes e a linguagem que lhes
atribua lembrava a de que usavam durante a vida terrena.
   Desde h quinze anos, temos tido numerosas oportunidades de
estudar a mediunidade vidente, que nem sempre se manifesta com esse
cunho de constncia que nota nas narrativas acima. As mais das
vezes,  fugitiva, temporria, mas, mesmo assim, nos faculta a
certeza de que a crena na imortalidade no  v iluso do nosso
esprito prevenido e sim uma realidade grandiosa, consoladora e
sobejamente demonstrada. Alis, vamos citar bom nmero de
experincias que demonstram ser objetiva a viso dos Espritos,
porquanto esta coincide, explicando-as com fenmenos fsicos que
nos caem sob a percepo dos sentidos materiais e que toda gente
pode verificar.
   Quando uma mesa se move e um mdium vidente descreve o Esprito
que sobre ela atua; quando esse mdium chega a anunciar o que o
Esprito vai dizer por intermdio do mvel,  despropositado
imaginar-se que ele no veja realmente, uma vez que a sua predio
se realiza e o Esprito d testemunho de sua presena, exercendo
ao sobre a matria.
   Se quisermos refletir que, h cinqenta anos, no mundo inteiro
se procede continuamente a pesquisas espritas; que elas se
processam nos mais diversos meios; que foram fiscalizadas milhares
de vezes por investigadores pertencentes s classes sociais mais
instrudas e, por conseginte, menos crdulas, foroso ser
considerarmos absurdo supor-se no sejam os Espritos que produzam
tais fenmenos. , pois, por meio de incessantes comunicaes com
o mundo invisvel, por meio de ininterruptas relaes com os
habitantes do espao, que chegamos a adquirir conhecimentos certos
sobre as condies da vida de alm-tmulo.
   Lembremo-nos de que existem mais de duzentos jornais publicados
em todas as lnguas que se falam no globo, que cada um prossegue
isoladamente em seus trabalhos e que, malgrado a essa prodigiosa
diversidade quanto s fontes de informaes, o ensino geral  o
mesmo, em suas partes fundamentais. H-se de convir em que
semelhante acordo  bem de molde a servir de fundamento  convico
que se gerou em cada experimentador, depois de haver estudado por
si mesmo.
   Exponhamos, conseguintemente, sem cessar, os resultados obtidos;
no nos cansemos de colocar sob as vistas do pblico os documentos
que possuirmos e, talvez lentamente, mas com segurana, chegaremos
a conseguir que penetrem nas massas estes conhecimentos
indispensveis ao progresso e  felicidade delas.
   O envoltrio da alma fez objeto de perseverantes estudos da
parte de Allan Kardec. Ele prprio confessa que, antes de conhecer
o Espiritismo, no tinha idias especiais sobre tal assunto. Foram
seus colquios com os Espritos que lhe deram a conhecer o corpo
fludico e lhe proporcionaram compreender o papel e a utilidade
desse corpo. Concitamos os que queiram conhecer a gnese dessa
descoberta a ler a "Revue Spirite", de 1858 a 1869. Vero como,
pouco a pouco, se foram reunindo os ensinamentos a respeito, de
maneira a constituir-se uma teoria racional que explica todos os
fatos, com impecvel lgica.
   No podendo estender-nos demasiado sobre este ponto,
limitar-nos-emos a citar uma evocao que poder servir de modelo
a todos os investigadores que desejem verificar por si mesmos estes
ensinamentos.

   Evocao do Doutor Glas (67)

  ::::::::::
  (67) "Revue Spirite", ano de 1861, pgs. 148 e seguintes.
  ::::::::::
   As perguntas eram feitas por Allan Kardec, sendo dadas pelo
mdium escrevente as respostas.
  "P. -- Fazes alguma distino entre o teu esprito e o teu
perisprito? Que diferena estabeleces entre essas duas coisas?
   R. -- Penso, pois que sou e tenho uma alma, como disse um
filsofo. A tal respeito, nada mais sei do que ele. Quanto ao
perisprito, , como sabes, uma forma fludica e natural. Procurar,
porm a alma  querer achar o absoluto espiritual.
   P. -- Crs que a faculdade de pensar reside no perisprito? Numa
palavra: que alma e perisprito so uma e mesma coisa?
   R. --  exatamente como se me perguntasses se o pensamento
reside no nosso corpo. Um  visto, o outro se sente e concebe.
   P. -- No s ento, um ser vago e indefinido, mas um ser
limitado e circunscrito?
   R. -- Limitado, sim, porm , rpido como o pensamento.
   P. -- Peo determines o lugar onde aqui te achas.
   R. --  tua esquerda e  direita do mdium.
  ::::::::::
  Nota -- Allan Kardec se coloca exatamente no lugar indicado pelo
Esprito.
  ::::::::::
   P. -- Foste obrigado a deixar o teu lugar para mo ceder?
   R. -- Absolutamente. Ns passamos atravs de tudo, como tudo
passa atravs de ns;  o corpo espiritual.
   P. -- Estou, portanto, colocado em ti?
   R. -- Sim.
   P. -- Mas, como  que no te sinto?
   R. -- Porque os fluidos que compem o perisprito so muito
etreos, no suficientemente materiais para vs outros. Todavia,
pela prece, pela vontade, numa palavra, pela f, podem os fludos
tornar-se mais ponderveis, mais materiais e sensveis ao tato, que
 o que se d nas manifestaes fsicas.
  ::::::::::
  Nota -- Suponhamos um raio de luz penetrando num lugar escuro.
Podemos atravess-lo, mergulhar nele, sem lhe alterarmos a forma,
nem a natureza. Embora esse raio luminoso seja uma espcie de
matria, to rarificada se acha esta, que nenhum obstculo ope 
passagem da matria mais compacta".
  ::::::::::
   Evidentemente, a melhor maneira de chegar-se a saber se os
Espritos tm um corpo consistia em perguntar-lho. Ora, nunca,
desde que se fazem evocaes, algum comprovou que os desencarnados
hajam dado uma resposta negativa. Todos afirmam que o envoltrio
perispirtico  para eles, to real, quanto o nosso corpo fsico o
 para ns. Tem-se, pois, a um ponto firmado pelo testemunho
unnime de todos os que ho sido interrogados, o que explica e
confirma as vises dos sonmbulos e dos mdiuns. Chegamos assim a
uma ordem de testemunhos que fazem ressalte das concepes
puramente filosficas o perisprito, atribuindo-lhe existncia
positiva.

   Um avarento no espao

   Desde o comeo das manifestaes espritas, organizaram-se
grupos de estudo em quase todas as cidades da Frana. Entregavam-se
a pesquisas continuadas e os resultados obtidos se registravam
quase sempre em atas, cujas smulas eram enviadas  imprensa.
   A nossa doutrina, portanto, no foi imaginada. Constituiu-se
lentamente e a obra de Allan Kardec, resumindo essa imensa
investigao, mais no  do que a compilao lgica, o
aproveitamento de to vasta documentao.
   Aqui a narrativa de um dos fatos ento apurados, conforme a
publicou um jornal esprita de Bordus, em 1864 (68).
  ::::::::::
  (68) "O Salvador dos Povos" (diretor o Sr. Lefraire, advogado),
nmero 6, fevereiro de 1864.
  ::::::::::
   "Toda gente conheceu em Angoulme um homem de srdida avareza,
no obstante a sua posio de opulncia, que todos sabiam magnfica.
Chamava-se L''' e morava numa gua-furtada de sua casa, cujos
demais cmodos permaneciam desabitados. Como os vizinhos no o
vissem durante vrios dias, chamaram a polcia, que mandou abrir a
porta do aposento, para saber o que fora feito dele. Acharam-no
quase a morrer. Tendo  cabea um bon de papel meio queimado e
encostado a uma mesa, estava o homem com que a contemplar algumas
moedas de ouro ali espalhadas. No interesse do prprio infeliz, que
de h muito se afastara de toda a sua famlia, a justia mandou
arrecadar o dinheiro que ele escondera aqui e ali pela casa,
depositou-o num estabelecimento bancrio e remeteu o pobre
abandonado para um hospital, onde veio a falecer pouco depois.
   A uma primeira evocao feita alguns dias aps sua morte, ele
acudiu e declarou que absolutamente no estava morto e que queria o
dinheiro que lhe haviam subtrado. Transcorridos muitos meses, no
mesmo grupo, fez-se, a 25 de setembro de 1863, segunda evocao,
com o concurso de dois mdiuns, escrevente um, vidente o outro em
estado sonamblico. Este ltimo descreveu a fisionomia e as vestes
do Esprito evocado, a quem no conhecera em vida. Conversou com
ele ou transmitiu as respostas que lhe eram dadas. Por outro lado,
o mdium escrevente obtinha, ao mesmo tempo, sob a influncia do
Esprito presente, a comunicao seguinte, posta em confronto com a
que provinha do sonmbulo, para facilitar a inteligncia da
simultaneidade do recebimento das duas".
   Evocao

   Mdium escrevente -- Sr. Guimberteau:

   Que  o que ainda querem de mim? Peo que me deixem ir embora.
Isto comea a me aborrecer. Melhor fariam, se restitussem o
dinheiro que me roubaram. Acham que no  abelinvel (abominvel)?
Eu que trabalhei toda a minha vida para encher uma pequenina bolsa
honesta. Pois bem! Senhores, tomaram-me tudo; arruinaram-me; estou
atirado  rua, no tenho onde cair morto. No sei onde descansar a
cabea. Oh!! Tenham a bondade de me restituir tudo isso.
Ficar-lhes-ei reconhecido, se conseguirem que me atendam.
   (O evocador pondera ao Esprito que nada de tudo aquilo lhe pode
mais fazer falta, uma vez que ele deixara a Terra).
   R. -- Voc diz que nada me faz falta.  ter topete! Meu dinheiro,
ento, no  nada?
   P. -- Onde ests?
   R. -- Voc bem o v: a seu lado.
   P. -- Mas, por que te obstinas em procurar as tuas riquezas
terrenas, quando devias antes cuidar de constituir um tesouro no
cu?
   R. -- Oh! esta agora! Voc devia dizer onde est esse tesouro
que eu devo achar. Voc  um pssimo farsista, sabe?
   P. -- No conhece Deus?
   R. -- No tenho essa honra. Quero o meu dinheiro.
   P. -- Foste forado a vir aqui?
   R. -- Est claro que sim. Se no me obrigassem a permanecer aqui
exposto aos olhares de vocs, j me teria ido h muito tempo.
   P. -- Aborrece-te ento a nossa companhia?
   R. -- Muito. (O lpis bate na mesa com tanta rapidez e tal
violncia, que se quebra).

   Mdium vidente -- Senhora B''':

   Vejo um velho ali a escrever.  bem vil. Mas, como  vil! No
tem apenas dentes na boca. Tem enormes lbios pendentes. Traz um
bon sujo de algodo, uma blusa, ou um casaco branco, tambm sujo.
Como ele  vil, meu Deus!
   P. --  ele quem est fazendo que o Sr. Guimberteau escreva?
   R. -- . Ele se encontra ao lado desse senhor. Mostra-se como
algum que  apedrejado.  um verdadeiro tigre!
   P. -- Ele foi obrigado a vir?
   R. -- H algum que o obriga.
   P. -- Por que no se vai embora, uma vez que tanto o molesta a
nossa companhia?
   R. -- Foi chamado. Isto pode contribuir para que conhea a sua
situao.

   A sesso prossegue. Adormecido, o sonmbulo descreve outros
Espritos e nota, em seguida, um padre que vem manifestar-se. Logo,
o mdium escrevente recebe uma comunicao do padre C''', que
alguns presentes conheciam. Dita ele: "Vejamos. Vou fazer que o
mdium escreva calmamente algumas linhas, para que o vidente tenha
tempo de me examinar em todos os sentidos.  preciso que me
reconheam pelos detalhes que ele fornecer sobre a minha pessoa.
Isso por em condies de acreditar que vm ajudar-vos os Espritos
que evocais".
   Aqui, como se verifica,  manifesta a ao do desencarnado, que
se empenha e esfora por assinalar bem a sua personalidade. V
coroada de xito essa tentativa. Os assistentes reconhecem um
eclesistico da cidade, recentemente falecido, e a Senhora B''' diz
a um que a interroga: "Sim, vi outrora esse homem;  um cura. Gordo,
corado. No lhe sei o nome. Tem pouco cabelo, todo embranquecido".
   A viso sonamblica confirma a autenticidade do agente que faz
com que o mdium escreva e demonstra o nenhum valor da teoria
segundo a qual as comunicaes procedem sempre do inconsciente de
quem escreve.
   A narrativa que segue permite se comprove que o mdium vidente 
absolutamente incapaz de enganar e que, se a verdade irrompe da
boca da inocncia, tem aqui aplicao esse provrbio.

   Viso de uma criana

   O relato que se vai ler f-lo o professor Morgari, a 20 de
outubro de 1863, na Sociedade dos Estudos Espritas de Turim. (69)
  ::::::::::
  (69) "Annali dello Spiritismo in Italia".
  ::::::::::
   Refere-se ele que, achando-se, no ms citado, em Fossano,
travou relaes com o professor P''', homem muito instrudo, que
vivia imerso em profunda mgoa por haver perdido sua jovem esposa,
que lhe deixara trs filhinhos. Para lhe minorar a dor, o Sr.
Morgari falou-lhe do Espiritismo: "Il miser suole dar facile
credenza quel che vuole". (70)
  ::::::::::
  (70) O desgraado sempre cr facilmente no que deseja.
  ::::::::::
   Ficou ento decidido que se tentaria obter uma comunicao da
morta querida. Com dois companheiros de estudos e uma sua irm, o
Sr. Morgari se sentou  mesa, bem como o professor P''' e uma irm
sua. Obtiveram estes o nome de um de seus parentes, um certo irmo
Agostinho. Em seguida, veio outro Esprito, o do pai deles, Lus,
o qual, alm do nome, disse exatamente a idade com que falecera.
No ser ocioso notar que tais nomes o Sr. Morgari e sua irm,
recm-chegados a Fossano, desconheciam completamente. Cedamos agora
a palavra ao autor da narrativa:
   "Se a experincia houvesse terminado a, observa ele, eu nada
vos diria, porquanto nada at ento ocorrera que no fosse para ns
outros muito vulgar. Mas, neste ponto  que comea o maravilhoso.
   O Esprito da pranteada esposa, que viera dirigir tocantes
palavras a seu marido, manifesta o desejo de ver os filhos que
dormiam em aposentos contguos e, de repente, a mesa entra a
mover-se com uma rapidez qual eu antes nunca vira, deslizando e
girando to vivamente, que apenas dois ou trs dentre ns a podiam
acompanhar, tocando-a com a ponta dos dedos. Penetrou em seguida no
aposento mais prximo, onde uma das crianas, menina de trs anos,
dormia profundamente no seu bero. Acercando-se deste, a mesa, como
se fora dotada de vida e de sentimento, se ergue e inclina, no ar,
para a criancinha que, sempre a dormir, lhe estende os bracinhos e
exclama com essa tranqila surpresa que sobremodo nos encanta na
meninice: Mame! Oh! Mame! O pai e a tia, comovidos at s
lgrimas, lhe perguntam se realmente est vendo a me: Estou,
vejo-a. Como est bonita! Oh! Como est bonita! Perguntada onde a
via: Numa grande claridade! Responde. Vejo-a no Paraso. Nesse
instante, vimos a criana fazer com os dois bracinhos um crculo,
como se quisesse abraar-se ao pescoo de sua mezinha, e, coisa
surpreendente, entre os braos e o rosto da menina, havia s o
espao necessrio a caber a cabea da que fora sua me. Durante a
cena, a menina movia brandamente os lbios, como se estivesse a
dar beijos, at que, por fim, a mesa recaiu no cho, conservando-se
o anjinho com as mos juntas e inexprimvel sorriso.
   Essa a verdade pura, simples e leal, de que me fao fiador,
assim em meu nome, como no dos meus companheiros, todos prontos a
confirmar com suas assinaturas esta narrativa, conforme eu prprio
fao".
   Este testemunho de uma criana de trs anos reconhecendo sua me
no poder ser suspeito, nem mesmo aos mais cpticos.
   Ningum poder ver a qualquer sugesto, pois que a criana
dormia e era aquela a primeira vez que seu pai e sua tia se
ocupavam com o Espiritismo. O que a h  a confirmao da crena
de que a me sobrevivia no espao e continuava a prodigalizar seu
amor ao marido e aos
filhos.

   Aqui vo outros exemplos, que corroboram os que acabamos de
citar.

   Experincias do Professor Rossi Pagnoni e do Dr. Moroni

   Em 1889, foi publicado um volume muito srio (71), relatando as
experincias espritas desses senhores, continuadas em Pezaro
(Itlia) com grande apuro de observao cientfica. Dentre muitos
fenmenos importantes, vamos referir os casos seguintes, que se
enquadram completamente no nosso assunto.
  ::::::::::
  (71) Rossi Pagnoni e Dr. Moroni -- "Alguns ensaios de mediunidade
hipntica", traduo francesa da Senhora Francisca Vign. Vejam-se;
pgs. 10 e seguintes e pg 102.
  ::::::::::
   Servia de instrumento ao Dr. Moroni, para descrever os Espritos
que se manifestavam por meio da mesa, uma mulher chamada Isabel
Cazetti, timo paciente hipntico. Em muitas ocasies, foi-lhe dado
verificar que eram contrrias s crenas dos assistentes as
indicaes que a sonmbula ministrava. Descrevia s vezes um
Esprito que absolutamente no era o que se evocava e, com efeito,
a mesa deletreava um nome muito diverso do Esprito que fora
chamado. Eis aqui um exemplo:
   "Dois amigos meus se puseram  mesa tiptolgica, colocada a
alguns metros da hipnotizada, para evocarem o Esprito de uma
pessoa que lhes era afeioada, de nome Lvia, evocao j
conseguida pelo mesmo meio. Enquanto isso, a hipnotizada fazia os
sinais que costuma fazer quando v um Esprito, sinais que lhe so
peculiares  faculdade.
   Moroni, eu e os outros assistentes, rodeando-a bem de perto lhe
perguntamos baixinho o que estava vendo. Respondeu: Uma senhora,
parente da pessoa menos alta das que esto sentadas  mesa.
Supusemos que se enganava, porquanto, como sabamos, aqueles amigos
evocavam uma pessoa amiga, no uma parente. De sbito, porm, a
mesa bateu: Sou tua tia Lcia; venho porque te estimo.
   Com efeito, o assistente de menor estatura contava entre os seus
mortos uma tia desse nome, na qual, entretanto, no pensava e que o
outro assistente no conhecia. Em seguida, o mdium murmurou ao
ouvido de Moroni que um rapaz, cujo nome comeava por R''', estava
 mesa. Esta efetivamente bateu R, primeira letra do nome do rapaz,
que nos saudou. Depois, ouvimos na biblioteca um grande rudo e o
mdium, a sorrir, disse que fora aquele Esprito, que nos quisera
dar sinal da sua partida".
   Chamamos muito particularmente a ateno do leitor para estas
experincias, pois provam, de modo evidente, que so mesmo
Espritos os que se manifestam e no entidades quaisquer. No se
pode aplicar aqui nenhuma das pretensas explicaes baseadas na
transmisso do pensamento do evocador ao mdium -- uma vez que este
anuncia de antemo um nome em que os assistentes no pensam -- nem
a da interveno de um ser hbrido, formado dos pensamentos de
todos os assistentes, no se podendo tampouco pretender que sejam
elementais, elementares, ou influncias demonacas.
   So as almas dos mortos que afirmam a sua sobrevivncia por
aes mecnicas sobre a matria. No apresentam uma forma
indeterminada, mas as dos corpos terrenos que tiveram durante a
encarnao. A inteligncia se conservou lcida e vivaz; revela-se
em plena atividade aps a morte. Temos em nossa presena o mesmo
ser que vivia outrora neste mundo e que apenas mudou de estado
fsico, sem nada perder da sua personalidade de outrora.
   Como nunca ser demais insistir em tais fatos, vamos referir
alguns outros. Narrativa de uma sesso:
   "Sentaram-se  mesa da tiptologia dois dos nossos amigos,
evocando Lcia. A primeira letra batida lhes fez crer que
conseguiriam o que desejavam; mas, o mdium segredou ao ouvido de
Moroni (que tomou nota num pedao de papel, dobrou-o e colocou em
cima da mesa) que, em vez de Lcia, era o Esprito de Lvia que
batia, dizendo obrigado. Deu-se como fora anunciado e verificou-se
que essa palavra estava realmente escrita.
   O mdium pediu a Moroni que tomasse o lugar de um daqueles
senhores  mesa tiptolgica. Ele assim fez e outra pessoa se
colocou ao lado do mdium e lhe perguntou o que via. O interrogado
respondeu de maneira a no ser ouvido pelos demais: --  a irm do
doutor. A mesa, com efeito, bateu -- Assunta, nome de uma falecida
irm de Moroni e que lhe pediu permanecesse  mesa. Ento, disse o
mdium, ao ouvido do amigo que se lhe pusera ao lado, que o pai do
doutor desejava comunicar-se. A mesa bateu estas palavras: -- Sou teu
pai e posso qualificar de ditoso este momento em que me acho
contigo".
   Eis outro relato, em que no  menor a evidncia, do que nos
ltimos casos reproduzidos.
   Aps alguns ensaios de tiptologia, declarou o mdium que o pai
de um Sr. L''' desejava falar-lhe:
   "Fizemos que o Sr. L''' se levantasse da mesa e lhe solicitamos
que tentasse escrever noutra mesa, visto que um Esprito queria
comunicar-se por seu intermdio, e o rodeamos, para auxili-lo
nessa primeira experincia. Dois de ns nos aproximamos do mdium e
lhe perguntamos quantos Espritos via no momento ao nosso derredor.
Respondeu que via trs: o que j fora indicado e duas senhoras,
sendo uma delas tia daquele que o interrogava. Trazendo consigo um
retrato dessa tia, misturou-o com outras fotografias, que pudemos
reunir, de senhoras, e as entregou todas ao mdium. Este, sem as
examinar, o que, alis, no podia fazer, devido  meia obscuridade
reinante no canto onde estvamos da sala, no podendo, tampouco,
ser, como dizem, sugestionado pelo interrogante, uma vez que no
via as fotografias e no sabia em que ordem o acaso as dispusera,
separou uma e a entregou ao referido interrogante. Era a de sua
parenta. Ao Sr. L''' deu o mdium pormenores ntimos sobre seus
negcios de famlia. Como estrangeiro que era, o Sr. L''' residia
de pouco tempo na nossa cidade. Seu pai morrera havia uns vinte
anos".
   Para concluir as brevssimas citaes deste importante trabalho,
vamos dizer de que modo o Dr. Moroni foi levado a estudar os
fenmenos espritas. Quando ele era ainda simples magnetizador,
para quem todas as imagens que o sonmbulo dizia ver no passavam
de alucinaes, um dos primeiros fatos que o fizeram comear a crer
foi o seguinte:
   "Uma noite, estando magneticamente adormecido, o mdium
exclamou de sbito agitando um brao: Ai! --. Perguntando-lhe
Moroni: Que h? Ela respondeu: Foi Isidoro que me beliscou.
(Isidoro era um irmo de Moroni, falecido havia alguns anos.) -- O
mdico descobriu o brao do mdium e l encontrou, com efeito, uma
marca semelhante a que deixa a presso de dois dedos na epiderme.
At a, porm, nada de espantar, porquanto o que se dera podia
muito bem ser o resultado de uma auto-sugesto da prpria senhora.
Disse-lhe ento Moroni: Se  verdade que meu irmo se acha presente
aqui, d-me ele uma prova disso. Respondeu o mdium, a sorrir: Olhe
l. (Apontava com o dedo para uma parede que lhe ficava muito
distante.) -- O mdico olhou e viu um cabide ali dependurado num
prego, mover-se vivamente para a direita e para a esquerda, como se
uma mo invisvel o empurrasse num e noutro sentido".
   Aqui a afirmativa do mdium  confirmada, corroborada por uma
manifestao material. Hemos podido certificar-nos, pelos exemplos
precedentes, que os fenmenos no se originam de uma exteriorizao
do mdium, pois que o ser que se manifesta revela coisas que aquele
ignora.
   No se pode igualmente invocar a transmisso do pensamento:
  1- Porque os movimentos da mesa se produzem sem que o mdium a
toque, indicando esses movimentos, previamente anunciados, um nome
em que os assistentes no pensam;
  2- Porque a transmisso do pensamento podia efetuar-se entre o
magnetizador e o seu paciente, como o relata o Dr. Moroni, que no
conseguiu faz-lo pronunciar o nome Trapani, em que ele pensava
energicamente (72). Com mais forte razo, no se pode conceber como
haveria o mdium de ler o pensamento dos assistentes, que lhe so
por completo estranhos e com os quais no se pe em relaes
magnticas.
  ::::::::::
  (72) "Mediunidade hipntica", pg. 113.  este o relato:
   "No ms de novembro ltimo, um estrangeiro ilustre assistiu a
algumas sesses do nosso circulo e, depois de uma srie de
experincias medinicas, desejou observar outras de clarividncia
terrestre. Esse desejo me desagradava, porque tais experincias no
entravam no quadro dos nossos estudos. Havia em mim o temor natural
de que, a esse respeito, o nosso mdium fosse inferior a muitos,
se bem eu o considere superior a mil outros, em matria de
mediunidade.
   Entretanto, vendo que o Dr. Moroni aquiescia de boamente,
calei-me e me pus de lado, sem tomar parte na experincia, de cujos
bons resultados duvidava.
   O estrangeiro apresentou uma caixinha na qual metera um papel
com algumas palavras escritas e pediu que a sonmbula tentasse
l-las. Perdemos uma hora nessa tentativa, sem o mnimo resultado.
   Em seguida, tentou ele uma prova de transmisso de pensamento.
Escreveu,  parte, num pedao de papel, a palavra Trapani e, depois
de o haver mostrado ao hipnotizador, pediu que este, por sugesto
mental, a transmitisse ao mdium. Esta experincia durou quase uma
hora. Vendo que, desse modo, se perdia um tempo que muito mais
utilmente se poderia empregar em proveito do hspede que dentro em
pouco partiria, propus se abandonasse a experincia. A sonmbula,
entretanto, persistia, mas no conseguiu adivinhar a palavra e foi
obrigada, pela fadiga, a parar". (fim da nota)
  ::::::::::
   Diante de tais fenmenos, a incredulidade, se  sincera, tem que
depor as armas. H indivduos, porm, subjugados a tal ponto pelo
orgulho, que se envergonhariam de confessar um erro. So
retardatrios, tanto pior para eles. Restam inmeros pesquisadores
sem idias preconcebidas, para que tomemos a peito comunicar-lhes
as nossas descobertas.
   Basta, alis, a quem quer que seja, prosseguir nestes estudos
com o firme desejo de instruir-se, para estar certo de adquirir uma
convico racional, baseada em fatos pessoais. Sobejam os exemplos.
Julgamos de bom aviso pr sob as vistas do leitor um caso recente,
para mostrar que as manifestaes se do em todos os meios. Tudo
est em saber e querer suscit-las.

   Tiptologia e vidncia

   "Caro Senhor,
   Ao regressar de Caen (73), fui passar alguns dias na casa de meu
irmo em Meurchin, pequena aldeia do Pas-de-Calais. Como minha
famlia me sabe muito amante do Espiritismo, como me v ditoso por
lhe praticar os preceitos, mil perguntas me dirigem os seus membros
constantemente sobre o assunto, perguntas a que respondo de modo a
fazer que nasa nos que me ouvem o desejo de levantar uma ponta do
vu que nos oculta os esplendores do alm-tmulo.
  ::::::::::
  (73) Revue Scientifique et Morale du Spiritisme, primeiro ano
nmero 6, pg. 365.
  ::::::::::
   Foi em virtude dessas palestras que meu irmo organizou uma
reunio para a qual convidou seus amigos, honestos camponeses que
no se fizeram de rogado para assistir a ela. Havia uma quinzena
de pessoas, todas escolhidas entre a gente bem reputada da aldeia.
Aguardando a hora marcada para a evocao, palestra-se um pouco.
Cada um narra fatos mais ou menos singulares de que foi testemunha
no curso de sua existncia e que me permitem deduzir,
incidentemente, a concluso de que as manifestaes espritas so
muito mais freqentes do que se imagina.
   s oito horas, pus-me a ler algumas passagens de _O _Livro _dos
_Espritos, procurando atrair os bons Espritos. Dirijo ao
Todo-Poderoso uma curta invocao que os circunstantes ouvem em
profundo recolhimento.
   Trs pessoas tm as mos pousadas sobre uma mesa pequena, que,
ao cabo de dez minutos, entra a mover-se.
   P. --  um Esprito? Bata uma pancada para o sim e duas para o
no.
   R. -- Sim
   P. -- Queres dizer-nos o teu nome? Vou pronunciar as letras do
alfabeto: bate no momento em que eu pronunciar a letra que desejes
fique escrita.
   R. -- Maria Jos
    minha me, exclama um dos assistentes, o Sr. Sauvage. Alis,
acabo de ver-lhe o espectro diante de mim; mas, passou apenas e
logo desapareceu.
   P. -- s de fato a me do Sr. Sauvage?
   R. -- Sim.
   Baixa-se a luz, ficando, porm, bastante claridade para que
possamos ver o que se passa. Sauvage declara, ao cabo de alguns
minutos de espera, que est vendo muito distintamente sua me,
falecida a 24 de maio de 1877.
   P. -- Podes, perguntei ao Esprito, fazer que teu filho te oua?
   R. -- Ela me acena com o dedo, diz o Sr. Sauvage. No sei o que
quer dizer''' Ah! Ouo-lhe a voz; ouo-a muito bem.
   P. -- Que diz ela?
   R. -- Ditosa; diz que  ditosa.
   P. -- (Ao Esprito) -- No precisas que oremos por ti?
   R. -- Sim, isso sempre nos d prazer. Estou fatigada, boa-noite,
voltarei doutra vez.
   Logo depois dessa viso, a mesa se pe de novo em movimento. D
pulos to violentos que nos assustam.
   Aumentada a luz, oramos em favor do Esprito que assim acusava
a sua presena e pedimos a Deus, bem como aos nossos guias
invisveis, que continuassem a dispensar-nos seu amparo, a fim de
que outras vises se produzissem.
   Outro Esprito se anuncia pela mesa, dizendo-se o da primeira
mulher do Sr. Grgoire, presente  sesso.
   P. -- Poderias mostrar-te ao Sr. Sauvage?
   R. -- Posso.
   Aps um instante de expectativa, o mdium declara que v uma
mulher, com uma coifa branca e um leno por cima. --  a touca que
usou na Blgica durante a sua enfermidade --, informa o Sr. Grgoire.
   P. -- Tens alguma coisa a dizer a teu marido?
   R. -- No.
   Evidentemente a presena da segunda esposa do Sr. Grgoire vexa
o Esprito.
   P. -- Conheces Sidnia Descatoire, minha me? Perguntei ao
Esprito.
   R. -- Conheo, ela est aqui a seu lado.
   P. -- Poderias pedir-lhe que se mostre ao mdium? Muito gostaria
de conversar com ela.
   R. -- O Esprito se afasta, diz o Sr. Sauvage, j no o vejo'''
Ah! Eis agora uma anci.
   P. -- Como  ela?
   R. -- Bastante corpulenta. Rosto redondo, mas salientes e
vermelhas, olhos pardos, cabelos castanhos, comeando a encanecer.
Ri, olhando para o senhor.
   P. --  isso exatamente. No lhe nota nenhum sinal no rosto?.
   R. -- Sim, uma espcie do que se d o nome de _beleza, aqui, diz,
indicando a tmpora direita.
   (Minha me tinha uma pequena mancha escura na tmpora esquerda;
mas, como estava de frente para o mdium, este via do lado direito
a mancha).
   P. -- Absolutamente certo.  mesmo minha me! Exclamei emocionado.
Me querida, s feliz?
   R. -- Muito feliz, diz o Sr. Sauvage, que ouve a voz de minha me
e repete o que dela escuta.
   P. -- Costumas estar por vezes perto de mim?
   R. -- Quase sempre.
   P. -- Vs meu irmo Edmundo, aqui presente?
   R. -- Sua me se volta para o lado do Sr. Edmundo, diz o mdium.
Sorri. Parece encantada com esta entrevista.
   P. -- Aps a desencarnao, custaste a recobrar a lucidez?
   R. -- Dois dias.
   P. -- Costumas ver Emlia (minha falecida mulher)?
   R. -- Vejo-a sim. Ela, porm, no est aqui; acha-se mais longe.
   P. -- Posso contar que tambm ela venha comunicar-se?
   R. -- Vir, mais tarde.
   P. -- E meu pai?
   R. -- Est aqui.
 -- Vejo um vulto por detrs de sua me, diz o mdium, mas no o
distingo bem.  um vulto gordo e alto''' Ei-lo ao lado de sua me.
Bastante corpulento. So dois bons velhos bem adequados um ao
outro.
   Um colquio ntimo se estabelece entre meus pais e mim.
Comovemo-nos at s lgrimas meu irmo e eu. No duvidamos da
presena deles. O Sr. Sauvage no conhecia, no podia conhecer os
nossos caros defuntos, que sempre viveram no Norte. Alm disso, a
sesso fora improvisada e realizada na mesma noite e o mdium, que
um momento antes ignorava possusse a faculdade de que  dotado,
de maneira nenhuma poderia prever quais as pessoas que se
evocariam, nem a natureza das perguntas que lhes iam ser dirigidas.
As expresses empregadas por meus pais, certas frases que lhe eram
habituais, tudo constitua, para ns, outras tantas provas de
identidade. Alis, outros Espritos se manifestaram, revelando
coisas que s eles conheciam e algumas das pessoas presentes.
Assim, um marido se apresentou e lembrou  esposa palavras que lhe
dissera ao morrer e que a interessada declarou exatas.
   Os Espritos nos prometeram novos fenmenos, entre os quais um
trazimento, que esperam poder mais tarde produzir.
   Aquelas tocantes manifestaes terminaram por unnimes
agradecimentos ao Pai celestial que, logo numa primeira reunio,
nos dera to grande demonstrao da sua bondade, prometendo todos
praticar a filosofia esprita.
   Foi considervel o efeito produzido sobre os assistentes.
Sentia-se que uma revoluo se produzira no ntimo de cada um.
Homens, que at ento nenhuma f depositavam no futuro do
alm-tmulo, se achavam presas de remorso e faziam em voz alta
reflexes que uma hora antes teriam feito corassem, acusando-se de
no haverem empregado o tempo em benefcio da Humanidade. Que
acontecer, quando toda gente se ocupar com esse gnero de estudo e
quando todas as faculdades medinicas, agora latentes, estiverem
em ao?
   Meurchin, 10 de outubro de 1896.
   Lus Delatre -- Telegrafista

   A maioria dos assistentes fez questo de assinar este relato,
em testemunho de ser a expresso da verdade:
   Sauvage -- Sr. Avransart -- Lohez Etienne -- Sauvage -- Rigol
-- H. Avransart -- E. Delattre -- T. Hugo -- Sr. Grgoire --
Ernest Grgoire -- C. Sauvage -- C. Hoca".

   Um belo caso de identificao

   H manifestaes que no apresentam um carter fsico, material,
mas que, nem por isso, so menos convincentes para quem as observa.
A esse respeito,  muito instrutivo o caso seguinte.(74)
  ::::::::::
  (74) Al. Delanne -- "Revue Scientificque et Morale du Spiritisme".
Nmero 11, maio de 1897, pgs. 678 e seguintes.
  ::::::::::
   O Sr. Al. Delanne se achava em Cimiez, perto de Nice, e l se
encontrou com o Sr. Fleurot (75), professor, e sua mulher, com os
quais travara ele relaes numa viagem anterior. A conversao cai
sobre o Espiritismo e a Senhora Fleurot narra o que se segue:
  ::::::::::
  (75) Este nome  um pseudnimo
  ::::::::::
   "Pouco tempo depois de haverdes passado pela nossa cidade, meu
marido e eu, ainda sob a impresso das narrativas que nos tnheis
feito acerca das manifestaes espritas de que fostes testemunha,
compramos os livros de Allan Kardec. Eu ardia no desejo de me
tornar mdium, mas minha convico se firmou, com excluso dos
processos da mesa ou da escrita.
   Vai para perto de seis meses, vi em sonho diferentes personagens
de destaque, a discutirem questes de alto alcance filosfico.
Aproximo-me receosa e muito emocionada. Dirijo-me ao que me pareceu
mais simptico.
 -- Consentiria, pergunto-lhe, em me esclarecer sobre um assunto
importante, cuja soluo ignoro? Que  feito da alma aps a morte?
   Ele, com bondoso sorriso, respondeu:
 -- A alma  imortal, no pode aniquilar-se nunca. A tua, neste
instante, se acha no espao, liberta momentaneamente dos entraves
da matria, gozando, por antecipao, da sua liberdade. Assim ser
sempre, desde que deixes definitivamente o teu corpo de carne, para
viveres da nossa prpria vida espiritual.
 -- Custa-me a cr-lo, repliquei, porquanto, se fsseis habitantes
da erraticidade, j no tereis o tipo humano, nem estareis
vestidos semelhantemente aos homens.
   Retrucou-me ele:
 -- Se a ti nos apresentssemos sob uma forma inteiramente
espiritualizada, no terias apercebido da nossa presena , tampouco
nos houveras reconhecido.
 -- Reconhecer-vos, dizeis? Nada, porm, me faz lembrar as vossas
fisionomias e nenhuma recordao guardo de j vos ter visto alguma
vez.
 -- Ests bem certa disso.
   Ento, que maravilha! Aquele que me respondia foi de sbito
banhado de claridade por uma intensa luz fludica e, em prolas
eltricas, um nome se lhe formou por cima da cabea e eu li,
deslumbrada e encantada, o nome venerado de -- Blaise Pascal.
   De tal modo gravado se acha em mim o seu semblante, que jamais
se me apagar da memria, enquanto eu viva. Como nunca, em parte
alguma, me fora dado ver a fotografia do ilustre sbio, cuidei,
ao despertar, de correr, juntamente com meu marido, a quem logo
referi o meu singular sonho, s casas dos vendedores de estampa.
Fomos  de Visconti, o mais afamado livreiro de Nice, para comprar
o retrato de Blaise Pascal. Ele nos mostrou diversas gravuras
representando o grande homem, porm, nenhuma reproduzia os traos
do desconhecido que me falara. Ali estavam, com efeito, a sua
figura cheia de nobreza, seus grandes olhos, o nariz aquilino, a
cabea coberta por soberba peruca ondulada; mas, em nenhuma
daquelas imagens descobria eu a pequenina deformidade do lbio
inferior, para a qual a minha ateno fora particularmente atrada
durante a viso. O lbio era um pouco arregaado, tal como se o
defeito fosse conseqncia de um acidente qualquer, na mocidade.
   O livreiro, experto, afirmou que j apreciara muitas gravuras
com a fisionomia de Pascal e vira retratos seus pintados a leo ou
a aquarela, porm jamais notara em nenhum o defeito que eu
persistentemente assinalava.
   Regressando a casa, eis que me reaparece o sorrizozinho cptico
do Sr. Fleurot. Isso me enraivecia a mim, que rejubilava  idia de
faz-lo partilhar da minha convico, oferecendo-lhe uma prova da
identidade da personagem vista em sonho.
   Repetidamente tornei a ver, durante o sono, o meu protetor, que
me prometeu velar por mim durante o meu cativeiro terrestre e me
explicar mais tarde a causa da afeio que votava  minha famlia.
Ousei mesmo falar-lhe da pequena deformidade do lbio e lhe
perguntei se, em vida, ela fora reproduzida nalgum de seus
retratos.
 -- Foi, respondeu-me, nas primeiras fotografias minhas, publicadas
pouco tempo aps a minha morte.
 -- Ainda existe alguma? Dizei-me, eu vo-lo exoro.
 -- Procura e achars!'''"
   Refere a Senhora Fleurot que, aproveitando as frias de seu
marido, os dois vasculharam, em Marselha e Lio, todas as casas de
negcio onde poderiam achar o que desejavam, sem que em nenhuma
encontrassem o retrato revelador. Teve ento o Sr. Fleurot a
inspirao de ir a Clermont-Ferrand, onde viram coroada de xito a
perseverana que vinham demonstrando. Encontraram, em casa de um
negociante de antigidades, o verdadeiro retrato de seu ilustre
amigo, com a real deformao do lbio inferior, tal qual a Senhora
Fleurot vira em sonho.
   Por muitos ttulos,  bastante instrutivo este relato. Em
primeiro lugar, firma a identidade do Esprito, pois que nenhum dos
retratos existentes na cidade de Nice acusava o sinal
caracterstico que se encontrava no original, na terra de
nascimento do autor das _Provinciais. Em segundo lugar, h uma
frase do Esprito digna de nota, a que intencionalmente
sublinhamos: Se nos houvramos apresentado a ti sob uma forma
inteiramente espiritualizada, no nos terias visto, nem, ainda
menos reconhecido.
   Comprova-se assim que tanto mais sutil e etreo  o perisprito,
quanto mais depurada est a alma. Com efeito, diz Allan Kardec, que
os Espritos adiantados so invisveis para os que lhe esto muito
inferiores quanto ao moral; mas, essa elevao no obsta a que o
Esprito retome o aspecto que tinha na Terra, aspecto que ele pode
reproduzir com perfeita fidelidade, at nas mnimas
particularidades. Assim como, no domnio intelectual, nada se
perde, tambm nada desaparece do que h constitudo a forma
plstica, o tipo de um Esprito. Eis outro exemplo desse notvel
fenmeno.

   O Retrato de Virglio

   A Senhora Lcia Grange, diretora do jornal La lumire ("A Luz"),
extraordinrio mdium vidente no estado normal, viu o clebre poeta
Verglio to distintamente, que pde publicar-lhe o retrato em o
nmero de 25 de setembro de 1884 da sua revista, onde o descreveu
exatamente assim:
   "VERGLIO -- Coroado de louros. Rosto forte, um tanto longo;
nariz saliente, com uma bossa do lado; olhos azul-cinza-escuros;
cabelos castanho-escuros. Revestido de longa tnica, tem todas as
aparncias de um homem robusto e sadio. Disse-me quando se me
apresentou, este verso latino que o lembra: Tu Marcellus eris".
   Qualificaram de fantstico esse retrato. Tacharam de suspeito o
Esprito, porquanto, diziam, muito provavelmente haviam de ser
delicados os traos do meigo Verglio, visto ter sido ele muito
feminil, "mais mulher do que uma mulher".
   Que responder a tais crticas? Nada. Aconteceu, no entanto, que
uma inesperada descoberta veio dar razo  Senhora Grange.
   Recentemente, nuns trabalhos de reparao que se faziam em
Sousse, encontrou-se um afresco do primeiro sculo, onde se v o
poeta em atitude de compor a Eneida. O que lhe revelou a identidade
foi o poder-se ler, no rolo de papel aberto diante dele o oitavo
verso do poema: Musa mihi causas memora. A Revue Encyclopdique de
Larousse reproduziu esse trecho autntico, pelo qual se reconhece
que a descrio feita pelo mdium se aplica exatamente ao grande
homem, que nada em absoluto tinha de efeminado.
   Este fato confirma o precedente, estabelecendo, pela observao,
que o perisprito contm todas as formas que haja tido neste mundo.

   Uma apario

   No caso que se segue,  impossvel atribuir-se a apario a uma
idia preconcebida, pois o Esprito que se manifestou era
completamente desconhecido da senhora que o viu. Em virtude de
circunstncias diversas foi que se pde saber quem era ele e
verificar-lhe a identidade. Damos a palavra ao autor da
narrativa (76):
  ::::::::::
  (76) Pierrart -- "Revista Espiritualista", 1862, pg. 180.
  ::::::::::
   "Eich, primeiro de junho de 1862.
   Senhor,
   Minha mulher absolutamente no acreditava nos Espritos e eu no
me preocupava com essa questo. Dizia ela, s vezes: -- Temo os
vivos, mas de maneira alguma me arreceio dos mortos. Se eu soubesse
que h Espritos, desejaria v-los, pois que nenhum mal me poderiam
fazer e essa apario me proporcionaria a confirmao do dogma
cristo segundo o qual nem tudo se extingue conosco.
   Vivamos no campo. Em nosso quarto, situado ao norte, desde que
o ocupramos se tinham com freqencia produzido rumores estranhos,
que nos esforvamos por atribuir a causas naturais. Certa noite do
ms de fevereiro do ano passado, a Senhora Mahon foi despertada por
um contacto muito sensvel em seus ps, como se, disse ela, lhe
houvessem dado pequenas palmadas. E acrescentou: -- H algum aqui.
Depois, tendo-se virado para o lado esquerdo, entreviu, num canto
escuro do quarto, qualquer coisa informe a se mover, o que a fez
repetir: --Afirmo-te que aqui est algum.
   Eu me achava deitado numa cama prxima da sua e lhe
respondi: --  impossvel. Tudo est bem fechado e posso assegurar-te
que no h pessoa alguma, porque, h uns dez minutos, estou acordado
e sei que reina profundo silncio. Enganas-te.
   Entretanto, voltando-se para o lado oposto, ela viu
distintamente, entre a cama e a janela, um homem alto, delgado,
vestindo uma espcie de gibo justo, listrado e com a mo direita
erguida, em atitude de ameaa. Seu vulto se destacava bem, na meia
obscuridade reinante. Diante dessa apario, ela experimentou certo
sobressalto, crente de que um ladro se introduzira na casa, e me
repetiu pela terceira vez: -- H, sim, h algum aqui. Ao mesmo
tempo, sem perder de vista um s instante a apario, que se
conservava imvel, cuidou de acender a vela.
   Devo diz-lo: era tal em mim a convico de que minha mulher se
achava sob o imprio de uma iluso, em consequncia de algum sonho;
estava to persuadido de que nenhuma pessoa estranha podia ter
penetrado no nosso apartamento, no qual, alis, o meu co de guarda
fizera a sua costumada ronda, aps o jantar dos criados; era to
profundo o silncio desde que eu despertara, que, embalado por
essas idias, no pensei em abrir os olhos. Se minha mulher me
houvera dito: -- Vejo algum --, seria diverso, eu teria olhado
imediatamente. Tal, porm, no se deu. Provavelmente, as coisas
deviam passar-se do modo por que se passaram.
   Seja como for, durante todo o tempo que ela gastou para acender
a vela, a apario lhe esteve presente. Desvaneceu-se com a luz. Ao
ouvir-lhe a narrativa pormenorizada do que ocorrera, levantei-me.
Percorri o apartamento inteiro. Nada. Consultei o relgio, eram
quatro horas.
   A partir de ento, diversos fatos singulares se tm dado no
apartamento: rudos inexplicveis, luzes vistas de fora, por mim,
atravs das janelas do primeiro andar, quando todos se acham no
andar trreo; desapario sbita de moedas das minhas prprias
mos; pancadas, etc., etc. Mas, a apario no se repetiu. Convm
dizer que  noite conservvamos acesa uma lampadazinha.
   Ultimamente, estando em Paris, a Senhora Mahon perguntou 
sonmbula do Sr. Cahagnet se poderia dizer-lhe qual o Esprito que
se lhe manifestara. A resposta foi esta:
 -- Vejo-o'''  um homem revestido da toga de juiz com amplas
mangas. Objetou minha mulher no ter sido assim que ele se lhe
apresentara. -- Pouco importa. Digo-lhe que  a ele que eu vejo.
Tomou as vestes que mais lhe convinham. Quando vivo, foi juiz muito
demandista por natureza. Ao morrer, achava-se com a razo
perturbada por motivo de um processo injusto que via quase perdido.
Suicidou-se ento nas cercanias de sua casa. Est errante. A
senhora costumava dizer que tinha vontade de ver um Esprito'''
Ele veio.
   Essa explicao no satisfez bastante  Senhora Mahon, para quem
eram novos todos aqueles pormenores. Poucos dias depois do seu
regresso ao Luxemburgo, encontrando-se na casa de umas pessoas s
quais repetia a resposta que lhe dera a sonmbula, todos os que a
ouviam exclamaram: -- Mas,  o Sr. N''', que se afogou h muitos anos
no lago ali perto. Era juiz''' de carter rabugento. Estava a
pique de perder um processo contra um de seus sobrinhos'''
Tratava-se de prestar contas de tutela''' Perdeu a cabea'''
suicidou-se.
   Exatamente o que dissera a sonmbula.
   No lhe oculto que foi profunda a impresso em todos os
presentes''' Tambm no devo deixar de dizer-lhe que a Senhora
Mahon ignorava, como eu, essa histria do juiz N''' e,
conseguintemente, a sonmbula no poderia ler-lhe no esprito as
particularidades precisas que revelou.
   Entrego-lhe o fato e o autorizo a public-lo. Pelo que concerne
 exatido, afirmo-a sob a garantia da minha palavra.
   Eugnio Mahon - Vice-Cnsul da Frana".

   Algumas reflexes

   Eis-nos, pois, levados, pouco a pouco, a comprovar que aquele
corpo fludico, entrevisto na antigidade como uma necessidade
lgica,  positiva realidade, atestada pelas aparies, tanto
quanto pela viso dos sonmbulos e dos mdiuns.
   Esses seres que vivem no espao, isto , ao nosso derredor, tm
uma forma perfeitamente determinada, que permite sejam descritos
com exatido. J no  lcita hoje qualquer dvida acerca desse
ponto, visto serem por demais numerosos os testemunhos de
experimentadores srios, para que se admita, numa discusso
sincera, a negao pura e simples.
   Resta inquirir se esse envoltrio se constitui depois da morte,
ou, o que  mais provvel, se est sempre ligado  alma. Se 
verdadeira esta ltima suposio, possvel h de ser
comprovar-se-lhe a existncia durante a vida.  o que vamos fazer
imediatamente, apelando, no mais para magnetizadores ou espritas,
e sim para investigadores inteiramente estranhos aos nossos
estudos, para sbios imparciais, cujas verificaes tanto mais
valor tero, quanto nenhuma ligao guardem com qualquer teoria
filosfica.

   CAPITULO IV

   O DESDOBRAMENTO DO SER HUMANO

   SUMRIO:
   A Sociedade de Pesquisas Psquicas -- Apario espontnea
-- Goethe e seu amigo -- Aparies mltiplas do mesmo paciente --
Desdobramento involuntrio, mas consciente -- Apario tangvel em
momento de perigo -- Duplo materializado -- Apario falante --
Algumas observaes -- O adivinho de Filadlfia -- Santo Afonso de
Liguori.

   Todas as teorias, por muito sedutoras que sejam, precisam
apoiar-se em fenmenos fsicos, sem o que no podem ser tidas seno
como produtos brilhantes da imaginao, sem valor positivo.
   Quando os espritas proclamam que a alma est sempre revestida
de um envoltrio fludico, tanto no curso da vida, como depois da
morte, ficam no dever de provar que suas asseres tm fundamento.
 por sentirmos imperiosamente essa necessidade que vamos expor
certo nmero de casos de desdobramento do ser humano, extrados do
grande acervo que j eles constituem, mas que no podemos
apresentar todo, dentro do quadro restrito que nos traamos.
   Em livro anterior a este (77), citamos alguns casos de
bicorporeidade, mas, nessa matria, no h que temer a
multiplicao dos exemplos, a fim de impor a convico. Ao demais,
nessas narrativas, circunstncias caractersticas se nos depararo,
que evidenciam a imortalidade da alma e as propriedades desse corpo
impondervel cujo estudo empreendemos.
  ::::::::::
  (77) "O Espiritismo perante a Cincia".
  ::::::::::

   A Sociedade de Pesquisas Psquicas

   O cepticismo contemporneo foi violentamente abalado pela
converso dos mais considerveis sbios da nossa poca ao
Espiritismo. A invaso do mundo terrestre pelos Espritos se
produziu mediante manifestaes to espantosas, realmente, para os
incrdulos, que homens srios se puseram a refletir se resolveram
estudar por si mesmos os fatos anormais, como: a transmisso do
pensamento a distncia e sem contacto entre os operadores, a dupla
vista, as aparies de vivos ou de mortos, fatos estes lanados,
at ento, ao rol das supersties populares.
   Sob o influxo dessas idias, fundou-se na Inglaterra uma
sociedade de Pesquisas Psquicas (78), cujos trabalhos conquistaram
para logo grande autoridade, justamente pela preciso, pelo
escrpulo e pelo mtodo com que os pesquisadores se entregaram a
essa grande investigao. Os principais resultados, obtidos desde
h dez anos, foram consubstanciados pelos Senhores Myers, Guerney e
Podmore em dois volumes intitulados: Phantasms of the living
("Fantasmas dos vivos") e as observaes diariamente feitas so
relatadas em resenhas que se publicam todos os meses, sob o nome de
"Proceedings".
   Da Sociedade britnica brotaram um ramo americano e um francs.
Na Frana, foram membros seus, correspondentes, notoriamente, os
Senhores Baunis, Bernheim, Ferr, Pierre Janet, Libault, Ribot e
Richet. O Sr. Marillier, mestre de conferncias na Escola de Altos
Estudos, fez uma traduo resumida dos Phantasms of the living, sob
o ttulo imprprio de -- As alucinaes telepticas.  a esse livro
que vamos tomar a maior parte dos novos testemunhos que
apresentaremos e que tornam evidente a dualidade do ser humano. (79)
  ::::::::::
  (79) Depois que o presente estudo foi publicado, grande progresso
se realizou na Frana, em conseqncia, principalmente, da criao
do "Instituto Metapsquico Internacional" (Fundao Jean Meyer),
sob a direo do Dr. Geley e de uma Comisso de sbios entre os
quais se contam o prof. Charles Richet, Sir Oliver Lodge, etc. Esse
Instituto, com sede na Avenida Niel, 89, em Paris, foi reconhecido
de utilidade pblica. ( Nota da stima edio ).
   Ao ser publicada esta primeira edio brasileira, o Dr. Gustave
Geley, que desencarnou em desastre de avio, quando regressava de
um Congresso de Psiquismo em Varsvia, fora substitudo pelo Dr.
Eugne Osty, que a seu turno desencarnou em julho de 1938. (Nota do
tradutor)
  ::::::::::
   Grande reconhecimento devem os espritas aos membros da
Sociedade de Pesquisas Psquicas, porquanto longos anos passaram
eles a colecionar observaes, bem comprovadas, de aparies de
todos os gneros. Os casos todos foram submetidos a severos exames,
to completos quanto possvel, certificados ou pelas testemunhas
efetivas, ou pelos que deles se inteiravam por intermdio dessas
testemunhas. Dados o alto valor dos investigadores, as precaues
que tomaram para eliminar as causas de erros, achamo-nos em
presena de considervel coletnea de documentos autnticos, sobre
os quais podemos assentar os nossos estudos.
   As experincias tiveram por objeto, primeiramente, verificar a
possibilidade de duas inteligncias transmitirem uma  outra seus
pensamentos, sem qualquer sinal exterior. Obtiveram-se resultados
notveis (80) e essa ao de um esprito sobre outro, sem contato
perceptvel, foi denominada Telepatia. Mas, de pronto, o fenmeno
assumiu outro aspecto: desenvolveu-se a tal ponto, que alguns
operadores, em vez de apenas transmitirem seus pensamentos, se
mostraram aos que tinham de receb-los, havendo, pois, verdadeiras
aparies.
  ::::::::::
  (80) Vejam-se o primeiro volume dos "Phantasms", pgs. 39-48 e vol.
II, pgs. 644-653. Vejam-se tambm: "Proceedings of the Society for
Psychical Research", t. I (1882-1883), pgs. 83-97 e 175-215; t. II
(1883-1884), pgs. 208-215. Parte XI, maio de 1887, pg. 237; Parte
XII junho de 1888, pgs. 169-215 e 56-116 (experincias do senhor
Charles Richet). -- Consulte-se tambm o livro bastante documentado
do Dr. Ochorowicz: "A sugesto mental".
  ::::::::::
   Como poderiam tais fatos ser explicados? No sendo espritas,
no admitindo a existncia da alma qual a define o Espiritismo
viram-se constrangidos os experimentadores a formular uma hiptese.
Adotaram esta: o paciente impressionado no tem uma viso real,
mas, apenas, uma alucinao, isto , imagina ver uma apario, como
se visse uma pessoa comum, no sendo exterior o fantasma, no
existindo seno no crebro do aludido paciente. A viso 
subjetiva, ou seja, interna e no objetiva. Entretanto, essa iluso
psquica coincide com um fato verdadeiro: a ao voluntria do
operador. Da o lhe chamarem alucinao verdica ou teleptica.
   Como se multiplicassem as observaes, notaram em seguida que a
vontade consciente do agente (81) no era necessria e que um
indivduo podia aparecer a outro, sem desgnio previamente
determinado. So essas coincidncias, entre uma viso e um
acontecimento verdico ligado  mesma viso, que constituem a
maioria dos depoimentos registrados nos Phantasms of the living.
  ::::::::::
  (81) D-se esse nome  pessoa cujo duplo aparece.
  ::::::::::
   Se nos fosse possvel passar em revista todos os fenmenos de
aes telepticas referidas nos dois livros citados e nos
Proceedings, fcil nos seria demonstrar que a hiptese da
alucinao no  absolutamente de molde a explicar todos os fatos.
Podemos, com o grande naturalista Alfred Russel Wallace (82),
destacar dessas narrativas cinco provas da objetividade de algumas
de tais aparies:
  ::::::::::
  (82) Alfred Russel Wallace -- "Os milagres do moderno
Espiritualismo".
  ::::::::::
   Primeiro -- A simultaneidade da percepo do fantasma por muitas
pessoas;
   Segundo -- Ser, a apario, vista por diversas testemunhas, como
se ocupasse diferentes lugares, por efeito de um movimento
aparente; ou, ento, ser vista no mesmo lugar, sem embargo do
deslocamento do observador;
   Terceiro -- As impresses que os fantasmas produzem nos animais;
   Quarto -- Os efeitos fsicos que a viso produz;
   Quinto -- Poderem as aparies ser fotografadas, ou terem-no
sido, quer fossem visveis, quer no, s pessoas presentes.
   A teoria da alucinao teleptica, provocada ou espontnea, s
foi imaginada, cremos, para no chocar muito de frente as idias
preconcebidas do pblico, ainda pouco familiarizado com estes
fenmenos naturais, mas que apresentam um lado misterioso, devido a
se produzirem de improviso e s circunstncias graves em que
geralmente se do. Vejamos, com efeito, as reflexes do Sr.
Guerney, redator dos Phantasms. (83)
  ::::::::::
  (83) "As Alucinaes Telepticas", pg. 50.
  ::::::::::
   "Perguntar-se-, porventura, se nos assiste o direito de
estabelecer qualquer ligao entre os resultados experimentais que
temos discutido (transmisso de pensamento) nos precedentes
captulos e os fenmenos que acabamos de descrever (aparies de
experimentadores). J eu disse que eram fenmenos de transio,
capazes de permitir se passe dos de transmisso experimental do
pensamento aos casos de telepatia espontnea. _Mas, _poder-se-ia
_objetar _que _h _um _abismo _intransponvel _entre _os _fenmenos
_ordinrios _de _transmisso _de _pensamento _e _essas _aparies
_do _agente (84). A diferena radical consiste em que o objeto que
aparece no  aquele sobre o qual se concentra o pensamento do
operador. Nos casos que vimos de estudar, o agente no pensava em
si prprio, no seu contorno visvel. O aspecto exterior de uma
pessoa ocupa lugar relativamente pequeno na idia que ela faz de
si mesma; entretanto, o que o paciente percebe  somente esse
aspecto exterior. Com  essa mesma dificuldade esbarremos nos casos
de telepatia espontnea; enquanto a impresso produzida no esprito
do paciente for apenas a reproduo de uma imagem ou de uma idia
que exista no esprito do agente, pode-se conceber um fundamento
fisiolgico para os fenmenos de transmisso de pensamento. Mas, a
interpretao dos fatos se torna muito mais difcil, quando o que
aparece ao paciente j no  a imagem que o agente tem diante dos
olhos.
  ::::::::::
  (84) O grifo  nosso.
  ::::::::::
   A''' morre e aparece a B''' que se acha a grande distncia dele.
No podemos descobrir nenhuma ligao entre esses dois fenmenos,
pelo menos no domnio da conscincia clara. Poderamos, entretanto,
conceber a ao do agente sobre o paciente, fazendo intervir os
fenmenos inconsciente. Mas, talvez seja melhor reconhecer a
dificuldade e dizer que, na aproximao que tentamos entre a
transmisso experimental do pensamento e a telepatia espontnea,
unicamente levamos em conta o aspecto fisiolgico dos fenmenos".
   So de todo legtimos os escrpulos do Sr. Guerney; a leitura
dos Proceedings amplamente os justifica. A transmisso do
pensamento, alis difcil de produzir-se,  um fato relativamente
simples, em face do com que nos ocupamos. Pode-se, com efeito,
verificar, em se procedendo a uma srie longa de experincias, que,
quase sempre, o nmero de vezes em que se obtm a adivinhao exata
de um algarismo, pouco acima fica do que  indicado pelo clculo
das probabilidades. Uma figura geomtrica ainda mais difcil  de
ser percebida pelo paciente e, para que ordens mentais se cumpram,
 preciso, as mais das vezes, que, como quando se trata da
transmisso de sensaes, as pessoas submetidas  experincia se
achem mergulhadas em sono hipntico.
   V-se, pois, que h um abismo entre essas modalidades
rudimentares de uma inteligncia influenciada por outra e as
aparies, fenmeno este complexo, que pe em jogo as faculdades do
esprito.
   Todavia, em certos casos, pode sustentar-se que a apario  uma
alucinao pura e simples, produzida pelo pensamento do agente. As
circunstncias que acompanham a viso  que devem servir de
critrio para julgar-se da objetividade da apario.
   Alis, examinando os fatos, apreciaremos o fundamento da
explicao alucinatria. Na impossibilidade de citar todos os
casos, tomaremos um exemplo em cada classe de fenmenos
recomendando ao leitor, para mais amplas informaes, os documentos
originais.

   Apario expontnia

   A Senhora Pole Carew, de Antony, Torpoint, Devonport, nos enviou
o relato seguinte (85)
  ::::::::::
  (85) "As alucinaes Telepticas", Pg. 237.
  ::::::::::
   "31 de dezembro de 1883
   Em outubro de 1880, lord e lady Waldgrave vieram com a sua
criada de quarto, a escocesa Helena Alexander, passar alguns dias
em nossa casa. (A narrativa diz como descobriram que Helena fora
atacada de febre tifide). Ela, contudo, no parecia muito doente
e, como ningum julgasse haver qualquer perigo e lord e lady
Waldgrave tinham de partir no dia seguinte (quinta feira) para uma
longa viagem, resolveram deix-la aos cuidados da amiga que os
hospedara.
   A enfermidade seguiu seu curso habitual e Helena parecia ir
muito bem, at o domingo da semana seguinte. O mdico me disse
ento que a febre a deixara, mas que o seu estado de fraqueza o
inquietava muito. Mandei vir imediatamente uma enfermeira, no
obstante haver em casa a minha criada de quarto Reddell, que, muito
dedicada a Helena, cuidara dela durante toda a enfermidade.
Entretanto, como a enfermeira no pudesse vir no dia imediato, eu
disse a Reddell que ainda por aquela noite tomasse conta de Helena,
a fim de lhe administrar o remdio e os alimentos  Com efeito, era
necessrio aliment-la freqentemente.
   Por volta das 4 horas e meia dessa noite, ou, antes, na
madrugada de segunda-feira, Reddell consultou o relgio, deitou a
poo num clice e se debruava sobre a cama de Helena para lhe dar
o remdio, quando a campainha da porta de entrada tocou.  Disse ela
para consigo: -- L est essa aborrecida campainha com os fios
baralhados. (Ao que parece, a campainha j tocara algumas vezes
desse modo, sozinha). No mesmo instante, porm, ouviu abrir-se a
porta e, como lanasse o olhar em torno de si, viu entrar uma velha
muito gorda, vestindo uma camisola de dormir e uma saia de flanela
vermelha e trazendo na mo um castial de cobre, de modelo antigo,
com uma vela acesa. Havia um buraco na saia da mulher. Esta entrou
no quarto e fez meno de encaminhar-se para o toucador, a fim de
colocar ali o castial. Era inteiramente desconhecida de Reddell
que, todavia, pensou imediatamente fosse a me de Helena que vinha
visit-la. Notou que a velha tinha um ar de enfado, talvez porque
no na houvessem prevenido mais cedo. Reddell deu a poo a Helena
e, quando se voltou, a apario se sumira, estando fechada a porta.
Nesse meio tempo, o estado de Helena piorara muito e Reddell me foi
chamar. Mandei buscar o mdico e, enquanto o espervamos, aplicamos
cataplasmas quentes na enferma; mas''' esta morreu, pouco antes de
chegar o doutor. Meia hora antes de falecer, estava perfeitamente
lcida. Morta, parecia apenas adormecida.
   Logo em comeo da sua enfermidade, Helena escrevera a uma de
suas irms. Dizia na carta no se sentir bem, mas sem insistir
nisso. Como nunca falara seno de sua me, todos da nossa casa,
para quem ela era inteiramente estranha, supunham que no tivesse
outros parentes vivos. Reddell se lhe oferecia sempre para escrever
em seu lugar; respondia que no precisava, que dentro de um ou dois
dias escreveria com sua prpria mo. Ningum, pois, da sua famlia
a sabia to doente, pelo que  muito de notar-se que sua me, nada
nervosa, haja dito aquela noite, quando se ia deitar: -- Tenho a
certeza de que Helena est muito doente.
   Reddell me falou da apario, assim como  minha filha, cerca de
uma hora aps a morte de Helena. -- No sou supersticiosa, nem
nervosa, disse-nos, ao principiar a narrativa do caso, e no me
assustei nem um pouquinho. O certo, porm  que sua me veio aqui
a noite passada. E contou, ento, toda a histria, descrevendo com
preciso a figura que vira.
   Os parentes foram avisados, para que pudessem assistir os
funerais. Vieram a me e o pai, bem como a irm, e Reddell
reconheceu naquela a velha que l estivera. Eu, a meu turno, a
reconheci, to exata fora a descrio feita, com a mesma expresso
fisionmica que Reddell indicara, devida, no  inquietao, mas 
surdez. Acharam todos que no se lhe devia falar do fato; mas, 
irm, Reddell referiu tudo, dizendo-lhe aquela que a sua descrio
correspondia com muita exatido s vestes que sua me teria posto,
se se levantasse durante a noite; que na sua casa havia um castial
em tudo semelhante ao da apario; que existia um buraco na saia
de sua me, buraco esse devido  maneira por que ela punha aquela
pea do vesturio.  curioso que nem Helena, nem sua me parecem
ter-se apercebido da visita. Em todo caso, nenhuma jamais disse
haver uma aparecido  outra, nem sequer em sonho.
   F. A. Pole Carew."

   Francis Reddell, cuja narrativa confirma a da Sra. Pole Carew,
declara que jamais vira outra apario. A Senhora Lyttleton, do
Colgio Selwyn, Cambridge, que a conhece, diz que ela parece uma
pessoa muito positiva (matter of fact) e que o que acima de tudo a
impressionara fora o ter visto, na saia de flanela da me de
Helena, um buraco feito pela barbatana do espartilho, buraco que
notara na sala da apario.
   Aqui de novo se nos depara um carter comum a todas as aparies
de pessoas vivas e que temos assinalado nas descries que de
Espritos os pacientes de Cahagnet ho feito, o de trazerem sempre
um vesturio. Em face da dualidade do ser humano, pode-se admitir
que a alma se desprende e atua longe do seu envoltrio, mas no 
evidente que as vestes tenham um forro fludico e que se possam
deslocar como o fantasma do vivo. Outro tanto ocorre dizer dos
objetos que se apresentam ao mesmo tempo que a apario.
   No relato acima, vemos a me de Helena vestida com uma saia
vermelha, semelhante  que costumava usar e, ainda mais, trazendo
na mo um castial de forma particular, cuja descrio a irm da
morta reconhece exata. Tem-se que procurar saber como  que o duplo
humano opera para se mostrar e para fabricar suas vestes, bem como
os utenslios de que se serve. Isto constituir objeto de estudo
especial, que faremos quando houvermos apreciado todos os casos.
   A narrao precedente nos coloca diante de um exemplo bem
positivo de desdobramento. Reddell se acha completamente acordada;
ouve tocar a campainha da entrada e a porta abrir-se; v a me de
Helena andar no quarto, dirigindo-se para o toucador. So fatos
demonstrativos de que ela se encontra no seu estado normal, de que
todos os seus sentidos funcionam como de ordinrio e que no h
cabimento, no caso, para uma alucinao. A apario  to real que
a criada de quarto faz dela  sua ama uma descrio minuciosa,
reconhecendo ambas, mais tarde, a me de Helena, a quem, antes,
nunca tinham visto.
   Que dizem de tal caso os redatores de Phantasms? Como se sabe,
segundo a tese que eles adotaram, no h apario, mas apenas viso
interior, produzida pela sugesto de um ser vivo (chamado agente)
sobre outra pessoa que experimenta a alucinao. Qual aqui o
agente? Na edio francesa h a seguinte nota:
   "Pode-se perguntar qual foi o agente verdadeiro. A me de
Helena? Seu estado, porm, nada tinha de anormal; ela apenas sentia
certa inquietao pela filha; no conhecia a Senhora Reddell. A
nica condio favorvel  que os espritos de ambas se preocupavam
ento com a mesma coisa.  tambm possvel que o verdadeiro agente
fosse Helena e que, durante a sua agonia, tenha tido diante dos
olhos uma imagem viva de sua me".
   Afigura-se-nos que estas reflexes de maneira nenhuma se casam
com as circunstncias da narrativa. Para que uma alucinao se
produza, necessrio  que certa relao se estabelea entre o
agente e o percipiente, ou seja, aqui, entre Reddell e a me de
Helena. Ora, afirma-se que elas absolutamente no se conhecem.
Logo, a segunda no  o agente. Ser Helena? No, pois que a
Sra. Pole Carew diz formalmente que a enferma no viu sua me.
Alis, como a imagem desta ltima teria podido abrir a porta da
casa, fazendo tilintar a campainha, e abrir tambm a do quarto onde
se achava a doente? As sensaes auditivas no so mais
alucinatrias do que as sensaes visuais. Ora, a absoluta
veridicidade destas  reconhecida pela descrio exata da
fisionomia da velha, pela da saia, com o buraco devido a barbatana,
e pela do castial de forma singular. No houve, pois, alucinao,
mas apario verdadeira.
   Entende o redator que, para dar-se o desprendimento da alma, 
necessrio um acontecimento anormal.  uma opinio arriscada,
porquanto, nos casos seguintes, veremos que o sono ordinrio basta
s vezes para permitir o desprendimento da alma.
   Comprovaremos que o duplo  a reproduo exata do ser vivo;
tambm notaremos que o corpo fsico do agente se acha imerso em
sono, durante a manifestao. Veremos que esse  o caso mais geral.
A edio inglesa contm oitenta e trs observaes anlogas.

   Goehte e seu amigo

   "Wolfgang von Goethe, que por uma tarde chuvosa de vero sara a
passeio com seu amigo K''', voltava com ele do Belvedere, em
Weimar. De repente, o poeta para, como se estivesse diante de uma
apario, e se dispe a falar-lhe. K''' de nada se apercebera.
Sbito, exclama o poeta: -- Meu Deus! Se eu no tivesse a certeza de
que neste momento o meu amigo Frederico est em Frankfurt, juraria
que  ele!''' Em seguida, solta uma gargalhada: -- Mas,  ele
mesmo''' o meu amigo Frederico!''' Tu, aqui em Weimar?''' Por Deus,
meu caro, em que trajes te vejo''' com o meu chambre''' meu bon de
dormir''' calando minhas chinelas''' aqui em plena rua?'''. K''',
como ficou dito acima, nada absolutamente via de tudo aquilo e se
espantou, crente de que o poeta fora atacado de repentina loucura.
Goethe, porm, preocupado to-s com a sua viso, exclama, abrindo
os braos. -- Frederico! Onde te meteste?''' Grande Deus! Meu querido
K''' no viste onde se meteu a pessoa que acabamos de encontrar?.
K''' estupefato, no respondeu. Ento, o poeta, depois de dirigir o
olhar para todos os lados, diz em tom de quem divaga: -- Ah! sim,
compreendo''' foi uma viso. Qual, no entanto, ser a significao
de tudo isto?''' Teria o meu amigo morrido repentinamente?''' Seria
seu Esprito o que vi?'''
   Dentro em pouco Goethe chegava a casa e l encontrou Frederico'''
Os cabelos se lhe eriaram: -- Afasta-te, fantasma! -- bradou,
recuando, plido como um cadver. -- Ento meu caro,  esse o
acolhimento que dispensas ao teu mais fiel amigo?''' -- Ah!
exclamou o poeta a rir e  a chorar ao mesmo tempo, agora, sim, no
 um Esprito, mas um ser de carne e osso. E os dois se abraaram
efusivamente.
   Frederico chegara todo molhado da chuva a casa de Goehte e
vestira as roupas do amigo. A seguir, adormecera numa poltrona e
sonhara que fora ao encontro do poeta e que este o interpelara
assim: -- Tu, aqui em Weimar?''' Qu!''' com o meu chambre''' meu
bon de dormir''' e minhas chinelas, em plena rua?''' -- Desde
esse dia, o grande poeta acreditou noutra vida aps a terrena".(86)
  ::::::::::
  (86) "Psychische Studien", maro de 1897.
  ::::::::::
   Estamos aqui em presena de uma espcie de alucinao
teleptica, pois que somente Goethe v o fantasma. Aquela imagem,
porm,  exterior, no se lhe alojou no crebro, como aconteceria,
se se tratara de uma verdadeira alucinao, dado que, pelo
testemunho de Frederico, este fora em sonho ao encontro do amigo. O
que atesta que a sua exteriorizao foi objetiva  que as palavras
por ele ouvidas eram exatamente as que o ilustre escritor
pronunciou. Vemos que o que Frederico toma por um sonho  a
lembrana de um fato real, ocorrido durante o seu sono; sua alma se
desprendeu, enquanto seu corpo repousava, ouviu e guardou as
palavras de Goethe.
   Faamos, a propsito, uma observao muito importante. Se
Frederico no se lembrasse do que ocorrera enquanto ele dormitava,
os membros da Sociedade de Pesquisas Psquicas teriam concedido que
houvera uma ao da conscincia subliminal do mesmo Frederico, isto
, a interveno de uma personalidade segunda desse paciente. Ora,
parece evidente, aqui, que quem age  sempre a mesma personalidade,
pois tem conscincia do que se passou. Pode acontecer, entretanto,
que nem sempre o agente se lembre do que fez, enquanto seu corpo
repousava. Esta perda da lembrana no basta, porm, para autorizar
os psiclogos ingleses e franceses, que ho tratado destas
questes (87), a concluir que h em ns duas personalidades que
coexistem, ignorando-se mutuamente.
  ::::::::::
  (87) Veja-se: W. H. F. Myers, "Proceedings", "A conscincia
subliminal", 1897 -- Consultem-se tambm: P. Janet, "O automatismo
psicolgico", pg. 314; e Binet, "As alteraes da personalidade",
pgs. 6 e seguintes.
  ::::::::::
   A nica induo que se nos afigura logicamente lcita  a de
admitir-se que a nossa personalidade ordinria -- a do estado de
viglia --  distinta da personalidade durante o sono, por uma
certa categoria de lembranas que, ao despertar, deixam de ser
conscientes. No h duas individualidades no mesmo ser, mas apenas
dois estados diferentes de uma mesma individualidade.
   As narrativas que se seguem -- extradas do depoimento dado a
15 de maio de 1869 pelo Sr. Cromwel Varley, engenheiro-chefe das
linhas telegrficas da Inglaterra, perante a comisso da sociedade
Dialtica de Londres -- so tpicas no mximo grau. Mostram as
relaes exatas que existem entre uma individualidade quando a
dormir e quando desperta.

   Depoimento de Cromwel Varley
   Engenheiro-chefe das linhas telegrficas da Inglaterra

   "Aqui est um quarto caso em que sou o ator principal (88).
Tinha eu feito algumas experincias sobre a fabricao da
faiana, e os vapores de cido fluordrico, empregado em larga
escala, me haviam causado uma enfermidade da garganta. Fiquei
seriamente doente, sucedendo-me amide ser despertado por espasmos
da glote. Fora-me recomendado ter sempre  mo ter sulfrico para
aspir-lo e obter alvio pronto. Seis ou oito vezes me vali desse
recurso, mas, o odor dessa substncia me era to desagradvel, que
acabei por preferir o clorofrmio. Colocava-o ao lado da cama e,
quando precisava servir-me dele, tomava no leito uma posio tal
que, em sobrevindo a insensibilidade, eu caia  para trs, enquanto
a esponja rolava para o cho. Uma noite, porm, tombei de costas na
cama, retendo a esponja, que se me conservou aplicada  boca".
  ::::::::::
  (88) "Report on Spiritualism", pg. 157, traduzido na "Revue
Scientifique et Morale du Spiritisme", fevereiro de 1898.
  ::::::::::
   "A Senhora Varley estava noutro quarto por cima do meu, dando
alimento a um filho enfermo. Ao cabo de alguns instantes, percebi a
situao em que me achava: via minha mulher no aposento superior e
me via a mim mesmo deitado de costas com a esponja sobre a boca e
impossibilitado de fazer qualquer movimento. Empreguei toda a minha
vontade em lhe fazer penetrar no esprito uma clara noo do perigo
em que me encontrava. Ela despertou, desceu, afastou a esponja e
ficou aterrada. Fiz os maiores esforos para lhe falar e disse: -- Vou
esquecer tudo isto e ignorarei o que se passou, se no mo recordares
pela manh. No deixes, porm, de me dizer o que foi que te fez descer
e, ento, serei capaz de me lembrar de todos os pormenores. Na
manh seguinte, ela fez o que lhe eu recomendara,
mas, no primeiro momento, de nada me pude recordar. Entretanto,
pelo dia todo empreguei os maiores esforos e cheguei, afinal a me
lembrar de uma parte do ocorrido e, mais tarde, da totalidade dos
fatos. Meu Esprito se achava no quarto superior perto da Senhora
Varley, quando a tornei consciente do perigo em que me via.
   Este caso me facilitou compreender os meios de comunicao dos
Espritos. A Senhora Varley, viu o que meu Esprito pedia e teve as
mesmas impresses. Um dia, havendo cado em transe, disse-me ela:
 -- Atualmente, no so os Espritos que te falam: sou eu mesma e me
sirvo do meu corpo de maneira idntica  que os Espritos empregam,
quando falam pela minha boca.
   Em 1860, observei outro fato. Acabava eu de estender o primeiro
cabo atlntico. Chegando a Halifax, meu nome foi telegrafado para
Nova York. O Sr. Cyrus Fied transmite a notcia para St. John e
para o Havre, de sorte que por toda parte fui cordialmente recebido
e no Havre encontrei preparado um banquete. Pronunciaram-se muitos
discursos, de modo que a festa se prolongou bastante. Eu tinha que
tomar o vapor que partia na manh seguinte e estava preocupado com
a possibilidade de no despertar a tempo. Empreguei ento um meio
que sempre me dera bom resultado: o de formular energicamente, para
comigo mesmo, a vontade de acordar com a necessria antecedncia.
Chegou a manh e eu me via profundamente adormecido na cama.
   Tentei despertar-me, mas no pude. Ao cabo de alguns instantes,
estando a procurar os meios mais enrgicos de conseguir o que
queria, dei com um ptio onde havia uma pilha de madeiras, da qual
dois homens se aproximavam. Subiram na pilha e retiraram uma
prancha pesada. Ocorreu-me ento a idia de provocar em mim mesmo o
sonho de que uma bomba me fora lanada, a qual, depois de sibilar
ao sair do canho, estourava e me feria na face, no momento preciso
em que os homens, de cima da pilha, atiravam ao cho a prancha que
haviam apanhado. Isso me despertou, deixando-me a lembrana ntida
dos dois atos, o primeiro dos quais consistindo na ao do meu ser
intelectual a ordenar ao meu crebro que acreditasse na realidade
de iluses ridculas, provocadas pelo poder da vontade da
inteligncia. Quanto ao outro ato, no perdi um segundo em saltar
da cama, abrir a janela e verificar que o ptio, a pilha de
madeiras e os dois homens eram tais quais o meu esprito os vira.
Antes, nenhum conhecimento eu tinha do local; era noite quando, na
vspera, cheguei quela cidade e no sabia absolutamente que havia
ali um ptio.  inegvel que meu esprito viu tudo isso, enquanto
meu corpo jazia adormecido. Era-me impossvel ver a pilha de
madeiras sem abrir a janela". (89)
  ::::::::::
  (89) H, pois, aqui, simultaneamente, auto-sugesto e clarividncia..
  ::::::::::
   Em a narrativa a que passamos, temos uma mesma pessoa a se
desdobrar em vrias ocasies, sem nenhuma participao sua
consciente nos fatos.

   Aparies multiplas do mesmo paciente

   Sra. Stone, Shute Haye, Waldich, Bridport. (90)
  ::::::::::
  (90) "As Alucinaes Telepticas", pg. 278.
  ::::::::::
   X''' 1883.

   "Fui vista trs vezes, quando em realidade no me achava
presente, e de cada vez por pessoas diversas. Da primeira, foi minha
cunhada quem me viu. Ela me velava o sono, aps o nascimento de meu
primeiro filho. Dirigindo o olhar para a cama onde eu dormia, viu-me
distintamente e, ao mesmo tempo, o meu duplo. Viu, de um lado, o meu
corpo natural e, de outro, a minha imagem espiritualizada e tnue.
Fechou vrias vezes os olhos; mas, reabrindo-os, via sempre a mesma
apario. Ao cabo de algum tempo, dissipou-se a viso. Pensou fosse
um sinal de minha morte prxima, pelo que s muitos meses depois vim
a saber do fato.
   A segunda viso teve-a uma sobrinha, que morava conosco em
Dorchester. Era uma manh de primavera. Abrindo a porta de seu
quarto, ela me viu subindo a escada que lhe ficava em frente, com um
vestido preto, de luto, uma gola branca e um gorro tambm branco.
Era esse o meu traje habitual, por estar de luto de minha sogra. Ela
no me falou, mas me viu e julgou que eu fosse ao quarto de meu
filho. Ao almoo, disse ao tio: -- Minha tia se levantou hoje muito
cedo; eu a vi no quarto do filho. -- Oh! No, Jane, respondeu meu
marido; ela no se sentia muito bem, tanto que vai almoar no quarto,
antes de descer.
   O terceiro caso foi o mais notvel. Tnhamos uma casinha em
Weymouth, onde amos de tempos a tempos gozar da vizinhana do mar.
Quando l estvamos, ramos servidos por uma certa Senhorita Samways
que, quando no estvamos, tomava conta da casa. Mulher agradvel e
calma, digna de toda confiana, era tia da nossa estimada e antiga
criada Kitty Balston, ento conosco em Dorchester. Kitty escrevera 
tia na vspera da viso, comunicando-lhe o nascimento do meu filho
mais moo e dizendo que eu ia bem.
   Na noite seguinte, a Senhora Balston foi a uma reunio de
preces, prximo a Clarence Buildings. Ela era batista. Antes de
partir, fechou uma porta interior, que dava para uma pequena rea
atrs da casa; fechou tambm a porta da rua, e levou no bolso as
chaves. Ao regressar, abrindo a porta da rua, percebeu uma luz no
extremo do corredor. Aproximando-se, viu que a porta da rea estava
aberta. A luz clareava todos os recantos da rea e eu me achava no
centro desta. Ela me reconheceu distintamente: estava eu vestida de
branco, muito plida e com semblante fatigado. Apavorada, deitou a
correr para a casa de um vizinho (a do capito Court) e desmaiou em
caminho. Quando voltou a si, o capito a acompanhou at a nossa
casa, que se encontrava tal qual ela a deixara, com a porta da rea
hermeticamente fechada. Nessa ocasio, eu me achava muito fraca e
passei vrias semanas entre a vida e a morte".
   Da narrativa desta senhora, deduz-se que a sua sade deixava
muito a desejar e que era quando ela se achava de cama que sua alma
se desprendia. Para que a hiptese da alucinao pudesse explicar
essas aparies a trs pessoas que se no conheciam umas s outras e
em pocas diferente, fora mister supor na Sra. Stone um poder
alucinatrio que ela exercia a seu mau grado; mas, ainda assim, no
se compreenderia como a Sra. Balston, muito distante, pudera ser por
ela influenciada. Parece-nos que o desdobramento explica mais
claramente os fatos, pois que, noutra circunstncia, sua cunhada lhe
via muito distinta e simultaneamente o corpo material e o corpo
fludico.
   Notemos tambm que a viso do duplo pela cunhada no  subjetiva,
porquanto ela fecha os olhos repetidas vezes, desaparecendo a viso
nesses momentos, para se tornar de novo perceptvel, logo que de novo
os reabre.
   Uma imagem alucinatria constituda no crebro no lhe seria
invisvel quando estivesse com os olhos fechados.
   Essas mesmas observaes se aplicam s aparies daquela senhora:
semelhana completa entre a forma fsica e o fantasma e repouso do
organismo durante a manifestao.

   Desdobramento involuntrio, mas consciente

   O paciente  um moo de cerca de trinta anos, talentoso artista
gravador. (91)
  ::::::::::
  (91) Dr. Gibier -- "Anlise das Coisas", pgs. 142 e seguintes.
  ::::::::::
   "H poucos dias, diz ele, entrava eu em casa  noite, por volta
das 10 horas, quando me senti presa de estranha lassido, que no
sabia explicar. Resolvido, entretanto, a no me deitar imediatamente,
acendi o lampio e coloquei-o sobre a mesa-de-cabeceira, perto da
cama. Tomei de um charuto, cheguei-lhe a chama do meu isqueiro e
tirei algumas baforadas. Depois, estendi-me num canap.
   No momento em que, negligentemente, me deitava, procurando
apoiar a cabea na almofada do sof, notei que os objetos em volta
giravam. Experimentei um como atordoamento, um vazio. Em seguida,
bruscamente, achei-me transportado ao meio do aposento. Surpreso com
esse deslocamento, de que no tivera conscincia, olhei ao meu
derredor e o meu espanto ento chegou ao auge.
   Para logo, vi-me estendido no sof, molemente, sem rigidez,
apenas com a mo esquerda erguida acima de mim, com o cotovelo
apoiado e segurando o charuto aceso, cuja claridade se percebia na
penumbra produzida pelo quebra-luz da minha lmpada. A primeira
idia que me veio foi a de que, sem dvida, eu adormecera e que
experimentava a sensao de um sonho. Contudo, reconhecia que nunca
tivera sonho semelhante e que me parecesse to intensivamente uma
realidade. Por isso, ao verificar que no podia tratar-se de um
sonho, o segundo pensamento que se me apresentou de sbito 
imaginao foi a de que morrera. Ao mesmo tempo, lembrei-me de ter
ouvido dizer que h Espritos e acudiu-me a idia de que me tornara
Esprito. Tudo o que eu pudera aprender a esse respeito longamente
se desenrolou, diante da minha viso interior, mas em menos tempo do
que  preciso para pens-lo. Lembro-me muito bem de haver sido
tomado de uma como angstia e de pesar pela falta de acabamento de
algumas coisas. Minha vida se me apresentou como uma frmula.
   Aproximei-me de mim, ou, antes, do meu corpo, ou daquilo que eu
supunha fosse o meu cadver. Chamou-me de pronto a ateno um
espetculo que no compreendi: vi-me a respirar e, ainda mais, vi o
interior do meu peito e o meu corao a pulsar lento, com pancadas
fracas, mas com regularidade. Nesse momento, compreendi que devera
ter tido uma sncope de gnero especial, a menos que os que tm
sncopes, pensei de mim para mim, no se recordem, durante o desmaio,
do que lhes sucedeu. Temi, ento, no mais me lembrar de nada,
quando recobrasse os sentidos'''
   Um pouco tranqilizado, lancei o olhar ao meu derredor,
procurando saber quanto tempo ia aquilo durar. Depois, no mais me
ocupei com o meu corpo, com o outro eu que continuava em repouso.
Atentei no lampio, que se mantinha aceso silenciosamente e fiz a
reflexo de que, estando muito perto da cama, poderia incendiar os
meus cortinados. Peguei a cabea do parafuso da mecha, para apag-la;
porm, nova surpresa me esperava! Eu sentia perfeitamente o disco do
parafuso, percebia-lhe, por assim dizer, todas as molculas, mas, de
nada servia torc-lo com os dedos; somente estes executavam o
movimento. Em vo me esforava por atuar sobre o disco.
   Examinei-me ento e vi que, conquanto minha mo pudesse passar
atravs de mim mesmo, eu sentia bem o meu corpo, que me pareceu, se
no me falha a memria, vestido de branco. Coloquei-me em seguida
diante do espelho defronte do fogo. Em vez de distinguir no vidro a
minha imagem, verifiquei que meu olhar se distendia  minha vontade,
de tal sorte que se me tornaram visveis, primeiro, a parede, depois,
a parte posterior dos quadros e dos mveis existentes no aposento do
meu vizinho e, por fim, o interior desse apartamento todo. Percebi
que no havia luz naquelas peas onde, entretanto, a minha viso
distinguia tudo. Dei, ento, com um raio luminoso que, partindo do
meu epigastro, clareava os objetos.
   Veio-me a idia de penetrar na casa do vizinho, a quem eu, alis,
no conhecia e que no momento se achava ausente de Paris. Mal se
formou em mim o desejo de visitar a primeira sala, achei-me nela.
Como? No sei, mas, parece-me que atravessei a parede com tanta
facilidade quanta tivera o meu olhar para transp-la. Em suma, pela
primeira vez na minha vida, achei-me na casa de meu vizinho.
Inspecionei os quartos, gravei na memria o aspecto que apresentavam
e me encaminhei para uma biblioteca, onde notei muito particularmente
os ttulos de diversas obras alinhadas numa das prateleiras  altura
dos meus olhos.
   Para mudar de lugar, no me era preciso mais do que querer.
Estava imediatamente onde desejara ir.
   A partir desse momento, muito confusas so as minhas lembranas.
Sei que fui longe, muito longe,  Itlia, creio, mas no me seria
possvel dizer como empreguei o meu tempo. Foi como se, no tendo
mais o domnio de mim mesmo, no sendo mais senhor dos meus
pensamentos, andasse levado para aqui e para ali, para onde estes se
dirigiam. Ainda no os tendo submetido  minha vontade, eles como que
me dispersavam, antes que eu houvesse podido prend-los. A
imaginao, naqueles instantes, carregava consigo, para onde
entendia, a sua sede.
   Por concluir, o que posso acrescentar  que despertei s cinco
horas da madrugada, rgido, frio, no meu sof, e conservando ainda
entre os dedos o charuto no consumido. O lampio se apagara, depois
de enfumaar a manga de vidro. Atirei-me na cama e a fiquei sem
poder dormir e com um frmito por todo o corpo. Afinal, peguei no
sono. Era dia alto, quando acordei.
   Por meio de inocente estratagema, induzi o encarregado da
habitao a ir verificar se no apartamento do meu vizinho no haveria
alguma coisa de anormal e, subindo com ele, dei com os quadros, os
mveis que vira na noite precedente, assim como os livros de cujos
ttulos guardava lembrana.
   Tive o cuidado de no falar de tudo isto a quem quer que fosse,
temendo passar _por _louco _ou _alucinado".
    eminentemente instrutivo este relato. Prova, primeiramente, que
essa exteriorizao da alma no resultou de uma alucinao, nem foi
apenas um sonho, porquanto  inteiramente real a viso do apartamento
vizinho, que o gravador no conhecia e no qual penetrara pela
primeira vez enquanto estivera naquele estado particular. Em segundo
lugar, faculta-nos comprovar que a alma, quando desprendida do corpo,
possui uma forma definida e tem o poder de passar atravs dos
obstculos materiais, sem experimentar resistncia, bastando a sua
vontade para transport-la ao stio onde deseje achar-se. Em
terceiro, demonstra que a alma, assim desprendida, tem uma vista mais
penetrante do que no estado normal, pois que o moo via o seu prprio
corao bater, dentro do peito. (92)
  ::::::::::
  (92) No  comparvel esta viso  dos sonmbulos? No nos assiste
razo atribui-la  alma? Confrontando a narrativa acima com a de
Cromwel Varley, notamos claramente que, desprendida do corpo a alma
goza das vantagens da vida espiritual. Aqui no h teorias; h pura
e simplesmente, a comprovao dos fatos.
  ::::::::::
   A conservao da lembrana dos acontecimentos ocorridos durante o
desdobramento , neste caso, muito ntida; mas, pode, noutros, ser
menos viva, de sorte que o agente, ao despertar fique sem saber se
sonhou, ou se, com efeito, sua alma abandonou temporariamente o
envoltrio fsico. Enfim, as mais das vezes, o Esprito, voltando ao
corpo, esquece o que ocorreu no curso do desprendimento. Devemos
precatar-nos de concluir -- como amide o fazem -- que essas sadas
so uma manifestao inconsciente da alma. A verdade  que apenas
desaparece a memria do fenmeno, do qual, porm, a alma tinha
conhecimento perfeito, enquanto ele se produzia.
   Faamos uma ltima observao acerca da impossibilidade em que se
encontrou o moo gravador, para mover o disco do parafuso do seu
lampio, a fim de abaixar a mecha e apag-la embora ele lhe
percebesse a estrutura ntima. Essa impossibilidade, peculiar a todos
os Espritos no espao, decorre da rarefao do perisprito.
Entretanto, pode dar-se tambm que, graas a um afluxo de energia
tomada ao corpo material, o envoltrio fludico adquira o poder de
objetivao em grau suficiente para atuar sobre objetos materiais. A
apario da me de Helena (pg. 91) evidenciava essa
substancialidade.
   At aqui, as aparies, qualificadas de telepticas, de que
acabamos de falar, nada revelaram sobre a natureza ntima que lhes 
prpria. No fossem os movimentos que executavam, o abrirem e
fecharem portas, como parece que o fazem, e elas poderiam ser
tomadas por projees do pensamento, por imagens, por simples
aparncias. Eis, porm, muitos casos em que a tangibilidade ainda
mais se positiva.

   Apario tangvel de um estudante

   Diz o reverendo P. H. Newnham, Vicariato de Devonport: (93)
  ::::::::::
  (93) "Alucinaes Telepticas", pg. 310 .
  ::::::::::
   "No ms de maro de 1856, estava eu em Oxford, fazendo o ltimo
ano do meu curso, e ocupava um quarto mobilado. Era sujeito a
violentas dores de cabea nevrlgicas, sobretudo enquanto dormia.
Uma noite, por volta das nove horas, a dor se tornou insuportvel;
atirei-me na cama sem me despir e logo peguei no sono.
   Tive ento um sonho de nitidez e intensidade notveis. Guardo os
pormenores desse sonho. Sonhei que me achava em casa da famlia
daquela que mais tarde se tornou minha mulher. Todos os rapazes e
raparigas tinham ido deitar-se e eu ficara a conversar, de p, junto
ao fogo; depois, dei boa-noite aos que comigo conversavam, tomei da
minha vela e fui tambm deitar-me. Chegando ao vestbulo, verifiquei
que minha noiva ainda estava subindo para o andar superior e que no
momento chegava ao topo da escada. Subi quatro a quatro a escada e,
alcanando-a no ltimo degrau, passei -lhe o brao pela cintura. Ao
subir a escada, levava eu na mo esquerda o meu castial, o que,
entretanto, no sonho, no me atrapalhava. Despertei ento e quase de
seguida um relgio da casa deu dez horas.
   Foi to forte a impresso em mim produzida por esse sonho, que
no dia seguinte, pela manh, escrevi  minha noiva, fazendo dele
minuciosa narrao. Recebi dela uma carta, porm no em resposta 
minha, pois que as duas se cruzaram no caminho. Dizia assim:
 -- Dar-se- que voc haja pensado em mim, de modo particular, ontem 
noite, cerca das dez horas? Quando subia a escada e senti que voc
me passava o brao pela cintura.
   As duas cartas esto atualmente destrudas. Alguns anos, porm,
depois dos fatos, recordamo-los, ao reler cartas antigas, antes de
as destruirmos. Reconhecemos nessa ocasio que se conservavam muito
fiis as nossas lembranas pessoais. Esta narrativa pode, portanto,
ser aceita como perfeitamente exata.
   P. H. NEWNHAM".

    evidente, neste caso, a relao de causa e efeito. O sonho do
moo estudante  reproduo da realidade. Durante o sono, a alma se
desprendeu do corpo e se transportou para junto de sua noiva. Foi
to intenso o desejo que experimentou de abra-la, que determinou a
materializao parcial do perisprito, isto , do seu duplo. O fato
 positivo, pois a moa diz ter ouvido distintamente passos que
subiam a escada e a sensao de um brao que a envolvia pela cintura
 tambm positivamente afirmada. Estes pormenores, referidos de modo
idntico pelos dois protagonistas da cena, sem que tenha havido
qualquer combinao entre eles ou qualquer previso, afastam,
evidentemente, toda idia de alucinao.

   Apario objetiva em momento de perigo

   Senhora Randolph Lichfield, Cross Deep, Twickenham (94):
(Abreviamos um pouco a narrao, suprimindo o que no era
indispensvel).
  ::::::::::
  (94) "As Alucinaes Telepticas", pg. 315
  ::::::::::
   "Achava-me eu, uma tarde, antes de me casar, no meu quarto,
sentada perto de uma mesa-toucador, sobre a qual depusera um livro
que estava lendo. A mesa ficava a um canto do quarto e o grande
espelho que lhe estava sobreposto chegava quase ao teto, de sorte
que a imagem de qualquer pessoa que se encontrasse no quarto podia
nele refletir-se inteira. O livro que eu lia no era de natureza a
me afetar de modo algum os nervos, nem de me excitar  a imaginao.
Sentia-me de perfeita sade, de bom humor e nada me acontecera,
desde a hora em que, pela manh, recebera minha correspondncia, que
me pudesse fazer pensar na pessoa a quem se refere a singular
impresso, cuja narrativa me pedis.
   Tinha os olhos no livro. De sbito, senti, mas sem o ver, que
algum entrava no meu quarto. Dirigi o olhar para o espelho, a fim
de saber quem era, porm, no vi pessoa alguma. Supus ento que o
visitante, ao dar comigo absorvida na leitura, tornara a sair,
quando, com vivo espanto, senti na fronte um beijo, longo e terno.
Ergui a cabea, sem nenhum terror, e vi meu noivo de p por trs da
minha cadeira, e inclinado, como para me beijar de novo. Trazia
muito plido o semblante e infinitamente triste. Muito surpreendida,
levantei-me, mas, antes que houvesse articulado uma palavra, ele
desapareceu, no sei como. De uma coisa apenas sei; que, por um
instante, vi muito nitidamente todos os traos de sua fisionomia,
seu porte alto, suas largas espduas, como sempre as vira e que, um
momento aps, deixei de ver.
   A  princpio, fiquei apenas surpreendida, ou melhor, perplexa.
Nenhum temor me assaltou, Nem por momentos imaginei que houvesse
visto um Esprito. A sensao que em seguida experimentei foi a de
ter qualquer coisa no crebro e satisfeita me achava por no me
haver isso acarretado uma viso terrvel, em vez da que tivera e que
me fora muito agradvel"
   Diz depois a narradora que passou trs dias sem notcias do
noivo. Uma noite, julgou sentir-lhe a influncia, mas no o viu,
apesar da expectativa em que se encontrava. Afinal, veio a saber que
ele fora vtima de um acidente, quando amestrava um cavalo fogoso.
Seu pensamento voou imediatamente para a noiva, tendo dito, no
momento em que perdia os sentidos: "May, minha Mayzinha, que
eu no morra sem tornar a ver-te". Foi na noite que se seguiu ao
acidente que ele se debruou sobre a moa e a osculou.
   Tambm aqui, temos a apario assemelhando-se trao por trao, ao
vivo, deslocando-se a grande distncia e provando, de maneira
positiva, a sua corporeidade, com o beijar a noiva. Qualquer que
seja o papel que se queira atribuir  alucinao, parece-nos que ela
se mostra incapaz de explicar o que se produziu.
   Eis agora outro caso de materializao do envoltrio fludico:

   Um duplo materializado

   Os _Anais _Psquicos, de setembro-outubro de 1896, sob o ttulo:
"Formao de um duplo", pgina 263, narram o fato seguinte,
traduzido do Borderland de abril de 1896.
   O Sr. Stead refere que se d muito com a Senhora A''', cujo
estado de sade, naquela poca, lhe causava srias inquietaes.
Conversando com ela, o Sr. Stead lhe recomendara que no domingo
fosse assistir aos ofcios religiosos. A Senhora A''', porm, muito
cptica, nada lhe respondera. Nesse nterim, caiu ela seriamente
enferma e se viu obrigada a no abandonar o leito.
   No domingo seguinte, 13 de outubro,  noite, teve o Sr. Stead a
surpresa de ver entrar no templo a Senhora A''', e instalar-se num
dos bancos. Havia luz bastante para que lhe fosse possvel
reconhec-la bem. Um dos membros da congregao lhe ofereceu um
livro de preces, que ela aceitou, mas no abriu. Ento, uma
vigilante lhe deu outro livro, que ela igualmente tomou com o ar
distrado e colocou sobre o banco. Conservou-se sentada durante todo
o servio at ao ltimo hino, que ouviu de p. Durante o segundo e
terceiro hinos, ergueu por vezes o livro, mas, ao que parecia, sem
cantar. Aps o ltimo atirou bruscamente o livro para o lado e,
descendo rpido a nave, desapareceu.
   Numerosas testemunhas afirmam ter visto a Senhora A''', e t-la
perfeitamente reconhecido como sendo, a pessoa que anteriormente ali
fora. Seu vesturio elegante, mas excntrico, chamava a ateno. No
dia imediato, o Sr. Stead foi  casa da Senhora A''', que, ainda
doente, se achava recostada num sof. Afirmou-lhe ela que no sara
na vspera, afirmativa que o doutor, a criada de quarto e duas
amigas corroboraram em absoluto. A distncia que medeia entre a
residncia da Senhora A''' e o templo  bastante considervel. Ora,
confrontando-se o momento em que ela apareceu ali e o em que com ela
estavam o mdico e as amigas, verifica-se ter sido de todo
impossvel que a senhora houvesse feito aquele percurso em estado
de sonambulismo, o que, alis, a sua sade no permitia.
   Tem-se a mais uma prova manifesta da ao tangvel do corpo
fludico materializado. Um ponto a assinalar  a grande durao do
fenmeno, de hora e meia.

   Apario falante

   Desta vez, independentemente de outras circunstncias tpicas,
temos o prprio duplo fludico a falar:

   Senhorita Paget, 130, Fulham Road, S. W. Londres (95)
   17 de Julho de 1885.
  ::::::::::
  (95) "As Alucinaes Telepticas", pg. 317.
  ::::::::::

   "Dou aqui a narrao fiel de uma apario curiosa, que tive, de
um irmo. Estvamos em 1874 ou 1875. Meu irmo era terceiro oficial
de um grande navio da Sociedade Wigram. Eu o sabia nas costas da
Austrlia; mas, que me lembre, no pensava nele no momento a que me
refiro. Entretanto, como era o nico irmo que eu tinha e fssemos
muito amigos um do outro, havia entre ns laos muito estreitos.
Meu pai residia no campo. Uma noite, desci  cozinha, por volta das
dez horas, em busca de gua quente. Havia ali acesa uma grande
lmpada duplex, de sorte que viva era a claridade. Achando-se j
recolhidos os criados, coube-me a mim apagar a lmpada. Enquanto
apanhava a gua quente, levantei os olhos e com grande surpresa vi
meu irmo entrar na cozinha pela porta que abria para o exterior e
encaminhar-se para o meu lado. No reparei se a porta estava aberta,
porque ficava num recanto e meu irmo j se encontrava no meio da
cozinha. Separava-nos a mesa existente nessa dependncia da casa e
ele se sentou  cabeceira mais afastada de mim.
   Notei que vestia o seu uniforme de marinheiro com uma blusa e
que tanto esta como o bon estavam molhados. Exclamei: -- Miles! Donde
vens? Ele respondeu com o seu habitual tom de voz: -- Pelo amor de
Deus, no digas que estou aqui. Isto se passou em breves segundos
e, quando me lancei para abra-lo, desapareceu. Fiquei assustada,
pois acreditava ter visto meu irmo em pessoa e s aps o seu
desaparecimento compreendi que apenas vira a sua sombra. Subi para o
meu quarto e tomei nota da data numa folha de papel, que guardei na
minha secretria, sem falar do incidente a pessoa alguma.
   Cerca de trs meses depois, meu irmo regressou a casa e, 
noite, sentei-me ao seu lado na cozinha, estando ele ali a fumar.
Perguntei-lhe, como por acaso, se no tivera alguma aventura. Disse
em resposta: -- Quase me afoguei em Melbourne. E me contou que, tendo
desembarcado sem licena, subia para bordo depois de meia-noite,
quando escorregou do passadio e caiu entre o cais e o navio. Sendo
muito estreito o espao, se no o houvessem retirado sem demora,
infalivelmente se teria afogado.
   Lembra-se de haver pensado que ia afogar-se e perdera os
sentidos. Ningum soube que descera  terra sem licena, de sorte
que no incorreu na punio que esperava. Narrei-lhe ento como ele
me aparecera na cozinha e perguntei-lhe em que data se dera o fato
de que me falava. Fcil lhe foi precis-la, porque o navio deixara
Melbourne na manh seguinte. Era isso o que fazia temer um castigo,
visto que toda a equipagem tinha de pernoitar a bordo. As duas datas
coincidiam, mas havia uma diferena quanto  hora: Eu o vira pouco
depois das dez horas da noite e o seu acidente ocorrera pouco depois
da meia-noite. No se recordava de haver pensado em mim naquele
momento, mas ficou impressionado com a coincidncia, da qual
freqentemente falava".
   Sempre o fantasma como ssia do vivo. Nenhuma alucinao aqui,
porquanto a Senhorita Paget v a alma de seu irmo a mover-se na
cozinha e verifica que as vestes da apario estavam molhadas.
Circunstncia que coincide de modo exato com o acidente sobrevindo
ao marinheiro, que quase se afogara. A distncia enorme entre
Melbourne e a Inglaterra em nada influi sobre a intensidade do
fenmeno de desdobramento, pois que o irmo fala  irm, o que at
ento no havamos comprovado.

   Efeitos fsicos produzidos por uma apario

   O Dr. Britten, no seu livro: Man and his relations, cita o caso
seguinte:
   "Um Sr. Wilson, residente em Toronto (Canad), tendo adormecido
no seu escritrio, sonhou que se achava em Hamilton, cidade situada
a 40 milhas inglesas a oeste de Toronto. Fez em sonho suas cobranas
habituais e foi bater  porta de uma amiga, a Senhora D'''. Acudiu
uma criada, que o informou de que sua patroa sara. Apesar disso,
ele entrou e bebeu um copo d gua, depois do que saiu, incumbindo a
criada de apresentar seus cumprimentos quela senhora. E o Sr.
Wilson despertou aps 40 minutos de sono.
   Passados uns dias, uma Sra. G''' tambm residente em Toronto,
recebe uma carta da Sra. D''', de Hamilton, contando que o Sr.
Wilson fora a sua casa, bebera um copo d gua e partira, no mais
voltando, o que a contrariara, porquanto teria gostado imensamente
de o ver. O Sr. Wilson afirmou que, havia um ms, no ia a Hamilton;
mas, recordando-se do sonho que tivera, pediu  Sra. G''' que
escrevesse  Sra. D''', rogando-lhe no falasse do incidente aos
criados, a fim de verificar se estes, porventura, o reconheceriam.
Foi ento a Hamilton com alguns camaradas e todos juntos se
apresentaram em casa da Sra. D'''. Duas das criadas reconheceram
no Sr. Wilson a pessoa que l fora, batera  porta, bebera um copo
dgua e deixara recomendaes para a Sra. D'''".
   Este caso nos apresenta a alma a realizar uma viagem durante o
sono e lembrando-se, ao despertar, dos acontecimentos ocorridos no
curso do desprendimento. O duplo se torna to material, que bate 
porta e bebe um copo dgua,  visto e reconhecido por estranhos.
Claro que aqui j no se trata de telepatia; mas, sim, de
bicorporeidade completa. A apario, que anda, conversa, engole
gua, no pode ser uma imagem mental:  verdadeira materializao da
alma de um vivo.

   Algumas observaes

   Dentre os casos excessivamente numerosos, que a exigidade do
nosso quadro no nos permite reproduzir, referidos pelos autores
ingleses, tomamos os que evidenciam a objetividade do fantasma vivo.
Se, algumas vezes, possvel se torna admitir a alucinao como causa
do fenmeno, , no entanto, fora de dvida que no se pode
compreender a maioria deles, sem que se admita a bicorporeidade do
ser humano.
   Suposto que os diferentes fatos que acabamos de enumerar so
devidos  alucinao, somos forados a fazer duas observaes muito
importantes. Para que o crebro do paciente seja impressionado, fora
das condies habituais, necessrio  que o agente exera a
distncia uma ao de natureza especial, que no pode ser assimilada
a nenhuma fora conhecida.
   Primeiramente, a distncia no afeta o fenmeno. Esteja o agente
em Melbourne e o paciente em Londres, a apario se d. Logo, a
forma de energia que transmite o pensamento nada tem de comum com as
ondas luminosas, sonoras, calorficas, porquanto ela se propaga no
espao sem se enfraquecer e sem conduo material. Ao demais, no se
refrata em caminho; atravessando todos os obstculos, alcana a meta
que lhe est assinada.
   Sabemos hoje que a eletricidade pode tomar a forma ondulatria e
propagar-se sem condutor material. Poder-se-ia, pois, admitir que h
uma semelhana entre a telegrafia sem fio e os fenmenos
telepticos. Evidentemente, se no houvesse mais do que uma simples
transmisso de sensaes, possvel seria assimilar-se o fluido
eltrico o fluido que serve para transmitir o pensamento e, a um
receptor telegrfico, o crebro do paciente que v. Mas, aqui, o
fenmeno  muito mais complexo.
   Se ponderarmos que o agente no teve vontade de se mostrar,
torna-se difcil crer seja s o seu pensamento que,  sua revelia,
disponha de to singular poder. Se levarmos em conta que a imagem
se materializa suficientemente para abrir ou fechar uma porta, para
dar beijos, para segurar um livro de oraes, para conversar, etc.,
teremos de admitir que em tais fatos h mais do que simples
impresso mental do paciente. Melhor concebemos um desdobramento
momentneo do agente, que, voltando  vida ordinria, no conserva
lembrana do ocorrido. Ento,  a alma do prprio agente que se
mostra e que se move no espao, como o fazem os Espritos
desencarnados.
   Precisamente por estar a causa do fenmeno no sair do corpo a
alma  que geralmente no se conserva a lembrana desse xodo, visto
que o crebro do agente no foi impressionado pelos acontecimentos
que se deram sem participao sua. Para que houvesse lembrana, fora
mister pr o agente em estado de sonambulismo, isto , num estado
anlogo ao em que ele se encontrava quando ocorreu o desdobramento.
   Confrontando os caracteres diversos, peculiares a cada uma dessas
aparies, podem formular-se observaes gerais que nos instruam
sobre tais manifestaes da atividade psquica, bem pouco
conhecidas.
   No curso da vida, a alma se acha intimamente unida ao corpo, do
qual no se separa completamente, seno pela morte; mas, sob a ao
de diversas influncias: sono natural, sono provocado, perturbaes
patolgicas, ou forte emoo, -lhe possvel exteriorizar-se
bastante para se transportar, quase instantaneamente, a determinado
lugar e, l chegando, tornar-se visvel de maneira a ser
reconhecida. Vimos dois casos de ao desse gnero: o do noivo da
Sra. Randolph Lichfield e o do jovem marinheiro.
   A lembrana das coisas percebidas nesse estado pode s vezes
conservar-se, como sucedeu ao reverendo Newnham, ao gravador e a
Varley. Para isso, faz-se mister seja muito viva a impresso
experimentada. Tambm  possvel que subsistam algumas
reminiscncias vagas; mas, em geral, ao despertar, aquele com quem
se deu o fenmeno do desdobramento nenhuma conscincia tem do que se
passou.
   Esta lacuna da vida mental assemelha-se ao esquecimento por parte
dos sonmbulos, do que ocorreu enquanto estiveram em sono magntico.
Desse fato apresentamos algures a explicao. (96)
  ::::::::::
  (96) Veja-se: "A Evoluo Anmica", cap. IV, "A memria e as
personalidades mltiplas", ed. FEB.
  ::::::::::
   Tambm pode acontecer que o desdobramento se produza, sem que o
tenha desejado a pessoa com quem ele se verifica.  o caso daquela
senhora cujo duplo se mostrou em trs ocasies diferentes. Seu
estado doentio faculta se suponha que a alma, por se achar menos
fortemente ligada ao corpo, h podido desprender-se deste com
facilidade.  uma possibilidade que, por muito freqente, merece
assinalada. Citemos alguns exemplos:
   Refere Leuret (97) que um homem, convalescente de grave febre, se
julgava formado de dois indivduos, um dos quais se encontrava de
cama, enquanto que o outro passeava. Embora lhe faltasse apetite,
comia muito, porque tinha, dizia ele, dois corpos para alimentar.
  ::::::::::
  (97) Leuret -- "Fragmentos psicolgicos sobre a loucura", pg.95.
  ::::::::::
   Pariset, que fora atacado, quando muito jovem, de um tipo
epidmico, passou muitos dias num aniquilamento bem prximo da
morte. Certa manh, despertou-se nele um sentimento mais distinto
de s mesmo. Pensou e foi como que uma ressurreio; mas, coisa
maravilhosa! Naquele momento, tinha dois corpos, ou, pelo menos,
julgava t-los, e esses corpos lhe pareciam deitados em leitos
diferentes. Estando sua alma num, ele se sentia curado e gozava de
delicioso repouso. Quando se achava no outro, a alma sofria e ele
dizia para consigo mesmo: "Como  que me sinto to bem neste leito e
to mal, to abatido no outro?". Essa idia o preocupou por muito
tempo e ele, to perspicaz na anlise psicolgica, me relatou muitas
vezes a histria pormenorizada das impresses que ento
experimentava. (98)
  ::::::::::
  (98) Gratiolet -- "Anatomia comparada do sistema nervoso", t. II,
pg. 548.
  ::::::::::
   Cahagnet, o clebre magnetizador, tambm relata o seguinte (99):
   "Conheci muitas pessoas com quem se deram fatos desses
(desdobramentos) que, alis, so muito freqentes em estado de
doena. O venervel padre Merice me assegurou que, durante uma febre
muito forte de que fora acometido, se vira por muitos dias separado
de seu corpo, que lhe aparecia deitado a seu lado, por ele se
interessando como por um amigo. O reverendo apalpava e procurava
certificar-se, por todos os meios capazes de produzir convico, de
que aquele era um corpo pondervel, se bem pudesse nutrir a mesma
convico relativamente ao seu corpo material".
  ::::::::::
  (99) Cahagnet -- "A luz dos mortos", pg. 28.
  ::::::::::
   V-se pois, que, de modo geral, para que a alma possa
desprender-se,  preciso que o corpo esteja mergulhado em sono ou
que ao laos que de ordinrio a prendem ao corpo se hajam afrouxado
por uma emoo forte, ou pela enfermidade. As prticas magnticas ou
os agentes anestsicos acarretam por vezes os mesmos resultados.(100)
  ::::::::::
  (100) Gabriel Delanne -- "O Espiritismo perante a Cincia", pginas
154 e seguintes.
  ::::::::::
   Esta necessidade do sono durante o desdobramento se explica,
primeiro, pelo fato de que a alma no pode estar simultneamente em
dois lugares diferentes; depois, a referida necessidade se pode
compreender pela grande lei fisiolgica do equilbrio dos rgos,
segundo a qual todo desenvolvimento anormal de uma parte do corpo se
opera em detrimento das outras. Se a quase totalidade da energia
nervosa  empregada em produzir, no exterior, uma manifestao
visvel, o corpo, durante esse tempo, fica reduzido  vida
vegetativa e orgnica; as funes de relao ficam temporariamente
suspensas.
   Pode-se mesmo, em certos casos, estabelecer uma relao direta
entre a intensidade da ao perispiritual e o estado de prostrao
do corpo. A maior ou menor tangibilidade do fantasma se acha
ligada, de maneira ntima, ao grau de energia moral do indivduo, 
tenso de seu esprito para determinado objetivo,  sua idade,  sua
constituio fsica e, sem dvida  condio do meio exterior, que
depois ser preciso determinar.
   Em todos os exemplos acima citados, a forma visvel da alma 
cpia absolutamente fiel do corpo terrestre. H identidade completa
entre uma pessoa e o seu duplo, podendo-se afirmar que esta
semelhana no se limita  reproduo dos contornos exteriores do
ser material, pois que alcana at a ntima estrutura perispirtica,
ou, por outra: todos os rgos do ser humano existem na sua
reproduo fludica. (101)
  ::::::::::
  (101) Dassier -- "A humanidade pstuma", Vejam-se os numerosos casos
em que o espectro do vivo fala, come, bebe e manifesta sua fora
fsica, em muitas circunstncias.
  ::::::::::
   Notamos, em a narrativa concernente ao jovem marinheiro, que a
apario fala, o que faz supor tenha ela um rgo para produzir a
palavra e uma fora interior que pe em movimento esse aparelho. A
mquina fontica  a mesma que a do corpo e a fora  haurida no
organismo vivo. No captulo referente s materializaes, veremos
de que modo isso pode dar-se.
   Assinalemos tambm, como um dos caracteres mais notveis, o
deslocamento quase instantneo da apario. Vimos que, na mesma
noite, a alma do marinheiro, cujo corpo estava na Austrlia, se
manifestou  sua irm na Inglaterra. Em todas as narrativas, a
apario viaja com vertiginosa rapidez; transporta-se por assim
dizer, instantaneamente ao lugar onde quer ir; parece deslocar-se
to depressa quanto a eletricidade. Essa velocidade considervel
deriva da rarefao das molculas que a formam, antes da
materializao mais ou menos completa que ela opera para se tornar
visvel e tangvel.
   Encerraremos esta brevssima exposio dos fatos com trs casos
tpicos, em que se nos depararo reunidos todos os caracteres que
at aqui temos observado isoladamente, nas aparies de vivos.

   O adivinho de Filadlfia

   O Sr. Dassier reproduz a seguinte histria (102):
  ::::::::::
  (102) Dassier -- "A humanidade pstuma", pg. 59.
  ::::::::::
   "Stilling fornece pormenores interessantes sobre um homem que
vivia em 1740 e que levava uma vida retirada, com singulares
costumes, residindo nas cercanias de Filadlfia, Estados Unidos.
Passava por possuir segredos extraordinrios e por ser capaz de
descobrir as coisas mais ocultas. Entre as provas mais notveis que
deu do seu poder, a que se segue Stilling a considerou bem
verificada.
   Um capito de navio partira para longa viagem pela Europa e pela
frica. Bastante inquieta sobre a sua sorte, por no receber dele
notcias desde muito tempo, sua mulher foi aconselhada a procurar o
adivinho. Este pediu que ela o esperasse, enquanto ia colher
informaes acerca do viajante. Passou para um aposento ao lado e
ela ficou  espera. Como sua ausncia se prolongasse, a mulher se
impacientou, julgando que fora esquecida. Aproximou-se devagarinho
da porta, espiou por uma fresta e ficou espantada de v-lo estendido
imvel num sof, como se estivesse morto. Achou que no devia
perturb-lo e sim aguardar que voltasse.
   Reaparecendo, disse ele  mulher que seu marido estivera
impossibilitado de lhe escrever, por estas e aquelas razes; que,
no momento, se achava num caf em Londres e que, dentro em pouco,
estaria de regresso ao lar.
   Esse regresso, de fato, se verificou, acordemente com o que fora
assim anunciado e, como a mulher perguntasse ao marido quais os
motivos do seu to prolongado silncio, declinou ele precisamente
as razes que o adivinho havia apresentado. Veio-lhe ento a ela um
grande desejo de verificar o que mais houvesse a propsito daquelas
indicaes. Completa foi a sua satisfao a esse respeito,
porquanto, mal seu marido se achou em presena do mgico, logo o
reconheceu, por t-lo visto certo dia num caf de Londres, onde lhe
dissera que sua mulher estava muito apreensiva com a falta de
notcias suas, ao que o capito respondera explicando como ficara
impossibilitado de escrever e acrescentando que o fato se dera nas
vsperas de embarcar para a Amrica. Em seguida, perdera de vista o
estrangeiro que lhe falara, por se ter este metido na multido, e
nunca mais ouvira falar dele".
   Ainda aqui vemos desenrolar-se, mas, desta vez, voluntariamente,
a srie dos fenmenos j descritos: sono do paciente, separao
entre seu corpo e sua alma, deslocamento rpido, materializao da
apario e lembrana ao despertar.
   Na Revue Spirite de 1858,  pg. 328, encontra-se uma confirmao
da possibilidade, que tem o esprito desprendido, de materializar
bastante o seu envoltrio, at torn-lo inteiramente semelhante ao
corpo material. Aqui est o fato relatado naquela revista.

   Uma viagem perispirtica

   Um dos membros da Sociedade Esprita, residente em
Boulogne-sur-Mer, a 2 de julho de 1856 escreveu a seguinte carta a
Allan Kardec (Revue Spirite, 1858, p. 328):
   "Meu filho, desde que, por ordem dos Espritos, o magnetizei, se
tornou um mdium excepcional. Pelo menos, foi o que ele me revelou
no estado sonamblico em que o pus, a seu pedido, no dia 14 de maio
ltimo, e quatro ou cinco vezes depois.
   Para mim,  fora de dvida que, desperto, ele conversa
livremente com os Espritos, por intermdio do seu guia a quem chama
familiarmente de seu amigo; que, em Esprito, se transporta 
vontade para onde queira e vou citar-lhe um exemplo, cuja prova
tenho escrita, em meu poder.
   Faz hoje precisamente um ms, estvamos ambos na sala de jantar,
achando-me eu a ler o curso de magnetismo do Sr. Du Potet, quando
ele me toma o livro e se pe a folhe-lo. Chegado a certo ponto,
diz-lhe o seu guia: l isso. Era a aventura, na Amrica, de um
doutor cujo Esprito visitara um amigo, enquanto este dormia, a
quinze ou vinte lguas de distncia. Concluda a leitura, diz meu
filho: Eu desejara muito fazer uma viagem semelhante. -- Est bem!
Onde queres ir? Pergunta-lhe o guia. -- A Londres, respondeu o
rapaz, ver meus amigos. E nomeou as pessoas que queria visitar.
   Amanh  domingo, foi-lhe respondido. No s obrigado a
levantar-te cedo para trabalhar. Dormirs s 8 horas e fars uma
viagem a Londres at s 8 horas e meia. Na prxima sexta-feira,
recebers de teus amigos uma carta, reprovando-te o teres passado
com eles to pouco tempo.
   Efetivamente, no dia seguinte pela manh,  hora indicada, ele
caiu num sono de chumbo. s 8 horas e meia, despertei-o. De nada se
lembrava. Tive o cuidado de no lhe dizer palavra, aguardando o
resultado.
   Na sexta-feira seguinte, trabalhava eu com uma de minhas
mquinas, como costumo, a fumar, pois que acabara de almoar. Meu
filho, olhando para a fumaa do meu cachimbo, diz: -- Espera! H
uma carta nessa fumaa. -- Como podes tu enxergar uma carta na
fumaa? -- Vais ver, replica ele; a est o carteiro que a traz.
Com efeito, pouco depois o carteiro entregava uma carta vinda de
Londres, em que seus amigos lhe censuravam o haver estado naquela
cidade no domingo precedente e no ter ido v-los. Sabiam-no, porque
uma pessoa das relaes deles o havia encontrado. Possuo, como j
lhe disse, essa carta, pela qual se prova que no estou inventando
coisa alguma".
   Este relato mostra a possibilidade de produzir-se artificialmente
o desdobramento do ser humano. Veremos mais longe que esse processo
foi utilizado por alguns magnetizadores.
   Eis aqui o terceiro fato, que tomamos aos anais da Igreja
Catlica.

   Santo Afonso de Liguori

   A histria geral da Igreja, pelo baro Henrion (Paris, 1851,
tomo II., pg. 272) (103), narra do modo seguinte o fato miraculoso
que se deu com Afonso de Liguori:
  ::::::::::
  (103) Veja-se tambm: "Histria Universal da Igreja Catlica", pelo
padre Rohrbacher, T. II, Pg. 30; "Vida do bem -aventurado Afonso
Maria de Liguori", pelo padre Jancart, missionrio provincial, pg.
370; "Elemente della storia de Sommi Pontifici", por Giuseppe de
Novaes.
  ::::::::::
   "Na manh de 21 de setembro de 1774, Afonso, depois de haver dito
missa, atirou-se num sof. Estava abatido e taciturno. Ficou sem
fazer o menor movimento, sem articular uma s palavra de qualquer
orao e sem se dirigir a pessoa alguma e assim passou o dia todo e
a noite que se lhe seguiu. Nenhum alimento ingeriu durante todo esse
tempo e ningum notou que manifestasse o desejo de que lhe
dispensassem qualquer cuidado. Logo que se aperceberam da situao
em que ele se encontrava, os criados se colocaram prximos do seu
quarto, mas no ousaram entrar.
   A 22, pela manh, verificaram que Afonso no mudara de posio
e no sabiam o que pensar disso. Temiam fosse mais do que um xtase
prolongado. Entretanto, quando o dia j ia alto, Liguori tocou a
campainha, para anunciar que queria celebrar missa.
   Ouvindo aquele sinal, no s o irmo leigo que lhe ajudava a
missa, como todas as pessoas da casa e outras de fora acorreram
pressurosas. Com ar de surpresa, pergunta o prelado por que tanta
gente. Respondem-lhe que havia dois dias ele no falava, nem dava
sinal de vida. --  verdade, replicou; mas, no sabeis que eu fora
assistir o papa que acaba de morrer?
   Uma pessoa que ouviu essa resposta, no mesmo dia, a foi levar a
Santa gata e a notcia ali se espalhou logo, como em Arienzo, onde
Afonso residia. Julgaram que aquilo fora apenas um sonho; no
tardou, porm, chegasse a notcia da morte de Clemente XIV, que a
22 de setembro passara a outra vida, precisamente s 7 horas da
manh, no momento mesmo em que Liguori recuperara os sentidos".
   O historiador dos papas, Novaes, faz meno desse milagre, ao
narrar a morte de Clemente XIV. Diz que o soberano pontfice deixou
de viver a 22 de setembro, s 7 horas da manh (a dcima terceira
hora para os italianos), assistido pelos gerais dos Agostinhos, dos
Dominicanos, dos Observantinos  e dos Conventuais e, o que mais
interessa, assistido miraculosamente, pelo bem-aventurado Afonso de
Liguori, se bem que desprendido de seu corpo, conforme resultou do
processo jurdico do mesmo bem-aventurado, processo que a Sagrada
Congregao dos Ritos aprovou.
   Podem citar-se casos anlogos ocorridos com Santo Antnio de
Pdua, S. Francisco Xavier e, sobretudo, com Maria de Agreda, cujos
desdobramentos se produziram durante muitos anos.

   CAPITULO V

   O CORPO FLUIDICO DEPOIS DA MORTE

   SUMRIO:
   O perisprito descrito em 1804 -- Impresses produzidas
pelas aparies sobre os animais -- Apario depois da morte --
Apario do Esprito de um ndio -- Apario a uma criana e a uma
sua tia -- Apario coletiva de trs Espritos -- Apario coletiva
de um morto -- Algumas reflexes.

   O perisprito descrito em 1804

   Sob o ttulo: Apario real de minha mulher depois de morta --
Chemnitz, 1804 -- , o Dr. Woetzel publicou um livro que causou
grande sensao nos primeiros anos do sculo dezenove. Em muitos
escritos foi ele atacado. Wieland, sobretudo, o meteu a ridculo na
Enthauesia. (104)
  ::::::::::
  (104) Extrada da obra alem: "Os fenmenos msticos da vida
humana", por Maximilien Perty, professor da Universidade de Berna,
Heidelberg, 1861.
  ::::::::::
   Woetzel pedira  sua mulher, quando enferma, que, se viesse a
morrer, lhe aparecesse. Ela prometeu; porm, mais tarde, a pedido
seu, o doutor a desobrigou do prometido. Todavia, algumas semanas
depois de ter ela morrido, sentiu ele no quarto, que se achava
fechado, uma forte rajada de vento, que quase lhe apagou a luz e
abriu uma janelazinha do aposento.  branda claridade reinante
Woetzel viu a forma de sua esposa, que lhe disse com voz meiga:
"Carlos, sou imortal; um dia tornaremos a ver-nos". A apario e
essas palavras se repetiram segunda vez, mostrando-se vestida de
branco a morta e com o aspecto que tinha antes de morrer. Um co,
que da primeira vez no dera sinal de perceber coisa alguma, da
segunda se ps a farejar e a descrever um crculo, como se o fizesse
em torno de alguma pessoa sua conhecida.
   Noutra obra sobre o mesmo assunto (Leipzig, 1805), o autor fala
de solicitaes que lhe foram feitas no sentido de desmentir toda
aquela histria -- "porque, do contrrio, muitos sbios seriam
forados a repudiar o que, at ento, tinham tido como opinies
verdadeiras e justas e a superstio encontraria naquilo farto
alimento". Ele, porm, j pedira ao conselho da Universidade de
Leipzig que lhe permitisse formular sobre o caso um juramento
judicirio. O Dr. Woetzel desenvolveu assim sua teoria: "Depois da
morte, a alma ficaria envolta num corpo etreo, luminoso, por meio
do qual poderia tornar-se visvel, podendo tambm pr outras vestes
em cima desse invlucro luminoso. A apario no atuara, com relao
a ele, sobre o seu sentido interior, mas, unicamente, sobre o seu
sentido exterior".
   Temos, nesta observao, uma prova da objetividade da apario,
pela haver visto e reconhecido o co. Indubitavelmente, uma imagem
objetiva, isto , existente no crebro do sbio, no houvera podido
exercer aquela influncia sobre um animal domstico.

   Impresses produzidas pelas aparies sobre os animais

   No que escreveu sobre a vidente de Prvorst, Justinus Kerner
alude a uma apario que ela teve durante um ano inteiro. De cada
vez que o Esprito lhe aparecia, um galgo negro, que havia na casa,
como que lhe sentia a presena. Logo que a apario se tornava
perceptvel  vidente, o co corria para junto de algum, como a
pedir proteo, muitas vezes uivando forte. Desde o dia em que viu o
vulto, nunca mais quis ficar s durante a noite.
   No terrvel episdio de casa mal-assombrada, que a Senhora S. C.
Hall narrou a Robert Dale Owen (105), se v que foi impossvel
fazer-se que um co permanecesse, nem de dia, nem de noite, no
aposento onde as manifestaes se produziam. Pouco tempo depois
destas comearem, ele fugiu e no mais o encontraram.
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  (105) "Incurses nas fronteiras de outro mundo", pg. 326.
  ::::::::::
   John Wesley, fundador da seita que lhe tomou o nome, deu
publicidade aos rudos que se ouviam no curato de Epworth. Depois de
descrever esses sons estranhos, semelhantes aos que produziriam
objetos de ferro ou de vidro caindo ao cho, acrescenta ele:
   "Pouco mais tarde, o nosso grande mastim correu a refugiar-se
entre mim e minha mulher. Enquanto duraram os rudos, ele ladrava e
pulava de um lado para outro, abocanhando o ar e isso, as mais das
vezes, antes que algum, no aposento, houvesse escutado coisa
alguma. Ao cabo de trs dias, tremia e se esgueirava rastejando,
antes que comeassem os rudos. Era, para a famlia, o sinal de que
estes iam principiar, sinal que nunca falhou".
   Fazemos a respeito algumas observaes, tomando-as ao ilustre
naturalista Sir Alfred Russel Wallace. (106)
  ::::::::::
  (106) "Os milagres e o moderno espiritualismo", pg.112
  ::::::::::
 sem dvida notvel e digna de ateno essa srie de casos em
que se puderam observar as impresses que os fantasmas produzem nos
animais. Fatos tais certamente no se dariam, se fossem verdadeiras
as teorias da alucinao e de telepatia. Eles, no entanto, merecem
f, porque quase sempre entram nas narrativas como episdios
inesperados. Alm disso, so anotados a fim de que no passem
despercebidos, o que prova que os observadores conservavam o seu
sangue-frio.
   Mostram, irrefutavelmente, que grande nmero de fantasmas,
percebidos pela viso ou pela audio, ainda quando seja uma nica
a pessoa que os perceba, constituem realidades objetivas. O terror
que manifestam os animais que os percebem e a atitude que assumem,
to diferente da que guardam em presena dos fenmenos naturais,
estabelecem, de modo no menos claro que, embora objetivos, no so
normais os fenmenos e no podem ser explicados por qualquer
embuste, ou por eventualidades naturais mal interpretadas.
   Continuaremos agora o estudo das aparies que se produzem aps a
morte. Salientaremos as semelhanas que existem entre essas
aparies e as dos vivos e veremos que umas e outras apresentam
clara analogia de caracteres, que implica a das causas. Se bem nos
parea pouco possvel imaginar-se, para os casos precedentes,
qualquer ao, ainda desconhecida, de um crebro humano sobre outro
crebro humano, de maneira a alucinar completamente, impossvel
ser, com as teorias materialistas, supor essa ao exercitada por
um morto. Todavia, desde que os fatos so idnticos, ter-se- que
admitir, como causa verdadeira, a alma, quer habite a Terra, quer
haja deixado este mundo.
    exato que os incrdulos so muito hbeis em forjar teorias,
quando topam com fenmenos embaraosos, cuja realidade no possam
negar. Da vem o terem estendido aos mortos a hiptese da telepatia,
pretendendo que a ao teleptica de um moribundo pode penetrar
inconscientemente no esprito do paciente, de modo que a alucinao
se d muito tempo depois da morte daquele que a originou.
   Apoia-se esta suposio nas experincias de sugestes a longo
prazo.  sabido que se pode conseguir que pacientes muito sensveis
pratiquem atos bastante complicados, alguns dias e at alguns meses
mais tarde. Despertado, o paciente nenhuma conscincia tem da ordem
adormecida no seu ntimo; mas, em chegando o dia determinado,
executa fielmente a sugesto.
   Se, pois, o pensamento de um morto  violentamente levado a um
de seus parentes, pode este guard-lo inconscientemente e, quando a
alucinao se produzir, j no haver uma apario, mas apenas a
realizao de uma sugesto.  muito engenhoso este modo de conceber
as coisas, porm, muito longe de explicar todos os fatos de apario
de mortos. Em primeiro lugar, a analogia entre a viso de um morto e
uma sugesto retardada  absolutamente falsa, porquanto o agente --
na maioria dos casos -- no cogita de ordenar ao paciente que o veja
mais tarde. Em segundo lugar, se, como nas aparies de vivos, h
fenmenos fsicos produzidos pela apario, evidente se torna que
no  uma imagem mental quem as executa: preciso se faz seja o ser
desencarnado, o que demonstra a sua sobrevivncia. Teremos adiante
ocasio de mostrar quanto essas explicaes, pretensamente
cientficas, costumam ser falsas e quo incompletas so sempre.
   Voltemos aos casos referidos nos Phantasms of the living.
   Aqui temos um em que a apario se produz pouco tempo aps o
trespasse. A narrativa  da Sra. Stella Chieri, Itlia (107):
  ::::::::::
  (107) "As Alucinaes Telepticas", pg. 112.
  ::::::::::

   Apario depois da morte

   "18 de Janeiro de 1884.
   Contando eu mais ou menos quinze anos, fui passar algum
tempo com o Dr. J. G., em Twyford, Hants, e l me afeioei
a um primo do doutor, rapaz de 17 anos. Tornamo-nos
inseparveis, juntos passevamos de bote, juntos andvamos
a cavalo, de todas as diverses participvamos, como irmos.
   Porque fosse de sade muito delicada, eu cuidava dele,
vigiando-o constantemente, de sorte que nunca passvamos,
sequer, uma hora, longe um do outro.
   Deso a estes pormenores todos, para lhe mostrar que
no havia o menor vestgio de paixo entre ns. ramos, um
para o outro, como dois rapazes.
   Certa noite, vieram chamar o Sr. G''', para ver o primo
que cara de sbito gravemente enfermo de uma inflamao
dos pulmes. Ningum nada me dissera da gravidade da doena;
eu, portanto, ignorava que o rapaz corria perigo de vida e,
por isso, no me inquietava a seu respeito.  noite, ele
morreu. O Sr. G''' e sua irm foram  casa de uma tia,
deixando-me sozinha no salo de visitas. Ardia no fogo um
fogo vivo e eu, como muitas moas, gostava de estar junto
da lareira, para ler  claridade das chamas. No sabendo
que o meu amigo estava mal, conservava-me tranqila, apenas
um pouco aborrecida por no poder ele passar a noite ao meu
lado, to s me sentia.
   Estava eu lendo calmamente, quando a porta se abriu e
Bertie (o meu companheiro) entrou. Levantei-me bruscamente,
a fim de aproximar do fogo uma poltrona para ele, pois me
parecia estar com frio e no trazia capote, se bem na
ocasio nevasse. Pus-me a repreend-lo por haver sado sem
se agasalhar bastante. Em vez de responder, ele colocou a
mo no peito e abanou a cabea, o que, a meu ver, queria
significar que no sentia frio, que sofria do peito e
perdera a voz, coisa que de vez em quando acontecia.
Censurei-lhe ainda mais a imprudncia. Estava a falar,
quando o Sr. G''' entrou e me perguntou a quem me estava
dirigindo. Respondi: -- A este insuportvel rapaz, que sai
sem capote, com um resfriado to srio, ao ponto de no
poder falar. Empreste-lhe o seu capote e mande-o para casa.
   Jamais esquecerei o horror e o espanto que se pintaram
no semblante do doutor, porquanto sabia (o que eu ignorava)
que o pobre rapaz morrera, havia uma meia hora, e vinha
precisamente dar-me essa notcia. A sua primeira impresso
foi a de que j eu a recebera e de que isso me ocasionara a
perda da razo. Fiquei sem compreender por que me obrigou a
sair do salo, falando-me como se o fizesse a uma
criancinha. Durante alguns momentos trocamos observaes
incoerentes, explicando-me ele, depois, que eu tivera uma
iluso ptica. No negou que eu houvesse visto Bertie com
meus prprios olhos: mas, apresentou-me uma explicao
muito cientfica dessa viso, temendo que me assustasse ou
ficasse debaixo de uma impresso aflitiva.
   At o presente, no falei a quem quer que fosse desse
acontecimento, em primeiro lugar, porque encerra para mim
uma triste recordao e, tambm, porque temia me tomassem
por esprito quimrico e no me acreditassem. Minha me,
essa me disse que fora um sonho. Entretanto, o livro que eu
lia na ocasio, intitulado _O _Sr. _Verdant _Green, no  dos
que fazem dormir e recordo-me bem de que muito me ria de
alguns disparates do heri, no instante mesmo em que a
porta se abriu".
   s diversas perguntas que lhe dirigiram os
investigadores, a Sra. Stella respondeu:
   "A casa do rapaz ficava mais ou menos a um quarto de
hora de marcha da do Sr. G''' e Bertie morreu cerca de
vinte minutos antes que o doutor lhe deixasse a casa.
Quando o Sr. G''' entrou, havia perto de cinco minutos que
a apario estava na sala. O que sempre me pareceu muito
singular  que eu tenha ouvido o rudo da maaneta a girar
e da porta a se abrir. Com efeito, foi o primeiro desses
rudos que me fez levantar do livro os olhos. A apario
caminhou, atravessando a sala, em direo  lareira e se
sentou, enquanto eu acendia as velas. Tudo se passou de
modo to real e natural, que mal posso agora admitir que
no fosse uma realidade".
   Esta ltima observao mostra que a moa se achava em
seu estado habitual. Ria, lendo um livro alegre e de modo
nenhum se encontrava predisposta a uma alucinao. O
Esprito de Bertie, que apenas acabara de abandonar o seu
corpo, entra na sala, fazendo girar a maaneta da porta. O
rudo  to real, que a faz levantar a cabea. Se se
tratasse de uma alucinao, quem a teria produzido?
   J vimos que a me de Helena (108) -- fantasma de vivo --
abriu uma porta; assistimos aqui ao mesmo fenmeno
produzido por Bertie, no estado de Esprito. A alma do
rapaz no  visvel para o doutor -- tal qual como o duplo
de Frederico (109) para o amigo de Goethe -- mas atua
telepaticamente sobre Stella e objetivamente sobre a
matria da porta.
  ::::::::::
  (108) Veja-se pg. 91.
  (109) Veja-se pg. 95.
  ::::::::::
   "Comeamos a aperceber-nos, diz F. H. Myers, um dos
autores dos Phantasms, quo intimamente ligadas se acham as
nossas experincias de telepatia entre vivos  telepatia
entre os vivos e os mortos. Ningum, todavia, quer com
estas ocupar-se, de medo da pecha de misticismo".
   A apario se assemelhava tanto a Bertie quando vivo,
que a moa lhe fala, o repreende por ter sado sem capote.
Numa palavra: persuade-se de que ele l est, pois que
caminhou desde a porta at a poltrona em que se sentou.
   Se o fenmeno se houvera produzido alguns minutos antes
da morte de Bertie, em vez de se produzir depois, entraria
na classe dos acima estudados. Aqui, porm, o corpo est
sem vida, s a alma se manifesta, sem que, no entanto,
qualquer mudana se haja operado nas circunstncias
exteriores pelas quais ela atesta a sua presena. Os traos
fisionmicos so idnticos ao do corpo material. O talhe, o
andar, tudo lembra o ser vivo.
   Citemos outro caso, em o qual o Esprito que se
manifesta imprime ao seu perisprito tangibilidade bastante
para poder pronunciar algumas palavras, se bem j no
pertencesse ao nmero dos vivos. (110)
  ::::::::::
  (110) "As Alucinaes Telepticas", Pg. 185.
  ::::::::::

   Apario do Esprito de um ndio

   A Senhora Bishop, Bird em solteira, escritora muito
conhecida, mandou-nos, em maro de 1884, esta narrativa,
quase idntica a outra, de segunda mo, que nos fora
remetida em maro de 1883. Excursionando pelas Montanhas
Rochosas, travou ela relaes com um ndio mestio, chamado
Nugent, porm, conhecido pelo nome de "Moutain Jim", e
sobre o qual adquirira considervel influncia.
   "No dia, diz a narradora, em que dele me despedi,
Mountain Jim estava muito comovido e muito excitado.
Tivramos uma longa palestra sobre a vida mortal e a
imortalidade, palestra a que eu pusera fim proferindo
algumas palavras da Bblia. Muito impressionado, mas tambm
muito exaltado, ele exclamara: -- No tornarei talvez a v-la
nesta vida; v-la-ei, porm, quando eu morrer. Repreendi-o
brandamente, pela sua violncia, ao que ele retrucou,
repetindo, com mais energia ainda, a mesma coisa e
acrescentando: -- Nunca esquecerei as palavras que a senhora
acaba de me dirigir e juro que tornarei a v-la, quando eu
morrer. Dito isso, separamo-nos.
   Durante algum tempo, tive notcias dele. Fui sabedora de
que se conduzira mal, pois retomara seus costumes selvagens,
e, mais tarde, vim a saber que se achava muito doente, em
conseqncia de ferimentos que recebera numa rixa. Depois,
que estava melhor, mas que formava projetos de vingana. Da
ltima vez que me chegaram notcias suas, eu me achava no
Hotel Interlaken, em Interlaken, na Suia, em companhia da
Srta. Clayson e da famlia Ker. Algum tempo depois de as ter
recebido (fora em setembro de 1874), estava recostada na
cama a escrever uma carta para minha irm, quando, erguendo
os olhos, vi Mountain Jim em p diante de mim. Fitava-me e,
quando lhe dirigi o olhar, disse-me em voz baixa, mas muito
distintamente: -- Vim, como prometi. Em seguida, fez um sinal
com a mo e disse: -- Adeus!.
   Quando a Srta. Bessie Ker me veio trazer o almoo,
tomamos nota do acontecido, da data e da hora. Mais tarde,
chegou-nos a notcia da morte de Mountain Jim e verificamos
que, levada em conta a diferena das longitudes, a data
coincidia com a da sua apario".
   Esta, na realidade, segundo os autores, se dera oito
horas depois da morte, ou catorze horas se ocorreu no dia
seguinte ao indicado pela Sra. Bishop.
   Comprova-se invariavelmente que a distncia no
constitui obstculo ao deslocamento do Esprito, pois que
ele pde manifestar a sua presena na Europa muito pouco
tempo aps sua morte na Amrica. As observaes
precedentemente feitas aplicam-se aqui ao aspecto exterior
do Esprito. Julgamos, entretanto, que a materializao,
neste caso, foi mais completa do que no ltimo citado,
porquanto ele dirigiu um adeus  vidente, o que nos reconduz
ao caso em que o
fantasma de vivo igualmente pronuncia
algumas palavras. Esta observao firma que tambm o
Esprito dispe de um rgo para produzir sons articulados e
de uma fora para acion-lo. Veremos, dentro em pouco, que
no perisprito no existe apenas a laringe, mas todos os
rgos do corpo material. O que, acima de tudo, nos
importava assinalar  a notvel uniformidade que se observa
na maneira de agir dos fantasmas, quer se trate de um
desdobramento, quer da materializao temporria de um
habitante do espao.
   Mencionemos, por fim, mais um caso em que o mesmo
Esprito se manifesta, com pequenssimo intervalo, a duas
pessoas.

   Apario a um menino e a uma sua tia

   Senhora Cox, Summer Hill, Queenstown, Irlanda. (111)
  ::::::::::
  (111) "As Alucinaes Telepticas", pg. 372.
  ::::::::::
   "Na noite de 21 de agosto de 1869, entre oito e nove
horas, estava eu, sentada, no meu quarto de dormir, em casa
de minha me, em Devonport. Meu sobrinho, um menino de sete
anos, estava deitado no quarto ao lado. Tive de repente a
surpresa de v-lo entrar correndo no meu aposento e a gritar
aterrorizado: -- Tia! Acabo de ver o meu pai andando  volta
da minha cama! Observei-lhe; -- Que tolice! Estavas a sonhar!
Ele: -- No, no sonhei. E no quis voltar para o seu quarto.
Vendo que no conseguia persuadi-lo a que voltasse,
acomodei-o na minha cama. Entre dez e onze horas tambm eu
me deitei.
   Cerca de uma hora depois, creio, dirigindo o olhar para
o lado da lareira, v distintamente, com grande espanto, a
forma de meu irmo, sentado numa poltrona, sendo que
sobremaneira logo me impressionou a palidez mortal do seu
semblante. (Nesse momento meu sobrinho dormia a sono solto).
Fiquei to aterrada (sabia que naquela ocasio meu irmo se
achava em Hong-Kong, que cobri a cabea com o lenol. Pouco
depois, ouvi-lhe nitidamente a voz, chamando-me pelo meu
nome, que foi repetido trs vezes. Quando de novo olhei para
o lugar onde o vira, ele havia desaparecido. No dia
seguinte, narrei o fato  minha me e  minha irm e disse
que tomaria nota de tudo e assim fiz. Pela primeira mala
chegada da China, veio-me a triste notcia da morte sbita
de meu irmo, ocorrida a 21 de agosto de 1869, na baa de
Hong Kong , em conseqncia de um ataque de insolao.
   Minnie Cox".

   Segundo informaes complementares, a data da morte
precedeu de algumas horas a apario.
    impossvel admitir-se aqui a alucinao, porquanto o
mesmo Esprito se faz visvel a uma criana e a uma mulher
que no estavam junto. Cada uma dessas pessoas reconhece a
apario e, com a segunda, para atestar a sua identidade, o
irmo chama pela irm trs vezes seguidas. A alma fazia
empenho, evidentemente, em assinalar de modo positivo a sua
presena, donde devemos legitimamente induzir que ela se
achava materializada. A irm olhou to atentamente para o
irmo, que lhe notou a palidez extrema do rosto. Afastemos,
portanto, neste caso, qualquer outra interpretao diferente
da que atribui  alma desencarnada o poder de mostrar a sua
sobrevivncia.
   Encerremos a srie dos casos que fomos pedir  Sociedade
de Pesquisas Psquicas com dois to probantes, que tornam
suprfluos quaisquer comentrios.

   Apario coletiva de trs Espritos

   "19 de maio de 1883.
   Senhorita Catarina, Sr. Weld. (112)
  ::::::::::
  (112) As Alucinaes Telepticas, pg. 376.
  ::::::::::
   Filipe Weld era filho mais moo do Sr. James Weld, de
Archers Lodge, perto de Southampton, e sobrinho do falecido
cardeal Weld. Em 1842, seu pai o mandou para o colgio
Saint-Edmond, prximo de Ware, no Hertfordshire, para fazer
seus estudos. Rapaz de boas maneiras e amvel, fez-se muito
estimado de seus mestres e camaradas. Na tarde de 16 de
abril, Felipe, acompanhado de um de seus mestres e de alguns
companheiros, foi passear de canoa pelo rio. Era esse um
exerccio de que gostava muito. Quando o mestre avisou que
estavam na hora de regressar ao colgio, Filipe pediu
licena para mais uma corrida. O mestre consentiu e os
rapazes rumaram at o ponto onde faziam a virada. Chegados
a, Filipe, manobrando o barco para dar a volta, caiu
acidentalmente ao rio e afogou-se, apesar de todos os
esforos empregados para salv-lo.
   Transportaram-lhe o corpo para o colgio e o
Reverendssimo Dr. Cox, o diretor, ficou profundamente
contristado e aflito. Resolveu ir em pessoa  casa do Sr.
Weld, em Southampton.
   Partiu naquela mesma tarde e, passando por Londres,
chegou a Southampton no dia seguinte. Foi de carro a Archers
Lodge, residncia do Sr. Weld e, antes de entrar, viu o Sr.
Weld a pequena distncia do porto, dirigindo-se para a
cidade. O Dr. Cox fez parar o carro, desceu e encaminhou-se
para o Sr. Weld. Ao aproximar-se disse-lhe este, impedindo-o
de falar: -- No precisa dizer coisa alguma, pois j sei que
Filipe morreu. Ontem  tarde, estando a passear com minha
filha Catarina, os dois de repente o vimos. Estava na
alameda, do outro lado da estrada, entre duas pessoas, sendo
uma delas um moo vestido de preto. Minha filha foi a
primeira a perceb-lo e exclamou: -- Papai, j viste algum
to parecido com o Filipe como aquele rapaz? -- como ele,
no, respondi, pois que  ele prprio!
   Coisa singular: minha filha nenhuma importncia ligou a
esse episdio. Para ela, apenas vramos algum que se
parecia extraordinariamente com seu irmo. Encaminhamo-nos
para aquelas trs formas. Filipe olhava sorridente e com uma
expresso de ventura para o mancebo vestido de preto, que
era mais baixo do que ele. De repente, como que se
desvaneceram s minhas vistas e nada mais vi, seno um
campons que antes eu divisara atravs daquelas trs formas,
o que me levou a pensar que eram Espritos. Contudo, a
ningum falei, temendo afligir minha mulher. Aguardei
ansioso o correio do dia seguinte. Com grande satisfao
para mim, nenhuma carta recebi. Esquecera-me de que as
cartas de Ware s chegavam  tarde e os meus receios se
acalmaram. No mais pensei naquele acontecimento
extraordinrio, at o momento em que o vi de carro perto do
meu porto. Tudo ento reviveu em meu esprito e logo
compreendi que me vinha anunciar a morte do meu querido
rapaz.
   Imagine o leitor o inexprimvel espanto do Dr. Cox ao
ouvir essas palavras. Perguntou ao Sr. Weld se j vira
alguma vez o rapaz trajado de preto para o qual Filipe
olhava com um sorriso de grande satisfao. O Sr.
Weld
respondeu que jamais o vira, porm, que to nitidamente os
traos do seu semblante se lhe haviam gravado no esprito,
que estava certo de o reconhecer imediatamente, assim o
encontrasse. Narrou ento o Dr. Cox ao amargurado pai todas
as circunstncias em que se dera a morte de seu filho,
ocorrida precisamente  hora em que aparecera  sua irm e
ao seu genitor. O Sr. Weld foi ao enterro do filho e, ao
deixar a igreja, aps a triste cerimnia, olhou em torno de
si para ver se algum dos religiosos se parecia com o moo
que vira ao lado de Filipe, mas nenhum descobriu a menor
semelhana com a figura que lhe aparecera.
   Cerca de quatro meses mais tarde partiu em visita a seu
irmo o Sr. Jorge Weld, em Seagram Hall, no Lancashire,
levando consigo toda a famlia. Certo dia, indo com sua
filha Catarina, a passeio na aldeia vizinha de Chikping,
depois de assistir a um ofcio religioso na igreja, foi 
casa do sacerdote visit-lo. Enquanto esperavam que o padre
aparecesse, os dois visitantes se entretiveram a examinar as
gravuras dependuradas nas paredes da sala. Sbito, o Dr.
Weld se deteve diante de um retrato (no se podia ler o nome
escrito embaixo, porque a moldura o encobria) e exclamou:
 --  a pessoa que vi com Filipe; no sei de quem  este
retrato, mas, tenho a certeza de que foi esta a pessoa que
vi com Filipe. Passados alguns instantes, entrou o
sacerdote e o Sr. Weld imediatamente o interpelou com
respeito  gravura. Respondeu ele que esta representava
Santo Estanislau Kostka e que considerava aquele um bom
retrato do jovem santo.
   O Sr. Weld se tornou presa de grande emoo. Santo
Estanislau fora um jesuta que morrera muito moo. Tendo
sido o pai do Sr. Weld grande benfeitor daquela ordem, sua
famlia era considerada sob a proteo especial dos santos
jesutas. Ao demais, Filipe, havia pouco, se tomara, em
conseqncia de circunstncias diversas, de particular
devoo a Santo Estanislau. Alm disso, este santo  tido
como o padroeiro dos afogados, conforme consta da histria
de sua vida. O reverendo logo ofereceu o retrato ao Sr.
Weld que, naturalmente, o recebeu com a maior venerao e o
conservou at  morte, passando, depois de ocorrida esta, 
sua filha (a narradora), que vira a apario ao mesmo tempo
que seu pai e que ainda o guarda consigo".
   So tpicas as circunstncias deste relato. No s o
filho se apresenta a seu pai sob uma forma que, embora
transparente, permite que aquele o reconhea perfeitamente,
como tambm um de seus companheiros apresenta fisionomia to
caracterstica, que o Sr. Weld pde reconhec-lo num retrato,
depois de passados quatro meses. Sua filha igualmente o
reconhece, o que exclui toda idia de alucinao. Alis, o
fato de o Sr. Weld antes da manifestao, no ter conhecido
a imagem de Santo Estanislau mostra bem que ele no pode ter
sido vtima de uma iluso.
   Eis agora um ltimo caso em que a apario  reconhecida
por todas as pessoas da casa.

Apario coletiva de um morto

   Sr. Charles A W Lett, do Real Clube Militar e Naval, rua
Albermale, Londres. (113)
  ::::::::::
  (113) Loc. Cit., pg. 359
  ::::::::::

   "3 de dezembro de 1885.
   A 5 de abril de 1873, o pai de minha mulher morreu na sua
residncia, em Cambrook, Rosebay, perto de Sydney. Umas seis
semanas depois de sua morte, certa noite, pelas nove horas,
minha mulher entrou acidentalmente num dos quartos de dormir
da casa. Acompanhava-a uma jovem, a Srta. Berton. Ao entrarem
no quarto -- achava-se aceso o bico de gs -- tiveram ambas a
surpresa de dar com a imagem do capito Towns, refletida na
superfcie polida do armrio. Viam-se-lhe a metade do corpo,
a cabea, as espduas e os braos. Dir-se-ia um retrato em
tamanho natural. Tinha plido e magro o rosto, como ao morrer.
Trazia uma jaqueta de flanela cinzenta, com que costumava
dormir. Surpreendidas e meio apavoradas, supuseram, a
princpio, ser um retrato que houvessem pendurado no quarto e
cuja imagem viam refletida. Mas, no havia ali nenhum retrato
daquele gnero.
   Estando as duas ainda a olhar, entrou no quarto a irm de
minha mulher. Srta. Towns, e, antes que as outras lhe
falassem, exclamou: -- Meu Deus! Olhem o papai. Como na
ocasio passasse pela escadaria uma das criadas de quarto,
chamaram-na e lhe perguntaram se via alguma coisa. Ela
respondeu: -- Oh! Senhorita, o patro! Mandaram chamar Graham,
ordenana do capito Towns, o qual assim chegou ao quarto, foi
exclamando: -- Deus nos guarde! Senhorita Lett,  o capito.
Chamaram tambm o mordomo e, depois a Sra. Crane, ama de
minha mulher, e ambos disseram o que viam. Finalmente,
pediram  Sra. Towns que viesse. Ao deparar com a apario,
encaminhou-se para ela de braos estendidos, como para
segur-la; mas, ao passar a mo pela face do armrio, a
imagem comeou a desaparecer pouco a pouco e nunca mais foi
vista, embora o quarto continuasse ocupado.
   Tais os fatos como se deram, sendo impossvel duvidar
deles. As testemunhas de nenhum modo foram influenciadas. A
todas era feita a mesma pergunta, logo que chegavam ao quarto,
e todas responderam sem hesitao. Eu, no momento, estava em
casa, mas no ouvi chamarem-me.
   C. A. W. Lett".
   "As abaixo assinadas, depois de lerem a narrativa acima,
certificaram que est exata. Todas ns fomos testemunhas da
apario.
   Sara Lett -- Sibbie Singth (Towns em solteira)".

   Alm dos casos citados, "As Alucinaes Telepticas" trazem
sessenta e trs outros anlogos.
   Tanto custa s verdades novas abrir caminho atravs da
inextricvel balseira das idias preconcebidas, que a
inevitvel alucinao no deixou de ser invocada, para
explicar os casos em que as aparies de Espritos so vistas
simultaneamente por muitas pessoas. Com a maior simplicidade
imaginvel, com espantosa desenvoltura, dizem os negadores
que a alucinao, em vez de ser nica,  coletiva. Em vo se
lhes objeta que as testemunhas gozam de perfeita sade e se
acham no uso de todas as suas faculdades; que essas
testemunhas, conquanto diversas, se referem a um mesmo objeto,
descrito ou reconhecido identicamente por todos os
observadores, o que constitui sinal certo da sua realidade;
os incrdulos abanam a cabea desdenhosamente e, fazendo
garbo da sua ignorncia, preferem atribuir o fato a um
desarranjo momentneo das faculdades mentais dos observadores,
a uma iluso que se apodera de todos os assistentes, antes que
reconhecer lealmente a manifestao de uma inteligncia
desencarnada.
   A negao, porm, para legitimar-se, precisa de limites,
porquanto no lhe  possvel manter-se, desde que seja posta
em face das provas experimentais, que permanecem quais
testemunhos autnticos da realidade das manifestaes.
   Notemos que, em todos os casos precedentemente referidos,
a certeza da viso em si mesma no  contestada; o que os
opugnadores negam  que seja objetiva, isto , que se haja
produzido algures, que no no crebro do ou dos assistentes.
Pretendem eles que os relatos das testemunhas no podem ter
valor absoluto, dado que, a admitir-se uma coisa to
inverossmil como a apario de um morto, ou a realidade de um
fenmeno sobrenatural, mais vale se suponha, da parte dos
vivos, uma aberrao do esprito.
   Mas, ainda aqui, os incrdulos desprezam um fato muito
importante, pois, se h uma alucinao, no pode esta ser uma
alucinao qualquer; tem que estar ligada a um acontecimento
real e achar-se com este em ntima conexo. No podem,
conseguintemente, atribuir-se ao acaso ou a meras
coincidncias as vises telepticas e, se demonstrarmos
possvel a provocao artificial de tais fenmenos, fica fora
de dvida que os que se produzem acidentalmente so devidos a
uma lei natural ainda ignorada.
    precisamente o que vamos fazer no captulo seguinte.
Levando mesmo mais longe a experimentao, comprovaremos que
certas aparies so to reais, que se chega a fotograf-las.
Desde ento, nem sequer a sombra de uma dvida poder restar
acerca da objetividade delas, to obstinadamente contestada.

   SEGUNDA PARTE
   A EXPERINCIA

   CAPTULO I

   ESTUDOS EXPERIMENTAIS SOBRE O DESPRENDIMENTO DA ALMA HUMANA

   SUMRIO:
   O Espiritismo  uma cincia -- Apario voluntria --
Vista a distncia e apario -- Fotografias dos duplos --
Efeitos produzidos por Espritos de vivos  --  Evocao do
Esprito de pessoas vivas -- Espritos de vivos
manifestando-se pela mediunidade dita de incorporao -- Como
pode o fenmeno produzir-se.

   Uma cincia s se acha verdadeiramente constituda quando
pode verificar, por meio da experincia, as hipteses que os
fatos lhe sugerem. O Espiritismo tem direito ao nome de
cincia, porque no se h limitado  simples observao dos
fenmenos naturais que revelam a existncia da alma durante
a encarnao terrena e depois da morte. Todos os processos
empregou ele para chegar  demonstrao de suas teorias e pode
dizer-se que o magnetismo e a cincia pura lhe serviram de
poderosos auxiliares para firmar a exatido de seus ensinos.
   Os numerosos exemplos registrados, do desdobramento da
alma, mostraram que havia de ser possvel a reproduo
experimental de tais fenmenos. Grande nmero de pesquisas
feitas nesse sentido e coroadas de xito confirmaram essa
possibilidade. Deu-se a denominao de animismo  ao
extracorprea da alma; mas, semelhante distino  puramente
nominal, pois que tais manifestaes so sempre idnticas,
quer durante a vida, quer aps a morte.
   Com efeito, a ao da alma, fora das limitaes em que o
corpo a encerra, no se traduz apenas por fenmenos de
transmisso do pensamento ou de aparies; pode tambm
assinalar-se por deslocamentos de objetos materiais, que lhe
atestam a presena. Acham-se ento os assistentes diante de
fatos iguais aos que a alma desencarnada produz.
    esta uma observao da mais alta importncia, mas a que
no tem dispensado bastante ateno. Se, verdadeiramente, o
Esprito de um homem que vive na Terra, saindo momentaneamente
do seu invlucro corpreo, pode fazer que uma mesa se mova, de
maneira a ditar uma comunicao por meio de um alfabeto
convencional; se o Esprito de um encarnado  capaz de atuar
sobre um mdium escrevente, para transmitir seus pensamentos;
se, enfim,  possvel se obtenha o molde da personalidade
exteriorizada desse indivduo, ocioso se torna atribuir esses
mesmos fenmenos a outros fatores, que no as almas
desencarnadas, quando so observados nas manifestaes
espritas, isto , nas em que impossvel se revela a
interveno de um ser vivo.
   Segundo o mtodo cientfico, desde que bem definidos ficam
os efeitos de uma causa, basta depois se observem os mesmos
efeitos, para haver a certeza de que a causa no mudou. Regra
idntica se deve aplicar no estudo dos fenmenos do
Espiritismo. Pois que a alma humana tem o poder de agir fora
do seu corpo, isto , quando se acha no espao, lgico  se
admita que do mesmo poder dispe ela depois da morte, se
sobrevive integralmente e se se pe em comunicao com um
organismo vivo, anlogo ao que possua antes de morrer. Ora,
sabemos, por testemunhos autnticos, que ela conserva um corpo
real, mas fludico; que nada perdeu de suas faculdades, pois
que as exerce como outrora; logo, se os fatos observados de
animismo so inteiramente semelhantes aos do Espiritismo, 
que a causa  a mesma, ou seja, a alma em ns encarnada.
   Esta relao de causa e efeito, que assinalamos nos casos
de telepatia, vamos cri-la voluntariamente, de sorte a no
ser mais possvel atriburem-se ao acaso, ou a coincidncias
fortuitas, os fenmenos que produzirmos. Numa palavra,
procederemos experimentalmente, tendo em mira obter resultados
previstos de antemo. Se as previses se realizarem,  que so
exatas as hipteses segundo as quais as pesquisas se
intentaram.
   Vejamos, pois, as experincias que j no permitem dvidas
sobre a possibilidade de a alma sair do seu envoltrio
corporal. Elas so mltiplas e variadas, como mostraremos.
   Voltemos por um instante, ao Phantasms of the living, a fim
de extrairmos da a narrativa seguinte, em que a manifestao
 consecutiva  vontade de aparecer num lugar determinado.

   Apario voluntria

    interessante este caso (114), porque duas pessoas viram a
apario voluntria do agente. A narrativa foi copiada de um
manuscrito do Sr. S. H. B. que o transcrevera de um dirio em
que ele prprio relatava os fatos que lhe sucediam
cotidianamente.
  ::::::::::
  (114) "As Alucinaes Telepticas", pg. 38.
  ::::::::::
   "Certo domingo do ms de novembro de 1881,  noite, tendo
acabado de ler um livro em que se falava do grande poder que a
vontade humana  capaz de exercer, resolvi, com todas as
minhas foras, aparecer no quarto de dormir situado na frente
do segundo andar da casa de Hogarth Road, 22, Kensington.
Nesse quarto dormiam duas pessoas de minhas relaes: as
Srtas.  L. S. V. e C. E. V., de 25 e 11 anos de idade. Eu, na
ocasio, residia em Kildare Gardens, 23, a uma distncia de
mais ou menos trs milhas de Hogarth Road, e no falara a
nenhuma  das duas senhoritas da experincia que ia tentar,
pela razo muito simples de que a idia dessa experincia me
viera naquela mesma noite de domingo, quando me ia deitar. Era
meu intento aparecer-lhes  uma hora da madrugada e estava
decidido a manifestar a minha presena.
   Na quinta-feira seguinte fui visitar as duas jovens e, no
curso da nossa palestra (sem que eu fizesse qualquer aluso 
minha tentativa), a mais velha me relatou o seguinte episdio:
   No domingo anterior,  noite, vira-me de p junto de sua
cama e ficara apavorada. Quando a apario se encaminhou para
ela, gritou e despertou a irmzinha, que tambm me viu.
   Perguntei-lhe se estava bem acordada no momento e ela me
afirmou categoricamente que sim. Perguntando-lhe a que horas
se passara o fato, respondeu que por volta de uma hora da
manh.
   A meu pedido, escreveu um relato do ocorrido e o assinou.
   Era a primeira vez que eu tentava uma experincia desse
gnero e muito me impressionou o seu pleno e completo xito.
   No me limitara apenas a um poderoso esforo de vontade;
fizera outro, de natureza especial, que no sei descrever.
Tinha a impresso de que uma influncia misteriosa me
circulava pelo corpo e tambm a de que empregava uma fora que
at ento me fora desconhecida, mas que, agora, posso acionar,
em certos momentos, a meu bel-prazer.
   S. H. B."

   Acrescenta o Sr. B''':
   "Lembro-me de haver escrito a nota que figura no meu dirio
quase uma semana depois do acontecido, quando ainda conservava
muito fresca a lembrana do fato".

   A Senhorita Vrity narra assim o episdio:
   "H quase um ano, um domingo  noite, em nossa casa de
Hogarth Road, Kensington, v distintamente o Sr. B''', em meu
quarto, por volta de uma hora da madrugada. Achava-me
inteiramente acordada e fiquei aterrada. Meus gritos
despertaram minha irm, que tambm viu a apario. Trs dias
depois, encontrando-me com o Sr. B''', referi-lhe o que se
passara. S ao cabo de algum tempo, recobrei-me do susto que
tive e conservo to viva a lembrana da ocorrncia, que ela
no poder apagar-se da minha mente.
   L. S. Vrity".

   Respondendo a perguntas nossas, disse a Senhorita Vrity:
   "Eu nunca tivera nenhuma alucinao".

   So caractersticas muitas circunstncias desta narrativa e
nos vo facilitar emitamos a nossa opinio.
   Primeiramente, convm notar que a Srta. Vrity no  um
paciente magntico, que nunca teve alucinaes e que goza de
sade normal. A apario se lhe apresente com todos os
caracteres da realidade. Ela se persuade tanto da presena
fsica do Sr. B''' no seu quarto, que solta um grito, quando
o v encaminhar-se para o seu leito. Verifica, portanto, que o
fantasma se desloca com relao aos objetos circunjacentes, o
que no se daria, se fosse interior a viso. Sua irm desperta
e tambm v a apario.
   Ainda quando se suponha, o que j  difcil, dadas as
circunstncias, uma alucinao da Srta. Vrity, inteiramente
improvvel  que sua irmzinha, ao despertar, tambm fosse
presa imediatamente de uma iluso. Na vida ordinria, no
basta se diga a algum: aqui est o Sr. Tal, para que
instantaneamente uma alucinao se produza. Logo, pois que a
imagem do Sr. B''' se desloca, que  percebida simultaneamente
pelas duas irms, evidencia-se que ela tem uma existncia
objetiva, que se acha realmente no quarto.
   Que conseqncias tirar dessa presena efetiva?
   Posta de lado a alucinao como causa do fenmeno, temos de
admitir que o Sr. B''' se desdobrou, isto , que,
conservando-se o seu corpo fsico onde estava, sua alma se
transportou ao aposento de Hogarth Road e pde materializar-se
bastante para dar s duas moas a impresso de que era ele em
pessoa quem l estava. Notaremos que nesse estado a alma
reproduz identicamente a fisionomia, o talhe, os ademanes do
ser vivo. Ao demais, a distncia que separa o corpo do seu
princpio inteligente parece que em nada influi sobre o
fenmeno. Notaremos tambm que essas observaes so gerais e
se aplicam a todos os casos espontneos j observados.
   O agente, no caso em apreo, pde desdobrar-se
voluntariamente. No caso que se segue, vamos ver que ele teve
necessidade do auxlio de outrem, para chegar ao mesmo
resultado.

   Efeitos fsicos produzidos por Espritos de vivos

   Nesta outra experincia o duplo logrou provar a sua
presena por uma ao fsica. Devemo-la  Sra. de Morgan,
esposa do professor que escreveu o livro: From matter to
spirit (Da matria, ao Esprito). (115)
  ::::::::::
  (115) "Light", 1883, pg.458, citado por Aksakof.
  ::::::::::
   Ela tivera ocasio de tratar de uma moa por meio do
magnetismo e muitas vezes se aproveitara da sua faculdade de
clarividncia para faz-la ir, em Esprito, a diferentes
lugares. Um dia, quis que a paciente se transportasse  casa
que ela, Sra. Morgan, habitava. "Bem, disse a moa, aqui estou
e bati com fora  porta". No dia seguinte, a Sra. Morgan se
informou do que se passara em sua casa naquele momento.
Responderam-lhe: "Um bando de meninos endiabrados veio bater 
porta e em seguida fugiu".
   Noutro caso, o Esprito vivo que produziu a manifestao
veio por causa de um dos assistentes. A narrao f-la o
engenheiro Sr. Desmond Fitzgerald (116). Conta ele que um
negro chamado H. E. Lewis possua grande fora magntica, da
qual dava demonstrao em reunies pblicas. Em Blackheath, no
ms de fevereiro de 1856, numa dessas sesses, magnetizou uma
moa a quem jamais vira. Depois de mergulh-la em profundo
sono, determinou-lhe que fosse a sua prpria casa e revelasse
ao pblico o que visse l. Referiu ela ento que via a cozinha
que a se achavam duas pessoas ocupadas em misteres
domsticos.
  ::::::::::
  (116) "The Spiritualist", 1875, I, pg. 97. Citado por Aksakof.
  ::::::::::
   Ordenou-lhe ento Lewis que tocasse numa dessas pessoas. A
moa se ps a rir e disse: "Toquei-a. Como ficaram aterradas
as duas!". Dirigindo-se ao pblico, Lewis perguntou se algum
dos presentes conhecia a moa. Como algum lhe respondeu
afirmativamente, props que uma comisso fosse  casa da
paciente. Diversas pessoas para l se dirigiram e, ao
regressarem confirmaram em todos os pontos o que, adormecida,
a moa dissera. Toda a gente da casa estava atarantada e em
profunda excitao, porque uma das pessoas que se achava na
cozinha declarara ter visto um fantasma e que este lhe tocara
no ombro.
   Pode-se colocar em paralelo com esta observao a do Dr.
Kerner, em que o duplo da sonmbula Susana B''' apareceu ao
Dr. Rufi e lhe apagou a vela.
   Temos tambm um caso de batimentos, em completa analogia
com os que os Espritos produzem. (117)
  ::::::::::
  (117) Harrison -- "Spirits before our eyes" (Espritos diante
dos nossos olhos), pg 146.
  ::::::::::
   Uma Sra. Lauriston, de Londres, tem uma irm residente em
Southampton. Certa noite, estando esta ltima a trabalhar em
seu quarto ouviu trs pancadas na porta. "Entre", disse ela.
Ningum, todavia, entrou. Como, porm, as pancadas se
repetisse, ela se levantou e abriu a porta. No havia pessoa
alguma. A Sra. Lauriston, que estivera gravemente enferma,
voltando a si, referiu que, tomada do ardente desejo de rever
a irm antes de morrer, sonhara que fora a Southampton, que
batera  porta do quarto da irm e que, depois de bater
segunda vez, sua irm se apresentara na porta, mas que a
impossibilidade em que ela, visitante, se achara para falar 
outra a emocionara tanto, que a fez voltar a si.
   Precisaramos de muito maior espao do que o de que
podemos dispor, para citar os numerosos testemunhos existentes
com respeito s aes fsicas exercidas pela alma dos
moribundos, com intuito de se fazerem lembradas de parentes ou
amigos distantes. A tal propsito, podem consultar-se as obras
de Perty: "Ao dos moribundos a distncia e o Moderno
Espiritualismo". Os proceedings da Sociedade de Pesquisas e os
Phantasms of the living relatam uma imensidade deles. No
insistiremos, pois, sobre esses fenmenos, fora que esto,
absolutamente, de toda dvida. (118)
  ::::::::::
  (118) Veja-se: Aksakof -- "Animismo e Espiritismo", pgs. 470
e seguintes.
  ::::::::::


   Fotografias de duplos

   Os fatos que at aqui temos relatado firmam a realidade dos
fantasmas de vivos, isto , a possibilidade, em certos casos,
do desdobramento do ser humano. Tais aparies reproduzem, com
todas as mincias, o corpo fsico e tambm s vezes manifestam
a sua realidade por meio de deslocamentos de objetos materiais
e por meio da palavra. J expendemos as razes por que a
hiptese da alucinao teleptica nem sempre  admissvel e,
se essas razes no convenceram a todos os leitores, esperamos
que os fatos que seguem bastaro para mostrar, com  verdadeiro
rigor cientfico, que, na realidade, a alma  a causa eficiente
de todos esses fenmenos.
   As objees todas caem por s mesmas, diante da fotografia
do esprito fora do seu corpo. Neste caso, nenhuma iluso mais
 possvel; a chapa fotogrfica  testemunho irrefutvel da
realidade do fenmeno e ser precisa uma preveno muito
enraizada para negar a existncia do perisprito. Vamos citar
diversos exemplos que tomamos ao Sr. Aksakof. (119)
  ::::::::::
  (119) Aksakof -- "Animismo e Espiritismo", pg. 78
  ::::::::::
   O Sr. Humber, espiritualista muito conhecido, fotografou um
jovem mdium, Sr. Herrod, a dormir numa cadeira, em estado de
transe, e no retrato via-se, por detrs do mdium, a sua
prpria imagem astral, isto , do seu perisprito, em p, quase
de perfil e com a cabea um pouco inclinada para o paciente.
   Outro caso de fotografia de um duplo atesta-o o juiz Carter,
em carta de 31 de julho de 1875  Banner of Light, transcrita
em Human Nature de 1875, pgs. 424 e 425.
   Finalmente, o Sr. Glandinning, no Spiritualist, numero 234
(Londres, 15 de fevereiro de 1877, pg. 76), assinala terceiro
caso de fotografia de duplo, o de um mdium em lugar que este
ocupara alguns minutos antes.
   Veremos que o pensamento  uma fora criadora e que, assim
sendo, se poderia imaginar que tais fotografias resultam de um
pensamento que o agente exteriorizou. A seguinte experincia,
porm, estabelece que semelhante hiptese carece de base, pois
que o duplo no  simples imagem, mas um ser que atua sobre a
matria.

   O caso do Sr. Stead

   O Borderland, de abril de 1876, pg. 175, traz um artigo de
W. T. Stead sobre uma fotografia do Esprito de um vivo. Eis o
resumo do relatado ali:
   A Senhora A'''  dotada da faculdade de se desdobrar e de
apresentar-se a grande distncia, com todos os atributos de
suas personalidade. O Sr. Z''' lhe props fotografar-lhe o
duplo e combinou que ela se fecharia no seu quarto, entre 10 e
11 horas, e que se esforaria por aparecer em casa dele, no seu
gabinete de trabalho.
   A tentativa abortou, ou, pelo menos, se o Sr. Z''' sentiu a
influncia da Senhora A''', no serviu do seu aparelho
fotogrfico, temendo nada obter. A Senhora A''' concordou em
repetir a experincia no dia seguinte e, como se achasse
indisposta, deitou-se e dormiu. O Sr. Z''' viu o duplo
entrar-lhe no gabinete  hora aprazada e pediu licena para
fotograf-lo, depois de lhe cortar uma mecha de cabelos para
tornar-lhe indubitvel a presena real. Batida a chapa e
cortada a mecha, ele se meteu na cmara escura, para proceder 
revelao do negativo.
   Ainda no havia um minuto que para ali entrara, quando ouviu
forte estalido, que o fez sair a verificar o que acontecera. Ao
entrar no gabinete, encontrou sua mulher, que subira  pressa,
por tambm haver escutado o estalido. O duplo desaparecera;
mas, o quadro que servira de fundo durante a exposio da chapa
fora arrancado do suporte, quebrado ao meio e atirado ao cho.
A Senhora A''', que a esse tempo se achava deitada em sua cama,
no tinha, ao despertar, a menor idia do que se passara.
   A fotografia do seu duplo existe e o Sr. Stead possui o
negativo. A lembrana do que sucedera durante o desprendimento
apagou-se com a volta da paciente ao estado normal.
   Outro caso agora em que a lembrana  permanece.

   Outras fotografias de duplos

   Em seu livro sobre a iconografia do invisvel (120), o Dr.
Baraduc,  pag. 122 (Explicaes, XXIV bis), reproduz uma
fotografia obtida por telepatia entre o Sr. Istrati e o Sr.
Hasdeu de Bucareste, diretor do ensino na Romnia. Eis aqui,
textualmente, como foi ela conseguida:
  ::::::::::
  (120) Dr. H. Baraduc -- "A alma humana, seus movimentos, suas
luzes".
  ::::::::::
   "Indo o Dr. Istrati para Campana, convencionou com o Dr.
Hasdeu que, numa data prefixada, apareceria numa chapa
fotogrfica do sbio romeno, a uma distncia mais ou menos
igual  que h entre Paris e Calais.
   A 4 de agosto de 1893, o Dr. Hasdeu, ao deitar-se  noite,
evoca o Esprito de seu amigo, com um aparelho fotogrfico nos
ps da cama e outro  cabeceira.
   Aps a prece ao seu anjo protetor, o Dr. Istrati adormece
em Campana, formando, com toda a fora de sua vontade, o desejo
de aparecer num dos aparelhos do Dr. Hasdeu. Ao despertar,
exclama: -- Tenho a certeza de que me apresentei ao aparelho do
Sr. Hasdeu, como figurinha, pois sonhei isso muito
distintamente.
   Escreve ao professor P''' que, levando consigo a carta,
encontra o Sr. Hasdeu em preparativos para revelar a chapa.
   Na chapa A, vem-se trs impresses, uma das quais, a que
marquei no verso com uma cruz, extremamente satisfatria. V-se
a o doutor a olhar atentamente para o obturador do aparelho,
cuja extremidade de bronze  iluminada pela luz prpria do
Esprito.
   O Sr. Istrati volta a Bucareste e fica espantado diante do
seu perfil fisionmico.  muito caracterstica a sua imagem
fludica, no sentido de que o exprime com mais exatido do que
o seu perfil fotogrfico. Assemelham-se muito a reproduo, em
tamanho pequeno, do retrato e a fotografia teleptica".
   Para terminar, lembraremos que o Capito Volpi tambm
conseguiu obter a fotografia do duplo de uma pessoa viva que se
fora fotografar (121). A imagem astral  muito visvel e
apresenta caractersticas especiais, que no permitem se lhe
ponha em dvida a autenticidade.
  ::::::::::
  (121) Veja-se "Revue Scientifique et Morale du Spiritisme",
nmero de outubro de 1897, onde se acha reproduzida essa
fotografia.
  ::::::::::

   Materializao de um desdobramento

   O ponto culminante da experimentao, no que concerne ao
desdobramento, foi alcanado com o mdium Egliton. Um grupo de
pesquisadores, de que faziam parte o Dr. Carter Blake e os Srs.
Desmond, G. Fitz Gerald,  M.S. Tel e E''', engenheiros
telegrafistas, afirma que, a 28 de abril de 1876, em Londres,
obtiveram, em parafina, um molde exato do p direito do mdium
que nem um instante fora perdido de vista por quatro dos
assistentes.
   O atestado da realidade do fenmeno apareceu no Spiritualist
de 1876, pg. 300, redigido nos seguintes termos:
   "Desdobramento do corpo humano. O molde em parafina de um p
direito materializado, obtido numa sesso  rua Great Russell,
38, com o mdium Egliton, cujo p direito se conservou, durante
toda a experincia, visvel aos observadores colocados fora do
gabinete, verificou-se que era a reproduo exata do p do Sr.
Eglinton, verificao essa, resultante do minucioso exame a que
procedeu o Dr. Carter Blake". (122)
  ::::::::::
  (122) Aksakof -- "Animismo e Espiritismo", pgs. 164 e 165.
  ::::::::::

   No  nico o exemplo; mas,  notvel pela alta competncia
cientfica dos observadores e pelas condies em que foi obtida
to palpvel prova do desdobramento.
   Nas experincias que o Sr. Siemiradeski realizou com Euspia,
foram conseguidas muitas vezes, em Roma, impresses do seu
duplo sobre superfcies enegrecidas com fumaa. Veja-se a obra
do Sr. de Rochas: A exteriorizao da motricidade.
   Como se h de negar, em face de provas tais! Todas as
condies se acham preenchidas, para que a certeza se imponha
com irresistvel fora de convico.
   Recomendamos estes notveis estudos muito especialmente aos
que negam ao Espiritismo o ttulo de cincia. Eles mostram a
justeza das dedues que Allan Kardec tirou de seus trabalhos,
h cinqenta anos, ao mesmo tempo que nos abrem as portas da
verdadeira psicologia positiva, da que empregar a
experimentao como auxiliar indispensvel do senso ntimo.
   Que dizer e que pensar dos sbios que fecham os olhos diante
dessas evidncias? Queremos acreditar que no tem conhecimento
de tais pesquisas; que, cegados pelo preconceito, esto ainda a
imaginar que o Espiritismo reside inteiro no movimento das
mesas, pois, se assim no fora, haveria, da parte deles,
verdadeira covardia moral no mutismo que guardam em presena da
nossa filosofia.
   A conspirao do silncio no pode prolongar-se
indefinidamente. Os fenmenos ho repercutido e ainda
repercutem fortemente; os experimentadores tm valor cientfico
solidamente firmado, para que haja quem no se lance
resolutamente ao estudo. Sabemos bem que esta demonstrao
irrefutvel da existncia da alma  a pedra de escndalo donde
nos vm as inimizades, os sarcasmos e a nossa excluso do campo
cientfico. Mas, queiram ou no, os materialistas j se acham
batidos. Suas afirmaes errneas os fatos as destroem. Ser
intil valerem-se das retumbantes palavras -- superstio,
fanatismo, etc. A verdade acabar por esclarecer o pblico, que
lhes repudiar as teorias antiquadas e desmoralizadoras, para
volver  grande tradio da imortalidade, hoje assente sobre
bases inabalveis.
   Agora que temos a prova cientfica do desdobramento do ser
humano, muito mais fcil ser compreenderem-se os variados
fenmenos que a alma humana pode produzir, quando sai do seu
corpo fsico.

   Evocaes do Esprito de pessoas vivas
   Comunicaes pela escrita

    doutrina constante do Espiritismo que a alma, quando no
est em seu corpo, goza de todas as faculdades de que dispe
quando na erraticidade se encontra. Cada um de ns durante o
sono corporal, readquire parte da sua independncia e pode,
conseguintemente, manifestar-se. Allan Kardec consignou em sua
revista muitos exemplos dessas evocaes. (123)
  ::::::::::
  (123) "Revue Spirite", 1860, pgs. 81 e seguintes. No mesmo ano,
evocao da Srta. Indermulhe, pg 88.
  ::::::::::
   "Em 1860, foi o Esprito do Dr. Vignal que veio
espontaneamente dar, por um mdium escrevente, pormenores sobre
esse modo de manifestao. Descreveu como percebia a luz, as
cores e os objetos materiais. No podia ver-se a s mesmo num
espelho, sem a operao pela qual o Esprito se torna tangvel
(124). Comprovou a sua individualidade pela existncia do seu
perisprito que -- embora fludico -- tinha para ele a mesma
realidade que o seu envoltrio material e tambm pelo lao que
o prendia ao seu corpo adormecido".
  ::::::::::
  (124) Confrontemos esta afirmao com a observao do jovem
gravador, de que fala o Dr. Gibier, e comprovaremos a
veracidade da nossa doutrina, pela completa analogia existente,
a 40 anos de intervalo, entre os ensinos dos Espritos e o que
atesta a observao direta.
  ::::::::::
   Outro Esprito, no prevenido, se manifesta, no mesmo ano,
em virtude de uma evocao.  o da Srta. Indermulhe, surda e
muda de nascena que, entretanto, exprime com clareza seus
pensamentos. Por certas particularidades caractersticas que
lhe estabelecem a identidade, um seu irmo a reconhece. Sob o
ttulo: "O Espiritismo de um lado e de outro lado o Corpo", em
o nmero de janeiro, de 1860, a Revue relata a evocao de uma
pessoa viva, feita com autorizao sua. Da resultou
interessante colquio sobre as situaes respectivas do corpo e
do esprito, durante o transporte deste a distncia; sobre o
lao fludico, que os prende um ao outro; e sobre ser a
clarividncia do Esprito ligado ao corpo, inferior  do
Esprito desligado pela morte. Ainda neste caso, o Esprito
emprega torneios de frases, idnticos aos de que habitualmente
se serve na vida corrente.
   Para os pormenores, recomendamos aos leitores os nmeros
citados da Revue. Eles podero convencer-se de que h j 40
anos que os fenmenos do animismo foram bem estudados; que
nenhum cabimento h para que deles se separem os fenmenos
espritas propriamente ditos, pois que uns e outros so devidos
 mesma causa:  alma.
   Pode quem quer que seja evocar o Esprito de um cretino ou
de um alienado e convencer-se experimentalmente de que o
princpio pensante no  louco. O corpo  que se acha enfermo e
no obedece por isso s volies da alma, donde dolorosa e
horrvel situao, constituindo uma das mais temveis provas.
(125)
  ::::::::::
  (125) Allan Kardec -- "O Cu e o Inferno" e "Revue Spirite",
1860, pg. 173.
  ::::::::::
   O Sr. Alexandre Aksakof consagrou parte do seu livro:
Animismo e Espiritismo a relatar casos, extremamente numerosos,
de encarnados manifestando-se a amigos ou a estranhos, pelos
processos espirticos. Resumamos alguns dos mais
caractersticos exemplos dessas observaes. (126)
  ::::::::::
  (126) Alexandre Aksakof -- "Animismo e Espiritismo", pgs. 470
e seguintes.
  ::::::::::
   O muito conhecido escritor russo Wsevolod Solowiof conta que
freqentemente sua mo era presa de uma influncia estranha 
sua vontade e, ento, escrevia com extrema rapidez e muita
clareza, mas da direita para a esquerda, de sorte a no se
poder ler o escrito, seno colocando-o diante de um espelho, ou
por transparncia.
   Um dia, sua mo escreveu o nome Vera. Como perguntasse: Que
Vera? Obteve por escrito o nome de famlia de uma jovem sua
parente. Admirado, insistiu, para saber se era, na realidade, a
sua parente quem assim se manifestava. Respondeu a
inteligncia: "Sim; durmo, mas estou aqui e vim para lhe dizer
que nos veremos amanh, no Jardim de Vero". Efetivamente assim
aconteceu, sem premeditao da parte do escritor. A moa, por
seu lado, dissera  famlia que visitara em sonho o seu primo e
lhe anunciara o encontro que teriam. (127)
  ::::::::::
  (127) Allan Kardec -- "O livro dos Espritos". Veja-se, para
explicao desses casos, o artigo: "Visitas espritas entre
pessoas vivas".
  ::::::::::
   Existe, pois, uma prova material; o escrito da visita
perispirtica do Esprito da moa que, por clarividncia,
anuncia um acontecimento futuro. Passados dias, outro fato
similar se produziu, quase nas mesmas condies e com as mesmas
personagens.
   Agora, um segundo exemplo extrado do artigo de Max Perty,
intitulado: Novas experincias no domnio dos fatos msticos,
exemplo que  dos mais demonstrativos.
   A Srta. Sofia Swoboda, durante uma festa de famlia que se
prolongou at muito tarde, lembrou-se de repente de que no
fizera o seu dever de aluna. Como estimasse muito a sua
professora e no quisesse contrari-la, tentou pr-se a
trabalhar. Eis, porm, que, sem saber como e sem mesmo se
surpreender, julgou achar-se na presena da Senhora W''', a
professora em questo. Fala-lhe e lhe comunica, em tom de
aborrecimento, o que sucedera. Sbito a viso desaparece e
Sofia, calma de esprito, volta para a festa e narra aos
convidados o que se passara. A professora, que era esprita,
naquela mesma noite, por volta das dez horas, tomara de um
lpis para se corresponder com o seu defunto marido e ficou
espantada, ao verificar que escrevera palavras alems, com uma
caligrafia em que reconheceu a de Sofia. Eram desculpas
formuladas em tom jocoso, a propsito do esquecimento
involuntrio da sua tarefa. No dia seguinte, houve Sofia de
reconhecer no s que era sua a caligrafia da mensagem, como
tambm que as expresses eram as que empregara no fictcio
colquio que tivera com a Senhora W'''.
   Em seu artigo, Perty relata outro caso, particularmente
edificante, pelas circunstncias que o cercaram e devido ao
Esprito da mesma Senhorita Sofia:
   A 21 de maio de 1866, dia de Pentecostes, Sofia, que morava
em Viena, depois de um passeio pelo Prater, foi tomada de
violenta dor de cabea que a obrigou a deitar-se, por volta das
trs horas da tarde. Sentindo-se em boas disposies para se
desdobrar, transportou-se rpido em pensamento a Moedling, 
casa do Sr. Stratil, um moo, o Sr. Gustavo B''', a quem
estimava muito e desejava dar uma prova da independncia da
alma com relao ao corpo. Dirigiu-se ao rapaz em tom jovial e
carinhoso, mas, de repente, calou-se, chamada a Viena por um
grito que partira do quarto vizinho ao seu, onde dormiam seus
sobrinhos e sobrinhas. A palestra de Sofia com o Senhor B'''
apresentava os caracteres de uma mensagem esprita dada a um
mdium.
   Querendo certificar-se com relao  personalidade que se
manifestara, o Sr. Stratil escreveu  sua filha, que se achava
em Viena, em companhia da famlia da Srta. Sofia, fazendo-lhe
estas perguntas: como passara Sofia o 21 de maio? Que fizera?
No estivera a dormir, naquele dia, entre trs e quatro horas?
No caso afirmativo, que sonho tivera?
   Interrogada, a Srta. Sofia falou, com efeito, de um
desdobramento seu, enquanto dormia; mas, a brusca chamada de
seu Esprito ao corpo lhe fizera esquecer a maior parte da
conversa em que se empenhara. Entretanto, lembrava-se de ter
conversado com dois senhores e de haver, em certo momento,
experimentado desagradvel sensao, proveniente de um dissdio
com os seus interlocutores. Respondendo a esses pormenores, o
Sr. Stratil expediu para Viena, ao seu genro, uma carta
lacrada, com o pedido de no falar dela a Sofia, enquanto esta
no recebesse uma do Sr. B'''. Passados alguns dias, a tal
carta se achava completamente esquecida, em meio das
preocupaes cotidianas.
   A 30 de maio, recebeu Sofia, pelo correio, uma carta galante
do Sr. B''', com um retrato seu. Dizia assim:

   "Senhora
   Aqui me tem. Reconhece-me? Se assim for, peo que me
designe um lugar modesto, seja no rebordo do teto, seja na
abbada. Muito grato lhe ficaria se no me suspendesse, caso
fosse possvel. Mais valera que me relegasse para um lbum, ou
para o seu livro de missa, onde eu facilmente poderia passar
por um santo cujo aniversrio se festejasse a 28 de dezembro
(dia dos Inocentes). Se, porm, no me reconhece, nenhum valor
poder dar ao meu retrato e, nesse caso, eu muito lhe
agradeceria que mo devolvesse.
   Queira aceitar, etc.
(Assinado): N. N."

   Os termos e a fraseologia eram familiares  moa.
Pareciam-lhe seus. Elas, entretanto, apenas vaga lembrana
deles guardava. Como falasse do fato a seu irmo Antnio,
abriram a carta do Sr. Stratil. Continha o texto de uma
conversa psicogrfica com invisvel personagem, numa sesso em
que as perguntas eram formuladas pelo prprio Sr. Stratil,
servindo de mdium o Sr. B'''.
   Segundo esse documento, o Esprito de Sofia diz que seu
corpo se acha em profundo sono, que ela dita a carta que o Sr.
B''' lhe enviou e que ouve, como se estivesse sonhando, as
crianas a gritar. Termina com estas palavras: Adeus, desp'''
so quatro horas.
    medida que lia o referido documento, cada vez mais
precisas se iam tornando as lembranas de Sofia que, de quando
em quando, exclamava: "Oh! Sim;  bem isso". Concluda a
leitura, ela, na posse plena da sua memria, se recordava de
todos os pormenores que olvidara ao despertar. Antnio notou
que a caligrafia do documento se assemelhava muito  de Sofia
nos seus deveres em francs, mostrando-se ela do mesmo parecer.
   Nesta observao se nos deparam todos os caracteres
necessrios a estabelecer a identidade do ser que se
manifestara. Nada falta. Aquela carta ditada pelo Esprito de
Sofia, numa escapada perispirtica, com o pedido da fotografia,
lhe desperta as lembranas e, at mesmo a grafia, tudo confirma
ter sido ela quem se manifestou. H, pois a mais completa
semelhana, a maior analogia entre essa comunicao dada pelo
esprito de uma pessoa viva e as que todos os dias recebemos
dos Espritos que j viveram na Terra.
   Deve ler tambm, na obra do sbio russo, os relatos da
Sra. Adelina von Vay, do Sr. Thomas Everitt, da Sra. Florence
Marryat, da Srta. Blackwell, do Juiz Edmonde, quem deseje
verificar que a comunicao dos Espritos dos vivos, pela
escrita medinica - se bem menos frequente -  to possvel e
to normal, quanto a dos mortos (128). A identidade desses
seres invisveis, mas ainda pertencentes ao nosso mundo, se
estabelece da mesma maneira que a dos desencarnados.
  ::::::::::
  (128) Veja-se: "Revue Scientifique et Morale du Spiritisme";
"Comunicao dada pelo Esprito de um vivo enquanto dormia".
Nmero de outubro de 1898, pg. 245.
  ::::::::::

   Espritos de vivos manifestando-se pela incorporao

   A Sra. Hardinge Britten, escritora esprita bastante
conhecida, em muitos artigos publicados pelo Banner of Light
(129) "sobre os duplos", refere um caso interessante ocorrido
em casa do Sr. Cuttler, no ano de 1853: "Um mdium feminino se
ps a falar alemo, embora desconhecesse completamente esse
idioma. A individualidade que por ela se manifestava dava-se
como me da Srta. Brant, jovem alem que se achava presente".
Passado algum tempo, um amigo da famlia, vindo da Alemanha,
trouxe a notcia de que a me da Srta. Brant, aps sria
enfermidade, em virtude da qual cara em prolongado sono
letrgico, declarara, ao despertar, ter visto a filha, que se
encontrava na Amrica. Disse que a vira num aposento espaoso,
em companhia de muitas pessoas, e que lhe falara. Ainda a, 
to evidente a relao de causa e efeito, que no nos parece
devamos insistir.
  ::::::::::
  (129) "Banner of Light", nmeros de 6 de novembro e 11 de
dezembro de 1875.
  ::::::::::

   O Sr. Damiani (130), por seu lado, narra que nas sesses da
baronesa Cerrapica, em Npoles, receberam-se muitas vezes
comunicaes provindas de pessoas vivas. Diz, entre outras
coisas:
  ::::::::::
  (130) "Human nature", 1875, pg. 555.
  ::::::::::
   "H cerca de seis semanas, o Dr. Nehrer, nosso comum amigo,
que vive na Hungria, seu pas natal, se comunicou comigo por
via do nosso mdium, a baronesa. No podia ser mais completa a
personificao: com absoluta fidelidade o mdium reproduzia os
gestos, a voz, a pronncia daquele amigo, de sorte a nos
persuadirmos de que tnhamos em nossa presena o prprio Dr.
Nehrer. Disse-nos que naquele momento cochilava um pouco, para
repousar das fadigas do dia e nos comunicou diversos detalhes
de ordem privada, que todos os assistentes ignoravam. No dia
seguinte, escrevi ao doutor. Em sua resposta, ele afirmou
exatos em todos os pontos os detalhes que a baronesa nos
transmitira".

   Outras materializaes de duplos de vivos

   Passamos em revista diversas manifestaes da alma
momentaneamente desprendida do seu corpo material. Nas
materializaes, porm,  que a ao extracorprea do homem
alcana o mais alto ponto de objetividade, visto que se traduz
por fenmenos intelectuais, fsicos e plsticos.
   S o Espiritismo faculta a prova absoluta desses fenmenos.
No obstante todas as controvrsias, j agora est
perfeitamente firmado que os irmos Davenport no eram
vulgares charlates. Apenas, o que deu lugar a supor-se
houvesse embuste da parte deles, foi que as manifestaes se
produziam, as mais das vezes, por meio de seus perispritos
materializados. (131)
  ::::::::::
  (131) Veja-se, a esse respeito: "Os irmos Davenport", de
Randolf, pgs. 154-470; e "Fatos supraterrestres na vida do
reverendo Fergusson", pg. 109.
  ::::::::::
   Nas experincias levadas a efeito em presena do prof.
Mapes, este, bem como sua filha, puderam comprovar o
desdobramento dos braos e das mangas do mdium.
   Idnticas observaes foram feitas na Inglaterra com outros
mdiuns. O Sr. Cox relata um caso em que as mais rigorosas
condies de fiscalizao foram postas em prtica. Citemo-lo,
segundo o Sr. Aksakof.
   Trata-se de um mdium de materializao, cuja presena no
gabinete das experincias  garantida por uma corrente
eltrica que lhe atravessa o corpo. Se o mdium tentasse
enganar, desligando-se, o embuste seria imediatamente
denunciado pelo deslocamento instantneo da agulha de um
galvanmetro.  Fala deste modo o Sr. Cox (132):
  ::::::::::
  (132) "The Spiritualist", 1875, nmero 4, pg. 15
  ::::::::::
   "Em sua excelente descrio da sesso de que se trata, diz
o Sr. Crookes que uma forma humana completa foi por mim vista,
assim como por outras pessoas.  verdade. Quando me restituam
meu livro, a cortina se afastava bastante, para que se visse
quem mo entregava. Era a forma da Sra. Fay, integral, com sua
cabeleira, seu porte, seu vestido de seda azul, seus braos
nus at ao cotovelo, adornados com braceletes de finas prolas.
Nesse momento, o aparelho nenhuma interrupo registrou da
corrente galvnica, o que inevitavelmente se teria dado, se a
Sra. Fay houvesse soltado das mos os fios condutores. O
fantasma apareceu do lado da cortina oposto ao em que se
encontrava a Sra. Fay e a uma distncia de, pelo menos, oito
ps de sua cadeira, de sorte que lhe fora impossvel, de
qualquer maneira, alcanar aquele livro na estante, sem se
desprender dos fios condutores. Entretanto, repito, a corrente
no sofreu a mnima interrupo.
   Outra testemunha viu o vestido azul e os braceletes.
Nenhum de ns comunicou o que vira aos demais, antes de
acabada a sesso. As nossas impresses, por conseguinte, so
absolutamente pessoais e independentes de qualquer influncia".
   Estamos em presena de uma experincia concludente em
absoluto, no s pela grande competncia dos observadores,
como tambm porque as precaues tomadas foram rigorosamente
cientficas. Tornado impossvel o deslocamento do corpo, sem
que fosse imediatamente denunciado pela variao da corrente
eltrica, uma vez que a aparncia da Sra. Fay se mostrou com
bastante tangibilidade para tomar de um livro e entreg-lo a
uma pessoa,  claro que houve desdobramento daquele mdium,
com inegvel materializao.
   J vimos que os Anais Psquicos, de setembro-outubro de
1896, trazem uma narrativa da qual consta que o duplo de uma
senhora foi observado por mais de uma hora, numa igreja, tendo
nas mos um livro de oraes.
   Nas experincias feitas com Euspia Paladino e em que
muitos eram os observadores, foi possvel comprovar-se
materialmente o seu desdobramento. Na Revue Spirite de 1889, o
Dr. Azevedo publicou o relato de uma experincia em que a mo
fludica de Euspia produzira,  plena luz, a marca de trs
dedos.
   O coronel de Rochas, em sua obra A exteriorizao da
motricidade (133) publica o fac-simile de uma moldagem da mo
natural do mdium, ao lado de uma fotografia dos braos
deixados na argila. Notam-se as maiores analogias entre as
duas impresses. Aos apresentados poderamos juntar muitos
outros documentos; preferimos, porm, aconselhar aos leitores
que se reportem aos originais. Temos dito a respeito o
bastante para que a convico se imponha de que a ao fsica
e psquica do homem no se limita ao seu organismo material.
  ::::::::::
  (133) "The Spiritualist" , 1875, Numero 4 pg. 15.
  ::::::::::
   Como se produz esse estranho fenmeno? As narrativas
anteriormente reproduzidas no no-lo do a saber. Nelas, vemos
perfeitamente a alma fora dos limites do organismo; porm, no
assistimos  sua sada do invlucro corpreo. As pesquisas do
Sr. De Rochas lanaram forte luz sobre esses desdobramentos.
Vamos, pois estud-las.

   CAPTULO II

   AS PESQUISAS DO SR. DE ROCHAS E DO DR. LUYS

   SUMARIO:
   Pesquisas experimentais sobre as propriedades do
perisprito -- Os eflvios -- A exteriorizao da
sensibilidade -- Hiptese -- Fotografia de uma exteriorizao.
Repercusso, sobre o corpo, da ao exercida sobre o
perisprito -- Ao dos medicamentos a distncia --
Consequncias que da decorrem.

   A par das narrativas dos sonmbulos e dos mdiuns videntes,
as comunicaes dos Espritos, confirmadas pelas fotografias e
pelas materializaes de vivos e de desencarnados, atestam que
a alma tem sempre uma forma fludica.
   A existncia desse envoltrio da alma, a que os espritas
do o nome de perisprito, tambm ressalta evidente dos fatos
acima relatados. Esse duplo etreo, inseparvel do esprito,
existe, pois, no corpo humano em estado normal e recentes
experincias nos vo permitir o estudo experimental do novo
rgo.
   Acabamos de apreciar a exteriorizao completa da alma
humana. Fotografamo-la no espao, quando quase livre, e num
estado prximo do em que vir a achar-se por efeito da morte.
Interessa saber por que processos pode esse fenmeno
produzir-se. Ao mesmo tempo que nos instruir acerca da
maneira por que se d a sada astral, este estudo nos far
adquirir noes diretas sobre as propriedades do perisprito,
conhecimentos que nos sero preciosos por esclarecer-nos
quanto ao gnero da matria que o constitui.

   Pesquisas experimentais sobre as propriedades do perisprito

   Um sbio investigador, o Sr. De Rochas (134), chegou a
estabelecer a objetividade da luz tica, que o baro de
Reichenbach atribuia a todos os corpos cujas molculas guardam
uma orientao determinada (135). Ele examinou particularmente
os eflvios produzidos pelos plos de um poderoso eletroim --
com o auxlio de um paciente hipntico -- fazendo-o analisar
as luzes que via, mediante o espectroscpio, que d os
comprimentos de onda caractersticos de cada cor e
verificando-lhe as informaes por uma contraprova, isto ,
por meio da luz polarizada. As interferncias e as
intensificaes da luz se revelaram sempre de acordo com o que
deve passar-se no estudo de uma luz realmente percebida.
  ::::::::::
  (134) De Rochas -- "Exteriorizao da sensibilidade"
  (135) Veja-se a "Revista Cientfica" de 25 de dezembro de 1897.
O Sr. Russel comunicou  Sociedade Real de Londres que certos
metais impressionam na obscuridade a chapa fotogrfica, mesmo
atravs de uma camada de verniz copal, ou de uma folha de
celulide.
  ::::::::::
   Dessas experincias parece resultar que os eflvios
poderiam ser devidos unicamente s vibraes constitucionais
dos corpos, transmitindo-se ao ter ambiente. Mas, ser
preciso talvez ir mais longe e admitir que h emisso, por
arrastamento, de certo nmero de partculas que se destacam do
prprio corpo, dado que os eflvios ondulam, como as chamas,
em virtude dos deslocamentos do ar. (136)
  ::::::::::
  (136) Esse arrastamento de partculas evidentemente se produz
nos lquidos e se chama evaporao. Os Srs. Fusiri, Bizio e
Zantdeschi demonstraram a realidade do mesmo fato, com
relao aos corpos slidos, e deram ao fenmeno o nome de
sublimao lenta. Dr. Fugairon -- "Ensaio sobre os fenmenos
eltricos dos seres vivos", pg. 17.
  ::::::::::
   O corpo humano emite, pois eflvios de colorao varivel,
conforme os pacientes. Uns vem vermelho o lado esquerdo, como
vem igualmente matizados os jatos fludicos que saem de todas
as aberturas da figura humana. Outros invertem essas cores,
que entretanto, se conservam dispostas sempre de maneira
semelhante para o mesmo paciente, se a experincia no se
prolonga demasiado. Avanando em seus estudos sobre a hipnose,
o sbio pesquisador chegou a descobrir notveis modificaes
na maneira por que se comporta a sensibilidade. Acreditava-se,
at ento, porm, de reconhecer-se que ela se pode
exteriorizar.
   Afirma o Sr. De Rochas:
   "Vou retomar agora o estudo das modificaes da
sensibilidade. Servindo-me, primeiro, das indicaes de um
paciente A, cujos olhos foram previamente conduzidos ao estado
em que vem os eflvios exteriores (137), o qual examina o que
se passa quando magnetizo outro paciente B, que apresenta, no
estado de viglia, normal sensibilidade cutnea.
  ::::::::::
  (137) O Sr. Luys comprovou, por meio do oftalmoscpio: que o
fundo do olho do paciente hipnotizado apresenta um fenmeno de
eretismo vascular extrafisiolgico e que os vasos sangneos
chegam a ter um volume quase triplo do normal.
  ::::::::::
   Desde que, neste, a sensibilidade cutnea principia a
desaparecer, a penugem luminosa que lhe recobre a pele no
estado de viglia parece dissolver-se na atmosfera, para
surgir de novo, ao cabo de algum tempo, sob a forma de ligeira
nvoa que, pouco a pouco, se condensa, tornando-se cada vez
mais brilhante, de maneira a tomar, em definitivo, a aparncia
de uma camada muito delgada, acompanhando, a trs ou quatro
centmetros distante da pele, todos os contornos do corpo.
   Se eu, magnetizador, atuo de qualquer modo sobre essa
camada, B experimenta as mesmas sensaes que experimentaria,
se lhe atuasse sobre a pele, nada sente, ou quase nada, se
atuo alhures, que no sobre a aludida camada. Nada sente,
tampouco, se atuar uma pessoa que no esteja em relao com o
magnetizador.
   Se continuo a magnetizao, A v formar-se em torno de B
uma srie de camadas eqidistantes, separadas por um intervalo
de seis ou sete centmetros (o dobro da distncia entre a
primeira camada e a pele) e B s sente os contactos, as
picadas e as queimaduras quando feitas nessas camadas, que se
sucedem por vezes at dois ou trs metros, entrepenetrando-se
e entrecruzando-se, sem se modificarem, pelo menos de maneira
aprecivel. A sensibilidade nelas diminui,  medida que se
afastam do corpo.
   Conhecido assim o processo de exteriorizao da
sensibilidade, muito mais fcil se tornava continuar as
observaes, sem recorrer ao vidente A. Reconheci ento, por
meio de numerosas tentativas, que a primeira camada exterior
sensvel se formava geralmente no terceiro estado, que nalguns
pacientes nunca se produz, ao passo que noutros se produzia
sob a influncia de alguns passes, desde o estado de
credulidade, que  uma modificao quase imperceptvel do
estado de viglia, ou, at, sem qualquer manobra hipntica, em
conseqncia de uma emoo, de uma perturbao nervosa e,
porventura, de uma simples alterao do estado eltrico do ar.
   Se  certo que a sensibilidade se transporta para as
camadas concntricas exteriores, aproximando as palmas de suas
mos, dever o paciente experimentar a sensao de contacto,
logo que duas camadas sensveis se toquem. , efetivamente, o
que acontece. Ainda mais: se se entremeiam as camadas
sensveis da mo direita com as da mo esquerda, de modo que
fiquem regularmente alternadas, uma chama que passe sobre
essas camadas far que o paciente tenha a sensao de uma
queimadura nas duas mos, sucessiva e alternativamente".

   Hiptese

   Que conseqncias devemos tirar de to interessantes
experincias?
   Quando se examina o desenho representativo de um paciente
exteriorizado e se notam essas camadas sucessivamente
luminosas e obscuras, -se impressionado pela analogia que h
entre esse e o fenmeno conhecido em Fsica pela denominao de
"faixas e Fresnel". Sabe-se em que consiste esta experincia:
se, numa cmara escura, um feixe luminoso for projetado sobre
uma tela branca, notar-se- que a iluminao  uniforme; se,
porm, um segundo feixe, idntico ao primeiro, cair sobre a
tela, de forma que os dois se superponham em parte, toda a
regio comum a ambos se apresentar coberta de faixas paralelas,
sucessivamente brilhantes e obscuras. Resulta isto de que a
caracterstica essencial dos movimentos vibratrios  a
interferncia, ou seja, a produo, por efeito da combinao
das ondas, de faixas de movimentos, em que as vibraes so
mximas, e faixas de repouso, nas quais o movimento vibratrio
 nulo, ou mnimo. (138)
  ::::::::::
  (138) Para compreender-se o fenmeno, preciso  se faa idia
exata do a que se chama onda luminosa.
   Quando uma pedra cai na gua, observa-se que produz uma
espcie de buraco; que, em seguida, se lhe forma em torno e
imediatamente contgua a ele uma srie de crculos concntricos,
que se vo continuamente alargando. Esses crculos so formados
por pequenos intumescimentos do lquido e o espao entre dois
de tais crculos se caracteriza por uma pequena depresso.
Observando-se atentamente a superfcie lquida, v-se, com
efeito, que ela se eleva e abaixa regularmente. Chamam-se ondas
condensadas os rolos lquidos e ondas dilatadas as cavidades.
O conjunto constitui uma onda completa.
   Nota-se tambm que  constante a velocidade de propagao
das ondas e que elas so peridicas.
   Se, em vez de uma pedra, deixarmos cair duas, a pequena
distncia uma da outra, veremos cruzarem-se os crculos,
recebendo cada ponto de cruzamento, simultaneamente, duas
espcies de movimentos: um determinado pelo primeiro sistema de
onda, o outro pelo segundo. Se so do mesmo sentido, os dois
movimentos se adicionam; se so de sentidos contrrios,
destroem-se e formam uma faixa de repouso. Diz-se, nos dois
casos, que h interferncia.
   So as mesmas as leis, assim para o som, como para a luz,
salvo o fato de serem transversais as ondulaes e se
desenvolverem em esferas.
   Resulta destes fatos a seguinte curiosa concluso: o som
adicionado ao som produz silncio e a luz adicionada  luz
produz obscuridade, da mesma maneira que duas foras iguais e
de sentidos contrrios se equilibram. (fim da nota)
  ::::::::::

   Nas experincias do Sr. De Rochas, d-se, ao que nos parece,
um fenmeno anlogo. Os mximos de sensibilidade se revelam
ordenados segundo as camadas luminosas, separadas entre si por
outras camadas insensveis e obscuras. Como explicar isso?
    a que a existncia do perisprito claramente se afirma.
A fora nervosa, em vez de se espalhar pelo ar e dissipar,
distribui-se em camadas concntricas ao corpo. Faz-se, pois,
necessrio que uma fora a retenha, porquanto, desde que
normalmente ela se escoa pela extremidade dos dedos, conforme
se observa, do mesmo modo que a eletricidade pelas pontas,
forosamente se perderia no meio ambiente, se no existisse um
envoltrio fludico para ret-la ao sair do corpo.
   A analogia permite se assimile a fora nervosa, cuja
existncia Crookes demonstrou (139) s outras foras naturais:
calor, luz, eletricidade, as quais, devidas a movimentos
vibratrios do ter, se propagam em movimentos ondulatrios,
cuja forma, amplitude e nmero de vibraes variam por segundo,
conforme a fora considerada. No estado normal, a fora nervosa
circula no corpo, pelos condutos naturais, os nervos, e chega 
periferia pelas mil ramificaes nervosas que se estendem por
baixo da pele. Mas, sob a influncia do magnetismo, o
perisprito, segundo a natureza fisiolgica do paciente, se
exterioriza mais ou menos, isto , irradia em volta de todo o
seu corpo e a fora nervosa se espalha no envoltrio fludico e
a se propaga em movimentos ondulatrios.
  ::::::::::
  (139) Vejam-se os detalhes destas experincias no nosso livro
"O Fenmeno Esprita", Parte Segunda, cap. I, "A Fora
Psquica", ed. FEB.
  ::::::::::
   As mais das vezes, necessrio se torna fazer que o paciente
chegue aos estados profundos da hipnose, para que se produza a
irradiao perispirtica, porquanto de certo tempo precisa o
magnetizador para neutralizar, em parte, a ao da fora vital,
a fim de que o duplo possa exteriorizar-se parcialmente. O
estado de relao s se acha estabelecido, quando comea o
desprendimento, ou, por outra, nesse momento, as ondulaes
nervosas do magnetizador vibram sincronicamente com as do
paciente, interferem e produzem exatamente aquelas camadas
alternativamente sensveis e inertes.
   Em suma, a experincia  talvez idntica  de Fresnel. Nessa
hiptese, em lugar de ondulaes luminosas, h ondulaes
nervosas, os dois focos luminosos so substitudos pelo
magnetizador e o seu paciente, figurando de tela o perisprito.
   O lugar dos pontos onde se mostram as zonas sensveis 
limitado pela expanso da substncia perispirtica. Temos assim
um meio de estudar esse envoltrio fludico que se nos revelou
e que no era conhecido antes dos ensinos do Espiritismo.
   Atribuindo maior extenso  precedente experincia, -nos
fcil conceber que a exteriorizao seja mais completa.
Chegaremos ento a compreender como pode a alma sair do corpo e
manifestar-se debaixo da forma de apario. Foi o que o Sr. De
Rochas verificou experimentalmente(140) e, para comprovar-se
esta afirmativa, basta se encontrem pacientes aptos a produzir
fenmenos desse gnero, o que no  impossvel, pois que o
mdium de Boulogne-sur-Mer, assim como os pacientes do
magnetizador Lewis e da Sra. de Morgan, nos ofereceram exemplos
disso.
  ::::::::::
  (140) Veja-se: "Revue Spirite", novembro de 1894. Fotografia
que o Senhor de Rochas e o Dr. Barlmont tiraram do corpo de
um mdium e do seu duplo, momentaneamente separados.
  ::::::::::
   Vimos que os fantasmas de vivos falam, o que implica a
existncia neles, alm dos rgos da palavra, de certa
quantidade de fora viva, cuja presena  tambm atestada por
deslocamentos de objetos materiais, como o abrir e fechar uma
porta, agitao de campainhas, etc. Necessrio , portanto,
que eles tirem de qualquer parte essa fora. Nos casos que
examinamos, tiram-na provavelmente de seus corpos materiais, o
que faz evidente a necessidade de estarem ligados a estes.
   Ensina Allan Kardec, de acordo com os Espritos, que a alma,
quando se desprende, seja durante o sono, seja nos casos de
bicorporeidade, permanece ligada sempre ao seu envoltrio
terreno por um lao fludico.
   Podemos justificar esta maneira de ver por meio das
experincias seguintes:
   Prosseguindo em seus estudos, notou o Sr. De Rochas que, se
se fizer que uma zona luminosa, isto , sensvel, de um
paciente exteriorizado atravesse um copo dgua, interrompidas
se mostraro as camadas que ficarem atrs do copo, com relao
ao corpo. Quanto  gua existente no copo, essa se ilumina
rapidamente em toda a sua massa, desprendendo-se dela, ao fim
de algum tempo, uma espcie de fumaa luminosa.
   Ainda mais: tomando do copo dgua e transportando-o a certa
distncia, verificava o experimentador que ele se conservava
sensvel, isto , que o paciente ressentia todos os toques que
se fizessem na gua, embora quela distncia j no restassem
vestgios de camadas sensveis.
   O Sr. De Rochas pesquisou em seguida sobre quais as
substncias que armazenam a sensibilidade e verificou serem
quase sempre as mesmas que guardam os odores: os lquidos, os
corpos viscosos, sobretudo os de origem animal, como a gelatina,
a cera, o algodo, os tecidos de malhas frouxas ou que se
desfiam, como os veludos de l, etc.
   "Refletindo, diz ele, sobre o fato de que os eflvios das
diferentes partes do corpo se fixavam de preferncia nos pontos
da matria absorvente que mais prximos se lhe achavam, fui
levado a crer que uma localizao muito mais perfeita se me
ofereceria, se eu chegasse a reunir, em certos pontos da
matria absorvente, os eflvios de tais ou tais partes do corpo
e a reconhecer quais eram esses pontos. Como os eflvios se
espargem de modo anlogo  luz, uma lente que reduzisse a
imagem do corpo atenderia  primeira parte do programa. J s
se tratava ento de ter uma matria absorvente sobre a qual se
houvesse fixado a imagem reduzida. Ocorreu-me que uma chapa de
bromo-gelatina poderia dar resultado, principalmente se fosse
ligeiramente viscosa".

   Fotografia de uma exteriorizao

   "Da os meus ensaios com um aparelho fotogrfico, ensaios
que vou relatar de conformidade com o meu registro de
experincias.
   30 de julho de 1892 -- Fotografei a Senhora Lux,
primeiramente desperta, depois adormecida, sem estar
exteriorizada; por fim, adormecida e exteriorizada, servindo-me,
neste ltimo caso, de uma chapa que tive o cuidado de conservar
por alguns instantes em contacto com o seu corpo, dentro do
_chassis, antes de coloc-la na mquina.
   Comprovei que, picando com um alfinete a primeira chapa, a
Sra. Lux nada sentia; picando a segunda, sentia um pouco; na
terceira, sentia vivamente e tudo isso poucos instantes aps a
operao.
   2 de agosto de 1892 -- Presente a Senhora Lux, experimentei
a sensibilidade das chapas impressionadas a 30 de julho e j
reveladas. A primeira nada produziu; a segunda pouca coisa; a
terceira estava to sensvel quanto na data anterior. Para ver
at onde ia a sensibilidade da terceira chapa, dei dois golpes
fortes de alfinete na imagem de uma das mos, de forma a cortar
a camada de bromogelatina.
   A Senhora Lux, que se achava dois metros distante de mim e
no podia ver em que parte dava eu a picada, fez logo uma
contrao, soltando gritos de dor. Tive grande trabalho para
faz-la voltar ao seu estado normal. Acusava sofrimentos na mo,
e passados alguns momentos, vi que lhe apareciam na mo direita,
aquela cuja imagem recebera a picada, dois traos vermelhos, em
situao correspondente  dos arranhes na imagem. O Dr. P''',
que assistia  experincia, verificou que na epiderme no havia
inciso nenhuma e que a vermelhido era na pele. Verifiquei, ao
demais, que a camada de gelatina bromada (muito mais sensvel
do que a chapa que a suportava) emitia radiaes com mximos e
mnimos, tal qual a prpria paciente. Essas radiaes quase no
se apresentavam do outro lado da chapa".
   Paremos aqui com a nossa citao, que j nos permite
comprovar a existncia de uma relao, estabelecida de modo
contnuo, entre a Sra. Lux e a sua fotografia, estando aquela
exteriorizada. De 30 de julho a 2 de agosto, sem embargo do
prolongado afastamento da paciente, no se rompeu a relao,
tanto que toda ao exercida na fotografia se transportava para
o corpo, de maneira a deixar traos visveis. , pois, legtimo
admitir-se que a ligao  ainda mais ntima, quando o prprio
perisprito se acha inteiramente exteriorizado, qualquer que
seja a distncia que o separe do corpo fsico.
   As experincias do Sr. De Rochas foram verificadas pelo Dr.
Luys, na "Charit" (141) e pelo Dr. Paul Joire, que j
assinalara essa exteriorizao no seu tratado de hipnologia,
publicado em 1892. Muito recentemente (142) reconheceu ele que
a exteriorizao da sensibilidade  um fenmeno real, de forma
nenhuma dependente da sugesto oral, conforme o Dr. Mavroukakis
pretendera insinuar, e independente tambm de qualquer sugesto
mental, porquanto, se quatro ou cinco pessoas de mos dadas se
separam do paciente o operador, h regular e progressivo
retardamento na sensao que o hipnotizado experimenta, o que
evidentemente no se daria, se a sensao fosse produzida por
uma sugesto mental do operador.
  ::::::::::
  (141) Dr. Dupouy -- "Cincias ocultas e fisiologia psquica",
pgina 85.
  (142) "Anais das Cincias Psquicas". Dr. Paul Joire: "Da
exteriorizao da sensibilidade" ( nmero de novembro-dezembro
de 1897,  pg. 341).
  ::::::::::

   Repercusso, sobre o corpo, da ao exercida sobre o perisprito

   O magnetizador Cahagnet, como vimos, cria firmemente na
possibilidade do desprendimento da alma. Relata, sem a poder
explicar, uma experincia que, como tudo parece indicar,
resultou de ao material exercida sobre o perisprito, de
envolta, provavelmente, com uma auto-sugesto. Eis aqui o fato.
(143)
  ::::::::::
  (143) Cahagnet -- "Os Arcanos da vida futura desvendados",
t. II, pgs. 54 e seguintes.
  ::::::::::
   Um Sr. Lucas, de Rambouillet, muito inquieto pela sorte de
um cunhado seu que desaparecera do pas, havia uns doze anos,
em conseqncia de discusso que tivera com o pai, deliberou
recorrer  clarividncia de Adle Maginot, para saber se o
cunhado ainda vivia. A clarividente viu o indivduo de quem se
tratava e o descreveu de maneira que sua me e seu cunhado o
reconheceram. A, porm, comea a experincia a complicar-se.
Vamos, pois, cit-la textualmente:
   "No contribuiu menos para espantar quela boa senhora,
assim como ao Sr. Lucas e s outras pessoas presentes  curiosa
sesso, ao verem que Adle, como que para se defender dos raios
ardentes do Sol naquelas terras, punha as mos do lado esquerdo
do rosto, parecendo sufocada pelo calor. O mais maravilhoso, no
entanto, dessa cena foi que ela recebeu um golpe de sol, que
lhe tornou vermelho-azulado aquele lado do rosto, desde a
fronte at a espdua, ao passo que o outro lado conservou a sua
colorao branco-mate. Somente 24 horas depois principiou a
desaparecer a cor carregada. Era to violento o calor, naquele
instante, que no se podia ter dadas as mos. Achava-se
presente o Sr. Haranger-Pirlat, antigo magnetizador,
honrosamente conhecido, havia mais de 30 anos, no mundo do
magnetismo".
   Para explicar o caso, cremos que a idia do calor intenso do
sol do Brasil h fortemente sugestionado a paciente, cujo
perisprito talvez estivesse muito pouco desmaterializado e, em
consequncia, ainda bastante sensvel s radiaes calorficas.
Houve, pois, parece-nos, repercusso da ao fsica do sol
sobre o corpo material, facilitada e provavelmente aumentada
pela auto-sugesto de que naquele pas o calor  torrido.
   O fato da passagem da alterao do perisprito para o corpo
fsico j foi observado inmeras vezes, de sorte que nos
achamos em condies de lhe conceber o mecanismo (144),
tendo-se mesmo chegado a verific-lo experimentalmente, como
vamos mostrar.
  ::::::::::
  (144)  Aksakof -- "Animismo e Espiritismo", pg. 125.
  ::::::::::
   O Sr. Aksakof, numa experincia realizada em S. Petersburgo,
com a clebre mdium Kate Fox, observou que, enfulijada a mo
fludica do mdium, a fuligem foi transportada para a
extremidade dos seus dedos materiais, que se no tinham movido,
porquanto o sbio russo colocara as mos da Sra. Fox sobre uma
placa luminosa, de modo a certificar-se bem da imobilidade
delas e, por maior precauo, espalmara suas prprias mos
sobre as do mdium.
   V-se, pois, que h mais do que simples presunes no que
respeita  existncia de solidariedade entre o corpo e o seu
duplo fludico. No seu tratado de Magia Prtica (145), Papus
refere o caso de um oficial russo que, presa de obsesso por
uma individualidade encarnada, lanou-se de espada em punho
sobre a apario e lhe fendeu a cabea. O ferimento feito no
perisprito se reproduziu na mulher causadora do fenmeno, a
qual, no dia seguinte, morreu das consequncias do golpe
recebido pelo seu corpo fludico.
  ::::::::::
  (145) Papus -- "Tratado elementar de magia prtica", pgs.
184 e seguintes.
  ::::::::::
   Dassier cita muitos casos semelhantes, extrados dos
arquivos judicirios da Inglaterra (146). Uma certa Joana
Brooks, em se desdobrando, causara muitos malefcios queles de
quem no gostava. Havendo atacado uma criana, esta entrou a
deperecer rapidamente, sem que ningum soubesse a que atribuir
o mal que a tomara, quando, em dado momento, disse a criana,
apontando para um ponto da parede: " Joana Brooks, que est
ali". Um dos presentes saltou e deu um golpe de punhal no
lugar indicado e a criana declarou que a mulher ficara ferida
na mo. No dia seguinte, foram  casa da feiticeira e
verificaram que ela estava realmente ferida, como o afirmara a
criana.
  ::::::::::
  (146) Dassier -- "A humanidade pstuma", pgs. 64 e seguintes.
  ::::::::::
   Em circunstncias quase semelhantes, outra mulher, Juliana
Cox, foi ferida em sua perna fludica, por uma moa a quem ela
obsidiava e, indo-lhe depois a casa algumas pessoas,
comprovaram que a lmina da faca, que lhe atingira o duplo
fludico, se adaptava exatamente  ferida que se lhe abrira na
perna material.
   Recordemos a ltima frase do Sr. De Rochas: "A imagem da
Sra. Lux emitia radiaes com mximas e mnimas". Ora, como
essas radiaes so imperceptveis  viso ordinria, temos por
demonstrado ser possvel fotografar-se matria invisvel, o que
pode fazer se compreenda a fotografia dos Espritos.

   A Ao dos medicamentos a distncia

   Por outra srie de provas, podemos evidenciar a existncia
do perisprito no homem. F-lo-emos examinando os efeitos que
se produzem em certos pacientes hipnotizados, quando se lhes
aproximam do corpo substncias encerradas em frascos
cuidadosamente arrolhados.
   Os fatos expostos pelos Senhores Bourru e Burot (147)
escapam a toda explicao cientfica, pela boa razo de que,
desconhecendo o perisprito e suas propriedades, era impossvel
aos sbios compreender o gnero de ao que nesse caso se
exerce. Graas s experincias do Sr. De Rochas, fazendo
intervir nelas o perisprito exteriorizado, torna-se mais fcil
explicar os fenmenos.
  ::::::::::
  (147) Bourru e Burot -- "A sugesto mental e a ao a
distncia das substncias txicas e medicamentosas", Paris,
1887.
  ::::::::::
   Depois de haver tomado todas as precaues, para evitar a
simulao ou as sugestes, aqueles observadores comprovaram os
fatos seguintes:
   Conservada a uma distncia de dez a quinze centmetros de um
paciente adormecido, a cuba de um termmetro lhe produzia dor
muito viva, convulses e uma contrao do brao. Um cristal de
iodeto de potssio determinava espirros. O pio fez dormir. Um
frasco de jaborandi acarretava salivao e suor. Continuadas
com a valeriana, a cantrida, a apomorfina, a ipecacuanha, o
emtico, a escamnea, o loes, as mesmas experincias deram
resultados precisos e concordantes. Apenas colocados perto da
cabea do paciente, mas sem contacto, cada um daqueles
medicamentos produzia efeito de acordo com a sua natureza, isto
, verdadeira ao fisiolgica, como se o aludido paciente o
houvesse introduzido em seu organismo.
   Foi tambm experimentada a ao de venenos diludos ngua e
comprovaram-se os mesmos sintomas que se produziriam se o
paciente os houvesse ingerido pelas vias ordinrias. O
louro-cereja determinou uma crise de xtase numa mulher judia,
que acreditou ver a Virgem Maria.
   O Dr. Luys, muito cptico a princpio, afinal se convenceu.
Refere ele que dez gramas de conhaque num tubo selado a fogo e
aproximado da cabea de um paciente hipnotizado causam a
embriaguez ao cabo de dez minutos. Dez gramas dgua, sempre em
tubo selado, produzem, depois de alguns minutos, a constrio
da garganta, a rigidez do pescoo e os sintomas da hidrofobia.
Quatro gramas de essncia de tomilho, encerradas da mesma
maneira num tubo e postas diante do pescoo de uma mulher
hipnotizada, perturbaram-lhe a circulao, fizeram-lhe sair das
rbitas os olhos, intumesceram-lhe o pescoo de modo assustador
e ocasionaram, na inervao circulatria do pescoo, da face e
dos msculos inspiratrios, uma crescente desordem, acompanhada
de um rudo de pulmoneira de carter sinistro, que aterrou o
experimentador e o obrigou a deter-se, para evitar acidentes
fulminantes. (148)
  ::::::::::
  (148) Elie Mric -- "O maravilhoso e a cincia".
  ::::::::::
   "Diante de to claras manifestaes tangveis, escreve o Dr.
Luys, e to precisas, de que fui com freqncia testemunha;
diante de to surpreendentes casos de repercusso das aes a
distncia sobre a inervao visceral dos pacientes, em os quais
ocasionei nuseas e vmitos, apresentando-lhes um tubo que
continha ipecacuanha em p, e vontade de defecar,
colocando-lhes no pescoo um tubo de vinte gramas de leo de
rcino, no hesito em reconhecer que assistimos a uma srie de
fenmenos singulares que se desenvolvem com excluso das leis
naturais, e  evoluo normal dos corpos. Mas, eles existem,
impem-se  observao e cedo ou tarde, serviro de ponto de
partida para a explicao de grande nmero de fenmenos
invulgares da vida normal". (149)
  ::::::::::
  (149)  Dr. Luys -- "Fenmenos produzidos pela ao de
medicamentos a distncia".
  ::::::::::
   Sem dvida alguma, so singulares esses fatos, mas no 
impossvel explic-los, depois que a exteriorizao do
perisprito e do fluido nervoso se tornou fenmeno demonstrado.
Numa das experincias do Sr. De Rochas, observamos que a gua
acumula a sensibilidade e que, atuando-se sobre essa gua, se
transmitem sensaes ao corpo. Devemos admitir que no mesmo
caso estejam outros lquidos; mas, ento, as sensaes
experimentadas estaro em relao com as propriedades desses
lquidos, podendo-se notar no paciente os mesmos fenmenos que
apresentaria, se os houvesse ingerido naturalmente.
   Nas experincias precedentes, as substncias estavam
encerradas em frascos fechados a esmeril, ou selados a fogo. O
fluido perispirtico, porm, penetra todos os corpos, o mesmo
fazendo o fluido nervoso em grande nmero deles. Somente, pois,
se observaram fenmenos, quando o medicamento em experincia
era capaz de ser assimilado, quanto  sua parte voltil, pela
fora nervosa.

   CAPTULO III

   FOTOGRAFIAS E MOLDAGENS DE FORMAS DE ESPIRITOS DESENCARNADOS

   SUMRIO:
   A fotografia dos Espritos -- Fotografias de Espritos
desconhecidos dos assistentes e identificados mais tarde como
sendo de pessoas que viveram na Terra -- Espritos vistos por
mdiuns e ao mesmo tempo fotografados -- Impresses e moldagens
de formas materializadas -- Histria de Katie King -- As
experincias de Crookes -- O caso da Sra. Livermore --
Resumo -- Concluso -- As consequncias.

   A fotografia dos Espritos

   Vimos que um dos fenmenos que de modo autntico demonstram
a existncia da alma durante a vida  a fotografia do duplo,
durante a sua sada temporria do corpo. A grande lei de
continuidade, que rege os fenmenos naturais, havia de conduzir
os espritas a ponderar que, sendo a alma humana -- durante o
seu desprendimento -- capaz de impressionar uma chapa
fotogrfica, a mesma faculdade h de ela ter aps a morte. 
efetivamente o que se chegou a comprovar, desde que se puderam
estabelecer as condies necessrias a essas manifestaes
transcendentes.
   Aqui, nenhuma objeo pode prevalecer. A prova fotogrfica
tem um valor documentrio de extrema importncia, porque mostra
que a famosa teoria da alucinao  notoriamente inaplicvel a
tais fatos. A chapa sensvel constitui um testemunho cientfico
que certifica a sobrevivncia da alma  desagregao do corpo;
que atesta conservar ela uma forma fsica no espao e que a
morte no lhe pode acarretar a destruio.
   Em face de semelhantes resultados, que restar de todas as
costumeiras declamaes acerca do sobrenatural e do
maravilhoso? H-se de convir em que os Espritos se obstinaram
singularmente em contrapor-se aos que lhes negam a existncia.
No satisfeitos com o se fazerem visveis aos seus parentes e
amigos, apareceram em fotografias e foroso foi se reconhecesse
que dessa vez o fenmeno era verdadeiramente objetivo, pois que
a chapa fotogrfica lhes conservava indelvel a imagem.
Resumamos sumariamente, segundo o eminente naturalista Russel
Wallace, alguns fatos bem verificados. (150)
  ::::::::::
  (150) Alfred Russel Wallace -- "Os milagres e o moderno
Espiritualismo", pgs. 255 e seguintes.
  ::::::::::
    freqente zombarem do a que se chamou fotografias
espritas, porque algumas podem ser facilmente imitadas.
Refletindo-se, porm, um pouco, ver-se- que essa mesma
facilidade tambm faz que a gente se precate da impostura, pois
bastante conhecidos so os meios de imitao. Em todo caso,
terse- de admitir que um fotgrafo experimentado no pode ser
iludido a tal ponto, desde que ele prprio fornea as chapas e
fiscalize as operaes, ou as execute.
   Alis, h um meio muito simples de se verificar se a figura
que aparece  a de um Esprito desencarnado. Consiste esse meio
em ver se a pessoa que posa ou os membros da sua famlia
reconhecem a figura que se apresenta na chapa. Se reconhecerem,
o fenmeno  real.  o caso de Wallace, que o narra assim:
   "A 14 de maro de 1874, convidado, fui pela primeira e nica
vez ao gabinete do Sr. Hudson, acompanhado da Sra. Guppy, como
mdium. Contava eu que, se obtivesse algum retrato esprita,
fosse o de meu irmo mais velho, em cujo nome freqentes
mensagens eram recebidas por intermdio da Sra. Guppy, com quem
eu fizera uma sesso antes de ir ao Sr. Hudson, sesso essa na
qual recebera pela tiptologia, uma comunicao onde se dizia
que minha me, se fosse possvel, apareceria na chapa.
   Posei trs vezes, sempre escolhendo eu prprio a posio
que tomava. De todas as vezes, apareceu no negativo, juntamente
com a minha imagem, uma segunda figura. A primeira era a de uma
pessoa do sexo masculino, trazendo  cinta um sabre curto; a
segunda, uma pessoa de p, aparentemente a meu lado, um pouco
por trs de mim, olhando para baixo, na minha direo, e
empunhando um ramo de flores. Na terceira sesso, depois de
haver tomado a posio que escolhi e quando j a chapa
preparada fora colocada na cmara escura, pedi que a apario
se apresentasse junto de mim e nessa terceira chapa apareceu
uma figura de mulher encostada a mim e  minha frente, de tal
sorte que os panos que a revestiam cobriram toda a parte
inferior do meu corpo.
   Vi todas as chapas reveladas e, em cada caso, a figura se
mostrou no momento em que o lquido revelador foi derramado
sobre o negativo, ao passo que a minha imagem s se tornou
visvel uns vinte segundos mais tarde. No reconheci nenhuma
das figuras nos negativos, mas, logo que obtive as provas, ao
primeiro golpe de vista verifiquei que a terceira chapa
continha um retrato incontestvel de minha me, muito parecido
quanto aos traos fisionmicos e  expresso do semblante. No
era uma semelhana como a que existe num retrato tirado em vida,
mas uma semelhana um pouco idealizada, se bem fosse, para mim,
uma semelhana que no me permitia qualquer equvoco.
   A segunda fotografia  muito menos distinta: o olhar se
dirige para o cho; o rosto tem uma expresso diferente da
terceira, a tal ponto que, a princpio, achei que era outra
pessoa. Tendo enviado os dois retratos de mulher  minha irm,
ela foi de opinio que o segundo se parecia muito mais com
minha me do que o terceiro e que, de fato, apresentava boa
semelhana com ela como expresso, mas com alguma coisa de
inexato na boca e no queixo. Verificou-se que isso era devido,
em parte, a que o fotgrafo retocara os brancos. Efetivamente,
ao ser lavada, a fotografia se mostrou toda coberta de manchas
brancas, mas melhor, quanto  semelhana, com minha me. Eu
ainda no verificara a semelhana do segundo retrato, quando,
ao examin-lo algumas semanas mais tarde com um vidro de
aumento, imediatamente percebi um trao especial e notvel do
rosto natural de minha me, a saber: o lbio e o maxilar
inferiores bastantes salientes.
   Os dois espectros trazem iguais ramos de flores.  de
notar-se que, quando eu posava para o segundo grupo, o mdium
haja dito: -- Vejo algum e h flores".
   Esse retrato tambm foi reconhecido pelo irmo de R. Wallace
(151), que no  esprita.
  ::::::::::
  (151) Russel Wallace -- "Os milagres e o moderno Espiritualismo",
pgs. 268 e seguintes.
  ::::::::::
   Se um mdium declara que v um Esprito, quando as outras
pessoas presentes nada vem, e que o Esprito est em tal
lugar, se lhe descreve o aspecto e as vestes e, em seguida, a
chapa fotogrfica confirma a descrio em todos os pontos, no
se poder negar que, positivamente, o Esprito existe no lugar
indicado. Damos a seguir muitos exemplos de to notveis
manifestaes.
    autor dessas experincias o Sr. Beattie, de Clifton, de
quem o editor do British Journal of Photography fala nestes
termos:
   "Todos os que conhecem o Sr. Beattie o consideram hbil e
cuidadoso fotgrafo, uma das ltimas criaturas, no mundo,
possveis de ser enganadas, pelo menos em tudo o que diga
respeito  fotografia. Tambm  incapaz de enganar os outros.
   O Sr. Beattie teve a ajud-lo em suas pesquisas o Dr.
Thomson, mdico em Edimburgo, que durante vinte e cinco anos
praticou a fotografia como amador. Os dois fizeram experincias
no gabinete de um amigo no espiritualista, mas que se tornou
mdium no curso das experimentaes. Auxiliou-nos como mdium
um negociante muito amigo dos dois. Todo o trabalho fotogrfico
era executado pelos Srs. Beattie e Thomson, conservando-se os
dois outros sentados junto de uma mesa pequena. As provas foram
tiradas por sries de trs, com poucos segundos de intervalo e
muitas dessas sries foram feitas numa mesma sesso'''
   H duas provas, tiradas como as antecedentes, em 1872 e
cujas fases todas o mdium descreveu durante a exposio das
chapas. Apareceu primeiro, diz ele, um denso nevoeiro branco.
A prova saiu toda sombreada de branco, sem nenhum vestgio dos
modelos. A outra fotografia ele a descreveu previamente, como
tendo de ser um nevoeiro em forma de nuvem, com uma pessoa no
meio. Na superfcie quase uniformemente enevoada. Durante as
experincias de 1873, em cada caso o mdium descreveu
minuciosa e corretamente as configuraes que haviam de em
seguida aparecer na chapa. Numa delas, h uma estrela luminosa
de grande dimenso, em cujo centro se mostra bem visvel um
rosto humano.  a ltima das trs em que se manifestou uma
imagem, tendo o mdium anunciado cuidadosamente o conjunto".
   Noutra srie de trs, o mdium, primeiro, descreveu o
seguinte: "Uma luz nas suas costas, vindas do cho"; depois:
"uma luz a subir pelo brao de outra pessoa e provindo ou
parecendo provir da perna"; em terceiro: "existncia da mesma
luz, mas com uma coluna que se eleva da mesa, como que
incandescente, at s suas mos". E exclamou de sbito: "Que
luz brilhante l no alto! No na vedes?" E apontava com a mo o
lugar. Todas essas palavras descreviam muito fielmente o que
depois apareceu nas trs provas, sendo que na ltima se
percebia a mo do mdium indicando uma mancha branca existente
acima da sua cabea.
   Mencionemos ainda uma fotografia isolada e muito marcante.
   "Durante a _pose, disse um dos mdiuns estar vendo, no
plano posterior, uma figura negra, enquanto que o outro mdium
dizia perceber uma figura brilhante ao lado daquela. Na
fotografia, aparecem as duas figuras, muito fraca a brilhante,
muito mais ntida a escura, que  de gigantesca dimenso, de
talha macio, traos grosseiros e longa cabeleira".
   Tais experincias s puderam realizar-se com muito trabalho
e perseverana. s vezes, vinte provas consecutivas nada de
anormal revelavam. Passaram de cem as que se tiraram, havendo
completo malogro na maioria delas. Mas, os xitos alcanados
valeram bem a pena que custaram. Demonstram de modo a no
admitir dvidas: Primeiro, a existncia objetiva dos Espritos;
Segundo, a faculdade, que possuem alguns seres chamados mdiuns,
de ver essas formas que se conservam invisveis para toda gente.
   Sendo da mais alta importncia a prova fotogrfica da viso
medinica, citaremos o fato que segue, extrado da obra de
Aksakof, Animismo e Espiritismo, pgs. 67 e seguintes:
   O Banner of Light, de 25 de janeiro de 1873, publicou uma
carta do Sr. Bromson Murray (152) concebida nestes termos:
  ::::::::::
  (152) Muito conhecido espiritualista de Nova York, no
pertencente  categoria dos que crem cegamente em tudo o que
se qualifique de fenmeno medinico. Fez parte de vrias
comisses que desmascararam a impostura de pseudomdiuns.
(Nota do Sr. Aksakof).
  ::::::::::

   "Senhor Diretor,
   Num dos ltimos dias do ms de setembro ltimo, a senhora
W. H. Mumler, residente na cidade de Boston,  rua West
Springfield, achando-se em estado de transe, durante o qual
dava conselhos mdicos a um de seus doentes, interrompeu-se de
sbito para me dizer que, quando o Sr. Mumler me fotografasse,
apareceria na chapa, ao lado do meu retrato, a imagem de uma
mulher, segurando na mo uma ncora feita de flores. Essa
mulher desejava ardentemente afirmar sua sobrevivncia ao
marido e inutilmente procurara at ento uma oportunidade de
aproximar-se dele. Achava que o conseguiria por meu intermdio.
Acrescentou a Senhora Mumler: -- Por meio de uma lente,
poder-se-o perceber nessa chapa as letras: R. Bonner.
Perguntei-lhe, mas em vo, se essas letras queriam dizer
Robert Bonner. No momento em que  me preparava para a _pose, a
fim de me ser tirada a fotografia, ca em transe, o que jamais
me acontecera. Apesar de todos os esforos, Mumler no
conseguiu colocar-me a posio desejada. Foi-lhe impossvel
fazer que eu ficasse erecto e com a cabea apoiada no suporte.
Meu retrato, pois, ele o tirou na posio que a prova indica,
aparecendo a meu lado a figura de mulher com a ncora e as
letras formadas de botes de rosas, como fora predito.
Infelizmente, eu no conhecia com o nome de Bonner pessoa
alguma que pudesse estabelecer a identidade da figura
fotografada.
   De volta  cidade, referi a vrias pessoas o que se dera.
Disse-me uma delas que recentemente encontrara um Sr. Bonner,
da Georgia. Queria mostrar-lhe a fotografia. Decorridos quinze
dias, essa pessoa me pediu que passasse pela sua casa. Alguns
instantes depois de haver eu l chegado, entrou um visitante:
Sr. Robert Bonner. Declarou-me que era de sua mulher a
fotografia, que a vira em poder da senhora que no momento nos
recebia e que achava perfeita a semelhana. Alis, no h aqui
quem conteste a semelhana que aquela fotografia apresenta com
um retrato da Sra. Bonner, tirado dois anos antes de sua
morte". (153)
  ::::::::::
  (153) Vejam-se, no fim do livro de Aksakof, os retratos
fludicos dessa senhora, em diferentes posies, e o seu
retrato em vida.
  ::::::::::
   O Sr. Bonner ainda obteve a fotografia de sua defunta mulher
numa posio previamente designada por um mdium de Nova York
que no a conhecia, nem vira a fotografia que se achava em
Boston.
   O jornal "O Mdium", de 1872, tambm fala de uma fotografia
de Esprito, obtida ao mesmo tempo em que o mdium declarava o
que se ia dar. Diz o jornal:
   No momento em que a chapa ia ser exposta, a Sra. Connant
(o mdium) voltou-se para a direita e exclamou: "Oh! Aqui est
a minha Was-Ti"! (Era uma menina ndia, que se manifestava
freqentemente por seu intermdio). E estendeu a mo esquerda,
como se quisesse pegar a da apario. Na fotografia, v-se,
perfeitamente reconhecvel, a figura da indiazinha, com os
dedos da mo direita na mo da Sra. Connant.
   Temos, aqui, a fotografia de uma figura astral, assinalada e
reconhecida pelo paciente sensitivo, no momento da exposio da
chapa.  mais uma confirmao das experincias do Sr. Beattie.
   Poderamos multiplicar o nmero das citaes deste gnero;
mas, a exigidade do nosso quadro nos obriga a remeter o leitor
s mencionadas obras do eminente naturalista e do sbio russo.
Em precedente trabalho (154), reproduzimos a fotografia de um
Esprito obtida em plena obscuridade, pelo Sr. Aksakof, com o
mdium Egliton. Veremos, dentro em pouco, que tambm o grande
fsico ingls William Crookes obteve uma srie de fotografias
de uma forma materializada.
  ::::::::::
  (154) "O fenmeno Esprita". Edio da FEB. Veja-se, com
relao a essas experincias e s de que aqui tratamos nos dois
pargrafos seguintes, o captulo intitulado: "Espiritismo
transcendental".
  ::::::::::
   Examinemos outro aspecto do fenmeno.

   Impresses e moldagens de formas materializadas

   Os casos de aparies de duplos de pessoas vivas ou de
Espritos aps a morte terrestre, comprovadas e referidas pela
Sociedade de Pesquisas Psquicas, so manifestaes isoladas,
reais, porm, relativamente muito raras e que se produzem
somente em circunstncias to excepcionais, que se torna
difcil fazer delas outra anlise alm da que resulta da
narrao verdica do acontecimento. Os espritas,
familiarizados desde longo tempo com esses fenmenos, ho feito
um estudo minucioso de todos os possveis gneros de
comunicao dos Espritos conosco. Entre os mais notveis de
tais fenmenos, podem citar-se as diversas impresses deixadas
em substncias moles ou friveis, pelos seres do espao,
durante sesses em que foram evocados. Resumamos em poucas
palavras to probantes experincias, de que voltaremos a tratar
no captulo seguinte.
   Pretendem os cpticos que ningum pode estar certo de no se
achar alucinado, ao observar a presena de uma apario, seno
se esta houver deixado, da sua passagem, um trao que subsista
aps o desaparecimento da imagem.
   Os fatos que se seguem respondem a esse "desideratum". O
eminente astrnomo alemo Zoeliner obteve, em folhas de papel
enegrecido e postas entre ardsias, colocadas estas sobre os
seus joelhos, duas marcas, de um p direito uma, a outra de um
p esquerdo, sem que o mdium houvesse tocado as lousas. Doutra
vez, colocou o papel enegrecido sobre uma prancheta e a marca
de um p foi a feita, medindo quatro centmetros menos do que
o p de Slade (155). Num vaso cheio de farinha finssima,
achou-se a marca de uma mo, com todas as sinuosidades da
epiderme nitidamente visveis.
  ::::::::::
  (155) Slade era o mdium e foi quem, mais tarde, auxiliou o Dr.
Gibier em seus trabalhos. Veja-se: "O Espiritismo ou
Faquirismo ocidental", edio da FEB, onde esses trabalhos
foram relatados.
  ::::::::::
   J fizemos notar que as aparies sempre se assemelham,
trao a trao, s pessoas de quem elas so o desdobramento.
Faremos notar agora que os Espritos que se materializam
momentaneamente tomam um corpo fsico idntico a um corpo
material ordinrio, porquanto as marcas ou impresses que eles
deixam revelam semelhana perfeita com as que as mesmas partes
de um corpo vivo produziriam.
   O professor Chiaia, de Npoles, experimentando com Euspia
Paladino, teve a idia de se munir de argila dos escultores e o
Esprito imprimiu nessa matria plstica o seu rosto.
Derramando gesso no molde assim produzido, obteve ele uma bela
cabea de homem, de melanclico semblante. (156)
  ::::::::::
  (156) "Revue Spirite", 1887, pg. 427. Vejam-se tambm as
experincias do Dr. Vizani Scozzi, com Euspia Paladino --
"Revue Scientifique et Morale du Spiritisme", setembro e
outubro de 1898.
  ::::::::::
   Na Amrica, conseguiram-se resultados do mesmo gnero,
chegando-se at a descobrir um novo meio de se obterem
reprodues fiis das aparies. Derretendo-se parafina em gua
quente, aquela sobe  superfcie desta. Pede-se ento ao
Esprito que mergulhe repetidas vezes na parafina a parte do
seu corpo que se deseja conservar. Feito isso e
desmaterializando-se, quando o envoltrio de parafina se ache
seco, a apario deixa um molde perfeito. Derrame-se gesso
dentro deste e ter-se- uma lembrana duradoura do Esprito
desencarnado que se prestou  operao. Vamos transcrever o
relato de uma dessas sesses, reproduzindo o que publicou o
clebre sbio russo Aksakof. (157)
  ::::::::::
  (157) Veja-se a sua obra "Animismo e Espiritismo", onde se
encontram registradas, em grande nmero, rigorosas observaes.
  ::::::::::
   "Para completar as experincias do Sr. Reimers,
acrescentar-lhes-ei a resenha de uma sesso que se realizou em
Manchester, a 7 de abril de 1875, e  qual deu publicidade _The
_Spiritualist de 12 de maio seguinte. Da mesma resenha apareceu
uma traduo alem no Psychische Studiem de 1877, pginas
550-553. Dentre as cinco testemunhas, conheo pessoalmente os
Srs. Marthze, Oxley e Reimers, dignos todos de absoluto
crdito:
   Ns, abaixo assinados, certificamos pela presente os fatos
seguintes, que se produziram na nossa presena, em casa do Sr.
Reimers a 7 de abril de 1875. Pesamos cuidadosamente trs
quartos de libra de parafina, pusemo-los numa cuba e despejamos
em cima gua a ferver, o que logo a derreteu. Se se introduzir
muitas vezes uma mo nesse lquido, a parafina que sobre ela se
depositar, forma, depois de resfriada, um molde perfeito. A
cuba, assim como outro vaso contendo gua fria, fora colocada a
um canto da sala. Duas cortinas de seis ps de altura e quatro
de largura, suspensas por vares de ferro, formavam um gabinete
quadrado, tendo em cada extremidade aberturas de quinze
polegadas de largo. A parede ficava distante da casa ao lado e,
quase cheio de mveis o gabinete, a ningum podia acudir a
idia da existncia de alapes, tanto mais que tambm o
assoalho estava coberto de vasos, cadeiras, etc.
   Uma senhora de nossa amizade, dotada desse misterioso poder
a que se d o nome de mediunidade, foi envolvida numa rede de
malhas, que lhe cobria a cabea, os braos, as mos e cujos
cordes, passando em corredias, foram apertados o mais
possvel e amarrados com um n. Meteu-se ao demais na rede um
pedao de papel que cairia se se desfizesse o n. Todas as
testemunhas foram acordes em declarar que seria impossvel ao
mdium, por si s, libertar-se, sem se trair. Nessa situao
foi ela conduzida ao canto do gabinete onde s havia a cadeira,
alguns vasos e uma estante de livros. Nada que se visse havia
perto desses objetos, que examinamos a toda luz do gs.
   Fechou-se a sala. Baixamos a luz, mas de modo que alguma
coisa sempre se podia distinguir no aposento, e sentamo-nos a
distncia de quatro ou seis ps da cortina. Decorrido algum
tempo, que passamos a cantar ou a ouvir msica, uma figura
apareceu na abertura do meio da cortina e se moveu para o lado.
Todos os assistentes notaram distintamente a bela e brilhante
coroa que trazia  cabea e a fita preta que lhe rodeava o
pescoo e da qual pendia uma cruz de ouro. Logo outra figura
feminina surgiu, tambm com uma coroa visvel. Mostrando-se ao
mesmo tempo que a primeira, elevou-se acima do gabinete em
direo ao teto e graciosamente saudou os assistentes. Uma voz
fortssima de homem, vinda do canto, anunciou que ia tentar
fazer moldes.
   Ento, na abertura da cortina apareceu de novo a primeira
figura, fazendo sinal ao Sr. Marthze para que se aproximasse,
a fim de lhe apertar a mo. Tirou-lhe do dedo o anel e o Sr.
Marthze viu, naquele mesmo instante, o mdium no canto oposto,
envolto na rede j descrita. A figura, porm, se desvaneceu
rapidamente na direo do mdium.
   Tendo o Sr. Marthze voltado  sua cadeira, a voz perguntou
de dentro do gabinete que mo desejvamos e pouco depois aquele
senhor foi outra vez chamado  abertura da cortina, para
receber o molde de uma mo esquerda. Inspecionando-a,
descobriu-se-lhe num dos dedos o anel do Sr. Marthze. O Sr.
Reimers foi chamado a seu turno e recebeu da mesma maneira a
mo direita destinada a seus sbios amigos de Leipzig, em
cumprimento da promessa que lhes ele expressamente fizera. Em
seguida, ouviu-se tossir o mdium, cuja tosse desaparecera
durante todo o tempo (mais de uma hora), tosse que fizera
recear um malogro, to violentos tinham sido em comeo os
acessos. Quando ela saiu do gabinete, examinamos os ns e'''
achamos tudo no mesmo estado que anteriormente. Retiramos toda
a parafina que restava no vaso e, pesando-a juntamente com os
dois moldes obtidos, encontramos pouco mais de trs quartos de
libra, sendo o pequeno excesso devido ao anel que aderira 
parafina, como se verificou, tirando-o do molde. A proporo
dgua dos moldes correspondia perfeitamente ao restante. Com
isso terminaram as nossas experincias.
   As mos obtidas diferem consideravelmente, sob todos os
aspectos, das do mdium, mas ambas revelam as pequenas marcas
(muito bem visveis com o auxlio de um vidro de aumento) de
uma mo pequenina, da mesma individualidade que por mais de uma
vez nos deu moldes em condies idnticas de experimentao.
   Assinados: J. N. Tiedman Marthze, Palmeira Square,
Brington -- Christian Reimers, 1, ducie Avenue, Oxford Road,
Manchester -- William Oxley, 65, Burwen Road, Manchester --
Thomas Gaskell, 69, Oldham road, Manchester -- Henry Marsh,
Birch Cottage, Fairy lane, Bury new-road Manchester".
    de notar-se que os experimentadores espritas tomaram
todas as precaues para evitar qualquer causa de erro, da
parte deles ou da do mdium. Essas experincias, como outras
anlogas, freqentemente repetidas, ho dado lugar a que j se
eleve a algumas centenas o nmero de moldes reproduzindo partes
diversas das materializaes de espritos de todas as idades e
de ambos os sexos. Em todas as experincias, as peas obtidas
se assemelham s que obteriam, se a operao fosse praticada
em corpos de vivos.
   O Sr. De Bodisco, camareiro do czar (158), publicou o relato
de curiosas experincias de materializao, feitas com o mdium
Srta. K'''.
  ::::::::::
  (158) "A Iniciao", nmero de fevereiro de 183. Veja-se tambm
a sua obra: "Traos de luz".
  ::::::::::
   "No hesito, diz ele, em declarar que o corpo astral (ou
psquico) , na natureza, o mais importante de todos os corpos,
sem embargo da pertincia com que as cincias experimentais se
obstinam em ignor-lo. Esse corpo tem a govern-lo leis cujo
estudo lanar luz em muitos coraes, que desejam ser
consolados por uma prova real da vida futura. Ele constitui a
nica parte imperecvel do corpo humano.  o zoo-ter, ou
matria primordial, ou fora vital".
   Quatro fotografias tirou ele, mostrando diversas fases da
materializao, desde a em que a apario astral ou psquica
cerca o corpo do mdium, at a da condensao de uma forma, da
qual se v a cabea, parecendo envolto numa espcie de gaze o
resto do corpo. Ao lado da forma, percebe-se o corpo do mdium,
em letargia, na poltrona.

   Histria de Katie King

   Os fenmenos de materializao constituem as mais altas e
irrefragveis demonstraes da imortalidade.
   Surgir um ser defunto diante dos espectadores com uma forma
corprea, conversar, caminhar, escrever e desaparecer, quer
instantaneamente, quer gradativamente, sob as vistas dos
observadores,  decerto o mais empolgante e o mais singular dos
espetculos. Isso, para um incrdulo, ultrapassa os limites da
verossimilhana e provas fsicas irrefutveis se fazem necessrias,
para que o fenmeno no seja lanado  conta de fraude ou de
alucinao.
   Felizmente, porm, bom nmero existe de observaes, relatadas
por homens imparciais e, ainda, dotados da iseno e da competncia
indispensveis a dar a tais experincias o apoio da autoridade de
que eles desfrutam.
   O Sr. Aksakof fez com o mdium Egliton uma srie delas, em que
as mais minuciosas precaues foram tomadas, o que lhe facultou
chegar a resultados absolutamente inatacveis, do ponto de vista
cientfico. O avultado nmero de matrias de que temos de tratar
nos obriga, com muito pesar nosso, a remeter o leitor s obras
originais onde esses casos se encontram longamente expostos. Sero
consultadas com proveito: Animismo e Espiritismo, de Aksakof;
Ensaio de Espiritismo Cientfico, de Metzger; Depois da morte, de
Len Denis, e Psiquismo Experimental, de Erny.
   Aqui, agora, nos limitaremos a apresentar alguns dados
geralmente desconhecidos sobre a clebre Katie King, cuja
existncia foi posta fora de dvida pelos trabalhos, que se
tornaram clssicos, de William Crookes, consignados em seu livro:
Pesquisas experimentais sobre o Espiritismo. Servir-nos-emos dos
estudos que na Revue Spirite (159) publicou a Sra. de Laversay,
resumindo o mais possvel essa interessante traduo da obra de
Epes Sargent, editada em Boston, no ano de 1875.
  ::::::::::
  (159) "Revue Spirite": "Histria de Katie King", pela Sra. de
Laversay, de maro a outubro de 1897.
  ::::::::::
   Muitas pessoas, pouco a par da literatura esprita, supem que o
Esprito Katie King s foi examinado por William Crookes. Vamos
mostrar que h elevadssimo nmero de atestados relativos  sua
existncia, procedentes de testemunhas bastante conhecidas no mundo
literrio e cientfico. Quando o ilustre qumico teve de verificar
a mediunidade da Srta. Cook, j muito tempo havia que Katie se
materializava. Os grandes mdiuns, por demais raros, no se revelam
de improviso. Faz-se necessrio certo tempo para que cheguem a
produzir fenmenos fsicos. Por um lado, o mdium precisa de
adestramento e, por outro, o esprito que dirige as manifestaes 
obrigado a exercitar-se longo tempo, para manipular com a
indispensvel exatido os fluidos sutis que tem de empregar.
   Em 1872, contava a Srta. Cook dezesseis anos. Desde a mais tenra
idade via Espritos e ouvia vozes; mas, como somente ela observava
esses fatos, seus pais nenhuma confiana depositavam em suas
narrativas. Depois de haver ela assistido a algumas sesses
espritas, veio-se a saber que a mocinha era mdium e que obteria
as mais belas manifestaes. A principio, o Sr. e a Sra. Cook se
opuseram. Entretanto, depois de assediados pelos Espritos,
resolveram ceder aos desejos dos atores invisveis e foi ento que
se deram fenmenos absolutamente probantes.
   A 21 de abril de 1872, diz o Sr. Harrison, no jornal "O
Espiritualista", ocorreu um curioso incidente. Ouviram de sbito
bater nos vidros de uma janela; aberta esta, ningum viu coisa
alguma. Fez-se, porm, ouvir a voz de um Esprito, dizendo: "Senhor
Cook, precisa mandar limpar suas calhas, se no quiser que os
alicerces de sua casa sejam abalados. As calhas esto entupidas".
Muito surpreendido, procedeu ele a uma exame imediato. Era exato!
Chovera e o ptio da casa estava cheio de gua que transbordara das
calhas. Ningum sabia desse acidente, antes que o Esprito o
houvesse revelado daquela forma notvel. Acompanhando-se a marcha
da mediunidade da Srta. Cook, observa-se o desenvolvimento de uma
srie de fenmenos, que se produzem sucessivamente, tornando-se
cada dia mais espantosos, at chegarem  materializao de Katie.
Correu assim a primeira sesso em que ela se mostrou.
   At ento, as sesses se haviam realizado no escuro. Querendo
remediar isso, o Sr. Harrison fez muitos ensaios em casa do Sr.
Cook com luzes diferentes. Conseguiu uma luz fosforescente,
aquecendo uma garrafa revestida interiormente de uma camada de
fsforo, misturada com leo de cravo. Graas a esse engenho,
podia-se ver o que se passava durante a sesso s escuras. A 22 de
maio de 1872, a Sra. Cook, seus filhos, uma tia destes e a criada
se reuniram e o Esprito Katie King se materializou parcialmente.
A Srta. Cook no estava a dormir, como o faz certo uma carta que
ela no dia seguinte dirigiu ao Sr. Harrison, nestes termos:
   "Ontem  noite, Katie King nos disse que tentaria produzir
alguns fenmenos, mas se concordssemos em armar um gabinete escuro
com o auxlio de cortinas. Acrescentou que precisava lhe dssemos
uma garrafa de leo fosforescente, visto no lhe ser possvel tomar
de mim o fsforo necessrio, devido ao fraco desenvolvimento da
minha mediunidade. Ela quer iluminar a sua figura, para se tornar
visvel.
   Encantada com a idia, fiz os preparativos necessrios, ficando
tudo pronto ontem  noite, s 8 e meia. Minha me, minha tia, os
meninos e a criada sentaram-se fora, nos degraus da escada.
Deixaram-me sozinha na sala de jantar, o que nada me agradou,
porque estava com muito medo.
   Katie mostrou-se na abertura das cortinas. Seus lbios se
moveram e, por fim, conseguiu falar. Conversou durante alguns
minutos com a mame. Todos puderam ver-lhe o movimento dos lbios.
Como eu, do lugar onde estava, no a visse bem, pedi-lhe que se
voltasse para mim. O Esprito me respondeu: -- Mas, decerto;
f-lo-ei. Vi ento que s estava formada a parte superior do seu
corpo, o busto, sendo o resto da apario uma espcie de nuvem,
ligeiramente luminosa.
   Aps breves instantes de espera, o Esprito Katie comeou por
trazer algumas folhas frescas de hera, planta que no existe no
nosso jardim. Depois, todos vimos aparecer, fora da cortina, um
brao cuja mo segurava a garrafa luminosa. Mostrou-se uma figura
com a cabea coberta de uma poro de pano branco. Katie aproximou
do seu rosto o frasco e todos a percebemos distintamente. Esteve
dois minutos e em seguida desapareceu. O rosto era oval, aquilino
o nariz, vivos os olhos e a boca lindssima.
   Disse Katie  mame que a olhasse bem, pois sabia que tinha um
ar lgubre. Eu, pelo que me diz respeito, fiquei muito
impressionada quando o Esprito se aproximou de mim.
Emocionadssima, no pude falar, nem mesmo esboar um gesto. Da
ltima vez que se apresentou na juno das cortinas, demorou-se uns
bons cinco minutos e incumbiu a mame de lhe pedir que venha aqui
um dia desta semana'''. Katie King encerrou a sesso, implorando
para ns as bnos de Deus. Exprimiu a sua alegria por se ter
podido mostrar aos nossos olhares".
   O Sr. Harrison atendeu a 25 de abril ao convite de Katie e na
sua presena se verificou a segunda sesso de materializao. Ele
tomou interessantes notas que publicou depois no seu jornal, The
Spiritualist, donde extramos os tpicos seguintes:
   Testemunho do Sr. Harrison -- "Com a minha presena, uma sesso
se realizou a 25 de abril, em casa do Sr. Cook. O mdium, Srta.
Cook, sentou-se no interior de um gabinete escuro. De tempos a
tempos, ouvia-se um rudo de raspagem com unhas. O Esprito Katie
segurava um tecido leve, por ela mesma fabricado e no qual
procurava recolher, em torno do mdium, os fluidos necessrios 
sua materializao completa. Para esse efeito, atritava o mdium
com o mencionado tecido. Dali a pouco, travou-se em voz baixa,
entre o mdium e o Esprito, o seguinte dilogo:
   Srta. Cook -- Vamos, Katie, no gosto de ser friccionada assim.
   Katie -- No sejas tolinha, tira o que tens na cabea e
olha-me. (E continuava a friccionar).
   Senhorita Cook -- No quero. Deixa-me, Katie. J no gosto de
ti. Metes-me medo.
   Katie -- Como s tola! (E no cessava de friccionar).
   Srta. Cook -- No me quero prestar a estas manifestaes. No
gosto disto. Deixa-me sossegada.
   Katie -- s apenas o meu mdium e um mdium  uma simples
mquina de que os Espritos se servem.
   Senhorita Cook -- Pois bem! Se no sou mais do que mquina, no
gosto de ser assombrada deste jeito. Vai-te embora.
   Katie -- No sejas estouvada".

   V-se, por este dilogo, que a apario no  o duplo do mdium,
pois que a vontade consciente da moa se revela em oposio
absoluta  do fantasma, que se acha na sua presena. A Sra.
d'Esprance, outro mdium clebre (160), resolveu no mais cair em
transe durante as manifestaes e o conseguiu, o que mostra a
independncia da sua individualidade psquica no curso das aludidas
manifestaes. O Sr. Harrison, em sesses ulteriores, pde apreciar
o desenvolvimento do fenmeno e o descreveu assim:
  ::::::::::
  (160) Senhora d'Esprance -- "No Pas das Sombras", edio da FEB..
  ::::::::::
   A figura de Katie nos apareceu com a cabea toda envolta num
pano branco, a fim, disse ela, "de impedir que o fluido se
dispersasse muito rapidamente". Declarou que apenas o seu rosto se
achava materializado. Todos puderam ver-lhe distintamente os traos
do semblante. Notamos que tinha fechados os olhos. Mostrava-se
durante meio minuto e desaparecia. Depois, disse-me: "Willie, olha
como sorrio; v como falo". E exclamou: "Cook, aumenta a luz".
Imediatamente isso foi feito e todos puderam observar a figura de
Katie King brilhantemente iluminada. Tinha uma fisionomia jovem,
linda, jovial, olhos vivos um tanto maliciosos. Sua tez j no era
mate e imprecisa, como da sua primeira apario, a 22 de abril,
porque, explicava ela: "j sei melhor como devo fazer". Quando a
sua figura se apresentou em plena luz, suas faces pareciam
naturalmente coloridas. Todos os assistentes exclamaram: "Vemos-te
agora perfeitamente". Katie manifestou a sua alegria, estendendo o
brao para fora da cortina e batendo na parece com um leque que
achara ao seu alcance.
   As sesses continuaram com bom xito. As foras de Katie King
aumentaram de mais em mais; porm, durante longo tempo, ela s
consentiu uma luz muito fraca, enquanto se materializava. A cabea
trazia sempre envolta em vus brancos, porque no a formava
completamente, a fim de empregar menor quantidade de fluido e no
fatigar a mdium. Ao cabo de bom nmero de sesses, conseguiu
mostrar-se em plena luz, com o rosto, os braos e as mos
descobertos.
   Naquela poca, a Srta. Cook permanecia quase sempre acordada,
enquanto se achava presente o Esprito. Algumas vezes, porm,
quando fazia mau tempo, ou eram desfavorveis outras condies, a
mocinha adormecia sob a influncia esprita, o que aumentava o
poder da mdium e obstava a que a sua atividade mental perturbasse
a ao das foras magnticas. Depois, Katie no mais apareceu sem
que a mdium estivesse em transe. Realizaram-se algumas sesses
para a apario de outros Espritos; mas, essas sesses tiveram que
ser efetuadas com muito pouca luz e foram menos perfeitas do que as
em que Katie se mostrava. Contudo, verificou-se a apario de
figuras conhecidas, cuja autenticidade ficou bem comprovada.
Apreciaremos daqui a pouco o testemunho da Sra. Florence Marryat,
conhecida escritora.
   Numa sesso feita a 20 de janeiro de 1873, em Hackney, sua face
se transformou, tornando-se, de branca, negra, em poucos segundos,
fato que depois se reproduziu muitas vezes. Para mostrar que suas
mos no eram movidas mecanicamente, ela fez uma costura na cortina
que se havia rasgado. Noutra sesso, a 12 de maro e no mesmo local,
as mos da Srta. Cook foram atadas, sendo postos selos de cera
sobre os ns. Katie King se mostrou ento a certa distncia, 
frente da cortina, com as mos inteiramente livres.
   Como se v, s ao fim de longas experincias, a princpio
imperfeitas e que com a continuao foram melhorando, o Esprito
Katie King alcanou o desenvolvimento que lhe possibilitou
manifestar-se livremente, em plena luz, sob forma humana, fora e 
frente do gabinete escuro, diante de um crculo de espectadores
maravilhados.
   A partir desse momento, organizaram-se "controles" muito severos
e, somente depois de os terem estudado com todo o rigor possvel,
foi que o Sr. Benjamim Coleman, o Dr. Gully e o Dr. Sexton
proclamaram a realidade daquelas manifestaes transcendentes.
Tiraram-se  luz do magnsio muitas fotografias de Katie King,
estando ela completamente materializada, de p na sala, sob
severssima fiscalizao. Desde os primrdios da mediunidade da
Srta. Cook, o Sr. Ch. Blackburn, de Manchester, com ponderada
liberalidade, lhe fez importante dote que lhe assegurou a
subsistncia. Assim procedeu ele, tendo em vista o progresso da
cincia. Todas as sesses da Srta. Cook se realizaram gratuitamente.
   Primeiras fotografias de Katie King

   Na primavera de 1873, muitas sesses se realizaram com o fito de
obterem-se fotografias de Katie King. A 7 de maio, tiraram-se
quatro com bom resultado. Uma delas foi reproduzida em gravura.
   As experincias fotogrficas se acham bem descritas na resenha
que abaixo transcrevemos, elaborada depois de uma sesso e assinada
com os seguintes nomes: Amlie Corner, Caroline Corner, M. Luxmores,
G. Tapp e W. Harrison. Ao comear a sesso, tomaram-se as seguintes
precaues: a Sra. Corner e sua filha acompanharam a Srta. Cook ao
seu quarto, onde lhe pediram que se despisse, a fim de serem
examinadas suas roupas. Fizeram-na envergar um grande roupo de
pano cinzento, em substituio do vestido que despira e depois
conduziram-na  sala das sesses, onde lhe ataram solidamente os
pulsos com as fitas. O gabinete foi examinado em todos os sentidos,
aps o que a Srta. Cook se sentou dentro dele. As fitas que lhe
atavam os punhos foram passadas por um anel  fixado no assoalho, em
seguida por baixo do manto, sendo, afinal, amarradas a uma cadeira
colocada fora do gabinete. Desse modo, se a mdium se movesse, logo
o perceberiam.
   A Sesso principiou s seis horas da tarde e durou cerca de duas
horas, com um intervalo de trinta minutos. A mdium adormeceu logo
que se instalou no gabinete e, decorridos poucos instantes, Katie
apareceu e se encaminhou para o meio da sala. Tambm assistiam 
sesso a Sra. Cook e seus dois filhos que muito se divertiam a
conversar com o Esprito.
   Katie vestia de branco. Aquela noite, seu vestido era decotado e
de mangas curtas, de sorte que se lhe podiam admirar o maravilhoso
pescoo e os belos braos. A prpria coifa que, como sempre, lhe
envolvia a cabea, estava ligeiramente afastada, deixando ver seus
cabelos castanhos. Os olhos eram grandes e brilhantes, de cor
cinzenta, ou azul escuro. Tinha a tez clara e rosada, os lbios
corados. Parecia inteiramente viva. Notando o prazer que
experimentvamos em contempl-la assim diante de ns, Katie
redobrou de esforos para que tivssemos uma boa sesso. Depois,
quando acabou de "posar" em frente do aparelho, passeou pela sala,
conversando com todos, criticando os assistentes, o fotgrafo e
seus dispositivos, completamente  vontade. Pouco a pouco,
aproximou-se de ns, animando-se cada vez mais. Apoiou-se ao ombro
do Sr. Luxmore, enquanto a fotografavam. Chegou mesmo, uma vez, a
segurar a lmpada, para melhor iluminar o seu rosto.
   Consentiu que o Sr. Luxmore e a Sra. Corner lhe passassem as
mos pelo corpo, para se certificarem de que trazia apenas um
vestido. Depois, divertiu-se em apoquentar o Sr. Luxmore, dando-lhe
tapas, puxando-lhe os cabelos e tomando-lhe os culos para com eles
mirar os que estavam na sala. As fotografias foram tiradas  luz de
magnsio. A iluminao permanente era dada por uma vela e uma
lmpada pequena. Retirada a chapa para a revelao, Katie deu
alguns passos, acompanhando o Sr. Harrison, a fim de assistir a
essa operao.
   Outro fato curioso tambm se deu essa noite. Estando Katie a
repousar diante do gabinete,  espera de se colocar em posio para
ser fotografada, todos viram aparecer por sobre a cortina um grande
brao de homem, nu at a espdua e a agitar os dedos. Katie
voltou-se e repreendeu o intruso, dizendo que era muito malfeito
vir outro Esprito perturbar tudo, quando ela se preparava para lhe
tirarem o retrato, e ordenou-lhe que sem demora se retirasse. No
dia da sesso, declarou Katie que suas foras desfaleciam, que ela
estava a pique de dissolver-se. Com efeito, suas foras haviam
diminudo tanto, que,  luz que penetrava no gabinete para onde se
retirara, ela pareceu esvair-se. Todos ento a viram achatar-se,
destituda totalmente de corpo e com o pescoo a tocar o cho. A
mdium se conservava ligada como no comeo.
   Chamamos muito particularmente a ateno do leitor para este
ltimo pormenor, que mostra, a toda evidncia, que a apario no 
um manequim preparado, nem o mdium com um disfarce. Sobre esse
ponto, outro testemunho probante  o da Sra. Florence Marryat. (161)
  ::::::::::
  (161) Florence Marryat -- "There is no death" ("No h morte").
  ::::::::::
   "Perguntaram um dia a Katie King por que no podia mostrar-se
sob uma luz mais forte. (Ela s permitia aceso um bico de gs e
esse mesmo com a chama muito baixa). A pergunta pareceu irrit-la
enormemente. Respondeu assim: -- J vos tenho declarado muitas vezes
que no me  possvel suportar a claridade de uma luz intensa. No
sei porque me  impossvel; entretanto, se duvidais de minhas
palavras, acendei todas as luzes e vereis o que acontecer.
Previno-vos, porm, de que se me submeterdes a essa prova, no mais
poderei reaparecer diante de vs. Escolhei.
   As pessoas presentes se consultaram entre s e decidiram tentar
a experincia, a fim de verem o que sucederia. Queramos tirar
definitivamente a limpo a questo de saber se uma iluminao mais
forte embaraaria o fenmeno de materializao. Katie teve aviso da
nossa deciso e consentiu na experincia. Soubemos mais tarde que
lhe havamos causado grande sofrimento.
   O Esprito Katie se colocou de p junto  parede e abriu os
braos em cruz, aguardando a sua dissoluo. Acenderam-se os trs
bicos de gs. (A sala media cerca de dezesseis ps quadrados).
   Foi extraordinrio o efeito produzido sobre Katie King, que
apenas por um instante resistiu  claridade. Vimo-la em seguida
fundir-se, como uma boneca de cera junto de ardentes chamas.
Primeiro, apagaram-se-lhe os traos fisionmicos, que no mais se
distinguiam. Os olhos enterraram-se nas rbitas, o nariz
desapareceu, a testa como que entrou pela cabea. Depois, todos os
membros cederam e o corpo inteiro se achatou, qual um edifcio que
desmorona. Nada mais restava do que a cabea sobre o tapete e, por
fim um pouco de pano branco, que tambm desapareceu, como se o
houvessem puxado subitamente. Conservamo-nos alguns momentos com os
olhos fitos no lugar onde Katie deixara de ser vista. Terminou
assim aquela memorvel sesso".
   Com o exerccio, o Esprito adquirira maior fora, pois que
William Crookes pde, a seguir, bater mais de quarenta chapas com
auxlio da luz eltrica. Vimos acima que um Esprito tentara
materializar-se ao mesmo tempo que Katie.  que, com efeito este
ltimo no era o nico Esprito a mostrar-se. Eis aqui um novo
testemunho da Sra. Marryat que, numa apario que se lhe lanou nos
braos, reconheceu uma deformao caracterstica que sua filha
apresentava num dos lbios. Ouamo-la.
   "A sesso se realizou numa pequenina sala da associao, sem
mveis, nem tapete. Apenas trs cadeiras de vime foram ali
colocadas, para que pudssemos estar sentados. A um canto,
dependurou-se um velho xale preto, para formar o necessrio
gabinete, em o qual foi posto um coxim para servir de travesseiro 
Srta. Cook.
   Esta, moreninha, delgada, de olhos pretos e cabelos anelados,
trazia um vestido de merin cinzento, guarnecido de fitas cor de
cereja. Informou-me, antes de comear a sesso, que, desde algum
tempo, se sentia enervada durante os transes e que lhe acontecia
vir adormecida para a sala. Pediu-me ento que a repreendesse, caso
tal coisa ainda se desse, e que lhe ordenasse voltar para o seu
lugar, como se fora uma criana. Prometi faz-lo e logo a Srta.
Cook se sentou no cho, por trs do xale preto que fazia de cortina.
Vamos o seu vestido cinzento, por isso que o xale no chegava at
ao assoalho. Baixou-se a chama do gs e tomamos assento nas trs
cadeiras de vime.
   A mdium, a princpio, parecia no se sentir  vontade.
Queixava-se de que a maltratavam. Decorridos alguns instantes,
vimos o xale agitar-se e uma mo aparecer e desaparecer,
repetindo-se isso vrias vezes. Apareceu depois uma forma a se
arrastar com os joelhos, para passar por baixo do xale, acabando
por ficar de p, perfeitamente ereta. A luz era insuficiente para
se lhe reconhecerem os traos fisionmicos. O Sr. Harrison
perguntou se quem ali estava era a Sra. Stewart. O Esprito abanou
a cabea, em sinal negativo. -- Quem poder ser? perguntei ao Sr.
Harrison.
 -- No me reconhece, minha me?
   Quis lanar-me em seus braos; ela, porm, me disse: Fique no
seu lugar; irei l ter. Momentos depois, Florence veio sentar-se
nos meus joelhos. Tinha soltos os longos cabelos, nus os braos,
assim como os ps. Suas vestes no apresentavam forma determinada.
Dir-se-ia estar envolta nalguns metros de musselina. Por exceo
esse Esprito no trazia coifa, estava com a cabea descoberta.
 -- Minha querida Florence, exclamei, s mesmo tu?.
 -- Aumentem a luz, respondeu ela, e olhem a minha boca.
   Vimos ento, distintamente, num de seus lbios, a deformao
com que nascera e que os mdicos que a examinaram haviam declarado
constituir um caso muito raro. Minha filha viveu apenas alguns
dias. Na sesso em que se me apresentou parecia contar 17 anos.
   Diante dessa inegvel prova de identidade, fiquei banhada em
lgrimas, sem poder dizer palavra.
   A Srta. Cook estava muito agitada por detrs do xale e logo, de
sbito, correu para ns exclamando: --  demasiado, j no posso
mais.
   Vimo-la ento fora do gabinete, ao mesmo tempo que o Esprito
de minha filha sentado no meu colo. Isso, porm, durou apenas um
instante. A forma que eu abraava se lanou para o gabinete e
desapareceu. Lembrei-me ento de que a Srta. Cook me pedira que a
repreendesse, caso viesse andar pela sala. Repreendi-a, pois,
severamente. Ela tornou ao seu lugar no gabinete e logo o Esprito
voltou para junto de mim, dizendo: -- No deixes que ela volte;
causa-me um medo horrvel.
   Retruquei-lhe: - Mas, Florence, ns outros, mortais, neste
mundo, temos medo das aparies e tu, ao que parece, tens medo da
tua mdium!.
 -- Tenho medo de que ela me faa partir, respondeu ela. A Srta.
Cook, porm, no tornou a sair do gabinete e Florence esteve mais
algum tempo conosco. Lanou-me os braos ao pescoo e me beijou
repetidas vezes. Nessa poca, eu me achava muito atribulada.
Disse-me Florence que, se pudera aparecer-me com a marca que me
permitira reconhec-la, fora para bem me convencer das verdades do
Espiritismo, no qual eu encontraria copiosas fontes de consolao.
 -- Tu algumas vezes duvidas, minha me, disse ela, e supes que
teus olhos e teus ouvidos te enganam. Nunca mais deves duvidar e
no creias que, como Esprito, eu me conserve desfigurada. Retomei
hoje este defeito apenas para melhor te convencer. Lembra-te de que
estou sempre contigo.
   Eu no conseguia falar, to emocionada me sentia  idia de que
tinha em meus braos a filha que eu prpria depositara num esquife,
de que ela no estava morta, de que presentemente era uma mocinha.
Fiquei muda, com os braos passados pela sua cintura, com o corao
a bater de encontro ao seu. Em seguida, a fora diminuiu. Florence
me deu um ltimo beijo, deixando-me estupefata e maravilhada com o
que se passara".
   Acrescenta a Sra. Florence Marryat que tornou a ver aquele
Esprito muitas vezes, em outras sesses e com diferentes mdiuns,
recebendo dele timos conselhos.
   Facilmente se concebe que os incrdulos hajam negado com
obstinao to extraordinrios fenmenos. Calorosas polmicas se
travaram, mesmo entre espritas, e s as experincias e as
afirmaes de William Crookes puderam confirmar a autenticidade
absoluta de Katie King. Recomendamos ao leitor a obra desse sbio;
todavia, precisamos assinalar, de modo especial, que Katie  um ser
em tudo semelhante, anatomicamente, a um ser vivo.

   As experincias de Crookes

   So particularmente interessantes os trabalhos do grande sbio
ingls, do ponto de vista em que nos colocamos (162), pelo que
reproduziremos aqui uma pequena parte da sua narrativa, to
completamente probante ela . Ele nos mostra um Esprito to bem
materializado, que se no poderia disting-lo de uma pessoa normal.
  ::::::::::
  (162) Veja-se: "Pesquisas sobre o moderno Espiritualismo".
  ::::::::::
   Essa notvel experincia estabelece, pertinentemente, que o
perisprito reproduz no s o exterior de uma pessoa, mas tambm
todas as partes internas do seu corpo.
   "Uma das mais interessantes fotografias  a em que estou de p
ao lado de Katie, tendo esta um p nu em determinado ponto do
assoalho. Em seguida, vesti a Srta. Cook tal qual o estava Katie e
nos colocamos, ela e eu, na mesma posio em que estivramos Katie
e eu, e fomos fotografados pelas mesmas objetivas, situadas estas
absolutamente como na outra experincia e iluminadas pela mesma luz.
Superpostas as duas fotografias, as minhas imagens numa e noutra
coincidem exatamente, quanto ao talhe, etc.; ao passo que a de
Katie se demonstra maior, de uma meia cabea, do que a da Srta.
Cook, junto de quem aquela parece uma mulher gorda. Em muitas das
fotografias, o tamanho de seu rosto e a sua corpulncia diferem
essencialmente dos de seu mdium, podendo-se ainda notar muitos
outros pontos de dessemelhana'''.
   Isto responde  objeo, tantas vezes formulada, de que, nas
sesses espritas, as aparies que se fotografam so
desdobramentos do mdium. Continuemos.
   Recentemente, vi Katie to bem,  claridade da luz eltrica,
que se me torna fcil acrescentar mais algumas diferenas s que,
em precedente artigo, assinalei entre ela e seu mdium. Tenho a
mais absoluta certeza de que a Srta. Cook e Katie so duas
individualidades distintas, pelo menos quanto aos corpos. Pequenas
marcas que em grande nmero se encontram no rosto da Srta. Cook no
existem no de Katie. Os cabelos daquela so de um castanho to
escuro que parecem pretos! Tenho sob os olhos uma madeixa que Katie
permitiu lhe eu cortasse da luxuriante cabeleira, depois de meter
nesta os meus prprios dedos at o alto da cabea e de me haver
certificado de que ela da nascia realmente.  de um lindo castanho
dourado.
   Uma noite, contei as pulsaes de Katie. Eram em nmero de 75 e
seu pulso batia regularmente. As da Srta. Cook, alguns instantes
aps, chegaram a 90, algarismo que lhe era habitual. Aplicando o
ouvido ao peito de Katie, pude ouvir-lhe o corao a bater no
interior, sendo os seus batimentos mais regulares do que os do
corao da Srta. Cook quando, depois da sesso, ela me permitiu
fazer a mesma experincia. Auscultados de igual modo, os pulmes de
Katie se revelaram mais sos do que os de sua mdium, porquanto, no
momento em que
fiz a experincia, a Srta. Cook estava em tratamento
de um grande resfriado".
   Tais as primeiras manifestaes de Katie King. Eis agora o que
se passou da ltima vez que ela apareceu, achando-se entre os
espectadores a Sra. Florence Marryat, o Sr. Tapp, William Crookes e
a domstica Mary. (163)
  ::::::::::
  (163) "The spiritualist", 29 de maio de 1874.
  ::::::::::

   A ltima sesso

   s 7 horas e 23 minutos da noite, o Sr. Crookes conduziu a Srta.
Cook para o gabinete escuro, onde ela se deitou no cho, com a
cabea sobre um travesseiro. s 7 horas e 28 minutos, Katie falou
pela primeira vez e s 7 horas e 30 mostrou-se fora da cortina e em
toda a sua estatura. Estava vestida de branco, de mangas curtas e o
pescoo nu. Trazia soltos os seus longos cabelos castanho-claros,
de tom dourado, a lhe carem em cachos dos dois lados da cabea e
pelas costas at  cintura. Tambm trazia um longo vu branco que
apenas uma ou duas vezes abaixou sobre o rosto, durante a sesso.
   O mdium trajava um vestido de merin azul-claro. Durante quase
toda a sesso, Katie se conservou em p diante dos assistentes.
Corrida que fora a cortina do gabinete, todos viam distintamente o
mdium adormecido com o rosto coberto por um xale vermelho, para
preserv-lo da luz. No deixara a posio que havia tomado desde o
comeo da sesso, que transcorreu a uma luz que espalhava viva
claridade. Katie falou da sua prxima partida e aceitou um ramo de
flores que o Sr. Tapp lhe trouxera, assim como um apanhado de
lrios que o Sr. Crookes colocasse diante dela as flores, no cho.
Sentou-se, ento,  moda turca e pediu que todos fizessem o mesmo,
ao seu derredor. Distribuiu as flores, fazendo com algumas um
raminho, que atou com uma fita azul.
   Escreveu cartas de adeuses a alguns de seus amigos, pondo-lhes a
assinatura: Annie Owen Morgan, dizendo que fora este o seu
verdadeiro nome na vida terrena. Escreveu tambm uma carta ao seu
mdium e escolheu um boto de rosa para lhe ser entregue como
presente de despedida. Pegou de uma tesoura cortou uma mecha de
seus cabelos e ofereceu certa poro destes a cada um. Enviou
depois o brao no do Sr. Crookes e deu volta  sala apertando a mo
de todos, um por um. Sentou-se de novo, cortou vrios pedaos de
seu vestido e do seu vu, presenteando com eles os assistentes.
Como fossem visveis os grandes buracos que lhe ficaram nas vestes
e estando ela sentada entre o Sr. Crookes e o Sr. Tapp, algum lhe
perguntou se poderia reparar aqueles estragos, como j o fizera
noutras ocasies. Ela ento exps  luz a parte cortada, bateu em
cima com uma das mos e imediatamente aquela parte do vestido se
tornou to perfeita como era antes. Os que lhe estavam prximos
examinaram e tocaram, com sua permisso, a fazenda e afirmam que
no mais havia nem buraco, nem costura, nem a aposio de qualquer
remendo onde um momento antes tinham visto rasges do dimetro de
muitas polegadas.
   Transmitiu a seguir suas ltimas instrues ao Sr. Crookes e aos
outros amigos sobre como deviam proceder com relao s
manifestaes ulteriores, que prometera, com o auxlio do seu
mdium. Essas instrues foram cuidadosamente anotadas e entregues
ao Sr. Crookes. Parecendo ento fatigada, Katie dizia com tristeza
que precisava ir-se embora, que a sua fora decaa. Reiterou muito
afetuosamente seus adeuses a todos e todos lhe agradeceram as
maravilhosas manifestaes que lhes havia proporcionado.
   Dirigindo a seus amigos um ltimo olhar, grave e pensativo,
desceu a cortina e tornou-se invisvel. Ouviram-na despertar o
mdium, que lhe pediu, banhado em lgrimas, que se demorasse mais
um pouco. Katie, porm, lhe respondeu: "Minha querida, no posso.
Est cumprida a minha misso. Deus te abenoe"!. E todos ouviram o
som do seu beijo de despedida no mdium. Logo depois, a Srta. Cook
vinha ter com os presentes, inteiramente esgotada e profundamente
consternada.
   V-se assim quanto a moa, rebelde a princpio, se afeioara 
sua amiga invisvel. Katie dizia que dali em diante no mais
poderia falar nem mostrar-se; que, realizando, por trs anos,
aquelas manifestaes fsicas, passara vida bem penosa, para expiar
suas faltas; que decidira elevar-se a um grau mais alto da vida
espiritual; que s a longos intervalos poderia corresponder-se por
escrito com o seu mdium, mas que este poderia v-la sempre, por
meio da lucidez magntica. (164)
  ::::::::::
  (164) William Crookes -- "Pesquisas sobre o Espiritismo", fim.
  ::::::::::

   O caso da Sra. Livermore

   As aparies de Katie King foram to numerosas e tantas vezes
observadas, que no se pode duvidar um instante de que fosse um
Esprito quem assim se manifestava; mas, no era possvel
verificar-se-lhe a identidade, pois, segundo declarava, vivera,
havia muitos sculos, com o nome de Annie Morgan, sob Carlos I.
Vimos que Florence, a filha da Sra. Marryat, se fez reconhecer por
um sinal particular do lbio. Vamos ver, segundo o Sr. Aksakof
(165), ser impossvel deparar-se com um caso mais concludente, mais
perfeito, como prova de identidade da apario de uma forma
materializada, do que o de _Estela, morta em 1860, ao seu marido
Sr. Livermore.
  ::::::::::
  (165) "Animismo e Espiritismo", pgs. 610 e seguintes.
  ::::::::::
   Esta observao rene todas as condies necessrias a ser
considerada clssica; responde a todas as exigncias da critica. A
narrao detalhada desse caso encontra-se em The Spiritual Magazine
de 1861, nos artigos do Sr. B. Coleman, que lhe obteve todos os
pormenores diretamente do Sr. Livermore, pormenores que foram
publicados depois, numa brochura intitulada: Spiritualism in
America, Londres, 1861, e, finalmente, na obra de Dale Owen,
Debatable Land, que lhe tirou os detalhes do manuscrito do Sr.
Livermore.
   Duraram cinco anos, de 1861 a 1866, as materializaes daquela
figura e em todo esse tempo o Sr. Livermore realizou com o mdium
Kate Fox 388 sesses, cujas particularidades ele publicou num
jornal. Foram feitas em completa obscuridade. As mais das vezes o
Sr. Livermore realizava a sesso a ss com o mdium, cujas mos
segurava o tempo todo. Kate Fox se conservava sempre em estado
normal, sendo, pois, testemunha consciente de tudo o que se passava.
   Foi gradual a materializao visvel da figura de Estela;
somente na quadragsima terceira sesso pde seu marido
reconhec-la, sob intensa claridade, de origem misteriosa, ligada
ao fenmeno, e, em geral, sob a direo de outra figura que a
acompanhava e auxiliava em suas manifestaes. Essa outra apario
dava o nome de Franklin.
   A partir de ento, a apario de Estela se tornou cada vez mais
perfeita, chegando mesmo a suportar a luz de uma lanterna que o Sr.
Livermore levava para a sesso. Felizmente para a apreciao do
fato, a figura no pde falar, limitando-se a pronunciar algumas
palavras. Todo o lado intelectual da manifestao teve de revestir
uma forma que deixou traos indelveis. Referimo-nos s
comunicaes, em nmero de uma centena, escritas todas pela prpria
Estela em folhas de papel que o Sr. Livermore levava, marcadas pelas
suas mos. Enquanto a apario escrevia, ele, segurando as mos de
Kate Fox, via perfeitamente a mo e toda a figura de quem escrevia.
   A caligrafia dessas comunicaes  reproduo exata da Sra.
Livermore, quando viva. L-se, numa carta do Sr. Livermore ao Sr.
B. Coleman, de Londres, a quem o primeiro conhecera na  Amrica:
"Acabamos, afinal, por obter cartas datadas. A primeira foi escrita
com muito cuidado e muito corretamente e pde comprovar-se, de
maneira categrica, por meio de minuciosas comparaes, a identidade
da escrita com a de minha mulher. O estilo e a grafia so para mim
provas positivas da identidade da autora, mesmo deixando de lado as
outras provas, ainda mais concludentes, que obtive". Mais tarde,
noutra carta, acrescentava o Sr. Livermore: "Sua identidade foi
estabelecida, de modo a no deixar subsistisse a menor dvida;
primeiro, pela sua aparncia, em seguida pela sua caligrafia e,
finalmente, pela sua individualidade mental, sem falar de numerosas
outras provas, que seriam concludentes nos casos ordinrios, mas que
no levei em conta, seno como provas complementares".
   O testemunho do Sr. Coleman confirma o do Sr. Livermore e no
Spiritualist Magazine de 1861 foram publicados muitos espcimes de
caligrafia de Estela em vida e depois de morta. O carter da letra 
sem dvida uma prova absoluta e de todo concludente da identidade
do ser que se materializa, porquanto  uma espcie de fotografia da
personalidade, da qual foi ela considerada sempre como expresso
fiel e constante. Alm dessa prova, material e intelectual ao mesmo
tempo, outra ainda se nos depara em muitas das comunicaes que
Estela escreveu em francs, lngua que o mdium desconhecia
inteiramente. A esse propsito,  decisivo o testemunho do Sr.
Livermore: "Uma folha de papel que eu mesmo levara me foi arrebatada
da mo e, aps alguns instantes, foi-me restituda de modo visvel.
Li, escrita nela, uma mensagem admiravelmente redigida em puro
francs, idioma que minha mulher conhecia muito bem, em o que
falava e escrevia corretamente ao passo que a Srta. Fox no tinha
dele a mais ligeira noo". (166)
  ::::::::::
  (166) "O Espiritismo na Amrica", pg. 34
  ::::::::::
   O Sr. Aksakof, to difcil em matria de provas, escreveu:
   "Temos aqui uma dupla prova de identidade, dada no s pela
caligrafia, semelhante, em todos os pontos,  do defunto, mas tambm
por ser desconhecida do mdium a lngua em que est escrita a
mensagem. O caso  extremamente importante e, ao nosso parecer,
apresenta uma prova absoluta de identidade".
   A cessao das manifestaes de Estela por meio da materializao
oferece notvel semelhana com o termo das aparies de Katie.
L-se, com efeito, em Owen:
   "Foi na tricentsima octagsima oitava sesso, a 2 de abril de
1866, que a forma de Estela apareceu pela ltima vez. Depois daquele
dia, o Sr. Livermore no mais tornou a ver a figura que lhe era to
conhecida, se bem haja recebido, at ao momento em que escrevo
(1871), numerosas mensagens repassadas de simpatia e de afeto".
   Afigura-se-nos bem firmado que a imortalidade ressalta, em
completa evidncia, dessas manifestaes sugestivas. As mais
ousadas teorias no podero lutar contra fatos desta natureza que,
por si ss, atestam a realidade da vida de Alm-tmulo, cuja
existncia j se havia tornado mais que provvel, por todos os
outros gneros de comunicaes entre os homens e os Espritos.

   Resumo

   Na brevssima exposio que vimos de colocar sob as vistas do
leitor apenas possvel nos foi reproduzir a narrativa de um s dos
casos particulares que desejramos citar em grande nmero. Fcil,
porm,  a consulta s obras mencionadas e quem a fizer se
convencer de que  considervel a quantidade dos testemunhos
autnticos concernentes a aparies de vivos e de f, que nenhum
interesse tinham em enganar. Ao demais, a veracidade dessas
afirmaes foi verificada, com todos os cuidados possveis, por
homens sbios, prudentes e imparciais. Entretanto, mesmo que se
suponham falsos alguns desses relatos e inexatamente reproduzidos
outros, resta deles um nmero suficiente (muitas centenas) para dar
a certeza do desdobramento do ser humano e da sobrevivncia da alma
aps a morte.
   Foi-nos fcil comprovar, em quase todas as narraes, que o corpo
dormia, enquanto o Esprito manifestava ao longe sua presena. A
realidade da alma, isto , do "eu" pensante e volitivo, ao mesmo
tempo que a sua individualidade distinta do corpo, se impem como
corolrios obrigatrios do fenmeno de desdobramento.
   Com efeito, por testemunhos precisos, quais os de Varley, do
jovem gravador citado pelo Dr. Gibier e pelos casos de Newnham e de
Sofia, pudemos verificar que durante o sono a alma humana tem a
capacidade de desprender-se e demonstrar sua autonomia. Ela , pois,
distinta do organismo material e impossvel se torna explicar esses
fenmenos psicolgicos por uma ao do crebro, pois que o sono,
segundo a cincia, se caracteriza pelo desaparecimento da atividade
psquica. (167)
  ::::::::::
  (167) Veja-se a tese do Dr. Dupin: "O neurnio e as hipteses
histolgicas sobre o seu modo de funcionamento. Teoria histolgica
do sono". ( Citado pelo Dr. Geley em seu livro: "O Ser
Subconsciente").
  ::::::::::
   Este eu que se desloca no  uma substncia incorprea,  um ser
bem definido, com um organismo que reproduz os traos do corpo e,
quando se mostra,  graas a essa identidade absoluta com o
envoltrio carnal que pode ser reconhecido.
   Varia o grau de materialidade do perisprito. Ora  uma simples
nvoa branca que desenha traos, atenuando-os; ora apresenta
contornos muito ntidos e a prece um retrato animado. Acontece tambm
mostrar-se com todos os caracteres da realidade, reconhecendo-se-lhe
suficiente tangibilidade para exercer aes fsicas sobre a matria
inerte e para revelar a existncia de um organismo interno
semelhante ao de um indivduo vivo.
   Em nada influi sobre a intensidade das manifestaes a distncia
que separe do corpo a sua alma. Vimos disso muitos exemplos
probantes.
   Esse envoltrio da alma, que somente em circunstncias muito
raras acusa a sua existncia distinta do corpo, a se acha,
entretanto, no seu estado normal, como o indicam as experincias
sobre a exteriorizao da sensibilidade e sobre a ao dos
medicamentos  distncia. Alis, a certeza da coexistncia do corpo
e do perisprito resulta da sobrevivncia deste ltimo  destruio
do invlucro carnal. Essa imortalidade se encontra estabelecida por
experincias variadas, oferecendo todos os caracteres que impe a
convico.
   So idnticas as aparies de vivos e de mortos; atuam da mesma
maneira, produzem os mesmos resultados; logo, a causa de onde
derivam  a mesma:  a alma desprendida do corpo. Nem poderia ser de
outro modo, note-se, pois, que, em ambos os casos, a alma se
encontra liberta da sua priso carnal.
   Se, pois, descobrimos, nas aparies dos mortos, caracteres que
no foram postos em evidncia nas aparies de pessoas vivas,
podemos concluir legitimamente que tambm o duplo humano os possui.
   A continuidade que existe entre todos os fenmenos da natureza
nos facultar perceber a ligao existente entre as manifestaes da
alma produzidas pela sua ao a distncia e as que so devidas  sua
sada do corpo. Transmisso de pensamento, telepatia, exteriorizao
parcial, desdobramento, so fenmenos que formam uma cadeia
ininterrupta, uma gradao dos poderes anmicos.
   As circunstncias que acompanham as aparies de vivos so, em
geral, bastante demonstrativas por si mesmas, para estabelecerem a
objetividade do fantasma. Evidenciamos esse carter em todos os
casos citados; mas, no foi possvel dar dele provas absolutas, por
isso que esses fenmenos, pela sua raridade, pela sua espontaneidade
se opem a toda pesquisa metdica. O mesmo j no se d quando as
aparies se produzem nas sesses espritas, em que so provocadas.
A, conta-se que elas se produzam e todas as precaues so tomadas
para que se lhes verifique cuidadosamente a objetividade.
   A fotografia  uma das garantias mais fortes que podemos
fornecer. Se, a rigor,  possvel se admita, para explicar as
aparies, uma alucinao a efetivar-se em crebros predispostos a
sofr-la, essa explicao cai redondamente diante da realidade
brutal que se inscreve na camada sensvel da chapa fotogrfica. Ora,
tem-se fotografado o corpo fludico durante a vida e depois da
morte, o que d a certeza absoluta de que a alma existe sempre,
tanto na Terra, como no espao.
   Alis, a continuidade do ser se revela bem claramente pelas
aparies que se verificam algumas horas depois da morte. Tudo se
passa como se o indivduo que aparece ainda estivesse vivo. O
perisprito que acaba de deixar o corpo lhe retrata fielmente no s
a imagem, como tambm a configurao fsica, que se patenteia pelas
marcas que deixa no papel enegrecido e pelas moldagens! Que
descoberta maravilhosa essa possibilidade de qualquer um se
convencer da sobrevivncia integral do ser pensante, por meio de
provas materiais!
   Vemos, finalmente, nas experincias de Crookes, que o Esprito
materializado , por completo, um ser que vive temporariamente, como
se houvesse nascido na Terra. Bate-lhe o corao, funcionam-lhe os
pulmes, ele vai e vem, conversa, d uma mecha de cabelos existentes
na prpria cabea. Seu perisprito tem, pois, em si tudo o que 
necessrio  criao de todos esses rgos, com a fora e a matria
que haure do mdium.  o desdobramento completo do fenmeno, que
vimos apenas esboado nas aparies falantes. (168)
  ::::::::::
  (168) Veja-se: "Um caso de desmaterializao parcial do corpo de um
mdium". Por Aksakof. Quem ler esse caso poder convencer-se de que
a matria de que temporariamente se forma o corpo do Esprito 
tirada do corpo material do mdium.
  ::::::::::
   Pouco importa que os sbios oficiais fechem os olhos, que a
imprensa, obstinadamente, guarde silncio sobre to notveis fatos.
Isso no impedir que a verdade brilhe aos olhos dos que no sejam
espritos prevenidos. Essa demonstrao material da sobrevivncia
tem capital importncia para o futuro da humanidade. Ningum poder
destruir o feixe de provas que apresentamos. Cedo ou tarde, ainda os
mais orgulhosos tero que se curvar  evidncia e de reconhecer que
os espritas, to escarnecidos, ho, todavia, dotado a cincia com a
maior e a mais fecunda descoberta que j se fez na Terra.

   Concluso

   Parece-nos, conseguintemente, firmado pela observao e pela
experincia que:
   Primeiro: O ser humano pode desdobrar-se em duas partes: o corpo
e a alma;
   Segundo: A alma, separada do corpo, lhe reproduz exatamente a
imagem;
   Terceiro: As manifestaes anmicas independem do corpo fsico;
durante o desprendimento, quando a alma est totalmente
exteriorizada, o corpo nada mais  do que uma massa inerte;
   Quarto: A apario pode denotar todos os graus de materialidade,
desde a de uma simples aparncia at a de uma realidade concreta,
que lhe permite andar, falar e atuar sobre a matria bruta;
   Quinto: A forma fludica da alma pode ser fotografada;
   Sexto: A forma fludica da alma, durante a vida, ou depois da
morte, pode deixar marcas ou moldes;
   Stimo: Durante a vida, pode a alma perceber sensaes, sem o
concurso dos rgos dos sentidos;
   Oitavo: A forma fludica reproduz no s o exterior, mas tambm
toda a constituio interna do ser;
   Nono: A morte no destri a alma; esta subsiste com todas as
suas faculdades psquicas e com um organismo fsico, visvel e
impondervel, dotado, em estado latente, de todas as leis
biolgicas do ser humano.

   As conseqncias

   Que se deve concluir de todos esses fatos? Em primeiro lugar,
somos forados a admitir que o corpo e a alma so duas entidades
absolutamente distintas, que se podem separar, cada uma delas com
caracteres inequvocos de substancialidade. Tambm devemos notar
que o organismo fsico no passa de um envoltrio que se torna
inerte, logo que o princpio pensante se separa dele. A parte
sensvel, inteligente do homem reside no duplo e se mostra como
causa da vida psquica. Desde ento, ser lgico que, para explicar
os fenmenos espritas, se imaginem outros fatores, com excluso da
alma humana?
   Evidentemente no e todas as teorias que recorrem  interveno
de seres extraordinrios, como demnios, elementais, elementares,
ogros, idias coletivas, no suportam o exame dos fatos, nem
explicam os fenmenos observados. No caso em que o Esprito de um
vivo se manifesta de qualquer maneira, possvel se nos torna
remontar do efeito  causa e descobrir a razo eficiente do
fenmeno:  a psique humana, em ao temporria fora dos limites do
seu organismo.
   Sabemos que ela haure do corpo material a fora de que necessita
para suas manifestaes. Abandone definitivamente o seu corpo
material, e essa alma ser obrigada a recorrer a um mdium, para
dele tomar aquela energia indispensvel. Assim, claramente se
explicam todas as manifestaes. H nesses fatos que se desenrolam
em sries paralelas, no s evidente parentesco, mas uma semelhana
to grande, que chega  identidade. Logo, em boa lgica, a causa 
necessariamente a mesma: em todos os casos, a alma.
   Essa continuidade foi to bem sentida, que alguns incrdulos,
como Hartmann, tentaram explicar todos os fatos espritas pela ao
incorprea e inconsciente do mdium. Mas, os fenmenos, em
grandssimo nmero, responderam vitoriosamente a essa inexata
assero. Os Espritos, por provas irrecusveis, revelaram-se
dotados de uma personalidade inteiramente autnoma e independente
por completo das dos assistentes. Demonstraram de modo peremptrio
a sobrevivncia de que gozavam, por uma quantidade prodigiosa de
comunicaes, fora, em absoluto, dos conhecimentos de todos os
experimentadores (169). Firmaram sua identidade, por meio de
assinaturas autnticas; pela narrao de fatos que s eles podiam
conhecer; por predies que minuciosamente se cumpriram. Numa
palavra: provaram cientificamente a imortalidade.
  ::::::::::
  (169) Aksakof -- "Animismo e Espiritismo", terceira parte. Vejam-se
as provas, de todos os gneros, existentes acerca das manifestaes.
Consultem-se tambm as nossas obras: "O Fenmeno Esprita" e "As
pesquisas sobre a mediunidade".
  ::::::::::
   Foi certamente a mais importante e a mais fecunda descoberta do
sculo XIX. Chegar a conhecimentos positivos sobre o amanh da
morte  revolucionar a humanidade inteira, dando  moral uma base
cientfica e uma sano natural,  revelia de todo e qualquer credo
dogmtico e arbitrrio.
   Sem dvida, mesmo quando essas consoladoras certezas hajam
penetrado as massas humanas, a humanidade no se achar s por isso
bruscamente mudada, nem se tornar melhor subitamente; dispor,
todavia, da mais forte alavanca que possa existir para derribar o
monto de erros acumulados desde h seis mil anos. Seus instrutores
podero falar com autoridade dos deveres que correm a todo aquele
que vem a este mundo. Exporo aos olhos dos mais recalcitrantes os
destinos que os aguardam, e a vida futura, na qual a maioria j no
cr se tornar to evidente quanto a claridade do Sol.
Compreender-se- ento que a morada terrestre no  mais do que um
degrau nos destinos do homem; que alguma coisa de mais til h do
que a satisfao dos apetites materiais e que cada um ter que
conseguir, a todo custo, refrear suas paixes e domar seus vcios.
Esses os benefcios indubitveis que o Espiritismo traz consigo.
   Bendita e emancipadora doutrina! Que as tuas irradiaes se
estendam rapidamente por toda a Terra, a fim de levarem a certeza
aos que duvidam, de abrandarem as dores dos coraes dilacerados
pela partida de seres amados com ternura e de darem aos que lutam
com as asperezas da vida a coragem de superar as duras necessidades
deste mundo ainda to brbaro.

   TERCEIRA PARTE

   O ESPIRITISMO E A CINCIA

   CAPITULO I

   ESTUDO DO PERISPIRITO

   SUMRIO:
   De que  formado o perisprito? -- Obrigao que tem a
cincia de se pronunciar a respeito -- Princpios gerais -- O
ensino dos Espritos -- O que  preciso se estude.

   De que  formado esse perisprito, cuja existncia, assim
durante a vida, como durante a morte, se acha demonstrada? Qual a
substncia constituinte desse envoltrio permanente da alma? Tal a
primeira questo que tentaremos resolver.
   Nenhuma das narrativas, nenhuma das experincias acima referidas
nos instruram sobre esse ponto importante. No tendo sido possvel
submeter esse corpo abmaterial aos reativos ordinrios, foroso ,
ainda agora, que nos atenhamos  observao e ao que os Espritos
ho dito a tal respeito. Alis, dificilmente poderamos encontrar
melhores instrutores do que aqueles mesmos que produzem as
aparies. No esqueamos que eles pem em jogo leis que ainda
teremos de descobrir, pois mostraram que uma matria invisvel aos
olhares humanos pode impressionar uma chapa fotogrfica, mesmo na
mais absoluta obscuridade(170). Os fenmenos de trazimento
constituem outra prova da ao dos Espritos sobre a matria, ao
que se opera por processos de que nem sequer suspeitamos. E que
dizer dessas materializaes que engedram, por alguns instantes, um
ser tangvel, to vivo quanto os assistentes, seno que a cincia
humana  de todo impotente para explicar tais manifestaes
extraterrena?
  ::::::::::
  (170) Aksakof fotografou um Esprito em completa obscuridade.
Veja-se "O Fenmeno Esprita", edio da FEB, cap. IV, Parte
Segunda. O Dr. Baraduc, em seu livro: "A alma humana, seus
movimentos, suas luzes", ps fora de dvida esse fato, fazendo o
grfico dos fluidos que emanam do organismo humano. Vejam-se
tambm, na "Revue Cientifique et Morale du Spiritisme", as
experincias do comandante Darget, ano de 1897, e as nossas, julho
de 1898.
  ::::::::::
   At mais amplos esclarecimentos, contentar-nos-emos com os que
nos queiram ministrar as individualidades do espao e tentaremos
demonstrar que eles nada tm de contrrio s leis conhecidas, no
tomadas em sua acepo acanhada, mas consideradas em sua filosofia.
Nestes estudos, no se deve pedir uma demonstrao em regra, que
seria impossvel produzir-se. Desde que, porm, por meio de
analogias tiradas das leis naturais, possamos formar idia bastante
clara da causa dos fenmenos e do modo provvel por que se operam,
sensvel progresso teremos realizado na senda da investigao,
banindo das nossas concepes a idia de sobrenatural.
   O conhecimento do perisprito tem grande importncia para a
explicao das anomalias que os pacientes sonamblicos apresentam,
nos casos, bem comprovados, de viso a distncia, de telepatia, de
transmisso de pensamentos e de perda da lembrana de tudo ao
despertar. Do mesmo modo, os fenmenos de personalidades mltiplas,
os casos de bicorporeidade e as aparies tangveis, de que temos
falado, podem ser muito bem compreendidos, desde que se admita a
nossa teoria, ao passo que se conservam inteiramente inexplicveis
por meio do ensino materialista.
   Em presena de tais fatos, os sbios oficiais guardam prudente
mutismo. Se, pelo maior dos acasos, falam dessas experincias, 
para as declarar apcrifas, indignas de prender a ateno de homens
inteligentes e, ento, as assinalam como ltimos vestgios atvicos
das supersties dos nossos antepassados.
   Importa, porm, que, de uma vez por todas, nos entendamos a esse
respeito. No ignoramos que no se pode absolutamente discutir com
quem esteja de "parti pris" e que o Espiritismo, hoje, se acha mais
ou menos na mesma situao em que se encontrava o magnetismo h uma
vintena de anos. A histria a est a nos mostrar a obstinao
estpida dos que se petrificaram nas suas idias preconcebidas.
   Sabemos o que pensar da penetrao do esprito dos sucessores
daqueles que acreditavam que as pedras talhadas eram produzidas
pelo trovo; que negaram a eletricidade, zombando de Galvani; que
vituperaram e perseguiram Mesmer; que qualificaram de loucura o
telefone e o fongrafo, como, alis, todas as descobertas novas.
Por isso mesmo, sem dar ateno ao banimento mais ou menos sincero
a que eles condenam o fenmeno esprita, corajosamente exporemos a
nossa maneira de ver, apoiando-a em fatos positivos e bem estudados.
   A despeito de todas as negaes possveis, o fenmeno espirita 
uma verdade to bem comprovada hoje, que no h fatos cientficos
mais bem firmados do que eles, entre os que no so de observao
quotidiana, tais como: a queda dos aerlitos, as auroras boreais,
as tempestades magnticas, a raiva, etc.
   A cincia est neste dilema: ou os espritas so charlates e 
falso tudo o que eles proclamam e, nesse caso, ela os deve
desmascarar, pois que lhe incumbe a instruo do povo; ou os fatos
que os espritas tm observado so reais, porm mal referidos e,
portanto, errneas as concluses que eles da deduzem, caso em que
a cincia se acha obrigada a lhes retificar os erros. Assim,
qualquer que seja a eventualidade que se considere, v-se que o
silncio ou o descaso nenhum cabimento tm. Essa a razo por que
sinceramente chamamos a ateno dos homens de boa-f para as nossas
teorias que, embora ainda muito incompletas, explicam com lgica os
diferentes fenmenos de que acima falamos.
   Eis, sucintamente, os princpios gerais sobre que nos apoiaremos.
So os de Allan Kardec, que magistralmente resumiu em sua obra
todos os ensinos dos Espritos que o assistiram (171).
  ::::::::::
  (171) Allan Kardec -- "O livro dos Espritos", "O livro dos
Mdiuns", "O Cu e o Inferno", "A Gnese", "O Evangelho segundo o
Espiritismo". Estas obras contm todos os estudos relativos  alma
e ao seu futuro.
  ::::::::::

   Princpios Gerais

   Reconhecemos a existncia de uma causa eficiente e diretora do
universo: a sublimada inteligncia que, pela sua vontade onipotente,
imutvel, infinita, eterna, mantm a harmonia do Cosmos. A alma, a
fora e a matria so igualmente eternas, no podem aniquilar-se.
   A cincia admite a conservao da matria e da energia (172),
prova rigorosamente que so indestrutveis, mas indefinidamente
transformveis. Do mesmo modo, o Espiritismo d a certeza da
imortalidade do eu pensante.
  ::::::::::
  (172) A descoberta da radioatividade dos corpos parece demonstrar
que a matria se destri e retorna  energia que a engendrara.
Entretanto, no h contradio, porquanto, sendo eterna a energia,
se a matria  um modo dessa energia, nada mais faz do que mudar de
forma, sem se aniquilar.
  ::::::::::
   O princpio espiritual  a causa de todos os fenmenos
intelectuais que se do nos seres vivos. No homem, esse princpio se
torna a alma, que se revela  observao como absolutamente distinta
da matria, no s porque as faculdades que a determinam (tais como
a sensao, o pensamento ou a vontade) no se podem conceber
revestidas de propriedades fsicas, mas, sobretudo, por ser ela uma
causa de movimento e por se conhecer plenamente a si mesma, o que a
diferencia de todos os outros seres vivos e, com mais forte razo,
dos corpos brutos.
   -nos desconhecida a natureza da alma. Tentar defin-la dizendo
que  imaterial, nada significa, a menos que com essa palavra se
queira precisar a diferena que h entre a sua constituio e a da
matria. Qualquer, porm, que seja o seu modo de existir, ela se
mostra simples e idntica. Alis, a nossa ignorncia acerca da
natureza da alma  da mesma ordem e to absoluta, quanto acerca da
natureza da matria ou da natureza da energia. At agora, somos de
todo impotentes para penetrar as causas primrias e temos que nos
contentar com o definir a alma, a matria e a energia pelas suas
manifestaes, sem pretendermos indagar se, de qualquer maneira,
procedem umas das outras.
   Certamente a alma no  a resultante das funes cerebrais, pois
que se subsiste aps a morte do corpo. Da anlise de suas faculdades
ressalta que ela  simples, isto , indivisvel e a experincia
esprita confirma essa verdade, mostrando que a sua personalidade se
mantm integral depois da morte. O Espiritismo, com o apoiar-se
exclusivamente nos fatos, reduz a nada todas as teorias segundo as
quais a alma sofre uma desagregao qualquer. O que, ao contrrio,
se verifica  a indestrutibilidade do princpio pensante.
   Suas faculdades a alma as desenvolve por uma evoluo incessante
que tem por teatro, alternativamente, o espao e o mundo terrestre.
Em cada uma dessas suas passagens, adquire ela nova soma de
conhecimentos intelectuais e morais, que so conservados,
aperfeioados e aumentados por uma evoluo sem-fim.
   Possui um livre-arbtrio proporcional ao nmero de suas
encarnaes, dependendo a sua responsabilidade do grau do seu
adiantamento moral e intelectual. Assim como o mundo fsico tem a
reg-lo leis imutveis, tambm o mundo espiritual  regido por uma
justia infalvel, de sorte que as leis morais tm a sano absoluta
aps a morte. Como o Universo no se limita ao imperceptvel gro de
areia por ns habitado, como o espao formiga de sis e planetas em
nmero indefinito, admitimos que as futuras existncias do princpio
pensante podem desenvolver-se nesses diferentes sistemas de mundos,
de maneira que a nossa vida se perpetua pela imensidade sem limites.
   Como pode a alma executar esse processo evolutivo, conservando a
sua individualidade e os conhecimentos que adquiriu? Como atua sobre
a matria tangvel, durante a encarnao?   o que tentamos
determinar em o nosso estudo sobre a Evoluo anmica. Aqui, temos
que comear por compreender o papel de cada uma das partes que
formam o homem vivo.

   O ensino dos Espritos

   Se a questo do homem espiritual se conservou por to longo tempo
em estado hipottico,  que faltavam os meios de investigao direta.
Assim como as cincias no puderam desenvolver-se seriamente, seno
depois que se inventaram o microscpio, o telescpio, a anlise
espectral e, ultimamente, a radiografia, tambm o estudo do Esprito
tomou prodigioso impulso com a hipnose e, principalmente, depois que
a mediunidade tornou possvel o estudo do esprito desprendido da
matria corprea. Aqui est o que as nossas relaes com os
Espritos nos ensinaram relativamente  constituio da alma.
   Das numerosas observaes feitas no mundo inteiro resulta que o
homem  formado da reunio de trs princpios: primeiro, a alma ou
esprito, causa da vida psquica; segundo, o corpo, envoltrio
material, a que a alma se associa temporariamente, durante a sua
passagem pela Terra; terceiro, o perisprito, substrato fludico que
serve de liame entre a alma e o corpo, por intermdio da energia
vital. Do estudo desse rgo decorrem conhecimentos novos, que nos
permitem explicar as relaes da alma e do corpo; a idia diretora
que preside  formao de todo indivduo vivo; a conservao do tipo
individual e especfico, sem embargo das perptuas mutaes da
matria; enfim, o to complicado mecanismo da mquina vivente.
   A morte  a desagregao do invlucro carnal, aquele que a alma
abandona ao deixar a Terra; o perisprito a acompanha,
conservando-se-lhe sempre ligado. Forma-o a matria em estado de
extrema rarefao. Esse corpo etreo, que no estado normal nos 
invisvel, existe, portanto, no curso da vida terrestre.  por seu
intermdio que o "eu" percebe as sensaes fsicas e  tambm por
seu intermdio que o esprito pode revelar, no exterior, o seu
estado mental.
   Tem-se dito que o Esprito  uma chama, uma centelha, etc. Assim,
porm, se deve entender com relao ao esprito propriamente dito,
como princpio intelectual e moral, ao qual no se poderia atribuir
forma determinada. Em qualquer grau que ele se encontre na
animalidade, est sempre intimamente associado ao perisprito, cuja
eterizao corresponde ao seu adiantamento moral, de sorte que, para
ns, a idia de esprito  inseparvel da de uma forma qualquer, de
maneira a no podermos conceber um sem a outra.
   "O perisprito, pois, faz parte integrante do Esprito, como o
corpo faz parte integrante do homem. Mas, o perisprito, por si s,
no  o Esprito, como o corpo no , por si s, o homem, visto que
o perisprito no pensa, no age por si s. Ele  para o esprito o
que o corpo  para o homem: o agente ou instrumento da sua ao".
   Segundo o ensino dos Espritos, essa forma fludica  extrada do
fludo universal, sendo deste, como tudo o que existe materialmente,
uma modificao. Justificaremos, dentro em pouco, essa maneira de
ver.
   Malgrado  tenuidade extrema do corpo perispirtico, ele se
mantm constantemente unido  alma, que se pode considerar um centro
de fora. Sua constituio lhe permite atravessar todos os corpos
com mais facilidade do que a que tem a luz para atravessar o vidro;
do que o calor ou o raio X para atravessar os diferentes obstculos
que se lhe oponham  propagao. A velocidade do deslocamento da
alma parece superior  das ondulaes luminosas, diferindo destas,
porm, essencialmente, em que nada a detm, deslocando-se ela pelo
seu prprio esforo. Por ser muito rarefeito o organismo fludico, a
vontade atua sobre o fluido universal e produz o deslocamento.
Concebe-se facilmente que, sendo quase nula a resistncia do meio, a
mais fraca ao fsica acarretar uma translao no espao, cuja
direo estar submetida  vontade do ser.
   O perisprito se nos afigura impondervel, pelo que a ao da
gravidade parece inteiramente nula sobre ele; mas, da no se dever
concluir que, desprendido do corpo, possa o Esprito transportar-se,
segundo a sua fantasia, a todas as partes do Universo. Veremos,
daqui a pouco, que o espao  pleno de matrias variadas, em todos
os estados de rarefao, de modo que, para o Esprito, existem
certos obstculos fludicos de tanta realidade, quanta a que para
ns pode ter a matria tangvel.
   Nos seres muito evolvidos, o perisprito carece, no espao, de
forma absolutamente fixa; no  rgido, nem est condensado, como o
corpo fsico, num tipo particular. Regra geral, predomina no corpo
fludico a forma humana,  qual ele naturalmente retorna, quando
haja sido deformado pela vontade do Esprito.
   Por intermdio do envoltrio fludico  que os Espritos percebem
o mundo exterior; mas, suas sensaes so de outra ordem, diversas
das que tinham na Terra. A luz deles no  a nossa; as ondulaes do
ter, quais as ressentimos, como calor ou luz, so por demais
grosseiras para os influenciar normalmente. So do mesmo modo,
insensveis aos sons e aos odores terrestres. Referimo-nos aqui aos
Espritos adiantados. Mas, todas as nossas sensaes terrestres tm,
para eles, equivalentes mais apurados. D-se, a esse respeito, uma
como transposio para mais elevado registro da mesma gama. Alm
disso, eles percebem vibraes em muito maior nmero do que as que
nos chegam diferenciadas pelos sentidos e as sensaes determinadas
por esses diferentes movimentos vibratrios criam uma srie de
percepes de ordem diversa das de que temos conscincia.
   Os Espritos inferiores, que formam a maioria no espao que
circunda a Terra, podem ser acessveis s nossas sensaes,
sobretudo se seus perispritos so grosseiros de todo, porm, isso
se d de maneira atenuada. A sensao neles no  localizada:
experimentam-na em todas as partes do corpo espiritual, enquanto
que, nos homens,  experimentada no ponto do corpo onde teve origem.
   Estes os dados gerais que se encontram na obra de Allan Kardec, a
mais completa e a mais racional que possumos sobre o Espiritismo.
A bem dizer,  mesmo a nica que trata, em todas as suas partes da
filosofia esprita e fica-se espantado de ver com que sabedoria e
prudncia esse iniciador traou as grandes linhas da evoluo
espiritual.
   A deduo rigorosa  o carter distintivo desta doutrina. Em vez
de forjar seres imaginrios para explicar os fatos medinicos, o
Espiritismo deixou que o fenmeno se revelasse por si mesmo. Em
todas as partes do mundo, h 70 anos, so as almas dos mortos que,
vindo confabular conosco, afirmam ter vivido na Terra e do dessa
afirmativa provas que os evocadores verificam mais tarde e
reconhecem exatas. Numa palavra, achamo-nos em presena de um fato
real, visvel, palpvel, que coisa alguma poderia infimar. No h
negaes que prevaleam contra a luminosa evidncia da experincia
moderna. No h demnios, nem vampiros, nem lmures, nem elementais
ou outros seres fantsticos, imaginados para aterrorizar o vulgo, ou
desviar, em proveito de obscuros engrimanos, a ateno dos
pesquisadores.  a alma dos mortos que se revela pela mesa, pela
escrita direta e pelas materializaes.

   O que  preciso se estude

   Pela observao e pela experincia, fomos levados a comprovar que
o invlucro da alma  material, pois que pode ser visto, tocado,
fotografado. Mas  evidente que essa matria difere, pelo menos
quanto ao seu estado fsico, da matria com o que estamos
diariamente em contato.
   O perisprito existente no corpo humano no nos  visvel; no
tem peso aprecivel e, quando sai do corpo para se mostrar longe
deste, verifica-se que nada lhe pode opor obstculo. Destas
observaes, temos de concluir que  formado de uma substncia
invisvel, impondervel e de tal sutileza, que coisa alguma lhe 
impenetrvel. Ora, estes so caracteres que parecem em absoluta
contradio com os que a fsica nos revela como sendo os da matria..
   Temos, pois, que procurar saber o que se deve entender pelo termo
matria e, para isso, urge conhecer o que so o tomo, o movimento e
a energia. Adquiridas estas noes, poderemos inquirir como  que
uma matria fludica tem a possibilidade de conservar forma
determinada e, sobretudo, como  que a morte no acarreta a
dissoluo desse corpo espiritual, uma vez que ocasiona a do corpo
fsico.
   Tornar-se- ento necessrio nos familiarizemos com a idia da
unidade da substncia, porquanto, admitida essa idia, claro fica
que, se o perisprito  formado da matria primordial, no poder
decompor-se em elementos mais simples e, como a alma j se acha
revestida dele antes de nascer, isto , anteriormente  sua entrada
no organismo humano, ir com ele, ao deixar o seu corpo terreno.
   Se for verdadeiramente possvel demonstrar que as concepes
cientficas atuais nos permitem conceber semelhante matria,
poder-se- empreender, racionalmente, o estudo do perisprito,
estudo que ento sair do domnio do empirismo para entrar no das
cincias positiva.
   Vejamos, pois, desde j, como  constituda a matria.

   CAPTULO II

   O TEMPO, O ESPAO, A MATRIA PRIMORDIAL

   SUMRIO:
   Definio do espao, dada pelos Espritos -- Justificao
dessa teoria -- O tempo -- Justificaes astrolgicas e geolgicas
-- A matria -- O estado molecular -- A isomeria -- As pesquisas de
Lockyer.

   O que, em definitivo, importa saber  o que somos, donde viemos
e aonde vamos. A filosofia  impotente para nos esclarecer a esse
respeito, porquanto umas s outras se opem as concluses a que
chegaram as diferentes escolas. As religies proscrevendo a razo e
fazendo exclusivamente questo da f, pretendendo impor a crena em
dogmas imaginados quando os conhecimentos humanos ainda se achavam
na infncia, vem afastar-se delas os espritos independentes, que
preferem as realidades tangveis e sempre verificveis da
experincia a todas as afirmaes autoritrias e cominatrias.
Vamos justificar os principais ensinos do Espiritismo, mostrando
que decorrem de minuciosos estudos, harmnicos com as concepes
modernas e constituindo uma filosofia religiosa de imponente
realidade. (173)
  ::::::::::
  (173) Veja-se: Allan Kardec -- "A Gnese", cap. VI, "Uranografia
geral", ed. FEB.
  ::::::::::

   O espao

    infinito o espao, pela razo de ser impossvel supor-lhe
qualquer limite e porque, malgrado  dificuldade que encontramos
para conceber o infinito, mais fcil nos , contudo, ir eternamente
pelo espao em pensamento, do que pararmos num lugar qualquer,
depois do qual nenhuma extenso mais houvesse a ser percorrida.
   Para imaginarmos, tanto quanto o permitam as nossas faculdades
restritas, a infinidade do espao, imaginemos que, partindo da
Terra, perdida no meio do infinito, rumo a um ponto qualquer do
Universo, com a velocidade prodigiosa da centelha eltrica, que
transpe milhares de lguas num segundo, havendo, pois, percorrido
milhes de lguas mal tenhamos deixado este globo, nos achemos num
lugar de onde a Terra no nos parea mais do que vaga estrela. Um
instante depois, seguindo sempre na mesma direo, chegamos s
estrelas longnquas, que da nossa morada terrestre mal se percebem.
Da, no s a terra ter desaparecido das nossas vistas nas
profundezas do cu, como tambm o Sol, com todo o seu esplendor,
estar eclipsado pela extenso que dele nos separa. Sempre com a
mesma velocidade do relmpago, transpomos sistemas de mundos, 
medida que avanamos pela amplido, ilhas de luzes etreas, vias
estelferas, paragens suntuosas onde Deus semeou mundos na mesma
profuso com que semeou as plantas nos prados terrestres.
   Ora, minutos apenas h que caminhamos e j centenas de milhes
de lguas nos separam da Terra, milhares de milhes de mundos
passaram sob os nossos olhares e, entretanto, escutai bem! Na
realidade, no avanamos um nico passo no Universo.
   Se continuarmos durante anos, sculos, milhares de sculos,
milhes de perodos cem vezes seculares e incessantemente com a
mesma velocidade do relmpago, nada teremos avanado, qualquer que
seja o lado para onde nos encaminhemos e qualquer que seja o ponto
para onde nos dirijamos, a partir do gro invisvel que deixamos e
que se chama Terra.
   Eis o que  o espao!
  ::::::::::
  Nota: Citamos, sintetizando-os, os ensinos principais dos nossos
instrutores espirituais, relativos ao espao, ao tempo,  matria e
 fora. Essas noes nos parecem absolutamente indispensveis para
se conhecer a matria de que  formado o perisprito.
  ::::::::::

   Justificao desta teoria

   Concordam essas poticas e grandiosas definies com o que
sabemos de positivo sobre o Universo? Concordam, porquanto,
sucessivamente, a luneta, o telescpio e a fotografia nos ho feito
penetrar, cada vez mais longe, no campo do infinito.
   Durante sculos, nossos pais imaginaram que a criao se
limitava  Terra que eles habitavam e que julgavam chata. O cu era
apenas uma abbada esfrica onde se achavam incrustados pontos
brilhantes chamados estrelas. O Sol era tido como um facho mvel
destinado a distribuir claridade. Ns, terrcolas, ramos os nicos
habitantes da criao, feita especialmente para o nosso uso. A
observao, mais tarde, facultou reconhecer-se a marcha das
estrelas; a abbada celeste se deslocava, arrastando consigo todos
os pontos luminosos. Depois, o estudo dos movimentos planetrios e
a fixidez da Estrela Polar levaram Tales de Mileto a reconhecer a
esfericidade da Terra, a obliqidade da eclptica e a causa dos
eclipses.
   Pitgoras conheceu e ensinou o movimento diurno da Terra sobre
seu eixo, seu movimento nuo em torno do Sol e ligou os planetas e
os cometas ao sistema solar. Esses conhecimentos precisos datam de
500 a.C. Mas, sabidas apenas de alguns raros iniciados, tais
verdades foram esquecidas e a massa humana continuou a ser joguete
da iluso. Foi preciso surgisse Galileu e se desse a descoberta da
luneta, em 1610, para que concepes exatas viessem retificar os
antigos erros.
   Desde ento, o Universo se apresenta qual realmente .
Reconhece-se que os planetas so mundos semelhantes  Terra e muito
provavelmente habitados tambm; que o Sol mais no  do que um
astro entre inmeros outros; que com o telescpio se percebem as
estrelas e as nebulosas disseminadas pelo espao sem limites, a
distncias incalculveis; que, finalmente, a fotografia, recente
descoberta do gnio humano, revela a presena de mundos que o olhar
do homem jamais contemplara, nem mesmo com o auxlio dos mais
possantes instrumentos.
   As chapas fotogrficas que hoje se preparam so no somente
sensveis a todos os raios elementares que afetam  retina, mas
alcanam tambm as regies ultravioletas do espectro e as regies
opostas, as do calor obscuro (infravermelho), nas quais o olhar
humano  impotente para penetrar.
   Assim  que os irmos Henry conseguiram tornar conhecidas
estrelas da dcima stima grandeza, as quais nenhum olho humano
ainda percebera. Descobriram tambm, para l das Pliades, uma
nebulosa, invisvel devido ao seu afastamento.
    medida que os nossos processos de investigao se ampliam, a
natureza recua os limites do seu imprio. Ao passo que os mais
poderosos telescpios no revelavam, num canto do cu, mais que 625
estrelas, a fotografia tornou conhecidas 1421. Assim, pois, em
parte alguma o vcuo, por toda parte e sempre as criaes a se
desdobrarem em nmero indefinito! As insondveis profundezas da
amplido fatigam, pela sua imensidade, as imaginaes mais ardentes.
Pobres seres chumbados num imperceptvel tomo, no podemos
elevar-nos a to sublimes realidades.

   O tempo

   Aos mesmos resultados chegamos, quando queremos avaliar o tempo.
Os perodos csmicos nos esmagam com um formidvel amontoado de
sculos. Ouamos mais uma vez o instrutor espiritual.
   "O tempo, como o espao,  uma palavra que se define a si mesma.
Mais exata idia dele se faz, estabelecendo-se a relao que guarda
com o todo infinito.
   O tempo  a sucesso das coisas. Est ligado  eternidade, do
mesmo modo por que essas coisas se acham ligadas ao infinito.
Suponhamo-nos na origem do nosso mundo, naquela poca primitiva em
que a Terra ainda no balouava sob a impulso divina. Numa
palavra: no comeo da gnese.
   A, o tempo ainda no saiu do misterioso bero da Natureza e
ningum pode dizer em que poca de sculos est, pois que o
balancim dos sculos ainda no foi posto em movimento.
   Mas, silncio! A primeira hora de uma Terra isolada soa no
relgio eterno, o planeta se move no espao e, desde ento, h
tarde e manh. Fora da Terra, a eternidade permanece impassvel e
imvel, se bem o tempo avance para muitos outros mundos. Na Terra,
o tempo a substitui e, durante uma srie determinada de geraes,
contar-se-o os anos e os sculos.
   Transportemo-nos agora ao ltimo dia deste mundo,  hora em
que, curvado sob o peso da vetustez, a Terra se apagar do livro da
vida, para a no mais reaparecer. Nesse ponto, a sucesso dos
eventos se detm, interrompem-se os movimentos terrestres que
mediam o tempo e este finda com eles.
   Quantos mundos na vasta amplido, tantos tempos diversos e
incompatveis. Fora dos mundos, s a eternidade substitui essas
efmeras sucesses e enche, serenamente, da sua luz imvel, a
imensidade dos cus. Imensidade sem limites e eternidade sem
limites, tais as duas grandes propriedades da natureza universal.
   Agem concordes, cada uma na sua senda, para adquirirem esta
dupla noo do infinito: extenso e durao, assim o olhar do
observador, quando atravessa, sem nunca ter de parar, as
incomensurveis distncias do espao, como o do gelogo, que
remonta at muito alm dos limites das idades, ou que desce s
profundezas da eternidade onde eles um dia se perdero".
   Tambm estes ensinamentos a Cincia os confirma. Malgrado 
dificuldade do problema, os fsicos, os gelogos ho tentado
avaliar os inumerveis perodos de sculos decorridos desde a
formao da nossa Terra e as mais fracas avaliaes mostram quo
infantis eram os seis mil anos da Bblia.
   Segundo Sir Charles Lyell, que empregou os mtodos usados em
Geologia -- mtodos que consistem em avaliar-se a idade de um
terreno pela espessura da cmara sedimentada e a rapidez provvel
da sua eroso --, ao cabo de numerosas observaes feitas em todos
os pontos do globo, mais de trezentos milhes de anos transcorreram
depois da solidificao das camadas superficiais do nosso esferide.
   As experincias do professor Bischoff sobre o resfriamento do
basalto, diz Tyndall (174), parecem provar que, para se resfriar de
2.000 graus a 200 graus centgrados, precisou o nosso globo de 350
milhes de anos. Quanto  extenso do tempo que levou a condensao
por que teve de passar a nebulosa primitiva para chegar a
constituir o nosso sistema planetrio, essa escapa inteiramente 
nossa imaginao e s nossas conjeturas (175). A histria do homem
no passa de imperceptvel ondulao na superfcie do imenso oceano
do tempo.
  ::::::::::
  (174) Tyndall -- "O calor", pg. 423.
  (175) Sabe-se que o dimetro do Sol era, primitivamente, o da
prpria nebulosa. Para se fazer uma idia do calor gerado pelo
fenmeno colossal da condensao, basta lembrar que se calculou
que, se o dimetro do Sol se encurtasse da dcima milsima parte do
seu valor, o calor gerado por essa condensao chegaria para manter
durante 21 sculos a irradiao atual, que  igual, por ano, ao
calor que resultaria da combusto de uma camada de hulha de 27
quilmetros de espessura, cobrindo completamente o Sol. Se a
diminuio de 1,10000 graus centgrados do disco solar corresponde
a 21 sculos de irradiao, v-se que nmero formidvel, gigantesco,
de sculos empregou a nebulosa solar para se reduzir ao volume
atual do nosso astro central.
  ::::::::::
   Entremos agora no estudo do nosso planeta e vejamos quais os
ensinos dos espritos sobre a matria e a fora.

   A unidade da matria.

   " primeira vista, nada parece to profundamente variado, to
essencialmente distinto, quanto as diversas substncias que compem
o mundo. Entre os objetos que a arte ou a natureza diariamente nos
fazem passar sob as vistas, no h dois que acusem perfeita
identidade, ou, sequer, simples paridade de composio. Que
dissemelhana, do ponto de vista da solidez, da compressibilidade,
do peso e das propriedades mltiplas dos corpos, entre os gases
atmosfricos e um fio de ouro; entre a molcula aquosa da nuvem e a
do mineral que forma a carcaa ssea do globo! Que diversidade
entre o tecido qumico das variadas plantas que adornam o reino
vegetal e o dos representantes, no menos numerosos, da animalidade
na Terra!
   Entretanto, podemos pr por princpio absoluto que todas as
substncias, conhecidas ou desconhecidas, por mais dissemelhantes
que paream, quer do ponto de vista da constituio ntima, quer
no que concerne  ao que reciprocamente exercem, no so, de
fato, seno modos diversos sob os quais a matria se apresenta,
seno variedades em que ela se transformou, sob a direo das
inmeras foras que a governam.
   Decompondo todos os corpos conhecidos, a Qumica chegou a um
certo nmero de elementos irredutveis a outros princpios; deu-lhes
o nome de corpos simples e os considera primitivos, porque nenhuma
operao at hoje pde reduz-los a partes relativamente mais
simples do que eles prprios.
   Mas, mesmo onde param as apreciaes do homem, auxiliado pelos
seus mais impressionveis sentidos artificiais, a obra da Natureza
continua mesmo onde o vulgo toma como realidade a aparncia, o
olhar daquele que pde apreender o modo de agir da natureza, apenas
v, sob os materiais constitutivos do mundo, a matria csmica
primitiva, simples e una, diversificada em certas regies, na poca
do nascimento deles, distribuda em corpos solidrios durante a
vida e que, por, decomposio se desmembram um dia no receptculo
da extenso.
   Tal diversidade se observa na matria, porque, sendo em nmero
ilimitado as foras que lhe presidiram s transformaes e as
condies em que estas se produziram, ilimitadas no podiam tambm
deixar de ser as prprias combinaes vrias da matria.
   Logo, quer a substncia que se considere pertena aos fludos
propriamente ditos, isto , aos corpos imponderveis, quer se ache
revestida dos caracteres e das propriedades ordinrias da matria,
no h, em todo o Universo, mais do que uma nica substncia
primitiva: o cosmos, ou matria csmica dos urangrafos".
   O ensino  claro, formal: existe uma matria primitiva, da qual
decorrem todos os modos que conhecemos. Ter a cincia confirmado
esta maneira de ver? Tomando-se as coisas ao p da letra, no h de
negar que essa substncia ainda no  conhecida; mas, pesando-se
maduramente todos os fatos que vamos expor, torna-se fcil
verificar que, se a demonstrao direta ainda no foi dada, a tese
da unidade da matria  muito provvel e encontra cabimento nas
mais fundamentadas opinies filosficas dos fsicos.

  Justificao desta teoria -- O estado molecular

   Uma das maiores dificuldades com que defrontamos quando queremos
estudar a Natureza  a de no-la representarmos tal qual ela .
Quando se vem massas de mrmore de granulao fina e cerrada,
enormes barras de ferro suportando pesos gigantescos, torna-se
difcil admitir que esses corpos so formados de partculas
excessivamente pequenas, que no se tocam, chamadas tomos nos
corpos simples e molculas nos corpos compostos. A extrema
tenuidade desses tomos escapa  imaginao. O p mais impalpvel 
grosseiro, a par da divisibilidade a que pode chegar.
   Disso d Tyndall um exemplo frisante. Dissolvendo-se um grama de
resina pura em 87 gramas de lcool absoluto, deitando-se a soluo
num frasco de gua cristalina e agitando-se fortemente o frasco,
ver-se- o lquido tomar uma colorao azul, devida s molculas da
resina em dissoluo. Pois bem, Huxley, examinando essa mistura com
o seu mais poderoso microscpio, no conseguiu ver partculas
distintas:  que elas tinham, de tamanho, menos de um quarto do
milsimo de milmetro!
   Tambm o mundo vivente  formado de molculas orgnicas, em que
os tomos entram como partes constituintes. Segundo o Padre Secchi,
em certas ditomas circulares, de dimetro igual ao comprimento de
uma onda luminosa (dois milsimos de milmetro), se podem contar,
sobre esse dimetro, mais de cem clulas, cada uma das quais
composta de molculas de diferentes substncias!
   Outros vegetais e infusrios microscpicos so menores, em
tamanho, do que uma onda luminosa e, no entanto, possuem todos os
rgos necessrios  nutrio e s funes vitais. Em suma,  quase
indefinita a divisibilidade da matria, pois, se considerarmos que
um miligrama de anilina pode colorir uma quantidade de lcool cem
milhes de vezes maior, foroso ser desistir de fazer qualquer
idia das partes extremas da matria.
   E esses infinitamente pequenos se acham separados uns dos outros
por distncias maiores do que os seus dimetros; esto
incessantemente animados de movimentos diversos e a mais compacta
massa, o metal mais duro so apenas agregados de partculas
semelhantes, porm afastadas umas das outras, em vibraes ou
geraes perptuas e sem contacto material entre si. A
compressibilidade, isto , a faculdade que possuem todos os corpos
de ser comprimidos, ou, por outra, de ocupar um volume menor, pem
essa verdade fora de toda dvida.
   A difuso, isto , o poder que tm duas substncias de se
penetrarem mutuamente, tambm mostra que a matria no  contnua..
   Examinando-se uma pedra jacente na estrada, julga-se que est em
repouso, pois no  vista a deslocar-se. Quem, no entanto, lhe
pudesse penetrar na intimidade da substncia, logo se convenceria
de que todas as suas molculas se acham em incessante movimento. No
estado ordinrio, esse formigamento  de todo imperceptvel.
Entretanto, poderemos aperceber-nos dele, se bem que de modo
grosseiro, se notarmos que os corpos aumentam ou diminuem de volume,
isto , se dilatam ou contraem -- sem que suas massas sofram
qualquer alterao -- conforme a temperatura neles se eleva ou
decresce. Essas mudanas do a ver que  varivel o espao que
separa as molculas e guarda relao com a quantidade de calor que
os corpos contm no momento em que so observados.
   Desse conhecimento resulta que no interior dos corpos, brutos e
na aparncia imveis, se executa um trabalho misterioso, uma
infinidade de vibraes infinitamente pequenas, um equilbrio que
de contnuo se destri e restabelece, e cujas leis, variveis para
cada substncia, do a cada uma a sua individualidade. Do mesmo
modo que os homens se distinguem uns dos outros segundo a maneira
por que suportam o jugo das paixes ou lutam contra elas, tambm as
substncias minerais se distinguem umas das outras pela maneira por
que suportam os choques e contra eles reagem.
   Ter-se-o estudado esses movimentos internos? Ainda no se
puderam observar diretamente os deslocamentos moleculares, seno na
sua totalidade, pois que os mais poderosos microscpios no nos
permitem ver uma molcula; mas, os fenmenos que se produzem nas
reaes qumicas e a aplicao que se lhes fez da teoria da
transformao do calor em trabalho, e reciprocamente,
possibilitaram comprovar-se que estas ltimas divises da matria
se acham submetidas s mesmas leis que presidem s evolues dos
sis no espao. Tambm ao mundo atmico so aplicadas as regras
fixas da mecnica celeste, o que mostra inegavelmente, a admirvel
unidade que rege o universo. (176)
  ::::::::::
  (176) Berthelot  -- "Ensaio de mecnica qumica", t. II, pg. 757.
  ::::::::::
   Graas aos progressos das cincias fsicas, admite-se hoje que
todos os corpos tm suas molculas animadas de duplo movimento; de
translao ou oscilao em torno de uma posio mediana e de
librao (balano) ou de rotao em torno de um ou muitos eixos.
Esses movimentos se efetuam sob a influncia da lei de atrao. Nos
corpos slidos, as molculas se encontram dispostas segundo um
sistema de equilbrio ou de orientao estvel; nos lquidos,
acham-se em equilbrio instvel; nos gases, esto em movimento de
rotao e em perptuo conflito umas com as outras. (177)
  ::::::::::
  (177) Moutier -- "Termodinmica"
  ::::::::::
   Todos os corpos da Natureza, assim inorgnica, como vivente, se
acham submetidos a essas leis. Seja a asa de uma borboleta, a
ptala de uma rosa, a face de uma donzela, o ar impalpvel, o mar
imenso, ou o solo que pisamos, tudo vibra, gira, se balana ou se
move. Mesmo um cadver, embora a vida o haja abandonado, constitui
um amontoado de matria, cada uma de cujas molculas possui energias
que no lhe podem ser subtradas. Repouso  palavra carente de
sentido.

   As famlias qumicas

   Procedendo  anlise de todas as substncias terrestres,
chegaram os qumicos a reconhec-las devidas a inmeras combinaes
de cerca de 70 corpos simples (178), isto , de 70 elementos que se
no puderam decompor. Fora, pois, de supor-se que h tantas
matrias entre si diferentes, quantos corpos simples. Pura iluso
haveria a, devido  nossa impotncia para reduzir esses corpos a
uma matria uniforme, que ento lhes seria a base.  o que pensavam
Proust e Dumas, quando, no comeo do sculo, procuravam descobrir,
por meio da lei das propores definidas, qual seria a substncia
nica, isto , aquela de que fossem mltiplos exatos os elementos
dos corpos primrios. Dumas chegou a mostrar que no  o hidrognio,
como ento se acreditava, mas uma substncia ainda desconhecida,
cujo equivalente, em vez de ser a unidade, seria a metade desta:
0,5.
  ::::::::::
  (178) Ainda no est definitivamente determinado o nmero dos
corpos simples. Todos os dias, com efeito, se descobrem novos,
principalmente no estado gasoso: o argnio, o metargnio, o
criptnio, o xennio, o nenio, etc.
  ::::::::::
   Os fsicos partidrios da teoria do ter -- e hoje so todos --
vo ainda mais longe do que os qumicos. A matria desconhecida,
pela razo mesma de ter por equivalente 0,5 , seria pondervel, at
para os instrumentos de que o homem dispe. Ora, o ter, que enche
o Universo,  impondervel; donde se segue que a substncia
hipottica dos qumicos, a ter por peso metade do hidrognio, seria,
quando muito, uma das primeiras condensaes ou um dos primeiros
agrupamentos do ter. Assim, pois, seria o ter, segundo os fsicos,
a matria nica constitutiva de todos os corpos.
   "O estudo da luz e da eletricidade, diz o Padre Secchi, nos h
levado a considerar infinitamente provvel que o ter mais no  do
que a prpria matria, chegada ao mais alto grau de tenuidade, a
esse estado de rarefao extrema a que se chama estado atmico.
Conseguintemente, todos os corpos seriam apenas agregados dos
prprios tomos desse fludo". (179)
  ::::::::::
  (179) "Unidade das Foras fsicas", pg. 604.
  ::::::::::
   Estas maneiras tericas de ver se originam dos seguintes fatos
qumicos:
   Primeiro -- Nos corpos simples existem verdadeiras famlias
naturais;
   Segundo -- Um grupo composto, cujos elementos se conheam, pode
desempenhar o papel de um corpo simples; um corpo dito simples pode
ser decomposto;
   Terceiro -- Corpos formados exatamente dos mesmos elementos,
reunidos estes, nas mesmas propores, tm, entretanto, propriedades
diferentes;
   Quarto -- A anlise espectral revela a existncia primitiva de
uma s substncia nas estrelas mais quentes, em geral o hidrognio.
   Examinemos rapidamente to interessantes fatos.
   Se atentarmos nos diferentes corpos simples, convencer-nos-emos
de que no so de ordem fundamental as suas divergncias, visto que
eles podem grupar-se em sries de famlias naturais. Essa diviso,
fundada em analogias manifestas que alguns deles apresentam, uns
com relao aos outros, oferece uma vantagem que se no pode negar,
porquanto, feito estudo profundo do corpo mais importante, a
histria dos outros, salvo questes de detalhes se deduz
naturalmente desse estudo. A semelhana na maneira de se
comportarem mostra que essas matrias apresentam analogias de
composio e, portanto, que elas no so to dissemelhantes quanto
pareciam  primeira vista.
   No lhes  peculiar a individualidade que apresentam os corpos
simples. H corpos compostos, como o cianognio -- formado pela
combinao do carbono com o azoto --, que, nas reaes, desempenham
o papel de um corpo simples.  claro que, se se no houvesse podido
separar os elementos constituintes do cianognio, tambm ele
houvera sido classificado entre os corpos simples. Alis, com os
mtodos aperfeioados da cincia, tais como a anlise espectral, j
se pode saber que o ferro, por exemplo  formado de elementos mais
simples, embora ainda no se haja conseguido isolar estes ltimos.
Mas, o que no se conseguiu com relao ao ferro, William Crookes
realizou com referncia ao trio. Podemos, pois, prever prxima a
poca em que desaparecer a demarcao entre os corpos simples. O
mesmo poder de anlise, que limitou a inumervel multido das
substncias naturais, minerais, vegetais e animais, a alguns
elementos apenas, certamente nos conduzir  descoberta da matria
nica de onde todas as outras derivam.
   Os fenmenos da alotropia e da isomeria justificam essa
expectativa.

   A isomeria

   H corpos simples, quais o fsforo, que revelam propriedades
diferentes, sem que se lhes tenha acrescentado ou subtrado a menor
parcela de matria. Toda gente sabe que o fsforo  branco, venenoso
e muito inflamvel. Entretanto, se, durante algum tempo, for exposto
 luz no vcuo, ou se for aquecido em vaso fechado, ele muda de cor
e se torna de um belo vermelho. Nesse estado,  inofensivo, do ponto
de vista da sade, e deixa de incendiar-se pelo atrito. Contudo, a
mais severa anlise no logra descobrir qualquer diferena na
composio qumica do fsforo vermelho ou branco. O carvo pode
tomar a forma de diamante ou de grafite; o enxofre apresenta
modificaes caractersticas, conforme o estado em que se encontre;
o oxignio se torna ozona. A todos estes diferentes estados do mesmo
corpo foi dada a denominao de alotrpicos.
   Esses caracteres to opostos, que a mesma substncia pode denotar,
so devidos a mudanas que se lhes operam no ntimo. As molculas se
grupam diferentemente, ao mesmo tempo que seus movimentos se
modificam. Da, as variaes que se produzem nas suas respectivas
propriedades.
    to verdade isto, que corpos muito diferentes pelas suas
propriedades, tais como as essncias de terebintina, de limo, de
laranja, de alecrim, de basilisco, de pimenta, so todavia formadas
todas da combinao de dezesseis equivalentes de hidrognio com
vinte equivalentes de carbono.
   Essa ordem especial das partculas associadas, chamadas molculas,
se tornou visvel por meio da cristalizao.
   Se nos lembrarmos de que todos os tecidos dos vegetais e dos
animais so formados, principalmente, de combinaes variadas de
quatro gases apenas: o hidrognio, o oxignio, o carbono e o azoto,
aos quais se adicionam fracas quantidades de corpos slidos em
nmero muito reduzido, compreenderemos a inesgotvel fecundidade da
natureza e os infinitos recursos de que ela dispe para, grupando
tomos, formar molculas que, a seu turno, se podem agregar entre si
com a mesma diversidade de maneiras.
   Se se complicarem essas disposies por meio dos movimentos de
translao e de rotao peculiares aos tomos e molculas, possvel
se torna conceber-se que todas as propriedades dos corpos esto
intimamente ligadas a to diversos arranjos, to variados e to
diferentes uns dos outros.
   Numa srie de memrias muito relevantes, o astrnomo Normann
Lockyer fez notar que a anlise espectral do ferro contido na
atmosfera solar permite se conclua com certeza que esse corpo no 
simples; que  um grupo complexo, tendo por base um metal ainda
desconhecido. Somente, porm, nas altas temperaturas da fornalha
ardente do nosso astro central essa dissociao se torna aparente.
Nenhuma temperatura terrestre seria capaz de produzi-la.
   Esse eminente qumico dos espaos estelares estudou os espectros
das estrelas, desde as mais quentes at as que se acham prestes a
extinguir-se, e mostrou que o nmero dos corpos simples aumenta, 
medida que a temperatura diminui. Quer isso dizer que eles nascem
sucessivamente, pois que cada massa se acha isolada no espao e
nenhuma partcula de matria recebe do exterior, por mais
insignificante que seja.
   Em suma, a idia de uma matria nica, donde necessariamente
derive tudo o que existe, est hoje admitida pelos sbios e os
Espritos que no-la preconizaram esto de acordo com a cincia
contempornea. Veremos se a continuao de seus ensinos  to
verdadeira quanto as suas primeiras asseres.

   CAPTULO III

   O MUNDO ESPIRITUAL E OS FLUDOS

   SUMRIO:
   As foras -- Teoria mecnica do calor -- Conservao da
energia -- O mundo espiritual -- A energia e os fluidos -- Estudo
detalhado sobre os fluidos: estados slido, lquido, gasoso,
radiante, ultra-radiante e fludico -- Lei de continuidade dos
estados fsicos -- Quadro das relaes da matria e da energia --
Estudo sobre a ponderabilidade.

   As foras

   Citemos de novo o nosso instrutor espiritual. (180)
  ::::::::::
  (180) Allan Kardec  -- "A gnese", cap. VI, "Uranografia geral",
nmeros 8, 10 e 11, ed. FEB.
  ::::::::::
   "Se um desses seres desconhecidos que consomem a efmera
existncia nas regies tenebrosas do fundo do oceano, se um desses
poligstricos, dessas nereidas -- miserveis animlculos que da
Natureza unicamente conhecem os peixes ictifagos e as florestas
submarinas -- recebesse de sbito o dom da inteligncia, a faculdade
de estudar o seu mundo e de levantar sobre as suas apreciaes um
raciocnio conjetural, abrangendo a universalidade das coisas, que
idia faria da Natureza viva que se desenvolve no meio em que ele
vive e do mundo terrestre existente fora do campo de suas
observaes?
   Se, depois, por um efeito maravilhoso do seu novo poder, esse
mesmo ser chegasse a elevar-se acima das suas trevas eternas, 
superfcie do mar, no longe das margens opulentas de uma ilha de
rica vegetao, ao banho fecundante do Sol, dispensador de calor
benfazejo, que juzo faria ele dos seus juzos anteriores, acerca da
Criao Universal? No substituiria de pronto a teoria que houvesse
construdo por uma apreciao mais ampla, porm, ainda to
incompleta, relativamente, quanto a primeira. Tal,  homens! A
imagem da vossa cincia, toda especulativa'''
   H um fluido etreo, que enche o espao e penetra nos corpos.
Esse fluido  a matria csmica primitiva, geratriz do mundo e dos
seres. So inerentes ao ter as foras que presidiram s
metamorfoses da matria, as leis imutveis e necessrias que regem o
mundo. Essas foras mltiplas, indefinidamente variadas segundo as
combinaes da matria, localizadas segundo as massas,
diversificadas, quanto ao modo de ao, segundo as circunstncias e
o meio, so conhecidas na Terra sob o nome de gravidade, coeso,
afinidade, atrao, magnetismo, eletricidade. Os movimentos
vibratrios do agente so os de: som, calor, luz, etc.
   Ora, assim como uma nica  a substncia simples, primitiva,
geratriz de todos os corpos, mas diversificada em suas combinaes,
tambm todas essas foras dependem de uma lei universal,
diversificada em seus efeitos, lei que lhes est na origem e que,
pelos decretos eternos, foi soberanamente imposta  Criao, para
lhe constituir a harmonia e a estabilidade permanentes.
   A Natureza jamais est em oposio a si mesma. Uma s  a divisa
no braso do Universo: Unidade. Remontando-se  escala dos mundos,
encontra-se unidade de harmonia e de criao, ao mesmo tempo que uma
variedade infinita nessa imensa platia de estrelas;
percorrendo-se-lhes os degraus da vida, desde o ltimo dos seres at
Deus, a grande lei de continuidade se patenteia; considerando-se as
foras em si mesmas, pode-se formar com elas uma srie, cuja
resultante, a confundir-se com a geratriz,  a lei universal'''
   Todas essas foras so eternas e universais, como a criao.
Sendo inerentes ao fludo csmico, elas necessariamente atuam em
tudo e em toda parte, modificando, sucessivamente, ou pela
simultaneidade, ou pela sucessividade, as aes que exercem. So
predominantes aqui, ali apagadas, poderosas e ativas em certos
pontos, latentes ou secretas noutros. Mas, finalmente, esto sempre
preparando, dirigindo, conservando e destruindo os mundos em seus
diversos perodos de vida, governando os maravilhosos trabalhos da
Natureza, em qualquer parte onde eles se executem, assegurando para
sempre o eterno esplendor da Criao".
   Difcil dizer melhor e exprimir de maneira to elevada quanto
concisa os resultados todos a que a cincia tem chegado e nos h
feito conhecer.
   Escapa ao poder do homem criar qualquer parcela de energia, ou
destruir a que existe. Transformar um movimento em outro  tudo o
que lhe est ao alcance. O mundo da mecnica diz Balfour Stewart
(181), no  uma manufatura criadora de energia, mas um como mercado
ao qual podemos levar certa espcie particular de energia e troc-la
por um equivalente de energia de outro gnero, que mais nos
convenha''' Se l chegarmos sem coisa alguma nas mos, podemos ter a
certeza de voltar sem coisa alguma.
  ::::::::::
  (181) Balfour Stewart -- "A conservao da Energia".
  ::::::::::
    absurdo, diz o Padre Secchi, admitir-se que o movimento, na
matria bruta, possa ter outra origem que no o prprio movimento.
   Assim, no se pode criar a energia e firmado est que ela no
pode destruir-se. Onde um movimento cessa, imediatamente aparece o
calor, que  uma forma equivalente desse movimento. Esta a grande
verdade formulada sob o nome de conservao de energia, idntica 
lei de conservao da matria.
   Assim como esta no pode ser aniquilada (182) e apenas passa por
transformaes, tambm a energia  indestrutvel; experimenta
to-s mudanas de forma. At ao sculo XIX, a prtica diuturna dava,
na aparncia, motivos para crer-se que a energia era parcialmente
suprimida.
  ::::::::::
  (182) Lembramos que os fenmenos da radioatividade parecem
demonstrar que a matria se transforma em energia e que, portanto,
no se aniquila substancialmente; apenas muda de estado e perde suas
qualidades materiais.
  ::::::::::
   Pertence a J. R. Mayer, mdico de Heilbronn (reino do
Wurtembertg), ao dinamarqus Colding e ao fsico ingls Joule a
glria de terem demonstrado que nem uma s frao de energia se
perde e que  invarivel a quantidade total de energia de um sistema
fechado. Essa demonstrao, conhecida sob a denominao de teoria
mecnica do calor, constitui uma das mais admirveis e fecundas
obras do sculo XIX.
   Descobrindo a que quantidade exata de calor corresponde um certo
trabalho, isto , uma certa quantidade de movimento, a Cincia fez
que a indstria mecnica desse um passo gigantesco. Aplicando
semelhante descoberta  Qumica, fez esta entrasse para o rol das
cincias finitas, isto , daquelas cujos fenmenos se podem reduzir
todos a frmulas matemticas. Finalmente, em Fisiologia, as noes
de que tratamos deram lugar a que se achasse a medida precisa da
intensidade da fora vital.
   Mas, no se limitou a isso o estudo experimental da energia.
Conseguiu-se demonstrar que todas as diferentes formas que ela
assume: calor, luz, eletricidade, etc., podem transformar-se umas
nas outras, de maneira que uma daquelas manifestaes  capaz de
engendrar todas as demais.
   Dessas descobertas experimentais decorre que as foras naturais,
conforme ainda hoje se chamam, no so mais do que manifestaes
particulares da energia universal, ou, em ltima anlise, dos
modos de movimento. O problema da unidade e da conservao da fora
foi, pois, resolvido pela cincia moderna.
   Possvel se tornou comprovar no universo inteiro a unidade dos
dois grandes princpios: fora e matria.
   A luneta e o telescpio permitiram se visse que os planetas
solares so mundos quais o nosso, pela forma, pela constituio e
pela funo que preenchem. Nem s, porm, o nosso sistema obedece a
tais leis, todo o espao celeste est povoado de criaes
semelhantes, evidenciando a semelhana de organizao das massas
totais do Universo, ao mesmo tempo que a uniformidade sideral das
leis da gravitao.
   Os sis ou estrelas, as nebulosas e os cometas foram estudados
pela anlise espectral, que demonstrou serem compostos esses mundos,
to diversos, de materiais semelhantes aos que conhecemos na Terra.
A mecnica qumica e fsica dos tomos  a mesma l, que neste mundo.
, pois, em tudo e em toda parte, a unidade fundamental
incessantemente diversificada.
   Que confirmao magnfica daquela voz do espao que, h cinqenta
anos, afirmava que eterna  a fora e que as sries dissemelhantes
de suas aes tm uma resultante comum, que se confunde com a
geratriz, isto , com a lei universal!
   Assim, portanto: fora nica, matria nica, indefinidamente
variadas em suas manifestaes, tais as duas causas do mundo visvel.
Existir outro, invisvel e sem peso? Interroguemos de novo os
nossos instrutores do Alm. Eles respondem afirmativamente e cremos
que tambm quanto a isso a Cincia no os desmentir.

   O mundo espiritual (183)

  ::::::::::
  (183) Allan Kardec -- "A Gnese", cap. XIX, "Os fluidos", nmeros 2
e 3, ed. FEB.
  ::::::::::
   "O fluido csmico universal, como foi ensinado,  a matria
elementar primitiva, cujas modificaes e transformaes constituem
a inumervel variedade dos corpos da Natureza. Como elementar
princpio universal, ele se apresenta em dois estados distintos; o
de eterizao ou imponderabilidade, que se pode considerar o estado
normal primitivo, e o de materializao ou de ponderabilidade, que,
de certo modo,  apenas consecutivo quele. O ponto intermdio  o
da transformao do fluido em matria tangvel; mas, ainda a no h
transio brusca, pois que os nossos fluidos imponderveis podem
considerar-se um termo mdio entre os dois estados.
   No estado de eterizao, o fluido csmico no  uniforme; sem
deixar de ser etreo, sofre modificaes to variadas, em gnero,
seno mais numerosas, quanto no estado de matria tangvel.
   Essas modificaes constituem fluidos distintos que, embora
procedendo do mesmo princpio, so dotados de propriedades especiais
e do lugar aos fenmenos particulares do mundo invisvel.
   Sendo tudo relativo, esses fluidos tm para os Espritos uma
aparncia to material, como a dos objetos tangveis para os
encarnados e so para eles o que so para ns as substncias do
mundo terrestre. Eles os elaboram e combinam para produzir
determinados efeitos, como fazem os homens com os seus materiais, se
bem que por processos diferentes.
   L, entretanto, como neste mundo, s aos Espritos mais
esclarecidos  dado compreender o papel dos elementos constitutivos
do mundo deles. Os ignorantes do mundo invisvel so to incapazes
de explicar os fenmenos que observam e para os quais concorrem,
muitas vezes maquinalmente, como o so os ignorantes da Terra para
explicar os efeitos da luz ou da eletricidade e para dizer como os
vem e entendem".
    admiravelmente justo o que se acaba de ler. Interrogai ao acaso
dez pessoas que passem pela rua, perguntando-lhes quais so as
operaes sucessivas da digesto ou da respirao e ficai certos de
que nove delas no sabero responder-vos. No entanto, em nossa poca,
a instruo, j se acha bastante disseminada. Mas, quo poucos se
do ao trabalho de aprender ou de refletir!
   "Os elementos fludicos do mundo espiritual fogem aos nossos
instrumentos de anlise e  percepo dos nossos sentidos, feitos
que estes so para a matria tangvel e no para a etrea. Alguns h
peculiares a um meio to diferente do nosso, que no podemos fazer
deles idia, seno mediante comparaes to imperfeitas como aquelas
pelas quais um cego de nascena procura fazer idia da teoria das
cores.
   Mas, dentre esses fluidos, alguns se acham intimamente ligados 
vida corprea e pertencem de certo modo ao meio terrestre. Em falta
de percepo direta, podem observar-se-lhes os efeitos e adquirir,
sobre a natureza deles, conhecimentos de certa exatido.  essencial
esse estudo, porquanto constitui a chave de uma multido de
fenmenos que s com as leis da matria se no explicam.
   No seu ponto de partida, o fludo universal se acha em grau de
pureza absoluta, da qual nada nos pode dar idia. O ponto oposto  o
da sua transformao em matria tangvel. Entre esses dois extremos,
h inmeras transformaes, mais ou menos aproximadas de um ou de
outro. Os fluidos mais prximos da materialidade, os menos puros
conseguintemente, compem o que se poderia chamar a atmosfera
espiritual da Terra.  desse meio, no qual tambm diferentes graus
de pureza existem, que os Espritos encarnados ou desencarnados
extraem os elementos necessrios  economia de suas existncias. Por
muito sutis e impalpveis que sejam para ns, no deixam esses
fluidos de ser de natureza grosseira, comparativamente aos fluidos
etreos das regies superiores.
   No  rigorosamente exata a qualificao de fluidos espirituais,
porquanto, em definitivo, eles so sempre matria mais ou menos
quintessenciada. De realmente espiritual, h s a alma ou princpio
inteligente. Eles so qualificados de espirituais, em comparao e,
sobretudo, em razo da afinidade que guardam com os Espritos. Pode
dizer-se que so a matria do mundo espiritual. Da o serem
denominados fluidos espirituais.
   Quem, ao demais, conhece a constituio ntima da matria
tangvel? Ela possivelmente s  compacta com relao aos nossos
sentidos. Prov-lo-ia a facilidade com que a atravessam os fluidos
espirituais (184) e os Espritos, aos quais ela no ope obstculos
maior, do que o que  luz oferecem os corpos transparentes.
  ::::::::::
  (184) E podemos hoje acrescentar: pelos raios X e pelas emanaes
radioativas. Quem ousaria duvidar da clarividncia dos nossos guias
espirituais, desde que eles h longo tempo ensinam o que s agora a
cincia descobre?
  ::::::::::
   Tendo por elemento primitivo o fluido csmico etreo, h de a
matria tangvel ter a possibilidade de voltar, desagregando-se, ao
estado de eterizao, como o diamante, que  o mais duro dos corpos,
pode volatizar-se sem gs impalpvel. A solidificao da matria
mais no , em realidade, do que um estado transitrio do fludo
universal, que pode volver ao seu estado primitivo, quando deixam de
existir as condies de coeso.
   Quem sabe mesmo se, no estado de tangibilidade, a matria no 
suscetvel de adquirir uma espcie de eterizao, que lhe d
propriedades particulares? Certos fenmenos, que parecem autnticos,
tenderiam a faz-lo supor. Ainda no possumos seno as balizas do
mundo invisvel e o futuro sem dvida nos reserva o conhecimento de
novas leis que permitiro se conhea o que para ns continua a ser
mistrio".
   Vejamos agora, por meio das modernas descobertas, se so exatas
estas concepes.

   A energia e os fluidos

   At h pouco, a Cincia negava a existncia de estados
imponderveis da matria e a hiptese do ter estava longe de ser
unanimemente admitida, apesar da sua necessidade para tornar
compreensveis os diversos modos da fora. Atualmente, j a negao
no ser talvez to absoluta, pois que toda uma categoria de novos
fenmenos veio mostrar a matria revestida de propriedades de que
nem se suspeitava.
   A matria radiante dos tubos de Crookes revela as energias
intensas que parecem inerentes s ltimas partculas da substncia.
Os raio x, que nascem no ponto em que os raios catdicos tocam o
vidro da empola, ainda mais singulares so, porquanto se propagam
atravs de quase todos os corpos e tm propriedades fotognicas, sem
serem visveis de si mesmos. Finalmente, as experincias espritas
de Wallace, de Beattie, de Aksakof consignam, fotografados, esses
estados da matria invisvel, que concorrem para a produo dos
fenmenos espritas.
   O Dr. Baraduc, o comandante Darget, o Dr. Adam, o Dr. Luys, o Sr.
David e as experincias do Sr. Russel (185) pem de manifesto essas
foras materiais que emanam constantemente de todos os corpos, mas,
sobretudo, dos corpos vivos, e os clichs que se obtm so
testemunhos irrecusveis da existncia desses fludos (186).
  ::::::::::
  (185) Veja-se a "Revue Scientifique et Morale du Spiritisme".
Segundo ano, nmero de julho de 1897, e nmeros de maio, junho e
julho de 1898.
  (186) "Revue Scientifique", de 25 de dezembro de 1897 -- Influncia
dos metais sobre a chapa fotogrfica, a distncia e na obscuridade.
  ::::::::::
   Assistimos, presentemente,  demonstrao cientfica desses
estados imponderveis da matria antes to obstinadamente repelidos.
Mais uma vez, confirma-se o ensino dos Espritos, sendo a prova de
veracidade das suas revelaes dada por pesquisadores que no
partilham das nossas idias e que, portanto, no podem ser
suspeitados de complacncia.
    necessrio que o pblico, ao ouvir-nos falar de fludos, se
habitue a no ver nessa expresso um termo vago, destinado a
mascarar a nossa ignorncia.  necessrio fique ele bem persuadido
de que estamos constantemente mergulhados numa atmosfera invisvel,
intangvel pelos nossos sentidos, porm, to real, to existente,
quanto o prprio ar.
   No  certo que as maiores inteligncias do sculo, os mais
hbeis analistas, qumicos e fsicos ho vivido em contacto com o
argnio, o novo gs que faz parte integrante do ar, sem lhe
suspeitarem a presena? Esse exemplo deve inspirar modstia a todos
quantos orgulhosamente proclamam que sabem todas as coisas e que a
Natureza nenhum mistrio mais lhe guarda. A verdade  que ainda
somos muito ignorantes e que a nossa existncia se escoa num lugar
do qual s pequenssima parte conhecemos.
   O de que todos se devem bem compenetrar  de que a atmosfera que
nos circunda contm seres e foras cuja presena normal somos
incapazes de apreciar. O ar se encontra povoado de organismos vivos,
infinitamente pequenos, que no lhe turvam a transparncia. No azul
translcido de um belo dia de vero volteia uma inumervel
quantidade de sementes vegetais, que iro fecundar as flores. Ao
mesmo tempo, o espao se encontra atravancado de bilhes de seres, a
que foi dado o nome de micrbios.
   Todos esses seres evolvem dentro de gases cuja existncia nada
nos revela. O cido carbnico, produzido por tudo o que tem vida ou
se consome, mistura-se aos gases constitutivos do ar, sem que algum
o possa suspeitar. Quase todos os corpos emitem vapores que imergem
nesse laboratrio lmpido e os nossos olhos permanecem cegos para
todos esses corpos to diversos, cada um com a sua funo e a sua
utilidade.
   Tampouco os nossos sentidos nos advertem dessas correntes que
sulcam o globo e desorientam a bssola durante as tempestades
magnticas. S raramente a eletricidade se manifesta sob forma que
nos seja aprecivel. Ela no existe unicamente no instante em que o
raio risca a nuvem, em que repercutem ao longe os roncos do trovo;
antes, atua perpetuamente, por meio de lentas descargas, por meio de
trocas incessantes entre todos os corpos de temperatura diferente.
A prpria luz no a percebemos, seno dentro de limites muito
acanhados. Seus raios qumicos, de ao to intensa, escapam
completamente  nossa viso.
   Somos banhados, penetrados por todos esses eflvios em meio dos
quais nos movemos e longussimo tempo viveu a humanidade sem
conhecer tais fatos que, entretanto, sempre existiram. Foram
necessrias todas as descobertas da cincia, para criarmos sentidos
novos, mais poderosos, mais delicados do que os que devemos 
Natureza. O microscpio nos revelou o tomo vivo, o infinitamente
pequeno; a chapa fotogrfica , ao mesmo tempo, um tato e uma retina,
de incomparveis finura e acuidade de viso.
   O coldio registra as vibraes etreas que nos chegam dos
planetas invisveis, perdidos nas profundezas do espao, e nos
revela a existncia deles. Apanha os movimentos prodigiosamente
rpidos da matria quintessenciada; reproduz fielmente a luz obscura
que todos os corpos  noite irradiam. Se a nossa retina possusse
essa singular sensibilidade, seramos impressionados pelas ondas
ultra-violetas, como o somos pela parte visvel do espectro.
   Pois bem! essa chapa preciosa ainda presta o servio de dar-nos a
conhecer os fludos que emanam do nosso organismo, ou que nele
penetram. Mostra-nos, com irresistvel certeza, que em torno de ns
foras existem, isto , movimentos da matria sutil, que se
diferenam uns dos outros pelos seus caracteres particulares, por
uma assinatura especial. Presentemente, j no se pode duvidar
dessas modalidades, desses avataras da matria.
   H, envolvendo-nos, uma atmosfera fludica incorporada na
atmosfera gasosa, penetrando-a de todos os lados. So ininterruptas
as suas aes;  todo um mundo to variado, to diverso em suas
manifestaes, quanto o  a natureza fsica, isto , a matria
visvel e pondervel. H fluidos grosseiros, como fluidos
quintessenciados, uns e outros com propriedades inerentes ao
respectivo estado vibratrio e molecular, que os tornam substncias
to distintas, quanto o podem ser, para ns, os corpos slidos ou
gasosos.
   Mas, que energias se manifestam nesse meio! Que de mudanas
visveis, de mobilidade, de plasticidade nessa matria sutil! Quanto
ela difere da pesada, compacta e rgida substncia que conhecemos. A
eletricidade nos permite julgar da instantaneidade das suas
transformaes:  um prodgio, uma febre continua.  bem a fluidez
ideal para as to leves, to vaporosas, to instveis criaes do
pensamento.  a matria do sonho, na sua impalpvel realidade.
   Estudando a matria gasosa, chegamos a imaginar esses estados
transcendentes. J, sob a forma radiante, vemos os tomos,
movendo-se com velocidades fantsticas, produzirem fenmenos cuja
intensidade, dada a massa de matria posta em jogo,  realmente
formidvel e essa energia nos faz compreender a fora, em suas
manifestaes superiores de luz, eletricidade, magnetismo, devidas
s rapidssimas ondulaes do ter.
   Torna-se admissvel que esses tomos animados de enormes
velocidades retilneas, girando sobre si mesmos com vertiginosa
rapidez, desenvolvam uma fora centrfuga que anula a atrao
terrestre. Sim,  mais que provvel que eles se diferenciem entre si
pela quantidade de fora viva que individualmente contm e podemos
entrever a inesgotvel variedade de agrupamentos que se constituem
entre essas inmeras formas de substncias.
    o mundo espiritual, o que nos cerca e penetra, em o qual
vivemos. Com ele entramos em relaes por meio do nosso organismo
fludico. Porque possumos um perisprito, possvel se nos faz atuar
sobre esse mundo invisvel  carne.  pela nossa constituio
espiritual que os Espritos tm ao sobre ns e nos podem
influenciar.

   Estudo sobre os fluidos

 to importante a demonstrao da existncia dos fluidos, para a
compreenso dos fenmenos espirituais, que devemos examinar esse
problema sob todos os seus aspectos. A experincia esprita h
demonstrado que a alma se acha revestida de um envoltrio material,
mas invisvel e intangvel no estado normal, e que se move num meio
fsico que carece de peso. Urge, pois, apresentemos todas as razes
que tendem a provar o fato capital da existncia de um mundo
impondervel, porm to real como o em que vivemos.
   Acreditava-se, outrora, que a luz, a eletricidade, o calor, o
magnetismo, etc., eram substncias inteiramente distintas umas das
outras, dotadas de natureza prpria, especial, que as diferenavam
completamente. As pesquisas contemporneas demonstraram falsa
semelhante concepo.
   Nas primeiras idades da cincia, no s parecia que as foras
eram separadas, mas tambm que o nmero delas se multiplicava ao
infinito. Considerava-se cada fenmeno como a manifestao de uma
certa fora. Entretanto, pouco a pouco se reconheceu que efeitos
diferentes podem derivar de uma causa nica. Desde ento, diminuiu
consideravelmente o nmero das foras cuja existncia se admitia.
Newton identificou a gravidade e a atrao, reconhecendo na queda da
ma e na manuteno do astro em sua rbita efeitos de uma mesma
causa: a gravitao universal. Ampare demonstrou que o magnetismo 
apenas uma forma da eletricidade. A luz e o calor, desde longo tempo,
so tidos como manifestaes de uma mesma causa: um movimento
vibratrio extremamente rpido do ter.
   Nos dias atuais, uma grandiosa concepo veio mudar de novo a
face  cincia: a de que todas as foras da Natureza se reduzem a
uma s. A energia ou a fora (so sinnimos os dois termos) pode
assumir todas as aparncias, sendo, alternativamente, calor,
trabalho mecnico, eletricidade, luz e dar origem s combinaes e
decomposies qumicas. s vezes, a fora como que se acha oculta ou
destruda. Simples aparncia. Pode-se sempre encontr-la novamente e
faz-la passar de novo pelo ciclo de suas transformaes.
   Inseparvel da matria, a fora  indestrutvel, fazendo-se
mister que  energia se aplique este princpio: em a Natureza nada
se perde, nem se cria.
    to verdade isto, que, quando um movimento sofre brusca
interrupo, imediatamente uma coisa nova aparece:  o calor. Assim,
um pedao de chumbo, colocado na bigorna, se aquecer violentamente
sob os golpes do martelo do ferreiro; uma bala de artilharia,
batendo num alvo de ferro, poder chegar  temperatura do rubro; as
rodas de um trem em marcha despendem centelhas, quando se apertam
subitamente os freios. Se o movimento da Terra em torno do sol
cessasse instantaneamente, diz Helmholtz que a quantidade de calor
gerado por esse fato seria tal, que faria passar ao estado de vapor
toda a massa terrestre.
   Temos, portanto, que calor e movimento so duas formas
equivalentes da energia, formas que mutuamente se substituem,
tornando-se visvel uma, quando a outra desaparece. Determinou-se
exatamente a que quantidade de calor corresponde uma certa
quantidade de movimento, medida a que se d o nome de equivalente
mecnico do calor.
   Torna-se ento fcil de compreender-se que aquecer um corpo 
aumentar-lhe o movimento interno, isto , o de suas molculas.
Sabemos que, desde o tomo invisvel at o corpo celeste perdido no
espao, tudo se acha sujeito a movimento. Tudo gravita numa rbita
imensa ou infinitamente pequena. Mantidas a uma distncia definida
umas das outras, em virtude do prprio movimento que as anima, as
molculas guardam entre si relaes constantes, que s alteram pela
adio ou subtrao de certa quantidade de movimento. Em geral, a
acelerao do movimento das molculas lhes aumenta as rbitas e as
afasta umas das outras, ou, por outras palavras, aumenta o volume
dos corpos.  justamente por isso que o calor se apresenta como
fonte de movimento.
   Sob sua influncia, as molculas, afastando-se cada vez mais,
fazem que os corpos passem do estado slido ao de lquido, em
seguida ao de gs. Os gases, a seu turno, se dilatam indefinidamente,
pela adio de novas quantidades de calor, isto  -- de movimento --
e, se se criar embarao a essa expanso, ele exercer considervel
presso sobre as paredes do vaso que o contenha.  assim que as
molculas dos gases ou dos vapores, em cativeiro nos cilindros das
locomotivas, transmitem ao mbolo a fora que se emprega para
produzir a trao dos trens, isto , trabalho mecnico.
   Quando, pois, os movimentos moleculares de um corpo se mostrem
grupados de maneira a apresentar, uns com relaes aos outros,
centros fixos de orientao, diremos que esse corpo  slido;
   Quando os movimentos moleculares de um corpo estejam grupados de
maneira que os centros desses grupos sejam mveis, uns com relao
aos outros, o corpo  lquido;
   Quando as molculas de um corpo se movem em todos os sentidos e
colidem umas com as outras milhes de vezes por segundo, o corpo 
chamado gs. (187)
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  (187) Jouffret -- "Na introduo  teoria da Energia",  pg.67,
diz:
   Calculou-se que, a uma presso baromtrica de 760 milmetros, o
nmero mdio dos choques, entre as molculas gasosas seria:
   Primeiro: Para o oxignio, por segundo, 2.065 milhes.
   Segundo: Para o ar, por segundo, 4.560 milhes.
   Terceiro: Para o azoto, por segundo, 4.760 milhes.
   Quarto: Para o hidrognio, por segundo, 9.480 milhes.
   Se a presso baromtrica fosse cem vezes menor, isto  igual a
0 m, 0076, vcuo que apenas as melhores mquinas pneumticas produzem,
a mdia de percurso livre se tornaria cem mil vezes maior, isto 
igual a cerca de um centmetro; o nmero dos choques no seria mais
do que 4.700 por segundo.
  ::::::::::
   Convm notar que,  proporo que a matria passa do estado
slido ao estado lquido, o volume aumenta; depois, do estado
lquido ao gasoso, a dilatao do mesmo peso de matria se torna
ainda maior, de sorte que a matria se rarefaz, ao mesmo tempo que o
movimento molecular se pronuncia. Um litro dgua, por exemplo, d
1.700 litros de vapor, isto , ocupa um volume 1.700 vezes superior
ao que tinha no estado lquido; nessas condies, as atraes
mtuas entre as molculas diminuem e o movimento oscilatrio das
mesmas molculas se torna mais rpido.
   Com efeito, segundo clculos de probabilidades (188), os sbios
chegaram a admitir que se pode considerar constante a velocidade
mdia das molculas para um mesmo gs, qualquer que seja a direo
do caminho percorrido. O valor dessa velocidade mdia, por segundo,
 temperatura do gelo em fuso, isto , a zero graus, e  presso
baromtrica de 760 mm,  de:
   461 metros para as molculas do oxignio;
   485 para as do ar;
   492 para as do azoto;
   1.848 para as do hidrognio.
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  (188) Deleveau -- "A matria", pg. 77. -- Briot -- "Teoria mecnica
do calor", pg. 143.
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   Tais velocidades so comparveis  de um projtil  sada de uma
arma de grande alcance. A velocidade das molculas  tanto maior,
quanto mais leve  o gs, isto , quanto menos matria contm na
unidade de volume. Logo, se num tubo fechado se fizer o vcuo to
perfeito quanto possvel e se se obrigarem as molculas restantes a
mover-se em linha reta, por meio da eletricidade, obter-se- o
estado radiante que Crookes descobriu.
   Como muito se fala desse estado especial, expliquemos claramente
em que consiste ele.
   Sabemos que os gases se compem de um nmero indefinito de
particulazinhas em incessante movimento e animadas, conforme suas
naturezas, de velocidades de todas as grandezas.
   Sabemos igualmente que, em conseqncia do nmero imenso delas,
essas partculas no podem mover-se em nenhuma direo, sem se
chocarem, quase imediatamente, com outras partculas.
   Que se dar se, de um vaso fechado, se retirar grande parte do
gs ali encerrado?  claro que, quanto mais diminuir o nmero das
molculas do gs, tanto menos oportunidade tero as que restarem de
chocar-se umas com as outras. Pode-se, pois, induzir que, num vaso
fechado, onde se faa cada vez maior vazio, crescer a distncia que
qualquer molcula poder percorrer, sem se chocar com outras.
Teoricamente, o comprimento do percurso livre, isto , o comprimento
da distncia que uma molcula qualquer poder percorrer, sem colidir
com outra, estar na razo inversa das molculas restantes, ou, o
que vem a dar no mesmo, na razo direta do vcuo produzido.
   Como, no estado gasoso ordinrio, as molculas se acham em
coliso continua umas com as outras; como essa coliso continua 
precisamente o que determina as propriedades fsicas do gs,
segue-se que, se as molculas percorrem espaos maiores sem se
chocarem, dessa diferena na maneira de se comportarem ho de
decorrer propriedades fsicas diferentes e, por conseguinte, um
estado novo para a matria. O quarto estado ser to distante do
estado gasoso, quanto este o  do estado lquido. Foi o que Crookes
experimentalmente demonstrou.
   Aqui se acusa nitidamente a lei que assinalamos, segundo a qual
quanto mais rarefeita  a matria, tanto mais rpido  o movimento
molecular.  tal a velocidade destas ltimas partculas da matria,
que os metais mais refratrios, submetidos ao bombardeio das
molculas, no tardam a tornar-se rubros e mesmo a fundir-se, se a
ao for suficientemente prolongada. Nesse estado, a matria, se bem
que excessivamente rara, ainda tem um peso aprecivel, no por meio
da balana, mas por meio do raciocnio. O vcuo produzido  tal, que,
se supusermos a presso baromtrica ordinria representada por uma
coluna de mercrio da altura de 4.800 metros, a presso da matria
radiante no poder equilibrar mais de um quarto de milmetro de
mercrio! Ela ainda tem peso, o que explica que conserva suas
propriedades qumicas, porquanto no h dissociao.
   Mas, se acompanharmos a cincia em suas indues, ser-nos-
possvel conceber um estado em que a matria se ache to rarefeita
que o seu movimento molecular a liberte da atrao terrestre.  o
ter dos fsicos que primeiro realiza essa concepo. Para serem
compreensveis os diversos aspectos da energia, imaginou-se o
Universo cheio de uma substncia impondervel, perfeitamente
elstica, a qual, graas  sua sutileza, penetraria todos os corpos.
Conforme vibre mais ou menos rapidamente, essa matria d lugar aos
fenmenos que para ns se traduzem em sensaes de calor, sendo as
mais lentas as vibraes; de eletricidade, se forem as mais rpidas;
de raios obscuros, se for atividade qumica; finalmente, s
vibraes excessivamente rpidas da luz visvel e invisvel.
   Ser a, porm, o limite extremo que no se possa ultrapassar nas
pesquisas? No, pois sabemos, pela experincia esprita, que os
Espritos tm um corpo fludico, que nenhuma das formas da energia
pode influenciar. Nem os frios intensos dos espaos interplanetrios,
que chegam a 273 graus abaixo de zero, nem a temperatura de muitos
milhares de graus dos sis qualquer influncia exercem sobre a
matria perispirtica.  que esse invlucro da alma procede do
fludo csmico universal, isto , da substncia em sua forma
primitiva. Nenhuma mudana poder atingi-la; ela, em sua essncia, 
imutvel. No se acha sujeita s decomposies, por no poder
simplificar-se, uma vez que se encontra no estado inicial, ltimo
tempo a que ho de fatalmente ir ter todas as mutaes. Mesclam mais
ou menos o perisprito os fluidos do planeta a que o Esprito se
acha ligado. O trabalho da alma consiste justamente em desembaraar
o seu corpo fludico de todas as escrias que se lhe agregaram,
desde a origem da sua evoluo.
   Entre esse estado perfeito -- em que o mnimo de matria 
animado do mximo de fora viva -- e o estado slido a 273 graus --
em que o mximo de matria contm o mnimo de movimentos
vibratrios -- h uma infinidade de graus que formam a escala de
todas as modalidades possveis da matria. Estamos pois,
cientificamente autorizados a dizer que os fludos no so simples
criaes da imaginao; que eles correspondem, no mundo fsico, a
realidades positivas, a estados ainda no descobertos -- mas que a
matria radiante, os raios X, o fluido que impressiona as chapas
fotogrficas e o ter -- nos animam a conceber como existentes de
fato. No  de duvidar-se que pesquisas ulteriores faro se
descubram mais tarde essas modificaes to variadas dos estados da
substncia primitiva,  medida que se aperfeioem os nossos meios de
investigao e que a cincia voltar suas vistas para o invisvel e
para o imaterial, em vez de se acantonar por sistema no domnio
grosseiramente tangvel e cujo territrio  to limitado.
   Alis, a fora da evoluo obriga fatalmente os retardatrios a
abrir o intelecto s novas concepes. A fotografia do invisvel,
quer opere nas insondveis profundezas da extenso, quer penetre no
interior das substncias opacas, patenteia ao esprito
possibilidades que, h alguns anos apenas, seriam tachadas de
utopias supersticiosas. Faz-se mister que a humanidade se liberte
das enervantes afirmaes dos materialistas. Soou a hora em que tem
de cair o vu que tolhia a viso clara da Natureza.
   Apesar das mais extravagantes teorias, forjadas para explicarem
os fenmenos espritas sem a interveno dos Espritos, a verdade se
evidencia de maneira esplndida. Sim, temos uma alma imortal. Sim,
as vidas sucessivas na Terra e no espao so simples trechos do
interminvel caminho do progresso e todos nos achamos em marcha para
altos destinos. O sentimento da imortalidade, que sempre se
manifestou em todas as idades do gnero humano, que se atestou, de
modo tangvel, em todas as pocas, por manifestaes semelhantes s
que hoje observamos, est prestes, enfim, a receber sua explicao
cientfica. Esplender ento a moral sublime da solidariedade, da
fraternidade e do amor, forosa conseqncia das vidas sucessivas e
da identidade de origem e de destino. Por termos o sentimento vivo
de que soou a hora em que a cincia h de unir-se  revelao,  que
todos os esforos empregamos por trazer a nossa pedra ao edifcio.
Para todo esprito independente, que se no ache cegado por idias
preconcebidas,  fora de dvida que as descobertas contemporneas
acarretam firmes apoios ao espiritualismo.
   As especulaes precedentes sobre a matria no estado slido,
lquido ou gasoso se justificam plenamente, como  fcil de ver-se.
Dado que, verdadeiramente, os gases so formados de tomos a
moverem-se em todos os sentidos com prodigiosa rapidez,  claro que,
resfriando-se esses gases, isto , reduzindo-se-lhes o movimento,
suas molculas se aproximaro. Se, ao demais, ajudarmos essa
concentrao por meio de presses enrgicas, o gs h de passar ao
estado lquido e de, afinal, solidificar-se, quando as suas
molculas possam exercer as mtuas atraes.  precisamente o que se
d.
   S ultimamente se chegou a comprovar esses resultados que a
teoria fazia prever. Assim  que o Sr. Cailletet mostrou que o
oxignio se liquefaz a 29 graus abaixo de zero, sob uma presso de
300 atmosferas, ou, ento, conforme o Sr. Wroblewski o determinou,
sob a presso de uma atmosfera, mas fazendo-se descer a temperatura
 184 graus abaixo de zero. O ar que respiramos se torna lquido,
quando a temperatura  de 192 graus abaixo de zero. A dois graus de
menos, tambm o azoto se torna lquido. De sorte que, se o Sol se
extinguisse, isto , se deixasse de nos dar o calor que mantm todos
os corpos terrestres no estado atual, a Terra seria inabitvel,
porquanto o ar provavelmente se solidificaria, bem como o hidrognio
e todos os gases; no mais haveria atmosfera e um frio mortal
substituiria a animao e a vida.
   Incontestavelmente, reina continuidade em todas as manifestaes
da matria e da energia. Todos os estados, to diversos, das
substncias se ligam entre si por estreitos laos; no h barreira
intransponvel a separar os gases impalpveis das matrias mais
duras ou mais refratrias. Em realidade, uma continuidade existe
perfeita nos estados fsicos, que podem passar de um a outro por
gradaes to suaves, que racionalmente podem ser considerados
formas amplamente espaadas de um mesmo estado material. Tanto mais
exato  isto, quanto nenhum estado material possui qualquer
propriedade essencial de que os outros no partilhem.
   Os slidos, sob fortes presses, se escoam como os lquidos, e os
gases podem comportar-se como corpos slidos pouco compressveis. O
Sr. Tresca, submetendo o chumbo a uma presso de 130 quilogramas por
centmetro quadrado, fez correr dele um veio lquido, qual se
estivesse fundido. O Sr. Daubre (189) produziu eroses e
arrancamentos em blocos de ao, pela fora de gases violentamente
comprimidos. O efeito foi semelhante ao que teria produzido o choque
de um buril de ao energicamente acionado.
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  (189) Resenhas, 9 de junho de 1883
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   Urge se compreenda que a grandeza do efeito que um corpo produz
est longe de corresponder ao peso desse corpo. Assim, uma
quantidade extremamente fraca de gs, diz o Sr. Daubre, falando da
dinamite, produz efeitos verdadeiramente assombrosos. O peso de um
quilograma e meio de gs, atuando sobre um prisma de ao de 134
centmetros quadrados (o que corresponde ao peso de 162 miligramas
por milmetro quadrado), produz nele, a par de diferentes escavaes
na superfcie, o seguinte:
   Primeiro -- Rupturas, que somente presses de um milho de
quilogramas seriam capazes de produzir, isto , a presso de um peso
600 mil vezes maior do que o do gs causador de tais despedaamentos;
   Segundo -- Esmagamentos, que no podem corresponder a menos de 300
atmosferas.
   Postas em confronto com efeitos mecnicos determinados pelo raio,
mostram essas experincias que as mais altas formas da energia se
acham sempre ligadas  matria cada vez mais rarefeita.
   , pois, por induo absolutamente legtima que acreditamos na
existncia dos fluidos, isto , de estados materiais em que a fora
viva das molculas ou dos tomos aumenta sem cessar at ao estado
primitivo, que se caracterizar pelo mximo de fora viva no mnimo
de matria. Entre a matria slida e o fluido universal depara-se
com uma imensa srie graduada de transies insensveis, em que o
movimento molecular vai em constante crescendo. Pode-se resumir no
quadro seguinte tudo o que acabamos de examinar:

1- Na unidade de volume mximo de matria ligada ao mnimo de fora
viva, limite absoluto: 273 graus abaixo de zero.

  a) Matria no estado slido:
 -- Minerais, metais, sais, etc.
 -- Orientao fixa dos agrupamentos moleculares, uns com relao aos
outros.
 -- Oscilaes restritas e movimentos de vibrao das molculas.

  b) Matria no estado lquido:
 -- A gua, o vinho, o lcool, etc.
 -- Orientao mvel dos agrupamentos moleculares uns com relao aos
outros.
 -- Oscilaes lentas, mas comeo do movimento de rotao das
molculas sobre si mesmas.

  c) Matria no estado gasoso:
 -- O ar, o hidrognio, o oxignio, etc.
 -- Movimentos rpidos de translao das molculas em todas as
direes acompanhadas de uma rotao mais pronunciada,  medida que
a matria se rarefaz.

  d) Matria no estado etrico impondervel:
 -- Manifestando-se pelos fenmenos calorficos, luminosos, eltricos,
vitais, etc.
 -- Movimentos de translao, mais rpidos do que no estado
precedente; movimento rotatrio dos tomos, desenvolvendo uma fora
centrfuga, que contrabalana a ao da gravitao.

  e) Matria no estado fludico:
 -- Todos os fluidos do mundo espiritual.
 -- Caracterizados por movimentos cada vez mais rpidos das molculas
e dos tomos. Sempre imponderveis.

2- Na unidade do volume: mximo de fora viva com o mnimo de
matria.

  a) Matria no estado csmico ou primordial:
 -- Mximo de movimentos atmicos. A matria est no seu ponto
extremo de rarefao. Acha-se no estado inicial e contm, em
potncia, todos os estados enumerados acima.

   A Ponderabilidade

   Estudando o quadro precedente, -nos lcito perguntar como pode a
matria chegar ao ponto de no pesar, isto , a tornar-se
impondervel. Compreendemos facilmente que a matria, passando do
estado slido  forma gasosa, ocupe um volume maior, pois que o
calor tem por efeito aumentar a amplitude das vibraes de todas as
partes infinitamente pequenas que constituem o corpo, mas  claro
que, se se recolher todo o gs produzido pela transformao de um
corpo slido em corpo gasoso, esse gs ter sempre o mesmo peso que
quando estava concentrado sob uma forma material. Parece
incompreensvel que a matria possa deixar de ter peso, mesmo que a
imaginemos to rarefeita quanto o queiramos; entretanto,  certo que
a eletricidade ou o calor nenhuma influncia exercem sobre a balana,
qualquer que seja a quantidade que desses fludos se acumule no
prato do aparelho. Se tais manifestaes da energia derivam de
movimentos muito rpidos da matria etrea, precisamos tentar
compreender porque essa matria no pesa.
   Devemos prevenir o leitor de que, neste ponto, recorremos a uma
hiptese e de que nos  toda pessoal a maneira por que resolvemos o
problema. Se, portanto, no for concludente a nossa demonstrao, a
falta s nos deve ser imputada a ns e no ao espiritismo.
   Para termos a explicao do que neste caso se passa, precisamos
lembrar-nos de que a ponderabilidade no  propriedade essencial dos
corpos. O a que neste mundo se chama o peso de um corpo mais no 
do que a soma das atraes exercidas pela Terra sobre cada uma das
molculas desse corpo. Ora, sabemos que a atrao decresce com muita
rapidez segundo o afastamento, pois que ela diminui na razo do
quadrado da distncia. Vemos, portanto, que um corpo pesar mais ou
menos conforme esteja mais ou menos afastado do centro da Terra. A
experincia demonstra que  assim. Pesando-se um pedao de ferro em
Paris, se seu peso for igual a dois quilogramas, quer isso dizer que
a fora de atrao, nessa cidade, , para aquele corpo, igual a 2
quilogramas. Se transportarmos esse ferro para o equador, ele pesar
menos 5 gramas e 70 centigramas e no plo mais 5 gramas e 70
centigramas. Que foi o que se deu?
   Evidentemente, a massa do corpo considerado no mudou durante a
viagem; mas, como a Terra, no equador,  mais volumosa, estando
aquele pedao de ferro mais afastado do seu centro, a atrao 
menos forte, sendo de 5,70 gramas a diminuio por ela sofrida. No
plo, produziu-se a ao oposta, por isso que a Terra a  achatada,
de sorte que a gravitao aumentou de 5 gramas e 70 centigramas.
   Logo, em geral, um corpo varia de gravidade conforme seja maior
ou menor a sua distncia ao centro da Terra. A gravidade  uma
propriedade secundria, no ligada intimamente  substncia. Bem
compreendido isto, mais fcil se torna conceber-se como a matria
pode vir a ser impondervel. Bastar-lhe- desenvolver uma fora
suficiente a contrabalanar a atrao terrestre.
   Ora, notou-se precisamente, que os corpos que giram em torno de
um centro, como a Terra sobre si mesma, desenvolvem uma fora a que
foi dado o nome de fora centrfuga. Porque essa fora tem por
efeito diminuir a gravidade, em mecnica se define o peso de um
corpo como sendo -- a resultante da atrao do centro terrestre,
diminuda da ao que a fora centrfuga exerce. Ela no plo  nula
e mxima no equador. Calculou-se que, se a Terra girasse 17 vezes
mais depressa, isto , se fizesse a sua rotao em 1 hora e 24
minutos, a fora centrfuga se tornaria grande bastante para
destruir a ao da gravidade, de modo que um corpo colocado no
equador deixaria de pesar.
   Apliquemos estes conhecimentos mecnicos s molculas materiais
que, como se sabe, so animadas de um movimento duplo, de oscilao
e de rotao, e possvel nos ser imaginar, para cada uma delas, um
movimento de rotao bastante rpido para que a fora centrfuga
desenvolvida anule a de gravitao. Nesse momento, a matria se
torna impondervel. Esta hiptese se ajusta bem aos fatos, pois que,
 medida que a matria se rarefaz, aumentam de rapidez os seus
movimentos moleculares, como temos comprovado relativamente aos
gases. A grande lei de continuidade nos leva a supor que o estado
gasoso no  o limite ltimo que se possa atingir; a matria
fludica  aquela em a qual, acentuando-se o movimento molecular
gasoso, a rarefao tambm se acentua e, com o desenvolver a rotao
das molculas crescente fora centrfuga, a matria passa ao estado
de invisvel e impondervel.
   Em seu discurso sobre a gnese dos elementos, Crookes foi
conduzido a levantar a questo de saber se no existem elementos de
pesos atmicos menores do que zero, isto , que no pesam. Lembra
ele que, em nome da teoria, o Dr. Carnelay reclamou esse elemento,
essa "no-substancialidade". Cita igualmente a opinio de Helmholtz,
segundo quem, a eletricidade , provavelmente, atmica, como a
matria. Isto posto, ele pergunta se a eletricidade no ser um
elemento negativo e se o ter luminoso tambm no o ser. Declara:
"no  impossvel conceber-se uma substncia de peso negativo".
Antes dele, o Sr. Airy na sua Vida de Faraday, escrevera: "Posso
facilmente conceber que em torno de ns abundem corpos no
submetidos a essa ao intermtua e, por conseguinte, no sujeitos
 lei de gravitao".
   A chegado, podemos perguntar se a matria primitiva e
rigorosamente impondervel, isto , absolutamente livre de toda e
qualquer ao da gravitao.
   Sabemos, evidentemente, que os movimentos da matria primitiva,
conhecidos sob os nomes de luz, calor, eletricidade, etc., nenhuma
ao exercem sobre a mais sensvel balana; no haver, porm,
apesar de tudo, uma atrao que retenha essas foras da matria em
torno da Terra, de maneira a constituir para esta um envoltrio
permanente? Cremos que tal  a realidade e vamos dizer em que nos
baseamos para emitir essa hiptese.
   Examinando o nosso sistema solar, a Astronomia nos ensina que,
primitivamente, o Sol e todos os planetas formavam uma imensa
nebulosa de matria difusa, tal qual outras que ainda vemos no
espao. Antes que se houvesse operado a condensao dessa matria em
focos distintos, qual poderia ser a sua densidade? Camille
Flammarion responde com exatido. (190)
  ::::::::::
  (190) Camille Flammarion -- "O mundo antes da criao do homem: a
Gnese dos Mundos", pg. 40.  esta uma obra que nunca
recomendaramos bastante aos nossos leitores, pela sua cincia e
pela sua clareza de exposio. As mais difceis questes relativas
s nossas origens se acham a explicadas, naquela nobre linguagem
que  a glria do autor, de modo que os mais ignorantes as
compreendem.
  ::::::::::
   "Suponhamos, diz o grande escritor, toda a matria do Sol, dos
planetas e de seus satlites uniformemente repartida no espao
esfrico que a rbita de Netuno abrange; da resultaria uma nebulosa
gasosa, homognea, cuja densidade  fcil de calcular-se.
   Como a esfera dgua de igual raio teria um volume de mais de
300 quatrilhes de vezes o volume terrestre, a densidade procurada
no seria de mais de meio trilionsimo da densidade da gua. A
nebulosa solar seria 400 milhes de vezes menos densa do que o
hidrognio  presso ordinria, o qual, como se sabe,  o mais leve
de todos os gases conhecidos. (Ele pesa 14 vezes menos que o ar: dez
litros de ar pesam 13 gramas; dez litros de hidrognio pesam 1
grama)".
   V-se, pois, que essa matria nebulosa atinge tal grau de
rarefao, que a imaginao no a pode conceber; entretanto, a
matria ainda pesa, nesse estado ltimo. Este ponto se acha
perfeitamente determinado pelo estudo dos cometas, que so
amontoados nebulosos de densidade extremamente fraca e que, no
entanto, obedecem s leis da atrao. Isto mostra que os fludos
formativos da nossa atmosfera terrestre tm uma densidade to fraca
quanto se queira, mas suficiente para os reter em nossa esfera de
atrao. Decorre da este outro ponto importante: que a alma,
revestida do seu corpo fludico, no pode abalar para o infinito, no
momento em que a morte terrena a libera da priso carnal. Somente
quando se ache terminada a sua evoluo terrenal, isto , quando o
perisprito est suficientemente desprendido dos fluidos grosseiros
que o tornam pesado,  que o esprito pode gravitar para outras
regies e abandonar afinal, o seu bero e, como o pssaro,
desferindo o vo, fugir do ninho onde viu a luz.
   Alis, tambm  possvel que entre a matria pesada e os fluidos
relaes existam oriundas, no mais da gravitao, porm de aes
indutivas, como as que existem entre as correntes eltricas e
magnticas.
   Estes argumentos, que se poderiam multiplicar, mostram que a
cincia especulativa no se ope de forma alguma  existncia dos
fluidos
e que, nesse terreno, os Espritos nos instruram to bem e
to exatamente, quanto lhes era possvel faz-lo. Os nossos
instrutores do espao se revelam bons qumicos e excelente fsicos.
Acionam foras e leis que ainda temos de descobrir, quer com relao
aos fenmenos de trazimentos, quer para produzir essas maravilhosas
materializaes de que resulta a formao temporria, parcial ou
total, de um ser vivo!
   Completo  preciso que se torne o acordo entre o mundo espiritual
e a Cincia, para que se opere a transformao desta humanidade
rebelde, que cada dia mais se atola na negao de toda
espiritualidade. Mas, a ao da Providncia se faz sentir e as
manifestaes supraterrestres vm arrancar os povos ao torpor em que
caram. J muitas inteligncias despertam e procuram saber o que se
oculta por detrs dessas aparies, dessas casas assombradas, desses
fenmenos espritas que se lhes apresentavam como supersties
vulgares. Vem prximo o dia em que as multides aprendero, com
emoo religiosa, que a alma  imortal e que o reino da justia
imanente do Alm se ergue sobre as bases inabalveis da certeza
cientfica.

   CAPTULO IV

   DISCUSSO EM TORNO DOS FENMENOS DE MATERIALIZAO

   SUMRIO:
   No se pode recorrer  fraude, como meio geral de
explicao -- Fotografia simultnea do mdium e das
materializaes -- Hiptese da alucinao coletiva -- Sua
impossibilidade -- Fotografia e modelagens -- As aparies no so
desdobramentos do mdium ou do seu duplo -- No so imagens
conservadas no espao -- No so idias objetivadas
inconscientemente pelo mdium -- Discusso sobre as formas diversas
que o Esprito pode tomar -- A reproduo do tipo terrestre  uma
prova de identidade -- Certezas da imortalidade.

   Nos captulos precedentes, aduzimos as provas que, parece-nos,
demonstram com segurana a existncia e a imortalidade da alma.
Todavia, convm analisemos as objees que se nos opuseram, quer
com relao aos fatos em si mesmos, quer quanto s conseqncias
que deduzimos deles.

   Exame da hiptese de serem falsos os fatos relatados

   Evidentemente, esta suposio  a que mais de pronto se
apresenta aos que pela primeira vez lem narrativas to
extraordinrias, quais as das materializaes.  legtimo esse
sentimento de dvida, porquanto tais manifestaes pstumas distam
tanto do que toda a gente est habituada a considerar possvel, que
se compreende perfeitamente bem a incredulidade. Quando, porm as
toma conhecimento dos volumosos arquivos do Espiritismo, -se
obrigado a mudar de opinio, porquanto o que se depara a quem os
examina so relatrios promanantes de homens de cincia
universalmente estimados, de cuja palavra no se poderia suspeitar,
to acima de toda suspeita a honradez deles. Com efeito, ningum
pode absolutamente imaginar que os professores Hare, Mapes, o
grande juiz Edmonds, Alfred Russel Wallace, Crookes, Aksakof,
Zoellner ou o Dr. Gibier se hajam conluiado para mistificar seus
contemporneos. Seria to absurda semelhante suposio que temos
por intil insistir sobre esse ponto.
   Ser, no entanto, mais admissvel que esses homens eminentes se
hajam deixado enganar por hbeis charlates que no caso seriam os
mdiuns? No o cremos tampouco, visto que alguns mdiuns, como
Euspia Paladino, foram estudados por diversas comisses
cientficas, de que faziam parte homens do valor de Lombroso,
Ch. Richet, Carl du Prel, Aksakof, Morselli, Maxwell, de Rochas;
astrnomos quais Schiapparelli e Porro, etc, e todos esses
investigadores, separadamente, chegaram  comprovao de fenmenos
idnticos.
   Fora, pois, necessria a mais insigne m-f, para se no
reconhecer o imenso alcance dessas experincias. Os adversrios do
Espiritismo guardam silncio acerca desses trabalhos, et pour cause,
mas os que se resolveram a consult-los, certo se impressionaro
com o prodigioso concurso de afirmaes unnimes, que do aos fatos
espritas verdadeira consagrao cientfica.
   Querer isso dizer que devamos aceitar todas as afirmaes
espritas que nos forem feitas por quaisquer individualidades?
   Evidentemente, no. Sobretudo nessas matrias, faz-se preciso
nos mostremos excessivamente severos quanto ao valor dos
testemunhos e proceder a uma seleo sria no acervo das
observaes. Entretanto, no se nos afigura lcito desprezar os
relatos que provenham de homens instrudos, de posio independente,
que nenhum interesse tenham em mentir e cuja palavra  acatada
sobre qualquer outro assunto. So extremamente numerosos e merecem
inteiro crdito os depoimentos de engenheiros, padres, magistrados,
advogados, doutores que ho experimentado seriamente e que referem
como foram convencidos. H cinqenta anos esse vasto inqurito se
vem processando e imenso nmero de documentos possumos sobre cada
classe de fenmenos, de sorte que, apartados os casos duvidosos,
resta elevado nmero de narrativas, idnticas quanto ao fundo,
mostrando que esses narradores, desconhecendo-se uns aos outros,
assinalaram fatos precisos.

   As fraudes dos mdiuns

   Se, geralmente,  pouco suspeita a boa-f dos assistentes, o
mesmo no se d com a dos mdiuns, a qual pode exigir muita reserva.
 certo que os mdiuns, profissionais so s vezes tentados a
suprir a falta de manifestaes quando longo tempo se passa sem que
elas se produzam. A simulao, porm, s pode dar-se no tocante aos
fenmenos mais simples e unicamente os observadores ingnuos e
inexperientes se deixam enganar, caso que no  dos sbios cujos
nomes vimos de citar, os quais operavam tomando todas as precaues
necessrias. Os fenmenos de materializao, pela sua singularidade,
foram sempre os que constituram objeto de vigilncia mais severa e
os experimentadores, cpticos ao iniciarem suas investigaes,
somente adquiriram a certeza da realidade dos mesmos fenmenos
quando se lhes tornou evidente que as materializaes no podiam
ser efeito de disfarces do mdium, ou produzidas por um comparsa
que desempenhasse o papel do Esprito. Tomemos para exemplo as
clssicas pesquisas de William Crookes. S ao cabo de trs anos de
investigaes, feitas, pela maior parte, na sua prpria casa, em
seu laboratrio, conseguiu ele ver e fotografar simultaneamente o
Esprito e o mdium (191) e certificar-se assim de que a apario
no era devida a um disfarce de Florence Cook. Alis, esta, menina
de quinze anos, passava semanas inteiras em casa do professor, onde
lhe teria sido impossvel preparar as maquinaes indispensveis 
execuo de semelhante impostura.
  ::::::::::
  (191) William Crookes -- "Pesquisas sobre o Espiritualismo".
Veja-se, no fim do volume: "Mediunidade da Srta. Florence Cook".
  ::::::::::
   Em todos os relatos srios que se ho publicado sobre as
materializaes, a primeira parte da narrativa  consagrada 
descrio das providncias tomadas para evitar o embuste, sempre
suspeitvel. O gabinete do mdium  cuidadosamente examinado;
verifica-se que no h alapes, nem janelas dissimuladas, nem
armrios em que se possam esconder um ou mais comparsas. Por vezes,
as portas do aposento onde a reunio se efetua so seladas com
papel timbrado, de maneira a no poderem abrir-se sem rudo e sem
ruptura dos papis. O prprio mdium  severamente examinado e
frequentemente despido, de forma que no possa esconder o que quer
que sirva para um disfarce. Concludos esses preliminares, trata-se
de colocar o mdium na impossibilidade de mudar de lugar. No raro,
como o fizeram Varley e Crookes, estabelece-se uma corrente
eltrica que, depois de atravessar o corpo do sensitivo, vai ter a
um galvanmetro de reflexo, que assegura a sua imobilidade,
porquanto, o menor movimento que ele fizesse ocasionaria uma
diferena na resistncia do circuito e se revelaria por variaes
na intensidade da corrente, variaes que o espelho indicaria.
Apesar de to minuciosas precaues, o Esprito de Katie e o da
Sra. Fay (192) se mostraram como de ordinrio, o que provou a
perfeita independncia da apario.
  ::::::::::
  (192) Veja-se a pg. 178
  ::::::::::
   Doutras vezes, atam-se as mos e os braos do mdium por meio de
cordes em que so dados ns, aos quais se apem selos de cera. A
mesma ligadura lhe passa depois em torno do corpo, prendendo-o 
cadeira, onde outros ns so feitos e selados. Finalmente, a
extremidade do cordo  presa a um anel, fora do gabinete,  vista
dos assistentes. No raro, empregam-se sacos ou redes, que se
fecham e selam como precedentemente. Tem-se mesmo chegado a
utilizar gaiolas. Apesar de todas essas medidas de fiscalizao, os
fatos se ho reproduzido exatamente como quando o mdium est livre.
Incontestavelmente, existem copiosas provas e absolutas de que o
mdium no pode fraudar;  quando, nas prprias habitaes dos
investigadores, se fotografam simultaneamente o Esprito e o mdium.
No sendo possvel, ento que qualquer comparsa simule a apario,
 toda evidncia que o mdium no  o autor consciente do fenmeno.
   Os desta natureza foram observados por William Crookes, por
Aksakof, pelo Dr. Hitchman, etc. (193). No so menos probantes os
moldes de membros corporais de formas materializadas. No somente 
impossvel simul-los, pois que no se pode fazer o molde de uma
mo completa, seno compondo-o de vrias peas cujas junturas ficam
visveis, ao passo que os que os Espritos produzem no nas tm,
mas ainda porque um molde que no se compusesse de diferentes
partes no poderia ser retirado, visto que o pulso  notoriamente
mais estreito do que a mo  altura dos dedos.
   Nas experincias que citamos, o molde da mo fsica do mdium
difere inteiramente do da apario, o que positivamente demonstra
duas coisas: Primeiro, a sinceridade do mdium; segundo, que a mo
fludica no  devida a um desdobramento seu. Cumpre no esquecer
tampouco que, quase sempre, a parafina foi pesada pelos operadores,
antes e depois das sesses, verificando eles ser o peso do molde,
mais o da parafina no utilizada, igual ao peso primitivo dessa
substncia, donde a concluso de que o molde foi fabricado in loco
e no trazido de fora.
   Supondo que os mdiuns fossem dotados de astcia at ento
desconhecida, esbarra-se de encontro  evidncia das fotografias e
dos moldes. Somos, pois, forados a afastar a hiptese de um
embuste, pelo menos em os casos que citamos.

   Ser a apario um desdobramento do mdium?
    de notar-se que os incrdulos, que negam a possibilidade do
desdobramento como explicao dos fenmenos telepticos, no
hesitam em lanar mo desse argumento quando se trata de aparies
comprovadas nas sesses espritas. Embora se reconhea que essa
possibilidade s vezes se efetiva, pode-se ter a certeza de que,
em muitos casos, intervm outros fatores.  muito simples a
distino que se deve fazer entre uma bilocao do mdium e uma
materializao de Esprito. Sempre que o fantasma se parecer com o
mdium, a apario ser devida  exteriorizao de seu perisprito.
   Sabemos, com efeito, que o corpo fludico  sempre a reproduo
exata e fiel do corpo fsico, com todas as mincias. Jamais se
verificaram experimentalmente dissemelhana entre um indivduo e o
seu duplo, exceto as que resultam do jogo da fisionomia ao exprimir
emoes. So dois exemplares do mesmo ser, duas reprodues da
mesma entidade. Tivemos ensejo de reconhecer essa identidade no
caso que Cox (pg 152) refere e eis o que diz a respeito o Sr.
Brackett, excelente juiz nessas questes: (194)
  ::::::::::
  (194) Erny -- "O psiquismo experimental", cap. V, "Formas
materializadas", ed. FEB.
  ::::::::::
   "Vi centenas de formas materializadas, e, em muitos casos, o
duplo fludico do mdium se lhe assemelhava tanto, que eu juraria
ser o prprio mdium no visse esse duplo se desmaterializar na
minha presena e no verificasse, logo aps, que o mdium estava
adormecido".
   Lembremos tambm que o molde de um p fludico de Egliton 
reproduo exatssima do seu p em carne e osso. Para ns, portanto,
 mais provvel que um mdium exteriorizado no pode, "moto
prprio", transformar-se. Exteriorizado, ele aparece idntico ao
seu corpo fsico e  em virtude dessa semelhana que se tem podido
freqentemente comprovar os inmeros fatos ditos telepticos.
   Mas, perguntar-se-, ser impossvel ao Esprito modificar o seu
aspecto? J se tm observado por vezes fenmenos que parecem
contradizer as concluses anunciadas acima: os que foram
denominados de transfigurao. Consistem no seguinte:
   H mdiuns que revelam a singular propriedade de experimentar
mudanas na forma do corpo, de maneira a tomarem temporariamente
certas aparncias, a ressuscitarem, por assim dizer, pessoas
falecidas de h muito. Allan Kardec (195) cita o caso de uma moa
cujas transfiguraes eram to perfeitas que causavam a iluso de
estar presente o defunto. Os traos fisionmicos, a corpulncia, o
som da voz, tudo contribua para tornar completa a mudana. Muitas
vezes, ela tomava a aparncia de um irmo seu que morrera havia
anos. No  nico esse fato. Nas coletneas espritas, encontram-se
relatos de alguns outros, mas em nmero reduzido. Desde que,
fisicamente, o corpo parece transformado, no poderia essa operao
produzir-se, com relao ao perisprito, nas sesses de
materializao? Sabemos que o fenmeno  possvel, mas, ento,
deve-se procurar a causa efetiva da modificao, uma vez que ela
nunca se produz naturalmente.
  ::::::::::
  (195) Allan Kardec -- "O Livro dos Mdiuns".
  ::::::::::
   Julgamos que provm, precisamente, da ao do Esprito de quem o
duplo reproduz os traos, uma vez que o mdium desconhece o
desencarnado que se manifesta dessa maneira.
   Erro, objetam os crticos. Adormecido, o mdium possui uma
personalidade segunda, onipotente para agir sobre o seu envoltrio,
que ela pode modelar como se operasse com cera mole. A forma que o
perisprito assume reproduz fielmente a imagem que o mdium imagina,
de sorte que o ser que  visto a conversar, a deslocar-se, a atuar
sobre a matria e que os assistentes tomam por um habitante do Alm
no passa, afinal de contas, do duplo do mdium, que assim se
caracterizou para aquela circunstncia.
   Notemos, antes de tudo, quo estranho seria que por toda parte
os mdium se dessem inconscientemente a semelhante mascarada e que
invariavelmente afirmassem ter vivido na Terra. E, acrescentam os
Espritos, onde ir o mdium buscar o modelo para o seu disfarce,
uma vez que j no existe o ser que ele macaquearia?
   Duas explicaes oferecem os opositores.
   Primeira -- O desenho da forma do ser se encontra no
inconsciente dos espectadores. Quando mesmo estes j se no lembrem
de todos os trespassados que eles conheceram, existes neles uma
imagem exata e indelvel desses trespassados e  por esse desenho
inconsciente que o duplo se modela. O prprio fato de ser
reconhecida a apario, dizem os nossos adversrios, basta para
mostrar que ela subsistia, ignorada, no inconsciente de um dos
assistentes.  maravilhosa a clarividncia do paciente em transe e
lhe permite ler o que se passa nos outros, como em livro aberto.
Por possuir ele essa faculdade, como o mostram os exemplos do
sonambulismo,  que tendes a iluso de estar em presena de uma
personagem de outro mundo.
   Segunda -- Quando ningum conhece a apario,  que a sua imagem
foi tomada ao astral. Chama-se assim  ambincia fludica que cerca
a Terra, e que teria a propriedade de conservar uns como "clichs"
inalterveis de tudo o que existe.
   A primeira hiptese -- leitura no inconsciente -- seria
admissvel, se faltassem experincias a que ela no se pode aplicar.
 bem certo que guardamos impresses imperecveis de tudo o que nos
afetou os sentidos. Mesmo quando a lembrana j se tenha
enfraquecido, ao ponto de no ser capaz de reproduzir um perodo da
nossa vida passada, ainda possvel  conseguir-se renasam as
sensaes ento experimentadas, com uma frescura e um brilho to
vivo quanto no momento em que as tivemos. (196)
  ::::::::::
  (196) G. Delanne -- "A Evoluo Anmica", pgs. 255 e seguintes.
  ::::::::::
   No somos ns prprios, porm, que temos essa faculdade; preciso
se torna um hipnotizador que a revele se ele mesmo s o alcana em
certos pacientes especiais. Nunca ficou demonstrado que um mdium a
possusse, tanto mais que, como o afirmam todos os que ho estudado
a mediunidade,  absolutamente passivo o concurso do mdium.
   Se, realmente, a faculdade deste fosse to potente, conforme o
querem tais teorias, possvel lhe fora atender sempre a todos os
pedidos e fazer que  viso dos assistentes aparecessem todos os
seus mortos queridos.  o que pondera Aksakof (197):
  ::::::::::
  (197) Aksakof -- "Animismo e Espiritismo", pg. 350.
  ::::::::::
   "Se as materializaes no passam de alucinaes produzidas pelo
mdium e se este dispe da faculdade de ver todas as imagens
armazenadas nas profundezas da latente conscincia sonamblica dos
assistentes e de ler todas as idias e todas as impresses -- que
se encontram em estado de latncia na lembrana deles -- bem fcil
lhe seria contentar a todos os que assistem  sesso, fazendo
sempre que se lhes apresentassem ante os lhos as imagens das pessoas
defuntas que lhes so caras. Que triunfo, que glria, que fonte de
riqueza para um mdium que chegasse a semelhante resultado! Mas,
com grande pesar deles, as coisas no ocorrem assim. Para a maioria,
so estranhas as figuras que se lhes apresentam, figuras que
ningum reconhece e extremamente raros so os casos em que fica bem
comprovada a semelhana com o defunto, no s quanto ao aspecto,
mas tambm quanto  personalidade moral. Os primeiros constituem a
regra, os outros a exceo".
   Este raciocnio relativo  alucinao se pode aplicar
inteiramente a uma transfigurao do corpo fludico do mdium. O
fenmeno seria at mais probante ainda, pois que se poderia
fotografar o ser aparente, chamado das profundezas do tmulo, ou
obter dele um molde qualquer. Semelhante explicao por muito
engenhosa que seja, no consegue abranger todos os casos.
Evidentemente, se  o duplo do mdium que tenta fazer que o tomem
por um defunto, impossvel lhe ser falar na lngua de que em vida
usava o morto, desde que no conhea essa lngua. Examinemos alguns
fatos que pem de manifesto essa verdade.
   O Sr. James M. N. Sherman, de Rumford, Rhode Island, descreveu em
"The Light" de 1885, pgina 235, muitas sesses a que assistiu em
casa da Sra. Allens, residente em Providence, Rhode Island. Eis o
que se passou na de 15 de setembro de 1883:
   "Fui chamado com minha mulher s proximidades do gabinete, e
colocados diante dele, vi aparecer no assoalho, uma mancha branca
que insensivelmente se transformou numa forma materializada, em a
qual reconheci minha irm e que me enviou beijos. Apresentou-se em
seguida a forma da minha primeira mulher, depois do que as duas
metades da cortina se afastaram, deixando ver de p pela abertura,
uma forma feminina, vestida  moda dos insulares do Pacfico, tal
como era quarenta e cinco anos antes e da qual eu me lembrava muito
bem. Falou-me na lngua materna". (198)
  ::::::::::
  (198) Aksakof -- "Animismo e Espiritismo", pg. 619
  ::::::::::
    positivo, nesse caso, que a Sra. Allens no conhecia os
dialetos polinsios. Poderamos juntar a este outros testemunhos;
melhor, porm, nos parece lembremos imediatamente o relato das
pesquisas do Sr. Livermore, que viu o fantasma de sua mulher e que
conservou cartas escritas na sua presena pela apario, em francs,
lngua ignorada de Kate Fox, o mdium, que absolutamente se
conservava no estado normal enquanto durava o fenmeno. (Veja-se
pg. 196). Tanto a forma materializada de Estela era um ser
independente do mdium que pde manifestar-se por meio da fotografia,
trs anos depois de ter deixado de aparecer e na ausncia do mdium
Kate Fox. Possumos, a respeito, o depoimento do Sr. Livermore
perante o tribunal, quando do processo instaurado contra o fotgrafo
esprita Mumler (Spiritual Magazine, 1869). Ele fez duas
experincias com Mumler:
   "Na primeira, apareceu no negativo uma figura ao lado do Sr.
Livermore, figura que logo o Dr. Gray reconheceu como sendo um dos
seus parentes; na segunda, houve cinco exposies seguidas e para
cada uma o Sr. Livermore tomara uma atitude diferente. Nas duas
primeiras chapas, apenas havia nevoeiro sobre o fundo; nas trs
ltimas, apareceu Estela, cada vez mais reconhecvel em trs
atitudes diferentes".
   A precauo, que o Sr. Livermore tomou, de mudar de posio para
ser fotografado, exclui a hiptese de que as chapas tenham sido
preparadas de antemo. Ao demais, diz ele:
   "Ela foi muito bem reconhecida, no s por mim, como por todos os
meus amigos".
   A uma pergunta do juiz, declarou ele que possua muitos retratos
da esposa, porm nenhum sob aquela forma.
   Isto, pois, nos d a certeza de que Estela vive no espao e que
a conservou a sua forma terrena, visto que deu provas disso por
meio da materializao e da fotografia. As comunicaes que
transmitiu demonstram que a sua capacidade intelectual nenhuma
diminuio sofreu, o que atestam as cartas que escreveu em francs
puro. Os fatos, portanto, confirmam o ensino esprita, com excluso
de qualquer outra teoria.
   Precisamos no esquecer nunca que uma hiptese  necessariamente
falsa ou incompleta, desde que no explica todos os fatos.  o caso
dessas explicaes que pretendem nada mais haver nas materializaes
do que um desdobramento do mdium, ou uma transfigurao do seu
duplo.
   A segunda hiptese -- leitura no astral -- no  mais plausvel
do que a precedente. Os fatos que por ltimo citamos bastam para
afastar a suposio de que a conscincia sonamblica do mdium
extraa do astral a figura materializada, porquanto, admitido
existam no espao semelhantes impresses, evidentemente elas seriam
apenas imagens inertes, uma espcie de "clichs" fludicos, que no
poderiam denunciar qualquer atividade intelectual, do mesmo modo que
as personagens de um quadro ou de uma fotografia no podem animar-se
ou discutir entre si. Notemos tambm que fora mister viessem esses
clichs no encontro do mdium, dado que h deles bilhes em torno de
ns. Como escolheria ele o que corresponda ao Esprito evocado? Se
admitirmos que essas aparncias so capazes de escrever e de dar
provas de uma existncia fsica, estaremos com a teoria esprita,
pois ento j no haveria como distingu-las de verdadeiros
Espritos.
   Mas, no se pode, sequer, admitir a explicao do desdobramento
transfigurado, porquanto h casos em que no se mostra apenas um
nico Esprito, materializado, em que, ao contrrio, se apresentam
muitos ao mesmo tempo, s vezes de sexos diferentes, provando cada
um que  um ser real, com um volumoso organismo anatmico, que lhe
permite mover-se de um lugar para outro, conversar, numa palavra:
afirmar-se vivo. Aqui vo alguns exemplos desses fatos notveis.

   Materializaes mltiplas e simultneas

   Os Srs. Oxley e Reimers so hbeis experimentadores, de posio
independente e muito familiarizados com as materializaes. Em sua
casa, o Sr. Reimers obteve o molde da mo direita de uma apario
que ele viu por um instante ao lado do mdium. Para saber se o molde
no fora feito pelo mdium, pediu a este que mergulhasse a mo no
balde que continha parafina, a fim de model-la. A mo do Esprito
difere completamente, pela forma, pela delicadeza e pelas dimenses,
da do mdium, a Sra. Firman, que pertencia  classe operria e j
era idosa. No fim do volume Animismo e Espiritismo de Aksakof,
encontram-se fottipos que reproduzem essas modelagens e permitem a
comparao. Noutra sesso, a que assistiu o Sr. Oxley, algum
manifestou o desejo de obter a mo esquerda do mesmo Esprito e
obteve, fazendo o par esse segundo molde com o da mo direita
obtido antes. Chamava-se Bertie a apario. Nada, at ento, fora
do comum. O fenmeno, porm se tornou depois interessante. Eis como:
   Numa sesso ulterior e por um mdium do sexo masculino, o Dr.
Monck, obtiveram-se moldes das duas mos de Bertie e o de um p,
revelando os trs, exatamente, as linhas e traos caractersticos
das mos e ps de Bertie, tais quais tinham sido notados quando
feitos os moldes nas sesses em que o mdium fora a Sra. Firman.
(Psychische Studien, 1877, pg. 540).  muito importante a
substituio de uma mulher por um homem, como mdium, porquanto, de
modo algum se pode explicar, mediante o desdobramento, a produo de
imagens idnticas, sendo diferentes os mdiuns, ao passo que se
concebe muito bem que um Esprito tome indiferentemente a um
organismo feminino ou masculino os elementos necessrios  sua
materializao, pois que esses elementos so os mesmos nos dois
sexos. Mas, quando em vez de uma apario, muitas se mostram
simultaneamente, impossvel se torna atribu-las, seja a um
desdobramento, seja a uma transfigurao do mdium. Citemos, segundo
Aksakof, a narrativa de um desses casos notveis (sesso de 11 de
abril de 1876). (199)
  ::::::::::
  (199) Aksakof -- "Animismo e Espiritismo", edio da FEB.
  ::::::::::
   "A imagem que aqui se v (200) reproduz exatamente o molde em
gesso da mo do Esprito materializado, que se intitulava Lily
(201), muito diverso de Bertie, do qual difere fisicamente. A
reproduo em gesso foi feita com o molde que aquele Esprito
deixara na sesso de 11 de abril de 1876, e isso em condies que
tornavam impossvel qualquer embuste. Como mdium, tnhamos o Dr.
Monck. Depois de revistado minuciosamente, foi ele metido num
gabinete improvisado com o auxlio de uma cortina posta no vo de
uma janela, conservando-se a sala iluminada a gs durante toda a
sesso. Pusemos uma mesa redonda bem junto da cortina e sentamo-nos
 volta. ramos sete.
  ::::::::::
  (200) Veja-se a reproduo desse molde no fim da obra do sbio
russo, figura IX.
  (201) O Esprito Lily deu tambm a mscara da sua figura. Veja-se
na _Revue Spirite, 1880, pg. 21, a gravura que lhe reproduz a bela
cabea.
  ::::::::::
   Logo duas figuras de mulher, que conhecamos pelos nomes de
_Bertie e _Lily, se mostraram no ponto em que se reuniam as duas
metades da cortina e, quando o Dr. Monck passou a cabea pela
abertura da mesma cortina, aquelas duas figuras apareceram acima
desta, ao mesmo tempo que duas figuras de homem ( _Milke e
_Richard) a afastaram dos dois lados e tambm se mostraram. Vimos,
pois, simultaneamente, o mdium e quatro figuras materializadas,
cada uma das quais com traos particulares que a distinguiam das
outras, como se d com as pessoas vivas.
   Ocioso dizer que todas as medidas de precauo tinham sido
tomadas para impedir qualquer embuste e para que percebssemos a
menor tentativa de fraude".
   Nenhuma dvida tem cabimento aqui, pois que o mdium e as formas
materializadas so vistos simultaneamente. Se  possvel o
desdobramento do mdium -- e disso absolutamente no duvidamos -- ,
absurda  a sua diviso em quatro partes, duas das quais de um sexo
e duas de outro. Somos ento forados a admitir, como nica
explicao lgica, a existncia dos Espritos, sem embargo de todas
as prevenes e de todos os preconceitos.
   E no se julgue seja nico o caso citado pelos Srs. Reimers e
Oxley. , ao contrrio, muito freqente. Egliton serviu muitas vezes
de mdium para a materializao de aparies coletivas. Afirma a
Srta. Glyn que, em sua casa, se materializaram sua me e seu irmo e
que, vendo aquelas duas formas ao mesmo tempo que via o mdium, que
se lhe achava prximo e com as mos seguras por outras pessoas, a
convico se lhe imps da realidade do fenmeno.
   O pintor Tissot viu simultaneamente, to bem e por to longo
tempo que pde com elas fazer belssimo quadro, duas formas,
feminina uma, a outra masculina, a primeira das quais ele reconheceu
perfeitamente, e, tambm o desdobramento de Egliton, cujo corpo
fsico repousava numa poltrona, a seu lado. (202)
  ::::::::::
  (202) Erny -- "O psiquismo experimental", cap. V, "Formas
materializadas" ed. FEB.
  ::::::::::
   Afigura-se intil insistir mais demoradamente nestes fatos, que o
leitor encontrar mencionados em grande nmero nas obras citadas.

   Resumo

   Conquanto tenha havido fraudes operadas por charlates que
queriam passar por mdiuns,  incontestvel que, quando as
experincias foram feitas por sbios, as precaues adotadas
bastaram para, em absoluto, afastar essa causa de erro. Os relatos,
de origens to diversas e conformativos uns dos outros, constituem
provas de que os fatos foram bem observados e que tais relatos so
verdicos.
   H-se de banir, absolutamente, a hiptese de que, adormecido, o
mdium se torne poderoso magnetizador, que pela sugesto imponha
seus pensamentos aos experimentadores que ento se achariam
mergulhados num sonambulismo inconsciente -- hipnotismo vigil -- ,
porquanto jamais se observou semelhante poder. Ainda nenhuma
experincia firmou que quaisquer indivduos, reunidos numa sala --
nunca tendo sido antes hipnotizados ou magnetizados --, hajam podido
alucinar-se de maneira a ver e tocar um objeto ou uma pessoa
imaginrios. Numerosas so as provas de que os assistentes se
conservam no estado normal, conversando uns com os outros, tomando
notas, discutindo os fenmenos, manifestando dvidas, coisas todas
essas que  atestam estarem eles perfeitamente despertos. No
esqueamos tampouco que as fotografias, os moldes, os objetos, que
se conservam, deixados pela apario, as escritas que permanecem
depois que o ser h desaparecido, constituem provas absolutas de que
no h alucinao.
   Eis, pois, aqui todos os casos que se podem apresentar. Antes de
tudo,  possvel que se verifique uma transfigurao do prprio
mdium; mas, fatos dessa natureza, extremamente raros, so sempre
um pouco suspeitos, a menos que se produzam espontaneamente e em
plena luz.  mais freqente a transfigurao do duplo do mdium, se
bem seja ainda excepcional o fenmeno. Vimos -- atravs de fatos
positivos -- que a hiptese de modificaes plsticas do perisprito
do mdium absolutamente no explica que a materializao empregue
uma lngua estrangeira que o mesmo mdium desconhece; nem os casos
de se fazerem visveis simultaneamente vrios fantasmas. Vimos
igualmente que ela no pode aplicar-se s formaes de fantasmas
idnticos, sem embargo de se substiturem os mdiuns. Se juntarmos a
essas observaes as dos casos em que o sensitivo conversa com a
apario, como faziam Katie King e a Sra. Cook; ou as daqueles em
que se comprova a presena simultnea do duplo do mdium e de
Espritos materializados, foroso se tornar reconhecer que a teoria
do desdobramento no  geral e no pode aplicar-se  maioria desses
fenmenos.
   A hiptese de que as aparies sejam apenas imagens tomadas ao
astral e projetadas fisicamente pela conscincia sonamblica do
mdium  inaceitvel, porque, primeiro, seria preciso explicar como
essas imagens se tornariam seres vivos e manifestariam uma vida
psquica cujos elementos no existem no mdium, coisa que jamais foi
tentada.
   A nica teoria que explica todos os fatos, sem exceo de um s,
 a do Espiritismo. Inseparvel do seu envoltrio perispirtico, a
alma pode materializar-se temporariamente, quer transformando o
duplo do mdium, ou, mais exatamente, mascarando-o com a sua prpria
aparncia, quer tomando matria e energia ao mdium, para as
acumular na sua forma fludica, que ento aparece qual era outrora
na Terra. Vamos insistir nos caracteres anatmicos das
materializaes, para bem estabelecermos a individualidade dos seres
que se manifestam nas maravilhosas sesses em que aquele fenmeno
se produz. Antes, porm, no ser demais apreciemos o grau de
certeza que comporta a prova da identidade dos Espritos.

   Estudo sobre a identidade dos Espritos

   Na sbia e conscienciosa obra que o Sr. Aksakof consagrou 
refutao das teorias do filsofo Hartmann, depara-se-nos a
concluso seguinte:
   "Tendo adquirido por laboriosa senda a convico de que o
princpio individual sobrevive  dissoluo do corpo e pode, sob
certas condies, manifestar-se de novo por intermdio de um corpo
humano, acessvel a influncias desse gnero, a prova absoluta da
identidade do indivduo resulta impossvel".
   Votamos sincera admirao e profundo respeito ao sbio russo que
revelou, na sua obra, esprito to sagaz, quanto penetrante. Seu
livro  uma das mais preciosas coletneas de fenmenos bem estudados,
onde os espritas encontram armas decisivas para sustentar luta
contra seus adversrios. Mas, no podemos adotar todas as suas
idias, por se nos afigurar que o seu propsito, de manter-se
estritamente nos limites que lhe impunha a sua discusso com
Hartmann, o fez restringir demasiadamente o carter de certeza que
ressalta das experincias espritas. No haver contradio entre a
primeira e a segunda parte da citao acima? Como se h de adquirir
"a convico de que o princpio individual sobrevive", se no se
pode estabelecer a identidade dos seres que se manifestam? Porque,
desde que, coletivamente, todos os humanos sobrevivem, impossvel
ser ter-se particular certeza, com relao a um deles? Examinemos
os argumentos em que se baseou o Sr. Aksakof para chegar quela
desoladora concluso.
   Segundo o autor (203), a presena de uma forma materializada,
comprovada pela fotografia, ou nas sesses de materializao, no
bastaria para lhe atestar a identidade, como, alis, tambm no
bastaria o contedo intelectual das comunicaes. Eis porque:
  ::::::::::
  (203) "Animismo e Espiritismo", pgs. 622 e seguintes.
  ::::::::::

   "No me resta mais do que formular o ltimo desideratum,
relativamente  prova de identidade fornecida pela materializao, e
 que essa prova -- do mesmo modo que o exigimos no tocante s
comunicaes intelectuais e  fotografia transcendental -- seja dada
na ausncia de qualquer pessoa que possa reconhecer a figura
materializada. Creio que se poderiam encontrar muitos exemplos desse
gnero nos anais das materializaes. Mas, a questo  esta: dado o
fato, poderia ele servir de prova absoluta? Evidentemente, no,
porque, admitido que um Esprito se pode manifestar dessa maneira,
possvel lhe , _eo _ipso, prevalecer-se dos atributos de
personalidade doutro Esprito e personific-lo na ausncia de quem
quer que seja capaz de reconhec-lo. Tal mascarada seria
completamente inspida, visto que absolutamente nenhuma razo de ser
teria. Do ponto de vista, porm, da crtica, no poderia ser ilgica
a sua possibilidade".
   Parece que o Sr. Aksakof admite como demonstrado que um Esprito
pode mostrar-se sob qualquer forma, sob a que lhe apraza tomar, a
fim de representar uma personagem que  ele. Ora, isso justamente 
que seria necessrio firmar, por meio de fatos numerosos e precisos.
Se consultarmos os milhes de casos em que o Esprito de um vivo se
faz visvel, verificaremos que o duplo  sempre a reproduo
rigorosamente fiel do corpo, atingindo essa identidade todas as
partes do organismo, como o prova irrefutavelmente a modelagem do p
fludico de Eglinton, do qual falamos s pgs. 144/5 ( cap. I,
Segunda Parte).
   Quando o duplo inteiro de Eglinton se materializa, assemelha-se a
tal ponto ao seu corpo fsico, que h mister se veja o mdium
adormecido na sua cadeira, para se ficar persuadido de que ele no
est no lugar onde se encontra a apario. Quando a Sra. Fay se
mostra entre as duas metades da cortina, com suas vestes e o seu
rosto, perfeitamente semelhante ao seu corpo fsico, com os mesmos
traos fisionmicos, cor dos olhos, do cabelo, da pele, faz-se
preciso que a corrente eltrica lhe atravesse o organismo carnal,
para se ter a certeza de no ser este o que se est vendo.
   "Vi, diz o Sr. Brackett (204) -- experimentador muito cptico e
muito prudente --, centenas de formas materializadas e, em muitos
casos, o duplo fludico do mdium assemelhando-se-lhe tanto, que eu
teria jurado ser o prprio mdium, se no visse o mesmo duplo
desmaterializar-se diante de mim e no houvesse, logo aps
comprovado que o mdium se conservava adormecido".
  ::::::::::
  (204) Erny -- "O psiquismo experimental", cap. V, "Formas
materializadas", ed. FEB.
  ::::::::::
   No acreditamos possa algum citar um nico exemplo de haver um
duplo de vivo mudado o seu tipo, exclusivamente por vontade prpria.
Ao contrrio, da observao das aparies espontneas, tanto quanto
das obtidas pela experincia, resulta que, se nenhuma influncia
exterior for exercida, o Esprito se mostra sempre sob a forma
corprea que lhe caracteriza a personalidade. Dar-se- tenha ele,
depois da morte, um poder que lhe faltava em vida? Poderia o
Esprito dar ao seu corpo espiritual forma idntica  de outro
Esprito, de maneira a ser o ssia deste?  o que vamos examinar.
    primeira vista, parece que o fenmeno da transfigurao
confirma a opinio de que o Esprito pode mudar de forma. Mas ser
mesmo assim? Em realidade, o paciente  inteiramente passivo. No 
pois, consciente ou voluntariamente que modifica o seu prprio
aspecto. Ele sofre uma influncia estranha, que substitui pela sua
aparncia a do mdium, pois que, geralmente, este no conhece o
Esprito que sobre ele atua. No se pode, portanto, pretender que o
Esprito de um mdium seja capaz -- "eo ipso" -- de se transformar.
Em nenhum caso foi isso ainda demonstrado e a substituio de forma
bem se pode atribuir a outro Esprito, visto que, quando o
desdobramento se produz de modo espontneo, a forma do esprito 
sempre a do corpo.
   Estudemos agora os casos em que a apario  manifestamente
diferente do mdium e do seu duplo.
   Porventura j se comprovou que um Esprito, tendo-se mostrado sob
uma forma bem definida, haja mudado de aspecto diante dos
espectadores, assumindo outra inteiramente diversa da primeira?
Jamais semelhante fenmeno se produziu. A nica observao do nosso
conhecimento, que tem alguma relao com esse assunto,  a que
relata o Sr. Donald Mac Nab, que conseguiu fotografar e tocar, com
seis amigos seus, a materializao de uma moa que reproduziu
absolutamente um velho desenho datando de vrios sculos, desenho
que muito impressionara o mdium. Nada, porm, prova, nesse exemplo,
que essa apario no seja a da moa representada no desenho, tendo
bastado perfeitamente, para atra-la, o pensamento simptico do
mdium. No est, pois, de modo algum estabelecido que seja essa uma
transformao do duplo do mdium, nem tampouco uma criao fludica
objetivada pelo seu crebro. O que algumas vezes se h verificado
so modificaes no talhe, na colorao do semblante, na expresso
da fisionomia da apario. Pode variar muito o grau da sua
materialidade e, sendo esta fraca, no acentuar bastante os detalhes
da semelhana; mas, o tipo geral no muda. As modificaes so as de
um mesmo modelo e no chegam para representar outro ser.
   Tomemos o exemplo de Katie King. Indubitavelmente, ela no era um
desdobramento de Florence Cook, porquanto esta, vigil, conversa
durante alguns minutos com Katie e o Sr. Crookes, que as v a ambas.
A independncia intelectual do Esprito materializado se revela a
com toda a clareza, nada tendo de duvidoso com relao ao corpo
fsico, visto que o Sr. Crookes assinalou as diferenas de talhe, de
tez, de cabeleira e, o que  mais importante, dos caracteres
fisiolgicos entre as duas.
   "Uma noite, contei as pulsaes de Katie. Seu pulso batia
regularmente 75, ao passo que o da Srta. Cook, poucos instantes
depois, chegava a 90, algarismo habitual. Colando o ouvido ao peito
de Katie, ouvi-lhe o corao a bater dentro e os seus batimentos
ainda mais regulares eram do que os do corao da Srta. Cook, quando,
aps a sesso ela me permitiu a mesma experincia. Auscultados, os
pulmes de Katie se revelaram mais sos do que os do seu mdium que,
na ocasio em que fiz a minha experincia, estava em tratamento
mdico para um forte resfriado".
   Evidentemente, segundo o que se acaba de ler, Katie no era a
figura nem do corpo, nem do duplo do mdium. Tinha uma
individualidade distinta, se bem nem sempre aparecesse por inteiro.
Numa sesso com Varley, engenheiro-chefe das linhas telegrficas da
Inglaterra, estando a mdium fiscalizada eletricamente, Katie s se
mostrou materializada a meio, at  cintura apenas, faltando ou
conservando-se invisvel o resto do corpo.
   "Apertei a mo quele ser estranho, diz o clebre engenheiro, e,
ao terminar a sesso, mandou Katie que eu fosse despertar a mdium.
Achei a Srta. Cook em transe, isto , adormecida, como eu a deixara,
e intactos todos os fios de platina. Despertei-a".
   Segundo Epes Sargent, nos primeiros tempos, apenas se via o rosto;
no havia cabelos, nem coisa alguma acima da fronte. Parecia uma
mscara animada. Aps cinco ou seis meses de sesses, apareceu a
forma completa. Esses seres ento se condensam mais facilmente e
mudam de cabelos, de vesturio, de cor da tez,  vontade. Mas,
note-se bem que  sempre o mesmo tipo, nunca uma outra forma.
   Neste ponto, faz-se necessrio precisemos bastante o que
entendemos pelo termo tipo. Quando se comparam fotografias de um
indivduo, tiradas em diversas pocas de sua vida, reconhecem-se
grandes diferenas entre as que ele tirou na idade de 15 anos e as
que o representam aos 30 anos. Tudo se modificou profundamente. Os
cabelos embranqueceram ou rarearam, os traos se acentuaram ou
ampliaram; notam-se rugas onde antes s se via plena juvenilidade.
Entretanto, com um pouco de ateno, chega-se a perceber que essas
divergncias no so fundamentais, que se encerram dentro de limites
definidos, dentro do que constitui, durante a vida toda, a
caracterstica da individualidade: o tipo. Podemos perfeitamente
conceber que o perisprito seja capaz de reproduzir uma dessas
formas, pois que evolveu atravs delas neste mundo. Essa faculdade
de fazer que uma imagem reviva de si mesma assemelha-se a um
aviamento de lembranas, o qual evoca uma poca passada e a torna
presente para a memria. Desde que nada se perde no envoltrio
fludico, as formas do ser se fixam nele e por meio de alguns
exemplos.
   Voltemos ao testemunho do Sr. Brackett, citado pelo Sr. Erny.
   "Numa sesso de materializao, vi um mancebo de grande estatura
dizer-se irmo da senhora que me acompanhava e que lhe replicou:
 -- Como poderia eu reconhec-lo, se no o vejo desde criana?.Para
logo, a figura diminuiu de talhe pouco a pouco, at chegar  do
menino que a senhora conhecera. Observei outros casos do mesmo
gnero, acrescenta Brackett".
   Aqui est outro testemunho seu:
   "Uma das formas que aparecem em casa da Sra. F''' disse ser Berta,
minha sobrinha por afinidade. Como eu me mostrasse duvidoso, a forma
desapareceu e voltou com a voz e o talhe de uma criana de quatro
anos, idade em que morrera. No era um desdobramento, porquanto o
mdium tem sotaque alemo e Berta no. Quanto ao ser uma figurante
paga pela Sra. F''', desafio seja quem for que se desmaterialize
diante de mim, como Berta se desmaterializou".
   Faamos aqui uma observao importante. Os dois Espritos que se
reportam  sua meninice tm uma estatura e uma aparncia diversas
das que se lhes conheceram neste mundo. Pode-se admitir sejam
estatura e aparncia de uma vida anterior  precedente, o que nos
conduz  lei geral, ensinada por allan Kardec, de que um Esprito
suficientemente adiantado pode assumir,  sua vontade, qualquer dos
tipos pelos quais tenha evolvido no curso de suas existncias
sucessivas. Com essa questo, porm, no temos que nos ocupar, do
ponto de vista da identidade, porquanto apenas nos interessa a
ltima forma, a que conhecemos.
   No se dever concluir do que fica dito que um Esprito farsista
no possa disfarar-se, de maneira a simular uma personagem
histrica, mais ou menos fielmente. Caro que a um farsante ser
possvel sempre criar o redingote cinzento e o chapu de Napoleo,
bem como uma aurola e um par de asas, a fim de que o tomem por anjo.
Se, porventura, ele tiver uma vaga parecena com Bonaparte ou com
as tradicionais imagens de So Jos, poder enganar os inexperientes,
os ingnuos, os desprovidos de senso crtico. Esse gnero de embuste
pode mesmo ser empregado por Espritos pouco escrupulosos no tocante
 escolha dos meios para sustentar certas crenas: mas, grande
distncia vai dessas caricaturas s experincias cientificamente
realizadas, quais as que temos citado neste livro.
   Outra observao tambm muito importante decorre do estudo das
materializaes e mostra claramente que no  o Esprito quem cria a
forma sob a qual  ele visto: o fato  que os moldes so verdadeiros
modelos anatmicos.
   Os Espritos que assim se manifestam confessam muito facilmente
que ainda se acham pouco avanados na hierarquia espiritual. Na
maioria dos casos, so limitados os seus conhecimentos e no h
suposio injustificada no dizer-se que so muito ignorantes em
matria de cincias naturais. Nessas condies, parece-nos evidente
que no poderiam de modo algum construir uma forma perfeita bastante
para revelar o grau de realidade que os moldes nos do a conhecer.
As peas modeladas no so simples esboos mais ou menos bem
acabados de um membro qualquer;  da prpria Natureza o que se
observa, at nos mnimos detalhes. Temos, pois, a prova de que  um
verdadeiro organismo que se imprime em substncias plsticas e no
apenas uma imagem, que seria rudimentar, se fosse produzida pelo
Esprito. Que organismo ento  esse?  o que j existe durante a
vida, o que d moldagens idnticas no curso dos desdobramentos; ,
numa palavra, o perisprito, que a morte no destruiu e que persiste
com todas as suas virtualidades, pronto a manifest-las, desde que
seja favorvel a ocasio.
   Ainda mesmo imaginando-se que a forma do nosso corpo est
impressa, como imagem, na nossa memria latente, o que  possvel,
no menos verdade  que todos os detalhes anatmicos, salincias das
veias, dos msculos, desenhos da epiderme, etc., no podem existir
nessa imagem mental, pelo menos quanto s partes do corpo que
geralmente se conservam cobertas pelas roupas.
   Entretanto, nos desdobramentos materializados de mdiuns, sempre
que foi possvel tomarem-se impresses ou moldes, se h reconhecido
que o corpo fludico assim exteriorizado  reproduo idntica do
organismo material do mdium, do seu p por exemplo, como foi notado
com Egliton pelo Dr. Carter Blake, ou de sua mo, conforme se deu
muitas vezes com Euspia.  o critrio que nos permitir distinguir
da materializao de um Esprito um desdobramento. Se a apario  o
ssia do mdium, segue-se que sua alma  que se manifesta fora do
seu organismo carnal. No caso contrrio, se a apario difere
anatomicamente do mdium, quem est presente  outra individualidade.
   Esta observao, que fomos o primeiro a fazer, permite se
distinga facilmente se o fantasma  a apario de um ser
desencarnado, ou uma bilocao do mdium.
   No ser talvez suprfluo insistir fortemente nas numerosas
provas que apoiam a nossa maneira de ver.
   O astrnomo alemo Zoellner afirma que durante uma das suas
experincia com Slade (205), produziu-se a impresso de uma mo
fludica, num vaso cheio de farinha finssima, com todas as
sinuosidades da epiderme distintamente visveis, no tendo o
observador perdido de vista as mos do mdium, que se conservavam
todo o tempo sobre a mesa. Aquela mo era maior do que a de Slade.
Doutra feita, produziu-se uma impresso durvel numa folha de papel
enfumaado na chama de uma lmpada de petrleo. Slade se descalou
imediatamente e mostrou que nenhum vestgio havia dos resduos da
fumaa em seus ps. A impresso tinha quatro centmetros mais do que
o p do mdium e parecia a de um p comprimido por uma botina,
porquanto um dos dedos cobria completamente outro, tornando-o
invisvel.
  ::::::::::
  (205) Zoellner -- "Wissenschaftliche Abhandiungen", volume II.
  ::::::::::

   O Dr. Wolf (206), com a mdium Sra. Hollis, viu uma mo a fazer
evolues rpidas, pousar sobre um prato cheio de farinha e
retirar-se depois de sacudir as partculas que lhe ficaram aderentes.
"A impresso representava a mo de um homem adulto, com todos os
detalhes anatmicos". Os dedos marcados na farinha eram mais longos
de uma polegada do que os da Sra. Hollis.
  ::::::::::
  (206) Dr. Wolf -- "Starlings facts", pg. 481.
  ::::::::::
   O professor Denton (207), inventor do processo de moldagem em
parafina, obteve, na primeira sesso com a Sra. Hardy, de quinze a
vinte moldes de dedos de todos os tamanhos. Na maioria dessas
formas, notadamente nas maiores ou nas que mais se aproximavam,
pelas suas dimenses, dos dedos do mdium, ressaltavam ntidos todas
as linhas, sulcos e relevos que se notam nos dedos humanos. Uma
comisso de sete membros assinou uma ata onde se acha consignado o
seguinte: dentro de uma caixa fechada, produziu-se pela ao
inteligente de uma fora desconhecida, o molde exato de uma mo
humana de tamanho natural. O escultor O'Brien, perito em moldagens,
examinou sete dos modelos em gesso e os achou de maravilhosa
execuo, reproduzindo todas as particularidades anatmicas, assim
como as desigualdades da pele, com to grande finura, como a que se
obtm na modelagem de um membro, mas com molde constitudo de
diferentes pedaos, ao passo que os modelos submetidos ao seu exame
no apresentavam qualquer vestgio de soldadura, parecendo-lhe
resultar de moldes sem embalagens.
  ::::::::::
  (207) "The Spiritualist", 1876, t. I, pg. 146.
  ::::::::::
   Este relatrio assinala que uma dessas moldagens de mos se
"assemelha singularmente, como forma e como tamanho" a uma modelagem
da mo de um Sr. Henri Wilson, examinada por O'Brien, pouco tempo
depois do trespasse desse senhor, de cujo rosto ele fora fazer a
moldao em gesso. A a conservao da forma fludica se revela
materialmente, constituindo uma boa prova da imortalidade.
   Numa sesso em casa do Dr. Nichols, com Engliton, por um molde de
mo de criana foi esta reconhecida, graas a uma ligeira
deformidade caracterstica, reproduzida no molde.
   O Dr. Nichols reconheceu sem hesitar a mo de sua filha, obtida
pelo mesmo processo.
   "Esta mo, diz ele, nada tem da forma convencional que os
estaturios criam.  uma mo absolutamente natural, anatomicamente
correta, mostrando todos os ossos, todas as veias, todas as menores
sinuosidades da pele.  exatamente a mo que eu conhecia, que eu to
bem conheci durante a sua existncia corporal, que eu tantas vezes
palpei, quando se apresentava materializada".
   Nas experincias dos Srs. Reimers e Oxley, a materializao
chamada Bertie deu duas mos direitas e trs esquerdas -- todas em
posies diferentes, o que no impediu que as linhas e os pregueados
fossem idnticos em todos os exemplares. As mos pertencem
indubitavelmente  mesma pessoa. As moldagens das mos do mdium
diferem totalmente, quer como forma, quer como dimenses, das de
Bertie. Com o mdium Monck, a mesma Bertie tambm deu os moldes de
suas duas mos, os quais so idnticos aos obtidos com o primeiro
mdium, Sra. Firman, o que estabelece, de modo perfeito, a
identidade do Esprito. O Esprito Lily variava de tamanho; ora a
sua estatura no ultrapassava a de uma criana bem conformada, ora
apresentava as dimenses da de uma moa.
   "Creio, diz o Sr. Oxley, que ela no apareceu duas vezes sob
formas absolutamente idnticas; eu, porm, a reconhecia sempre e
nunca a confundi com as outras aparies".
   Poderamos multiplicar estes depoimentos segundo os quais o
Esprito tem um organismo, que ele no forma de ocasio e para os
fins da experincia; vamos, porm, ver outras provas. Sabemos que a
apario de Katie King se assemelha inteiramente a uma pessoa
natural. Temos sobre esse ponto o testemunho formal de William
Crookes. Nas materializaes completas  o que sempre se d. Alfred
Russel Wallace, numa carta ao Sr. Erny, escreve:
   "Algumas vezes, a forma materializada parece uma simples mscara,
incapaz de falar e de se tornar tangvel a um ser humano. Noutras
circunstncias, a forma tem todos as caractersticas de um corpo
vivo e real, podendo mover-se, falar, mesmo escrever e revelando
calor ao tato. Tem, sobretudo, individualidade e qualidades fsicas
e mentais totalmente diversas das do mdium".
   Numa sesso em Liverpool, com um mdium no profissional, o Sr.
Burns viu aproximar-se de si um Esprito que com ele estivera em
relaes durante longo tempo.
   "Apertou-me a mo, diz Burns, com tanta fora que ouvi o estalido
de uma das articulaes de seus dedos, como si acontecer quando se
aperta fortemente uma mo. Esse fato anatmico foi corroborado pela
sensao que eu experimentava de estar segurando uma mo
perfeitamente natural".
   Fazia parte desse crculo de experimentadores o Dr. Hitchman,
autor de vrias obras de medicina, o qual, numa carta dirigida ao
Sr. Aksakof, disse: (208)
  ::::::::::
  (208) "Animismo e Espiritismo", pg. 228.
  ::::::::::
   "Pelo fato, creio ter adquirido a mais cientfica certeza, que
seja possvel obter-se, de que cada uma dessas formas que apareceram
era uma individualidade distinta do envoltrio material do mdium,
porquanto, tendo-as examinado com o auxlio de diversos
instrumentos, comprovei nelas a existncia da respirao e da
circulao; medi-lhes o talhe, a circunferncia do corpo, tomei-lhes
o peso, etc.".
   Pensa o autor que esses seres tm uma realidade objetiva, mas que
a aparncia corprea deles  de natureza diferente da "forma
material" que caracteriza a nossa forma terrestre. Depois dessa
poca, os numerosssimos fenmenos da telepatia projetaram luz sobre
essas aparies cujos caracteres pareciam verdadeiramente
sobrenaturais, porm que, melhor conhecidos, podem ser, se no
explicados completamente, pelo menos logicamente concebidos.
   Reflita-se por um instante em que o duplo de um vivo, desde que
h sado de seu corpo,  um Esprito, como o ser depois da morte;
que as suas manifestaes fsicas e intelectuais so idnticas s
que um Esprito desencarnado pode produzir, e ver-se- que as
moldagens constituem prova absoluta da imortalidade.
   Logo, no estado atual dos nossos conhecimentos, cremos que a
identidade de um Esprito se acha perfeitamente estabelecida quando
ele se mostra a atuar, materializado numa forma idntica  que teve
outrora o seu corpo fsico.
    o caso de Estela Livermore e de muitos outros Espritos que
foram identificados de modo a no deixar subsistisse qualquer dvida.
   Examinando minuciosamente, nas obras originais, os fatos
mencionados acima e sem formular hiptese, parece-nos que as
seguintes concluses se impem logicamente:
   Primeiro -- Que os Espritos tm um organismo fludico;
   Segundo -- Que, quando esse corpo fludico se materializa,
reproduz fielmente um corpo fsico que o Esprito revestiu durante
certo perodo da sua vida terrestre;
   Terceiro -- Que nenhuma experincia ainda demonstrou que o grau
de variao dessa forma possa ir ao ponto de reproduzir outra forma
inteiramente distinta daquela sob a qual ela se mostra
espontaneamente. Se alguma variao se opera, no passa de uma
diferena para mais ou para menos do mesmo tipo;
   Quarta -- Que, estabelecido, como se acha, experimentalmente,
pela fotografia, pelas moldagens, pelas mais variadas aes fsicas,
que aquele organismo existe nos vivos, pode-se, por efeito de
rigorosa deduo, afirmar a sua existncia depois da morte, uma vez
que ela se nos impe pelos mesmos fatos que a tm positivado com
relao aos vivos;
   Quinto -- Logo, at prova em contrrio, a apario de um Esprito
que fala e se desloca no espao, que se pode reconhecer como sendo
uma pessoa que viveu na Terra  prova excelente de sua identidade.

   Pode demonstrar-se a identidade por meio de provas intelectuais?

   Fiel ao seu mtodo, o Sr. Aksakof no acredita que se possa estar
certo da identidade de um Esprito, ainda quando ele revela fatos
referentes  sua existncia terrestre, na ausncia de pessoas que
conheam esses fatos, porquanto outro Esprito tambm poderia
conhec-los.  esta a sua argumentao:
   " evidente que essa possibilidade de imitao ou de
personificao (de substituio da personalidade) se deve igualmente
admitir para os fenmenos de ordem intelectual.
   O contedo intelectual da existncia terrestre de um _Esprito,
a que chamaremos A, deve ser muito mais acessvel a outro _Esprito,
que designaremos por B, do que os atributos exteriores dessa
existncia. Tomemos mesmo o caso em que o _Esprito se exprime numa
lngua que o mdium desconhece, mas que era a do defunto. 
inteiramente possvel que o _Esprito mistificador tambm conhea
precisamente essa lngua. Ento, s restaria a prova de identidade
pela escrita, que no poderia ser imitada. Mas, seria necessrio que
essa prova fosse dada com uma abundncia e uma perfeio
excepcionais, como no caso do Sr. Livermore, porquanto  sabido que
tambm a grafia e, sobretudo, as assinaturas esto sujeitas a
falsificaes e imitaes. Assim, depois de uma substituio da
personalidade sobre o plano terreno -- pela atividade inconsciente
do mdium -- temos que nos avir com uma substituio da
personalidade num plano supraterrestre, por efeito de uma atividade
inteligente exterior ao mdium. Logicamente falando, tal
substituio careceria de limites. O qiproqu seria sempre possvel
e imaginvel. O que aqui a lgica nos leva a admitir, em princpio,
a prtica esprita o prova. O elemento mistificao, no espiritismo,
 fato incontestvel, como se reconheceu, desde o seu advento. 
claro que, alm de certos limites, j no se pode lanar esse fato 
conta do inconsciente, tornando-se ele um argumento a favor do fator
extramedinico, supraterrestre".
   Toda a argumentao do sbio russo assenta nessa presuno de que
o contedo intelectual da existncia terrena de um Esprito A 
perfeitamente acessvel a um Esprito B. Temos para ns que essa
proposio reclama estudo mais acurado. Sabemos que os Espritos,
para se exprimirem, no precisam da linguagem articulada. Eles se
compreendem sem o recurso da palavra, pela s transmisso do
pensamento, linguagem essa universal que todos apreendem. Resulta,
porm, da que todos os Espritos vem todos os pensamentos, uns dos
outros? No, conforme a experincia o demonstra.
   Do mesmo modo que o paciente magntico mais ricamente dotado no
penetra os pensamentos de todos os circunstantes, tambm, no espao,
muitos desencarnados so absolutamente incapazes de apreender os
pensamentos dos demais Espritos, tanto que estes no entram em
comunicao com eles. A faculdade da clarividncia est em relao
com a elevao moral e intelectual do Esprito. Isso ressalta
bastante das comunicaes que se recebem, porquanto, se o "contedo
intelectual" do Esprito de um Newton, de um Verglio, ou de um
Demostenes estivesse ao alcance de qualquer um, muito menos
banalidades se assimilariam em grande nmero das mensagem que nos
chegam do Alm. A verdade  que a morte no confere  alma
conhecimentos que ela no adquiriu pelo seu trabalho. L, no espao,
o Esprito vai encontrar-se tal qual se fez pelo seu labor pessoal e
se, uma ou outra vez, um Esprito se revela, depois da morte,
superior ao que parecia ser neste mundo,  que manifesta aquisies
anteriores, obnubiladas temporariamente na sua ltima existncia
corprea.
   Admitamos, contudo, por um instante, que um Esprito A conhea os
acontecimentos da vida terrestre de um Esprito B. Bastar isso para
lhe dar o carter de B e a maneira por que este se exprime?
Evidentemente, no. E, se o Esprito A se encontrar em presena de
um observador sagaz que haja conhecido suficientemente B, no
custar ser desmascarado. Diz-se: o estilo  o homem.  quase
impossvel que algum simule o modo por que se exprime um indivduo,
mesmo que conhea episdios de sua passada existncia. Reflitamos
igualmente em que, se um Esprito A pudesse imprimir ao seu
envoltrio fsico os caracteres exteriores do Esprito B, podendo ao
mesmo tempo dispor do contedo intelectual da existncia terrena
deste ltimo, os dois seriam idnticos e indistinguveis, o que 
impossvel, porquanto se A possusse esse poder, B, C, D''' X
Espritos tambm o teriam. Existiriam, pois, inumerveis exemplares
do mesmo tipo, sobretudo do de um homem que se houvesse distinguido
num ramo qualquer da Cincia, da Arte, ou da Literatura, o que no
acontece.
   Se acontecesse, haveria na erraticidade indescritvel confuso
que as comunicaes recebidas desde h cinqenta anos nunca nos
deram a conhecer.
   H, decerto, Espritos vaidosos que, nas suas relaes conosco,
gostam de pavonear-se com grandes nomes; geralmente, porm, o estilo
de que usam faculta sejam para logo classificados no lugar que lhes
compete. Entretanto, tambm se podem imitar mais ou menos habilmente
os grandes escritores, de sorte que se torna difcil estabelecer a
identidade das personagens histricas. Mas, o mesmo j no sucede,
quando se trata de um parente ou de um amigo a quem conhecemos bem,
cujo estilo, agudeza de esprito, modos de ver sobre diferentes
assuntos nos so muito familiares. Tem-se a uma mina rica a
explorar. Quando o Esprito responde corretamente a todas as
questes que se lhe propem, reconhecem-se-lhe as expresses
favoritas e, ento, parece-nos indubitvel que a sua identidade
resulta to perfeitamente formada, quanto se poderia desejar.
   Pretendeu-se que a conscincia sonamblica do mdium pode ler no
inconsciente do evocador, de modo a fornecer todas as
particularidades que parecem provar a identidade e que, assim, h
sempre possibilidade de iluso. Mas, semelhante fato nunca foi
demonstrado rigorosamente e bem longe esto de ser probantes as
pesquisas dos Srs. Binet e Janet sobre a personalidade sonamblica
que coexistiria com a personalidade normal (209). Nas experincias
feitas por esses sbios, aquela dupla conscincia no se mostra
seno quando a ao hipntica ainda se est exercendo. O Sr. Pierre
Janet quis imitar por sugesto as comunicaes automticas dos
mdiuns, mas muito vaga  a analogia das suas experincias com o
processo dos mdiuns escreventes (210); nunca o seu paciente lhe
revela alguma coisa ignorada cuja exatido ele verifique a propsito
de uma pessoa falecida, do mesmo modo que espontaneamente no dar
comunicaes verificveis.
  ::::::::::
  (209) A. Binet -- "As alteraes da personalidade".
  (210) P. Janet -- "O automatismo psicolgico". Veja-se para o que
concerne  refutao, as nossas obras: "O Fenmeno Esprita" e
"Pesquisas sobre a mediunidade".
  ::::::::::
   Os trabalhos dos hipnotizadores modernos absolutamente no
demonstram -- na nossa opinio -- que haja no homem duas
individualidades que se ignoram mutuamente. O inconsciente no 
mais do que o resduo do Esprito, isto , vestgios fsicos das
sensaes, dos pensamentos, das volies fixadas sob a forma de
movimentos no invlucro perispirtico e cuja intensidade vibratria
no basta para faz-los aparecer no campo da conscincia. Se,
entretanto, pela ao da vontade se intensifica o movimento
vibratrio desses resduos, o "eu" torna a perceb-los sob a forma
de lembranas. O sonambulismo, desprendendo a alma e dando ao
perisprito um novo tnus vibratrio, cria condies diferentes para
o registro dos pensamentos e das sensaes, de sorte que, volvendo
ao estado normal, o Esprito j no tem conscincia do que se passou
durante aquele perodo.
   Demais, esse desprendimento facilita o exerccio das faculdades
superiores do Esprito; telepatia, clarividncia, etc., que
habitualmente se no exercem durante o estado de viglia.
   H, se quiserem, duas personalidades que se sucedem, mas como
dois aspectos da mesma individualidade e as personalidades --
diferentes at certo ponto, pela acuidade das suas sensaes e pela
extenso de suas faculdades -- jamais coexistem: uma tem sempre que
desaparecer, quando a outra se manifesta (211). Cremos, pois,
errneo, quando um mdium, bem desperto, em seu estado normal, d
provas da presena de um Esprito, atribuir-se essas noes a uma
leitura inconsciente que a personalidade sonamblica faa na memria
do consulente.
  ::::::::::
  (211) Gabriel Delanne -- "A Evoluo Anmica".
  ::::::::::
   Com mais forte razo, parecem-nos concludentes todas as provas
que o Sr. Aksakof acumulou em seu livro, sob a rubrica: Espiritismo.
   Para resumir, diremos que uma materializao que apresenta, com
uma pessoa anteriormente morta, semelhana completa de forma
corprea a identidade de inteligncia, constitui prova absoluta da
imortalidade.

   Mecanismo da materializao

   -nos rigorosamente impossvel imaginar que a alma, aps a morte,
se ache desprovida de um organismo qualquer, porque, ento, no
poderia pensar, na acepo que damos a essa palavra. Ela no poderia
estar isenta das condies de tempo e de espao, sem deixar de ser o
que ; se tal se desse, ela se tornaria alguma coisa de
absolutamente incompreensvel para a nossa razo.
   Mostra-nos o estudo que h leis a que todos os seres pensantes se
acham submetidos.  em virtude dessas leis que no podemos estar em
diversos lugares ao mesmo tempo, ou percorrer mais do quem
determinado espao em certo tempo, ou pensar alm de certo nmero de
pensamentos, ou experimentar mais que certo nmero de sensaes, em
dado tempo. Da se segue que, se muito facilmente podemos imaginar
que uma inteligncia superior  nossa, se bem que finita, esteja
submetida a condies muito diferentes, no podemos, entretanto,
conceber uma inteligncia finita absolutamente livre de todas as
condies, isto , de qualquer corpo. (212)
  ::::::::::
  (212) Balfour-Stewart et Tait -- "O Universo Invisvel", pg. 91.
  ::::::::::
    evidente, por exemplo, que a existncia mesma de uma vida
psquica necessita de um lao de continuidade entre os pensamentos,
certa aptido a conservar uma espcie de domnio sobre o passado: 
claro que o que j no existe, isto , o pensamento de h pouco, tem
que ser conservado nalguma coisa, para que possa ser revivificado.
Essa propriedade da lembrana implica a existncia de um rgo em
relao com o meio em que vive a alma. Na Terra, mundo pondervel, o
crebro  a condio orgnica; no espao, meio impondervel, o
perisprito desempenha a mesma funo. A bem dizer, como o
perisprito j existe neste mundo, ele  o conservador da vida
integral, que compreende as duas fases: de encarnao e de vida
supraterrena. Uma segunda condio de vida intelectual se impe: a
de uma possibilidade de ao no meio em que ela se desenvolve. Um
ser vivo precisa ter em si mesmo a faculdade de diversos movimentos,
pois que a vida se caracteriza pelas reaes contra o meio exterior.
 alis o parecer do Sr. Hartmann, citado por Aksakof, o que diz:
   "Se se pudesse demonstrar que o Esprito individual subsiste aps
a morte, eu da concluiria que, malgrado  desagregao do corpo, a
substncia do organismo persistiria sob uma forma imperceptvel aos
sentidos, porque somente nessa condio posso imaginar a
persistncia do esprito individual".
   Ns, espritas Kardecistas, vemos no perisprito essa forma
imperceptvel e provamos, com as materializaes, que ela sobrevive
 morte.
   Como se produz esse esplndido fenmeno? Por que processo pode um
Esprito fazer-se visvel e mesmo tangvel? Este o ponto em que
comeam as dificuldades. Sabemos bem que a substncia da apario 
tomada ao mdium e aos assistentes. Disso, dentro em pouco, vamos
ter as provas. Mas, como se ho de compreender esse transporte, essa
desagregao e essa reconstituio de matria orgnica, sem que ela
se haja decomposto? Tais manifestaes transcendentes pem em ao
leis que desconhecemos e os sbios fariam muito melhor, ajudando-nos
a descobri-las, do que negando sistematicamente fatos mil vezes
observados com inexcedvel rigor. Esperando que se d, vamos, nada
obstante, expor o que conhecemos.
   Fato bem observado  a ligao constante em que se mantm o
mdium e o Esprito materializado. Este ltimo haure daquele a
energia de que utiliza, de sorte que, sobretudo nas suas primeiras
manifestaes, mal pode sair do gabinete onde o mdium se encontra
em letargia. Mais tarde, aumenta-se-lhe o poder de ao,
conservando-se sempre, porm, limitado. Num esboo feito pelo Dr.
Hitchman, nota-se que, entre a cavidade do peito da forma
materializada e a do mdium, h um como feixe luminoso religando os
dois corpos e projetando um claro sobre o rosto do mdium. Esse
fenmeno foi observado muitas vezes durante as materializaes.
Compararam-no ao cordo umbilical. O Sr. Dassier o equipara a uma
rede vascular fludica, pela qual passa a matria fsica, em
particular estado de eterizao. Verifica-se a presena desse liame,
durante os desdobramentos naturais, pela repercusso das alteraes
do corpo perispirtico sobre o corpo material (213), como se dava
nas experincias do Sr. De Rochas. Aqui,  entre o Esprito e o
mdium que existe aquele lao, e  natural, porquanto  neste ltimo
que a materializao haure a matria e a energia, que emprega para
se manifestar.
  ::::::::::
  (213) Releiam-se os casos da lcida de Cahagnet, de Joana Brooks, da
experincia de Aksakof com a Srta. Fox, etc., a pgs. 163 e
seguintes.
  ::::::::::
   A propsito das moldagens de materializaes, o Sr. Aksakof faz
uma ponderao das mais significativas, no tocante  provenincia da
matria fsica de que  formada a apario.
   "Do ponto de vista das provas orgnicas, eu no poderia guardar
silncio, diz ele, sobre uma observao que fiz: Examinando
atentamente o gesso da modelao da mo de Bertie e comparando-o ao
gesso da do mdium, notei com surpresa que a mo de Bertie, embora
rolia como a de uma moa, apresentava, pelo aspecto do dorso,
sinais indicativos da idade. Ora, o mdium era uma mulher idosa, que
morreu pouco tempo depois da experincia. Eis a um detalhe que
nenhuma fotografia pode registrar e que prova de modo evidente que a
materializao se efetua a expensas do mdium e que o fenmeno 
devido a uma combinao de formas orgnicas existentes, como
elementos formais introduzidos por uma fora organizadora, estranha,
fora que  a que produz a materializao. Por isso mesmo, vivo
prazer experimentei ao saber que o Sr. Oxley fizera as mesmas
observaes, conforme se depreende de uma carta sua, de 20 de
fevereiro de 1876, relativa a uns moldes que obtivera e me enviava.
   Coisa curiosa, escreveu ele: sempre se reconhecem nas modelaes
os sinais distintivos da mocidade e da velhice. Prova isso que os
membros materializados, embora conservem a forma juvenil, apresentam
particularidades que traem a idade do mdium. Se examinardes as
veias da mo, encontrareis indcios caractersticos, que
indiscutivelmente se relacionam com o organismo do mdium".
   Se  exata essa teoria, isto , se uma parte da matria do corpo
materializado  tomada do mdium, deve este necessariamente
experimentar uma diminuio de peso.  precisamente o que sucede,
como se h muitas vezes comprovado.
   Diz a Sra. Florence Marryat:
   "Vi a Srta. Florente Cook colocada sobre a mquina de uma balana
de pesar, construda para esse fim pelo Sr. Crookes, e verifiquei
que a mdium pesava 112 libras. Logo, porm, que o Esprito se
materializava completamente, o peso do corpo da mdium ficava
reduzido  metade, a 56 libras". (214)
  ::::::::::
  (214) Florence Marryat -- "There is no death" ( No h morte ).
  ::::::::::
   Agora, uma observao do Sr. Armstrong, em carta dirigida ao Sr.
Kenivers:
   "Assisti a trs sesses organizadas com a Srta. Wood, nas quais
foi empregada a balana do Sr. Blackburn. Pesaram o mdium e
conduziram-no em seguida ao gabinete. Trs figuras apareceram, uma
aps outra e subiram  balana. Na segunda sesso, o peso variou
entre 34 e 176 libras, representando este ltimo algarismo o peso
normal do mdium. Na terceira sesso, um s fantasma se apresentou,
oscilando o seu peso entre 83 e 84 libras. So muito concludentes
estas experincias de pesagens, a menos que as foras ocultas zombem
de ns.
   Contudo, seria interessante saber o que restar do mdium no
gabinete, quando o fantasma tem o mesmo peso que ele. Comparados aos
de outras experincias do mesmo gnero, ainda mais interessantes se
tornam estes resultados.
   Numa sesso de controle com a Srta. Fairlamb, esta foi, por
assim dizer, cosida numa maca, cujos suportes eram providos de um
registrador que marcava todas as oscilaes do seu peso, passando-se
tudo sob as vistas dos assistentes. Aps breve expectativa,
comprovou-se uma diminuio gradual do peso, at que, por fim, uma
figura apareceu e passou por diante dos assistentes. Enquanto isso,
o registrador indicava uma perda de 60 libras no peso da mdium, ou
seja, de metade do seu peso normal. Quando o fantasma comeou a
desmaterializar-se, entrou o peso da mdium a aumentar e, ao termo
da sesso, como resultado final, ela perdera de trs a quatro
livras. No  uma prova de que, para as materializaes, uma parte
da matria  fornecida pelo organismo do mdium?". (215)
  ::::::::::
  (215) Aksakof -- "Animismo e Espiritismo", pg. 242.
  ::::::::::
   Isto nos parece certo, mas, h casos em que uma parte  tambm
tomada aos que assistem  experincia. Num livro intitulado: Um caso
de desmaterializao parcial do corpo de um mdium (pg. 15), o Sr.
Aksakof relata que a Sra. d'Esprance adoecia depois da sesso, se
algum dos assistentes houvesse fumado ou ingerido bebida alcolica.
Nesse livro, responde-se  pergunta relativa ao que resta do mdium,
quando to grande quanto o seu  o peso das aparies. Resta apenas
o perisprito, que  por sua natureza, invisvel, de sorte que, se
algum penetrar no gabinete, o encontrar vazio. , pelo menos, o
que afirma o Sr. Olcott, em virtude das suas experincias com a Sra.
Compton (216).
  ::::::::::
  (216) Coronel Olcott -- "Peoples from the other world" (Gente do
outro mundo).
  ::::::::::
   Com a Sra. d'Esprance, a desmaterializao observada numa
sesso em Helsingfors, no ano de 1893, no foi to completa; mas,
como resultado das investigaes rigorosas a que procedeu o sbio
russo, ficou provado que a metade inferior do corpo da mdium
desaparecera. O engenheiro Seilling diz:
   " extraordinrio: vejo a Sra. d'sprance e ouo-a falar;
apalpando, porm, a cadeira que ela ocupa, encontro-a vazia; ela a
no est; esto, apenas, as suas roupas".
    mesma comprovao chegaram o general Toplius e cinco dos
assistentes. Os que se achavam mais prximos da Sra. d'Esprance,
distantes dela poucos centmetros, lhe viram o vestido, que pendia 
frente da cadeira, como de um cabide, ao passo que seu busto se
mantinha visvel tal qual era, entufar-se insensivelmente, at
retomar o volume normal, ao mesmo tempo que seus ps se tornaram
visveis.
   Nem sempre  to completa a desmaterializao do mdium, pois h
casos em que a apario e o mdium so simultaneamente tangveis,
por todo o tempo de durao do fenmeno.
   Resulta do que temos exposto que reveste a alma um envoltrio
fsico invisvel e impondervel, mas que possui a fora organizadora
da matria, pois que esta, tirada do mdium, se modela segundo o
desenho corpreo do Esprito. No estado atual da cincia, no nos ,
de modo algum fcil explicar estes fenmenos. Todavia, se  certo
que ainda no os podemos compreender, no menos certo  que eles
nada tm de sobrenaturais e talvez seja possvel que, examinando-se
com ateno as cincias em sua filosofia, se formulem pareceres,
cujo valor, maior ou menor, o futuro patentear. Seja, porm, como
for, pelo que toca  explicao, no h contestar que os fatos so
verdadeiros e se acham bem comprovados. Ora, isto  o essencial.

   A imortalidade da alma

   "Nada se pode acrescentar  Natureza, diz Tyndall, e nada se lhe
pode subtrair.  constante a soma das suas energias e tudo o que o
homem pode fazer, na pesquisa da verdade, ou na aplicao das
cincias fsicas,  mudar de lugar as partes constituintes de um
todo que nunca varia e com uma delas formar outra.
   A lei de conservao exclui rigorosamente a criao e a
nulificao; o nmero pode substituir a grandeza e a grandeza o
nmero; asterides podem aglomerar-se em sis; podem sis
resolver-se em floras e faunas; faunas e flores podem dissipar-se em
gases; a potncia em circulao  perpetuamente a mesma. Rola em
ondas de harmonia atravs das idades e todas as energias da Terra,
todas as manifestaes da vida, tanto quanto o desdobramento dos
fenmenos no so mais do que modulaes ou variaes de uma melodia
celeste".
   Vemos, pois, que temos de considerar tudo o que existe atualmente,
matria e fora, como rigorosamente eterno; o que muda  a forma. As
palavras criao e destruio perderam o sentido primitivo;
significam unicamente passagem de uma forma a outra. Quando um ser
nasce ou um corpo se produz, diz-se que h criao; chama-se
destruio ao desaparecimento desse ser ou desse corpo, mas, a
matria e a fora que o formavam nenhuma alterao experimentaram e
prosseguem o curso de suas metamorfoses infinitas. A alma
inteligente conserva a substncia de sua forma etrea, que 
imperecvel, do mesmo modo que a matria. Um ser vivo, quando nasce,
apodera-se, em proveito seu, de certas combinaes qumicas que
constituem o seu alimento.  um emprstimo que toma ao grande
capital disponvel da Natureza. Desenvolve-se, assimilando uma
quantidade cada vez maior de matria, at completar o seu
desenvolvimento. Depois, mantm-se estvel durante a idade viril e,
em chegando a velhice, com o tornar-se maior a desassimilao do que
a regenerao pela nutrio, ele restitui  terra o que lhe tomara.
Pela morte, restitui integralmente o que recebera.
   Em suma, que  o que desaparece? No  a matria,  a forma que
individualizava essa matria. E essa forma  destruda? No,
responde o Espiritismo, e o prova, demonstrando que ela sobrevive 
destruio do envoltrio carnal e, o que ainda mais , demonstrando
ser absolutamente impossvel o seu aniquilamento. Eis como:
   Se o corpo fsico se decompe por ocasio da morte, isso se d
por ser ele heterogneo, isto , formado pela reunio de muitas
partes diversas. Quanto mais elementos um corpo contm, tanto mais
instvel  ele quimicamente. Os compostos quaternrios do reino
animal so essencialmente proteiformes, porque neles o movimento
molecular -- muito complicado, pois resulta dos de seus
componentes -- pode mudar sob a influncia de fracas foras
exteriores. Nos corpos vivos, os tecidos so comparveis a esses
ps explosivos que a menor centelha basta para inflamar. Esto
constantemente a decompor-se por efeito das aes vitais e a
reconstituir-se por meio do sangue. (217)
  ::::::::::
  (217) Balfour Stewart -- "A conservao da energia". Pgs. 161 e
seguintes.
  ::::::::::
   O organismo humano  um perptuo laboratrio, onde as mais
complicadas aes qumicas se executam incessantemente, sob as mais
fracas excitaes exteriores.
   No mundo mineral j no  assim. Muito mais estveis so as
combinaes, sendo s vezes necessrio o emprego de meios enrgicos
para separar dois corpos que muito facilmente se unem um ao outro.
Assim, sem dificuldade alguma, um pedao de carvo se combina com o
oxignio, para formar o cido carbnico. Pois bem: faz-se mister uma
temperatura de 1.200 graus para, em seguida, separar do carbono o
oxignio. V-se, pois, que tanto menos fatores entram numa
combinao, tanto mais estvel  ela.
   No que concerne aos corpos simples, tem-se verificado que nenhuma
temperatura, neste mundo  capaz de os decompor. Unicamente o enorme
calor do Sol o consegue com relao a alguns deles. Fcil ento se
nos torna compreender que a matria primitiva, donde eles provieram,
 absolutamente irredutvel e, como no pode aniquilar-se, 
rigorosamente indestrutvel. Essa matria primordial, em que a alma
se acha individualizada, constitui a base do universo fsico,
gozando do mesmo estado de perenidade o perisprito, que  dela
formado.
   Por outro lado, a alma  uma unidade indivisvel.
   Vimos, na primeira parte deste volume, que as almas de Pascal e
de Verglio se mostraram a mdiuns sob uma aparncia fsica que
reproduzia a que ambos tiveram neste mundo. No est a uma prova
positiva de que nada se perde do envoltrio fludico e que, assim
como aqui na Terra uma lembrana no pode desaparecer, tambm no
espao nenhuma forma pode aniquilar-se? Todas as que a alma
revestiu se conservam em estado virtual e so imperecveis.
   A alma se encontra unida  substncia perispirtica, que coisa
nenhuma pode destruir, visto que, pelo seu estado fsico, ela  o
ltimo termo das transformaes possveis; ela  a matria em si.
Nem os milhes de graus de calor dos sis ardentes, nem os frios do
espao infinito tm ao sobre esse corpo incorruptvel e espiritual.
Somente a vontade o pode modificar, no, porm, mudando-lhe a
substncia, mas expurgando-a dos fluidos grosseiros de que se satura
no comeo de sua evoluo.  a grande lei do progresso, que tem por
fim depurar essa massa, despojar esse diamante, a alma, da ganga
impura que a contm. As vidas mltiplas so o cadinho purificador. A
cada passagem por ele, o Esprito sai do invlucro corpreo mais
purificado e, quando h vencido as contingncias da matria, acha-se
liberto das atraes terrenas e desfere o vo para outras regies
menos primitivas.
   Nesse mundo do espao, nesse meio impondervel, onde vibra toda a
gama dos fludos, um nico poder existe soberano: o da vontade. Sob
a sua ao potente, a matria fludica se lhe curva a todas as
fantasias. A alma que se haja tornado bastante sbia para os
manipular realiza tudo o que lhe possa aflorar  imaginao, no
passando as formas terrestres de plidos reflexos de tudo isso.
Veremos em breve que essa vontade pode mesmo atuar sobre a matria
tangvel, em certas condies que vamos determinar.

   QUARTA PARTE

   ENSAIO SOBRE AS CRIAES FLUDICAS DA VONTADE

   CAPTULO NICO

   ENSAIO SOBRE AS CRIAES FLUDICAS PELA VONTADE

   SUMRIO:
   A vontade -- Ao da vontade sobre o corpo -- Ao da
vontade a distncia -- Ao da vontade sobre os fludos -- Concluso.

   Um fenmeno absolutamente geral, comprovado em todas as aparies,
 que estas se mostram sempre com os trajes que o paciente costuma
usar, quando elas resultam de um desdobramento, ao passo que se
apresentam envoltas em largos panos, quando  a alma de um morto que
se manifesta. Para explicarmos a produo dessas aparncias,
necessrio se faz digamos o que entendemos por "vontade" e mostremos
que no s a vontade existe realmente, como faculdade da alma, mas
tambm que exerce seu poder, durante a vida, fora do corpo terrestre
e, "a fortiori", alm do perisprito no espao.

   A vontade

   A palavra vontade d lugar s vezes a mal-entendidos, decorrentes,
sem dvida, de no se ter bastante cuidado em distinguir a inteno
ou o desejo de fazer uma coisa do poder de a executar. Quando um
indivduo paraltico das pernas quer caminhar, -lhe impossvel
mover os msculos da locomoo. Ele realmente quer, mas, em virtude
de uma ao mrbida, sua vontade no se executa. Por outro lado, na
linguagem mdica, diz-se, a propsito de uma paralisia histrica,
que a vontade est paralisada, para significar que no h, em
realidade, da parte do doente, inteno ou desejo de mover os
membros do corpo.
   As dificuldades, porm, no se limitam ao emprego dessa palavra
em dois sentidos opostos; as opinies igualmente divergem, quando se
lhe quer reconhecer a natureza. Os materialistas, que fazem da
sensao a base do esprito humano e que no admitem para a alma uma
existncia independente; que consideram as faculdades da alma
simples produtos da atividade do crebro, apenas vem na vontade o
termo final da luta de dois ou muitos estados opostos de conscincia.
Para essa escola, a vontade  uma resultante de atos fsicos mais ou
menos complexos. Carece de existncia prpria.
   Ns, que sabemos ser a alma uma realidade com o poder de
manifestar-se independente de toda matria organizada, sustentamos
que a vontade  uma faculdade do esprito; que ela existe
positivamente como potncia; que sua ao se revela claramente na
esfera do corpo e que pode mesmo projetar a distncia sua energia,
como os fatos o vo demonstrar.

   Ao da vontade sobre o corpo

    manifesta, para toda gente, a influncia da vontade sobre os
msculos (218): queremos levantar um brao, ele executa o movimento,
constituindo esse ato um exemplo trivial da ao da alma sobre o
corpo. H, porm, casos notveis em que o seu poder se exerce sobre
partes do organismo que pareciam excludas da sua dominao.
  ::::::::::
  (218) Estritamente falando, deve dizer-se que a vontade age sobre os
gnglios incitadores, donde nascem os nervos motores dos msculos.
  ::::::::::
   No  impossvel que a vontade atue por ao direta sobre o
corao e os msculos lisos da vida orgnica. (219)
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  (219) Hack Tuke -- "O Corpo e o Esprito".
  ::::::::::
   Aqui est um exemplo.
   Um distinto membro da Sociedade Real de Londres, o Sr. Fox,
conseguia, por voluntrio esforo, aumentar de dez a vinte por
minuto os batimentos do seu pulso. Tambm o Sr. Hack Tuke fez a
mesma experincia: pelo espao de dois minutos mais ou menos, as
pulsaes, que a princpio eram regulares, se elevaram de 63 a 82.
   Pelo exerccio, desenvolve-se o poder da vontade. Sabe-se, por
narrativas autnticas, que os faquires podem, voluntariamente,
pr-se em estado catalptico, fazer-se enterrar num subterrneo e
voltar  vida ao cabo de alguns meses de sepultamento. Este fato no
 desconhecido na Europa. Podera-mos citar muitos casos de letargia
voluntria, devidas ao coronel Townsend. O que se segue foi
testemunhado por trs doutores, os Srs. Chayne, Baynard e Skrine.
   "O pulso, diz o Dr. Chayne, era bem acentuado, conquanto fraco e
filiforme; o corao batia normalmente. O coronel deitou-se de
costas e permaneceu calmo por alguns instantes. Notei que seu pulso
enfraquecia gradativamente, at que, por fim, malgrado  mais
minuciosa ateno, deixei de perceb-lo. O doutor Baynard, por seu
lado, no conseguia perceber o menor movimento do peito e o Sr.
Skrine no logrou notar a mais ligeira mancha produzida sobre o
espelho reluzente por ele mantido diante da boca do coronel. Cada um
de ns, a seu turno, lhe examinou o pulso, o corao e a respirao.
Porm, apesar das mais severas e rigorosas pesquisas, no nos foi
possvel descobrir o mais ligeiro sinal de vida".
   Iam os trs retirar-se, convencidos de que o paciente morrera,
quando um ligeiro movimento do corpo os tranquilizou. Pouco a pouco
o coronel voltou  vida. Durara meia hora a letargia.
   Esse poder da alma sobre o corpo pode chegar at a vencer a
enfermidade. Muitas vezes, uma vontade enrgica consegue
restabelecer a sade, com excluso dos efeitos da imaginao ou da
ateno. Damos aqui o relato da cura de uma enfermidade grave, a
raiva:
   O Sr. Cross foi gravemente mordido por um gato, que, no mesmo
dia, morreu hidrfobo. A princpio, ele pouca ateno deu a essa
circunstncia, que, sem dvida, em nada lhe perturbou a imaginao
ou o sistema nervoso. Trs meses, no entanto, depois do acidente,
sentiu, certa manh, forte dor no brao, ao mesmo tempo que grande
sede. Pediu um copo dgua.
   "No momento, porm, diz ele, em que eu ia levar o copo aos
lbios, senti na garganta violento espasmo. Logo se me apoderou do
esprito a terrvel convico de que me achava atacado de hidrofobia,
em consequncia da mordedura do gato.  indescritvel a angstia que
experimentei durante uma hora. Era-me quase intolervel a idia de
to terrvel morte. Senti uma dor que comeou na mo e ganhou o
cotovelo, depois a espdua, ameaando estender-se mais. Percebi que
seria intil qualquer assistncia humana e acreditei que s me
restava morrer.
   Afinal, pus-me a refletir sobre a minha situao. Pensei comigo
mesmo que tanto eu podia morrer, como no morrer; que se houvesse de
morrer, teria a sorte que outros tinham tido e outros ainda tero e
que me cumpria afrontar a morte como homem; que se, por outro lado,
me restasse alguma possibilidade de conservar a vida, um nico era,
para mim, o meio de conseguir; firmar as minhas resolues,
enfrentar o mal e exercer esforos enrgicos sobre o meu esprito.
Conseguintemente, compreendendo que precisava de exerccio ao mesmo
tempo intelectual e fsico, tomei de meu fuzil e sa a caar, sem
embargo da dor que continuava a sentir no brao.
   Em resumo, no encontrei caa, mas caminhei durante toda a
tarde, fazendo, a cada passo que dava, um rigoroso esforo de
esprito contra a molstia. Retornando a casa, achava-me realmente
melhor. Ao jantar, pude comer e beber gua, como de ordinrio. No
dia seguinte de manh, a dor recuara para o cotovelo; no dia
imediato, retrocedera para o pulso e no terceiro dia desaparecera.
Falei do caso ao Dr. Kinglake. Disse-me que, na sua opinio, eu
sofrera, indubitavelmente, um ataque de hidrofobia, que me poderia
ter sido fatal, se eu no houvera reagido energicamente contra ele
por vigoroso esforo do esprito". (220)
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  (220) Andrew Cross -- "Memrias"
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   O esprito precisa, s vezes, de um suplemento de fora para agir
eficazmente sobre o corpo. No hipnotismo, podem considerar-se as
injunes imperativas do operador como o estimulante necessrio.
Lembraremos, de memria, as experincias do Sr. Focachon (221) e dos
Srs. Bourru e Burot.
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  (221) Beaunis -- "O sonambulismo provocado", pg. 45.
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   O farmacutico de Charmes aplica na espdua de seu paciente
alguns selos do correio e passa-lhes por cima, a fim de segur-los,
umas tiras de diaquilo e uma compressa, sugerindo-lhe, ao mesmo
tempo, que lhe aplicara um vesicatrio. O paciente fica sob
vigilncia. Depois de vinte horas, retiraram o penso, que se
conservara intacto. No lugar, a pele, espessada e macerada,
apresentava uma cor azul-amarelado, estando a regio cercada de uma
zona de intensa vermelhido, com intumescimento. Esse estado
verificaram-no os Srs. Ligeois, Bernheim, Libault, Beaunis. Pouco
mais tarde sobreveio a supurao.
   To grave perturbao orgnica fora causada pela vontade, atuando
como elemento material sobre os tecidos do corpo. Na Salptrire, o
Sr. Charcot e seus alunos ocasionaram queimaduras por sugesto.
Finalmente, os Srs. Bourru e Burot (222) conseguiram produzir, 
vontade, estigmas no corpo de um paciente.  hora que os operadores
determinavam, o corpo do paciente sangrava nos lugares que eram
tocados por um estilete sem ponta. Letras traadas na carne se
desenhavam em relevo, de um vermelho vivo, sobre o fundo plido da
pele. (223)
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  (222) Bourru e Burot -- "A sugesto mental e a ao a distncia das
substncias txicas e medicamentosas".
  (223) Bourru e Burot -- "A sugesto mental e as variaes da
personalidade", pg. 120.
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   Prova isto  evidncia que a vontade de um operador pode mudar a
matria do corpo de um paciente, em sentido favorvel ou nefasto ao
indivduo, conforme a direo que se lhe imprima.
   Poderamos tambm citar o caso do clebre Edward Irwing que se
curou, pela ao da vontade, de um ataque de clera, durante a
epidemia de 1832. (224)
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  (224) "The Life of Edward Irwing", cit. Por Hack Tuke.
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   O poder da vontade se exerce igualmente sobre as sensaes.
Jacinto Langlois, distinto artista, ntimo de Talma, narrou ao Dr.
Brierre de Boismont que esse grande ator lhe referira que, quando
estava em cena, tinha o poder, pela fora da sua vontade, de fazer
desaparecessem as vestes do seu numeroso e brilhante auditrio e de
substituir essas personagens vivas por outros tantos esqueletos.
Logo que a sua imaginao enchera assim a sala daqueles singulares
espectadores, a emoo que em conseqncia experimentava lhe
imprimia tal fora ao jogo cnico, que muitas vezes os mais
empolgantes efeitos se produziam. (225)
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  (225) Brierre de Boismont -- "As Alucinaes Telepticas".
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   No  nico este fato: Goethe tambm conseguia ter vises
voluntrias e sabe-se que Newton podia obter para si,  vontade, a
imagem do Sol. O Dr. Wigan faz meno de uma famlia, cada um de
cujos membros possua a faculdade de ver mentalmente, sempre que o
queria, a imagem de um objeto e de fazer deste, de memria, um
desenho mais ou menos exato.
   Esse poder da vontade, que se exerce sobre o corpo com tanto
imprio, quando a pessoa sabe servir-se dele, tambm tem ao
determinada sobre outros organismos. Vamos mostr-lo
experimentalmente.

   Ao da vontade a distncia

   A influncia da vontade de um hipnotizador sobre o seu paciente 
fato que hoje dispensa qualquer demonstrao. A sugesto, cujas
formas so to variadas, tornou incontestvel a ao que, sobre o
esprito de um paciente sensvel, exerce uma ordem formulada de modo
imperativo. Essa ordem se grava no esprito do paciente e pode
faz-lo executar todos os movimentos, dar-lhe todas as alucinaes
dos sentidos, como lhe pode perturbar as faculdades intelectuais e,
at, aniquil-las completamente, por certo tempo. Os tratados sobre
hipnotismo esto cheios de exemplos desse gnero de aes
voluntrias. O que queremos mostrar aqui  o que foi com muita
frequncia contestado: a ao da vontade, a distncia. Os antigos
magnetizadores lhe haviam revelado a existncia e os modernos
experimentadores, sem embargo da repugnncia que manifestam, tero
que se resignar a confess-la. , alis, o que fazem os mais
sinceros.
   Aqui esto dois fatos, buscados em fontes de confiana, que
mostram, sem contestao possvel, a influncia da vontade a
exercer-se fora dos limites do organismo.
   No seu clebre relatrio  Academia, refere assim o Dr. Husson o
primeiro deles.
   "A comisso se reuniu no gabinete de Bourdais, a 6 de outubro, ao
meio-dia, hora em que chegou o Sr. Cazot (o paciente). O Sr.
Foissac, o magnetizador, fora convidado a comparecer s 12h30m. Ele
se conservou no salo, sem que Cazot o soubesse e sem nenhuma
comunicao conosco. Foi-lhe dito, no entanto, por uma porta oculta,
que Cazot se achava sentado num canap, distante dez ps de uma
porta fechada, e que a Comisso desejava que ele, magnetizador,
adormecesse o paciente e o despertasse quela distncia,
permanecendo no salo e Cazot no gabinete.
s 12h37m, estando Cazot atento  conversao que entabulramos,
ou a examinar os quadros que adornam o gabinete o Sr. Foissac,
colocado no compartimento ao lado, comea a magnetiz-lo. Notamos
que ao cabo de quatro minutos Cazot pisca ligeiramente os olhos,
inquieto, e que, afinal, decorridos nove minutos adormece".
   O resultado  positivo, com excluso de toda suspeita, dado que
se produziu diante de investigadores pouco crdulos e de toda a
competncia exigida para se pronunciarem com conhecimento de causa.
Cedamos agora a palavra ao Sr. Pierre Janet, cujos trabalhos sobre o
hipnotismo tm autoridade no mundo sbio. (226)
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  (226) Veja-se, do Sr. Pierre Janet: "O automatismo psicolgico". O
exemplo que citamos  tirado de um artigo: "As fases intermdias do
hipnotismo". Vejam-se tambm as experincias do Baro du Potet, no
Hospital.
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   "Pode-se adormecer o paciente sem o tocar, por uma ordem no
expressa, mas apenas pensada diante dele. Numa nova srie de
experincias, cuja narrativa ainda no est publicada, aps longa
educao do paciente, cheguei eu prprio a repetir  vontade esse
curioso fenmeno. Oito vezes de seguida, tentei adormecer a Srta.
B''' de minha casa, tomando todas as precaues possveis para que
ningum fosse prevenido da minha inteno e variando de cada vez a
hora da experincia. De todas as vezes, a Senhora B''' adormeceu de
sono hipntico, alguns minutos depois de haver eu comeado a pensar
nisso. A verificao do fato havia naturalmente de provocar nova
suposio. Pois que a sugesto mental podia adormecer a Srta. B''',
achando-se ela em estado de viglia, a mesma sugesto deveria
faz-la passar de uma fase do sono a outra.
   Era fcil verific-lo, desde que a Srta. B''' estivesse em
sonambulismo letrgico. Enquanto eu lhe fazia sempre as sugestes
mentais, sem a tocar, sem lhe soprar nos olhos, sem exercer sobre
ela qualquer ao fsica, pus-me apenas a pensar: -- Quero que durma.
Ao cabo de alguns instantes, entrava ela em letargia sonamblica.
Repito a mesma ordem mental, ela suspira e ei-la em letargia
catalptica. De cada vez que formulo esse pensamento, transpe ela
um novo estado. O pensamento do magnetizador pode, pois, por uma
influncia inexplicvel, mas que  aqui imediatamente verificvel,
fazer que o paciente percorra as diferentes fases, num sentido ou
noutro".
   Sabe-se com quanto cuidado os Srs. Ochorowicz, Myers, Richet, De
Dusart, Dr. Moutin, Boirac, Paul Joire, etc., realizaram essas
experincias.  portanto certo que a sugesto pode ser exercida a
distncia. (227)
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  (227) Ochorowicz -- "A sugesto mental", pgs. 119 e seguintes;
cap. IV: "As experincias do Havre".
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   O Sr. Janet reconhece aqui a ao da vontade sem contacto material
com o paciente; entretanto, para se escusar de to grande audcia
aos olhos dos seus doutos correligionrios, apressa-se a dizer que o
fato  inexplicvel. Mas, porque, se faz favor? Sabemos que o ser
humano possui uma fora nervosa que pode exteriorizar-se e nem as
experincias de Crookes sobre as foras psquicas, nem as do Sr. De
Rochas foram, que nos conste, demonstradas falsas. Por outro lado,
no  certo tambm que a telegrafia sem fio deixou de ser um mito e
constitui um fato experimentalmente demonstrado? Assim, entre o Sr.
Janet e o paciente que "recebeu uma educao bastante prolongada",
um lao fludico se criou, que transmite ao segundo a vontade do
primeiro, sem dvida do mesmo modo por que os raios luminosos do
fotofono de Graham Bell transportavam as ondas magnticas que,
provavelmente, so mais materiais do que as do pensamento.
   , em verdade, curioso observar como os experimentadores filiados
a uma certa escola se exasperam diante dos fatos. Quando so
suficientemente honestos para reconhec-los reais e tm a coragem de
proclam-los tais, como o Sr. P. Janet, imediatamente se tomam de
escrpulos e procuram desculpar-se da grande ousadia que tiveram de
pr um p no terreno vedado. Ns, muito felizmente, no padecemos da
mesma timidez; podemos interpretar livremente os fenmenos e
dar-lhes todo o valor que comportam.  que, malgrado a todas as
negaes, estamos absolutamente certos de que a alma tem existncia
independente, apoiando-se a nossa crena em vinte anos de
investigaes severas, cujos resultados ho merecido a sano dos
mais incontestados mestres em todos os ramos da cincia. Podemos,
pois, proclamar desassombradamente a verdade de tais resultados,
sem temor de que o futuro nos desminta.
   Que  feito dos antemas, zombeteiros ou solenes, lanados, vai
para cinqenta anos, pelos cpticos e pelos pseudo-sbios? Foram
juntar-se, no pas do esquecimento, a todas as hipteses
malnascidas, s teorias cambaleantes, cujo passageiro xito elas a
deveram unicamente aos nomes de seus inventores e que se acham hoje
completamente olvidadas.
   O Espiritismo, qual vigorosa rvore, precisou desse hmus para se
desenvolver e, segundo uma palavra clebre, ele se eleva "alto e
forte sobre as runas do materialismo agonizante".

   A ao da vontade sobre os fludos

   Eis-nos agora armados de todos os conhecimentos necessrios a
explicar como os Espritos se apresentam revestidos de tnicas, de
amplas roupagens, ou, mesmo, de suas roupas costumeiras.
Precisvamos demonstrar o poder da vontade fora do corpo. Fizemo-lo.
Sabemos que os fludos so formas rarefeitas da matria, temos pois,
ao nosso alcance, todos os documentos necessrios. Aqui est, agora,
a teoria esprita relativa a esse gnero de fenmenos.
   O Esprito haure, da matria csmica ou fludo universal, os
elementos de que necessita para formar,  sua vontade, objetos que
tenham a aparncia dos diversos corpos existentes na Terra. Pode
igualmente, pela ao da sua vontade, operar na matria elementar
uma transformao ntima, que lhe d certas propriedades. Essa
faculdade  inerente  natureza do Esprito, que muitas vezes a
exerce, quando necessrio, como um ato instintivo, sem dele se
aperceber. Os objetos que o Esprito forma tm existncia temporria,
subordinada  sua vontade ou a uma necessidade. Pode faz-los e
desfaz-los a seu bel-prazer. Em certos casos, tais objetos assumem,
aos olhos de pessoas vivas, todas as aparncias da realidade, isto
, tornam-se momentaneamente visveis e, mesmo, tangveis. H
formao, porm, no criao, porquanto do nada o Esprito nada pode
tirar.
   Nos exemplos que aduzimos, a criao das vestes  atribuvel a
uma ao inconsciente, mas real, do Esprito, que materializou
suficientemente aqueles objetos, para os tornar visveis. A ao  a
mesma que nos casos de materializao.  de notar-se, nas
experincias de Crookes, que Katie King se mostra envolta em panos
que podem ser tocados, mas que desaparecem com ela, finda a
manifestao.
   Poder-se- admitir que o Esprito crie inconscientemente imagens
fludicas, ou, por outra, que seu pensamento, atuando sobre os
fludos, possa, a seu mau grado, dar-lhes existncia real? Sabemos,
de fonte pura, que, voluntariamente, um objeto ou uma criatura podem
ser representados mentalmente, de modo bastante real, para que um
mdium vidente chegue a descrever essa idia. Fomos testemunha
vrias vezes desse fenmeno e daqui a pouco veremos que experincias
feitas com pacientes hipnticos estabelecem a objetividade dessas
formaes mentais. E involuntariamente, ser possvel? Os estados do
sonho como que indicam de que maneira a ao se executa. Quando
temos um sonho lcido, habitualmente nos achamos nele vestidos de um
modo qualquer, o que provm da circunstncia de estar a idia de
vestes associada sempre, de forma inteira,  imagem da nossa pessoa.
   Se pensamos numa reunio de gala ou numa festa  noite, vemo-nos
em trajes de cerimnia, como nos vemos em trajes caseiros se
pensamos no nosso domiclio. Essa imagem, se se exteriorizasse
bastante, pareceria vestida. Podemos, pois, imaginar que nos casos
de desdobramentos, que so objetivaes inconscientes, a imagem das
vestes acompanha sempre o Esprito e experimenta, como ele, um
comeo de materializao.
   O mesmo se d com os objetos usuais de que costumamos servir-nos:
logo que neles pensamos, temos a sua representao mental, que se
pode projetar fluidicamente no espao.  o que se passa no sonho,
com a diferena de que tais produtos da imaginao, em geral, pouco
duram. H caso, no entanto, em que essas representaes mentais
persistem por certo tempo e se objetivam. Um exemplo: (228)
  ::::::::::
  (228) Hack Tuke -- "O corpo e o Esprito".
  ::::::::::
   "Um de meus amigos, diz Bodi, viu, certa manh, ao despertar, de
p junto  sua cama, uma personagem vestida  moda persa. Ele a via
to nitidamente, to distintamente, como as cadeiras ou as mesas do
quarto. Esteve, por isso, quase a levantar-se, para verificar de
perto o que era aquele objeto, ou aquela personagem. Olhando, porm,
com mais ateno verificou que, ao mesmo tempo que via a personagem
to bem quanto possvel, igualmente via, com a maior nitidez, por
trs dela, a porta do quarto. Ao descobrir isso, a viso sumiu-se.
Lembrou-se ento o meu amigo de que tivera um sonho no qual o
principal papel coubera  imagem de um persa. Tudo assim se
explicava de maneira satisfatria: tornava-se evidente que o sonho
fora o ponto de partida da viso e que aquele, de certa forma,
continuara depois do despertar. Houvera, portanto, simultaneamente,
percepo de um objeto imaginrio e percepo de um objeto real".
   Essa criao fludica, essa espcie de fotografia mental mais ou
menos persistente no espao, tambm se revela nos casos seguintes:
   O fisiologista Gruithuisen teve um sonho "em que viu
principalmente uma chama violcea que, durante certo tempo aps
haver ele despertado, lhe deixou a impresso de uma mancha amarela
complementar".
   O Sr. Galton publicou uma memria sobre a faculdade de ver
nmeros, de figur-los imaginativamente, como se tivessem existncia
real. Cita notadamente o Sr. Bilder, que fez extraordinrios
prodgios no tocante a esse clculo mental e que, de certa forma,
consegue ver, pelos seus centros sensrios, nmeros claramente
traados e colocados em bem determinada ordem. (229)
  ::::::::::
  (229) A "Memria" do Sr. Galton se encontra em a "Natureza", de 15
de janeiro de 1880.
  ::::::::::
   Eis agora uma srie de experincias que parecem deixar firmado
que a criao fludica  uma realidade. Essas experincias foram
feitas pelos Srs. Binet e Ferr (230), que, entretanto,  ocioso
diz-lo, explicam os fatos por meio da alucinao. Teremos ocasio
de julgar se h cabimento para semelhante hiptese.
  ::::::::::
  (230) Binet e Ferr -- "O magnetismo animal".
  ::::::::::
   Examinemos em primeiro lugar um fenmeno que pode produzir-se em
estado normal, ou por uma operao mental, ou, ainda, por sugesto,
e nos ser fcil demonstrar que, para a mesma experincia, produzida
pela mesma causa, a explicao daqueles senhores passa a ser
diferente, desde que nelas toma parte o hipnotizado.
   Primeiro -- O estado normal. Sabe-se que, posto um objeto
colorido diante de um fundo preto, se o olharmos fixamente durante
certo tempo, em breve nossa vista estar cansada e a intensidade da
cor se enfraquece. Se dirigirmos ento o olhar para um carto branco,
ou para o forro da casa, perceberemos uma imagem do objeto, mas de
cor complementar, isto , que formaria o branco, se se achasse
reunida  do objeto. Sendo vermelho o objeto, a imagem  verde e
vice-versa.
   Segundo -- O estado mental. "Se, com os olhos fechados,
conservarmos a imagem de cor muito viva fixada por muito tempo
diante do esprito e se, depois, abrindo bruscamente os olhos, os
dirigirmos para uma superfcie branca, veremos a, por um instante,
a imagem contemplada em imaginao, porm, na cor complementar. O
experimentador chega, pois, a figurar para si a idia do vermelho,
de modo muito intenso, para ver, ao cabo de alguns minutos, uma
mancha verde sobre uma folha de papel". (231)
  ::::::::::
  (231) Binet e Ferr -- "O magnetismo animal", pg. 139.
  ::::::::::
   Para que esta experincia tenha sentido, preciso se faz que o
Esprito veja realmente a cor vermelha, sem o que a cor complementar
no aparecer, pois que o operador no est hipnotizado. 
indispensvel que o olho seja impressionado, como o  normalmente,
para dar a cor complementar. Se no for o olho, ser um ponto
correspondente dos centros nervosos. O esforo para criar o vermelho
acaba certamente numa ao positiva, porquanto se traduz
objetivamente pela mancha verde sobre o papel.
   Terceiro -- Sugesto. Pede-se ao doente em estado sonamblico
que olhe com ateno para um quadrado de papel branco, em cujo
centro h um ponto preto, a fim de lhe imobilizar o olhar.
Sugere-se-lhe, ao mesmo tempo, que aquele pedao de papel  de cor
vermelha ou verde, etc. Ao fim de alguns instantes, apresenta-se-lhe,
um segundo quadrado de papel, tendo tambm, ao centro, um ponto
preto. Bastar, ento, atrair a ateno do doente sobre esse ponto,
para que ele espontaneamente exclame que o ponto est no meio de um
quadrado colorido e a cor que indica  a complementar da que se lhe
mostrou por sugesto.
   Ainda neste caso dizemos que h produo real da cor, ou diante
dos olhos do hipnotizado, ou nos centros cervicais que lhes
correspondem, porquanto ele ignora absolutamente a teoria das cores
complementares. Se essa teoria se acha assim verificada, como de
fato acontece,  que a cor sugerida existe na realidade, quer
exteriormente ao paciente, quer interiormente, se o preferirem. Uma
idia abstrata no pode afetar os centros visuais e dar-lhes a
impresso da realidade. Houve, pois, criao fludica de uma cor
vermelha e esta, se bem que produzida pela vontade, atua como se
fosse visvel para toda gente.
   Pode-se chamar alucinao a essa sensao; mas, ser preciso
ento acrescentar que  uma alucinao verdica, como a das
aparies, visto que determinada por uma cor que tem existncia
prpria, embora seja invisvel para seres cujo sistema nervoso no
se ache em estado de perceb-la.
   Examinemos agora as outras experincias. Dizem textualmente os
Srs. Binet e Ferr:
   "O objeto imaginrio que figura na alucinao  percebido nas
mesmas condies em que o seria, se ele fosse real".
   Exemplo: Se por sugesto se faz aparecer um retrato sobre um
carto, cujas duas faces sejam de aparncias inteiramente idnticas,
a imagem ser sempre vista sobre a mesma face do carto e, qualquer
que seja o sentido em que se lhe apresente, a hipnotizada saber
sempre colocar as faces e os bordos na posio que ocupavam no
momento da sugesto, de tal modo que a imagem no fique invertida,
nem inclinada. Se se inverterem as faces do carto, o retrato
deixar de ser visto. Se se inverterem apenas os bordos, o retrato
ser visto de cabea para baixo. Nunca a hipntica  apanhada em
falta. Quer se lhe cubram os olhos, quer se mudem as posies do
objeto, operando por detrs dela, as respostas so sempre
perfeitamente conformes  localizao primitiva.
   Se, depois de misturar com vrios outros o papelo sobre que
figura um retrato imaginrio, o paciente for despertado e se lhe
pedir que examine a coleo assim formada, ele o faz sem saber
porqu. Em seguida, ao dar com o papelo sobre o qual se operou a
sugesto, aponta a imagem que se quis que ele visse.
   Quando se olham objetos exteriores, colocando diante de um dos
olhos um prisma, os objetos parecem duplos e uma das imagens sofre
um desvio cujo sentido e grandeza se podem calcular. Ora, eis o que
se obtm durante o sono hipntico. Se se inculca  doente a idia de
que, sobre a mesa de cor escura que lhe est na frente, h um
retrato de perfil, ela, despertada, v distintamente o mesmo retrato.
Se, ento, sem a prevenir, se lhe coloca um prisma diante de um dos
olhos, a paciente logo se admira de ver dois perfis, sendo a imagem
falsa colocada sempre de acordo com as leis da Fsica. Dois dos
nossos pacientes podem responder conformemente no estado de
catalepsia, sem terem, no entanto, qualquer noo das propriedades
do prisma. Alis, pode-se dissimular para eles a posio precisa em
que se coloca o prisma, escondendo-se-lhe os bordos. Se a base do
prisma est para cima, as duas imagens ficam colocadas uma sobre a
outra; se a base  lateral, as duas imagens ficam lateralmente
colocadas. Enfim, pode-se aproximar suficientemente a mesa para que
no seja duplicada, o que serviria de indcio.
   Quando se substitui o prisma por um binculo, a imagem aumenta ou
diminui, conforme o paciente olha pela ocular ou pela objetiva.
Houve a precauo de dissimular a extremidade do binculo que se lhe
apresentou numa caixa quadrada, com dois furos nas faces opostas, em
correspondncia com os vidros. Evitou-se assim que o paciente
percebesse, no campo do binculo, objetos cujas mudanas de
dimenses poderiam servir de indcio. Teve-se tambm que pr em foco
o binculo, para a vista do alucinado.
   Continuando-se a aplicar as leis da refrao, pde-se, por meio
de uma lente, aumentar o retrato sugerido. Colocado este a uma
distncia dupla da distncia focal da lente pequena, foi ele visto
invertido. Verificou-se, certa vez, com o microscpio, que se
tornara enorme uma pata alucinatria de aranha.
   Coloquemos agora o retrato imaginrio diante de um espelho. Se se
houver sugerido que o perfil est voltado para a direita, no espelho
ele aparecer virado para a esquerda. Logo, a imagem refletida 
simtrica da imagem alucinatria. Inverta-se pelos bordos o quadrado
de papel, operando por detrs da doente: no espelho, o retrato
aparece de cabea para baixo e, circunstncia digna de nota, com o
perfil voltado para a direita, o que tambm est de acordo com as
leis da ptica.
   Recapitulemos: o retrato imaginrio est voltado para a direita,
o espelho o faz parecer voltado para a esquerda e, se se inverter o
papel, ele parece voltado para a direita. A j temos combinaes
que absolutamente no se inventam. Vamos, porm, complicar ainda
mais a experincia. Substituamos o retrato por uma inscrio
qualquer em muitas linhas. No espelho, a inscrio imaginria  lida
s avessas, isto , invertida da direita para a esquerda. Se
invertemos as bordas do papel, a inscrio  lida com inverso de
cima para baixo, tornando-se ltima a primeira linha e cessando, ao
mesmo tempo, a inverso da direita para a esquerda. Esta experincia
nem sempre  bem sucedida, mas muitas vezes o  ao cabo de uma srie
que exclui toda suspeita de fraude. "Haver muita gente que, sabendo
que a escrita  vista invertida da direita para a esquerda no
espelho, se aperceba de que, invertendo-se a folha escrita, a
inscrio fica invertida de cima para baixo, mas deixa de o estar da
direita para a esquerda? O hipntico zomba de todas essas
dificuldades, que para ele no existem, porquanto ele v, sem
precisar de qualquer raciocnio". (232)
  ::::::::::
  (232) "Magnetismo animal", pg. 174.
  ::::::::::
   Como se ho de interpretar esses fenmenos? Se admitirmos que a
vontade do operador cria momentaneamente, atuando sobre os fluidos,
uma imagem invisvel para os assistentes, mas perceptvel para os
olhos da histrica hipnotizada, tudo se compreende, por comportar-se
o objeto invisvel exatamente como o faria um objeto real. Mas, uma
vez que os experimentadores no conhecem ou no crem na nossa
teoria, deixemos-lhes o encargo da explicao. Dizem eles:
   "Tem-se de escolher entre as trs suposies:
   Primeira -- Fez-se a sugesto; o paciente soube que se colocava
diante dos olhos um prisma com a propriedade de desdobrar os objetos,
um binculo que lhes aumentava o tamanho, etc. Esta primeira
hiptese, porm, tem de ser afastada, porquanto,  de toda evidncia
que a doente ignora as propriedades complexas da lupa, do prisma
simples, do prisma bi-refringente e do prisma de reflexo total.
Quanto aos outros instrumentos que a doente poderia conhecer, como o
binculo, houve o cuidado de dissimul-los em estojos. Logo, a menos
se suponha que o operador tenha cometido a imprudncia de anunciar
de antemo o resultado, deve-se considerar certo que a sugesto,
assim compreendida, nenhum papel desempenhou.
   Segunda -- Os instrumentos de ptica empregados modificaram os
objetos reais que se achavam no campo visual do paciente e essas
modificaes lhe serviram de indcios para sup-los semelhantes no
objeto imaginrio. Esta segunda explicao, embora melhor do que a
precedente, nos parece insuficiente. Tem contra si numerosos fatos j
citados: a localizao precisa da alucinao sobre um ponto que o
operador no determina seno por meio de mltiplas mensuraes; o
reconhecimento do retrato imaginrio sobre o carto branco, misturado
com seis outros cartes, para ns, inteiramente semelhantes; a
inverso do retrato imaginrio, pela inverso do carto,  revelia da
doente, etc. Adotaremos uma terceira hiptese j indicada:
   Terceira -- A imagem alucinatria sugerida se associa a um ponto
de referncia exterior e material, e so as modificaes que os
instrumentos de ptica imprimem a esse ponto material que, de
ricochete, modificam a alucinao".
   A hiptese do ponto de referncia, diremos ns, nada tem de
compreensvel, dadas as precaues, que os operadores tomam, de
empregar ora uma mesa de cor escura, ora quadros ou cartes
inteiramente semelhantes. Mas, suponhamos que com efeito, haja um
ponto de referncia, que os instrumentos o desviem segundo as leis
da ptica e que esse desvio se reproduza no esprito do paciente. Nem
por isso deixa de ser verdade que as relaes que liguem a alucinao
a esse ponto de referncia sofrem todos os desvios, todas as
refraes que lhes imprimem os instrumentos, ou, por outra: a imagem
ideal se reflete, se deforma, se desdobra, como uma imagem real. Ela
tem, pois, uma existncia objetiva.
   Seja, se o quiserem, subjetivo o fenmeno e no possam outros
comprov-lo; ele , nada obstante, inegvel e a sua natureza positiva
se revela pelos mesmos resultados que daria qualquer objeto material,
submetido s mesmas experincias.
   Repetiremos, portanto, que, se a esse fenmeno se pode dar o nome
de alucinao, esta  verdica, no sentido de que, conforme o dizem
os Srs. Binet e Ferr, o paciente v e o que ele v no  pensamento
fugitivo, sem conscincia, qualquer coisa de no substancial:  uma
imagem, semelhante, em todos os pontos,  que seus olhos lhe retratam
todos os dias, imagem essa que, associada em seu esprito a um
elemento exterior sobre o qual podem atuar os instrumentos, se
comporta como na realidade. Ela, conseguintemente,  bem alguma coisa
de positivo, que deve sua existncia  vontade do operador.
   Se for exata a hiptese do ponto de referncia, o fenmeno ser
subjetivo; se, ao contrrio, no houver necessidade do ponto de
referncia, ele  objetivo, a viso se opera pelo olho, num estado
especial, determinado pela hipnose. Qualquer que seja o lado por que
se encare a questo, -se conduzido, cremos, a reconhecer que a
criao fludica  um fato inegvel e que, uma vez mais, o ensino dos
Espritos se confirma por fenmenos que se desconheciam, quando estas
verdades nos foram reveladas.
   Os magnetizadores antigos adiantaram-se aos modernos
hipnotizadores na maior parte das experincias em torno das quais se
faz hoje rudo, mas que s so novas para os que querem ignorar as
de antanho.
   Eis aqui um caso de criao fludica pela ao da vontade, em o
qual no h sugesto feita ao paciente, nem, portanto, ponto de
referncia.
   Em seu livro: O magnetismo animal, o Dr. Teste relata a seguinte
experincia por ele realizada em pblico:
   "Sentado no centro do meu salo, imagino, to nitidamente quanto
me  possvel, um tabique de madeira pintada, elevando-se  minha
frente, at  altura de um metro. Quando essa imagem se acha bem
fixada no meu crebro, eu a realizo mentalmente por meio de alguns
gestos. A Srta. Henriqueta H''', jovem sonmbula to impressionvel
que a fao adormecer em poucos segundos, est ento desperta, no
compartimento ao lado. Peo-lhe me traga um livro que deve estar ao
seu alcance. Ela vem, com efeito, trazendo na mo o livro; mas, em
chegando ao local onde eu levantara o meu tabique imaginrio, para
de sbito. Pergunto-lhe por que no se aproxima um pouco mais.
 -- O senhor no v, responde ela, que est cercado por um tabique?
 -- Que loucura! Aproxime-se.
 -- No posso, afirmo-lhe.
 -- Como v esse tabique?
 -- Tal qual  aparentemente''' de madeira vermelha''' Toco-o. Que
singular idia a sua de colocar isto aqui no salo!
   Tento persuadi-la de que est sendo vtima de uma iluso e, para
a convencer, tomo-lhe as mos e puxo-a para mim; seus ps porm, se
acham colados ao assoalho; somente a parte superior de seu corpo se
inclina para a frente. Por fim, exclama que lhe estou comprimindo o
estmago de encontro ao obstculo".
   Aqui, no h sugesto verbal; entretanto, o tabique realmente
existe para a paciente.
   Cremos mesmo que, em todas as alucinaes naturais ou provadas, h
sempre formao de uma imagem fludica, que no caso de enfermidade,
pode decorrer do estado mrbido do paciente, ou da vontade do
operador, em caso de sugesto. Quando se estuda atentamente grande
nmero de observaes, quais as que Brierre de Boismont (233)
relatou, no h como no ficar impressionado pelo carter de
realidade que as perturbaes dos sentidos tm para os pacientes.
Estes descrevem minuciosamente suas vises, chegam a v-las com uma
intensidade que claramente denota no se tratar apenas de uma idia
a que emprestem uma representao, que h alguma coisa mais, que ela
existe, porquanto o que mais exaspera  a negao dessa realidade.
  ::::::::::
  (233) Brierre de Boismont -- "As alucinaes Telepticas".
  ::::::::::
   Todo um estudo est por fazer-se acerca da distino que se deve
estabelecer entre uma alucinao propriamente dita, isto , uma
criao fludica anormal, consecutiva a perturbaes cerebrais, e o
a que os espritas chamam as obsesses.
   Depois que este artigo foi escrito (julho de 1895), logramos obter
provas objetivas da realidade da criao fludica pela ao da
vontade.
   Possumos provas fotogrficas de formas mentais, radiografadas
sobre uma chapa sensvel, pela ao voluntria e consciente do
pensamento do operador. O comandante Darget conseguiu, em duas
ocasies exteriorizar o seu pensamento fixado numa garrafa, de modo
a reproduzir essa imagem sobre uma chapa fotogrfica, sem mquina,
apenas tocando com a mo a chapa, do lado do vidro (234).
  ::::::::::
  (234) Veja-se: "Revue Scientifique et Morale du Spiritisme". Nmero
de janeiro de 1897.
  ::::::::::
   Temos, pois, uma prova fsica certa, inatacvel, do poder criador
da vontade, poder que estudamos nas manifestaes precedentes.
   Um americano, Sr. Ingles Roggers, afirma que, tendo, depois de
olhar durante longo tempo uma moeda, fixado, com toda a ateno que
lhe era possvel, uma chapa fotogrfica, obteve um clich em que se
acha reproduzida a forma da moeda. (235)
  ::::::::::
  (235) G. Vitoux -- "Os raios X", pgs. 184 e 185.
  ::::::::::
   dison filho, por seu lado, declara (236) haver construdo um
aparelho por meio do qual a fotografia do pensamento se torna uma
realidade positiva.
  ::::::::::
  (236) "Revista das Revistas", de 15 de fevereiro de 1898, pgs. 438.
  ::::::::::
   "Ainda no posso pretender, diz a esse propsito o jovem dison,
fazer que toda gente acredite que aquela sombra  a fotografia de um
pensamento: por demais indistinta, falta-lhe o carter indispensvel
para ser uma prova convincente. Mas, estou persuadido de que, dentro
de certos limites, fotografei o pensamento".
   Notemos mais que as imagens criadas pelos Srs. Binet e Ferr
poderiam, provavelmente, ter sido radiografadas, pois que possuam
bastante objetividade para serem vistas pelos pacientes e obedecerem
a todas as leis da ptica, considerao esta ltima que grande valor
adquire para todo esprito imparcial.

   CONCLUSO

   O problema da imortalidade da alma, que outrora pertencia 
alada da Filosofia, pde, nos dias atuais, ser atacado pelo mtodo
positivo. J observamos uma orientao nova, criada pela pesquisa
experimental. O hipnotismo prestou servio imenso  Psicologia, com o
facultar que se dissecasse, por assim dizer, a alma humana e fecundo
foi o emprego que dele se fez, para obter-se o conhecimento do
princpio pensante em suas modalidades conscientes e subconscientes.
A isso, entretanto, no se reduziu o seu papel; ele deu ensejo a que
se pusessem em foco fenmenos mal conhecidos, quais os da sugesto
mental a distncia, da exteriorizao da sensibilidade e da
motricidade, que levam diretamente  telepatia e ao Espiritismo.
   Essa evoluo lgica mostra que a Natureza procede por transies
insensveis. H certos fenmenos em que a ao extracorprea da alma
humana se pode explicar por uma simples irradiao dinmica,
produzindo os fenmenos telepticos propriamente ditos, ao passo que
outros absolutamente necessitam, para serem compreendidos, da
exteriorizao da inteligncia, da sensibilidade e da vontade, isto
, da prpria alma.
   Assinalamos, de passagem, essa sucesso das manifestaes anmicas
e, embora fssemos constrangido a resumir extremamente os fatos,
temos para ns contudo, que a ateno do leitor foi atingida por
essa continuidade, que de modo ainda mais empolgante ressalta quando
se chega s manifestaes extraterrestres. So preciosas as
observaes dos sbios da Sociedade de Pesquisas Psquicas, no
sentido de que fazem se aprenda bem a notvel semelhana que existe
entre as aparies dos mortos e as dos vivos. Melhor ento se
compreendem as narrativas de que so copiosos os anais de todos os
povos. Chegamos a persuadir-nos de que, se a vida de alm-tmulo foi
negada com tanta fria por muitos espritos bons,  que ela era
incompreensvel, quer fizessem da alma uma resultante do organismo,
quer a supusessem formada de uma essncia puramente espiritual.
   Pudemos, com efeito, convencer-nos de que a alma humana no ,
conforme o julgam os materialistas, uma funo do sistema nervoso;
que ela  um ser dotado de existncia independente do organismo e que
se revela precisamente com todas as suas faculdades: sensitivas,
inteligentes e voluntrias, quando o corpo fsico se tornou inerte,
insensvel, completamente aniquilado. A alma humana no , tampouco,
qual o afirmam os espiritualistas, uma entidade imaterial, um ser
intangvel. Ela possui um substratum material, porm formado de
matria especial, infinitamente sutil, cujo grau de rarefao
ultrapassa de muito todos os gases at hoje conhecidos.
   Se bem, desde o instante do nascimento, alma e corpo se achem
intimamente unidos, de maneira a formarem um todo harmonioso, no 
to profunda essa unio, nem to indissolvel, quanto se pensava.
Sabemos, por fatos de observao e de experincia, que o princpio
pensante se evade por vezes da sua priso carnal e percebe a
natureza, com excluso do ministrio dos sentidos. Os casos de
Varley, do Dr. Britten, do jovem gravador citado pelo Dr. Gibier so,
a esse respeito, inteiramente probantes. O desprendimento anmico
pode ser provocado, como vimos nas pesquisas do Sr. de Rochas, nas
quais apanhamos ao vivo o processo de desintegrao que, quando se
completa, d lugar  formao de um fantasma que reproduz com
exatido o corpo fsico. Alis, as experincias dos magnetizadores
conduzem ao mesmo resultado. Os casos do negro Lewis e da Sra. Morgan
estabelecem, com carter de certeza, que  possvel  alma separar-se
voluntariamente do corpo.
   Foi sempre experimentalmente que se observou ter esse corpo da
alma uma realidade fsica, pois que ele pode ser visto (caso de Lewis
e do Dr. Britten) e no raro fotografado, conforme o demonstramos
vrias vezes (casos do Capito Volpi, do Sr. Stead, do Dr. Hasdeu,
etc.). Finalmente, a realidade fsica do desdobramento est
inteiramente provada com a Sra. Fay e o mdium Eglinton, de cujo
duplo a materializao se tornou irrecusvel por um molde em
parafina.
   Esse duplo, ssia do ser vivo, no , pois, uma miragem, uma
imagem virtual, ou uma alucinao.  a prpria alma que se revela,
no s pela sua apario, mas tambm intelectualmente, por mensagens
que lhe atestam a individualidade. O que reproduzimos de forma
experimental se deu naturalmente e foi observado grande nmero de
vezes, porquanto os sbios da Sociedade de Pesquisas Psquicas
reuniram considervel acervo de documentos acerca desse assunto, to
eminentemente instrutivo e interessante. O cepticismo, em verdade,
no pode sentir-se  vontade diante desses dois mil casos
perfeitamente comprovados.  fora de dvida que a incredulidade
sistemtica surge aqui com tara cerebral, como um caso patolgico,
ao qual no h porque dar ateno.
   A identidade fsica e intelectual das manifestaes fantasmticas
provindas de indivduos vivos, ou mortos h mais ou menos tempo,
patenteia a sobrevivncia da atividade anmica aps a morte corporal.
Os fenmenos extremamente numerosos e variados do Espiritismo
confirma os fatos de observao. Possumos provas de todos os
gneros, atestando que o ser pensante resiste  desagregao fsica e
persiste na posse integral de suas faculdades intelectuais e morais.
Ainda a esse respeito so abundantes e precisos os documentos.
   A fotografia permite se afirme com segurana absoluta que os
impropriamente chamados mortos so, ao contrrio, perfeitamente
vivos. Os testemunhos de Wallace, do Dr. Thomson, de Bromson Murray,
de Beattie no consentem dvidas. Embora remonte por vezes a uma
poca distante o momento da sua desencarnao, o ser que vem dar o
seu retrato nenhum trao revela de decrepitude. Em geral, mostra-se
mesmo rejuvenescido, isto , gosta de ser representado na fase da sua
existncia em que dispunha do mximo de atividade fsica. Tambm nas
descries dos mdiuns videntes temos excelentes meios de convico e
bastar lembremos o caso de Violeta, citado pelo Sr. Robert Dale
Owen, para pormos em evidncia todos os recursos encontrveis nesse
gnero de investigaes vimos igualmente que o grau de objetividade
do Esprito pode chegar at a uma verdadeira materializao.
   Opera-se ento o magnfico fenmeno mediante o qual ressuscita,
por assim dizer, um ser desaparecido de h muito do mundo dos vivos.
Sabemos de quantas precaues se cercam os experimentadores, para no
serem iludidos pelos mdiuns ou pelos seus prprios sentidos. Apesar
do nmero considervel das narrativas, a despeito da autoridade dos
sbios, que controlaram os fenmenos. Indispensveis se tornaram
testemunhos materiais da realidade deles, para que se desse crdito a
to singulares relatos. S depois das fotografias de Katie King se
formou a convico que ainda mais se robusteceu quando, pelas
moldagens, como as que obtiveram os Srs. Reimers e Oxley, se fez
certo que havia ali uma realidade esplndida, uma grandiosa
evidncia.
   Surgiram ento todas as teorias imaginadas para combater essa
demonstrao que embaraava os incrdulos. J no podendo negar os
fatos, tentaram eles desacredit-los, atribuindo-os ao desdobramento
do mdium; a criaes de seu crebro objetivadas diante dos
espectadores; a intervenes de elementais ou elementares, etc.
Sabe-se, porm, quanto so inadmissveis todas essas hipteses, e,
assim, a convico se impe de que a morte no  o fim do ser humano,
mas um degrau da sua vida imperecvel.
   A conservao do perisprito, aps a morte faculta se compreenda
que a integridade da vida psquica no se destri, apesar do
desaparecimento do crebro material que parecia indispensvel  sua
manifestao. Durante a vida, o perisprito existe, sabemo-lo sem
sombra de dvida, e desempenha papel notvel na vida fisiolgica e
psquica do ser, pois, desde que ele sobrevive ao organismo,  que
era absolutamente diferente deste. O ser humano ento nos aparece
qual realmente : uma forma, pela qual passa a matria. Quando se
acha gasta a energia que fazia funcionar essa mquina; quando, numa
palavra, a fora vital se transformou completamente, a matria fica
sem poder mais incorporar-se, o corpo fsico se desagrega, seus
elementos voltam  terra e a alma, revestida sempre de sua forma
espiritual, continua no espao a sua evoluo sem fim.
   As materializaes, suficientemente objetivadas para deixarem
traos materiais da sua realidade por meio de impresses e moldes,
mostraram que o perisprito  a forma ideal sobre que se constri o
corpo fsico. Ele contm todas as leis organognicas do ser humano e,
se essas leis se encontram em estado latente no espao, subsistem, no
entanto, prontas sempre a exercer a ao que lhes  prpria, desde
que para isso se lhes fornea matria e essa forma da energia a que
se d o nome de fora nervosa ou vital.
   A existncia desse corpo espiritual  conhecida de toda a
antigidade; mas, apenas vagas e incompletas noes se possuam sobre
a sua verdadeira natureza. No temos a pretenso de afirmar que j se
fez luz completa sobre esse assunto; j principiamos, todavia, a
estabelecer melhor os termos do problema. As modernas descobertas da
cincia permitem mesmo se acredite que a sua soluo est porventura
mais prxima do que geralmente se imagina.
   Procuramos mostrar que a existncia de uma substancialidade etrea
no  incompatvel com os nossos conhecimentos atuais sobre a matria
e a energia. Cremos que essa tentativa no parecer demasiado
temerria, pois que a cincia positiva se encaminha para esse domnio
do impondervel, que inmeras surpresas lhe reserva. Diremos, pois,
com o Sr. Lonce Ribert, que temos hoje nas mos todos os elementos
para a soluo do grande problema dos nossos destinos.
   Depois dos luminosos trabalhos de Helmholtz, de Sir William
Thomson (que se tornou Lord Kelvin), de Crookes, de Cornu, sobre a
constituio da matria pondervel e do impondervel ter; depois dos
de Kirkof e de Bunsen, de Lockyer, de Huggins, de Deslandes, sobre as
revelaes do espectroscpio; dos de Faye, de Wolff e de Croll, sobre
a constituio, a marcha e o encontro dos gigantes celestes; aos de
Claude Bernard, de Berthelot, de Lewes, de Preyer, em Qumica
orgnica e em Fisiologia; dos de Pasteur sobre os infinitamente
pequenos da vida; dos de Darwin e Wallace, sobre a origem das
espcies; dos de seus discpulos e continuadores, quais Huxley, na
Inglaterra, Hoeckel, na Alemanha, Ed. Perrier, na Frana; dos de
Broca e Ferrier, sobre as localizaes cerebrais; dos de Herbert
Spencer, de Bain, de Ribot, em Psicologia; dos de Taine, sobre a
inteligncia; dos de toda uma pliade de sbios sobre a pr-histria;
enfim, depois das grandes descobertas de Mayer, de Joule, de Hirn,
sobre a conservao da energia, podemos inteirar-nos, mais
exatamente do que outrora, dos novos fatos que as pesquisas
contemporneas revelam.
   Quem no v as relaes que existem entre a sugesto mental a
distncia e a telegrafia sem fio? Como no compreender que a vista
sem o concurso dos olhos j no  incompreensvel, aps a descoberta
dos raios X e quem no percebe as ntimas analogias que o corpo
perispirtico apresenta com a matria ultra-radiante? Sem dvida,
ainda so meras aproximaes, mas a estrada est toda traada e a
cincia de amanh por ela necessariamente enveredar, acompanhando os
Crookes, os Wallace, os Lodge, os Barret, e os de Rochas, que
levantaram o vu da grande sis.
   Revelar-se- ento, em toda a sua grandeza, a lei evolutiva que
nos arrasta para destinos cada vez mais altos. Do mesmo modo que o
planeta se elevou lentamente da matria bruta  vida organizada, para
chegar  inteligncia humana, tambm compreenderemos que a nossa
passagem por este mundo mais no  do que um degrau da eterna
ascenso. Saberemos que somos chamados a desenvolver-nos sempre e que
o nosso planeta apenas representa uma etapa da senda infinita. O
infinito e a eternidade so domnios nossos. Assim como certo  que
no se pode destruir a energia, tambm de certo uma alma no pode
aniquilar-se. Semeemos profusamente em todas as inteligncias estas
consoladoras verdades que nos rasgam maravilhosos horizontes do
futuro, mostremos que existe para todos os seres uma igualdade
absoluta de origem e de destino e veremos efetuar-se a evoluo
espiritual e moral que h de acarretar o advento da era augusta da
regenerao humana, pela prtica da verdadeira fraternidade.




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